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2.2.11

Après lui le déluge

Um ponto recorrente em muitas das análises sobre os movimentos revolucionários em curso no mundo árabe é o da ameaça de uma eventual revolução, depondo os ditadores, resultar em teocracias islâmicas, no molde iraniano. O argumento não tem exatamente o mérito da novidade: é uma variante daquele utilizado pela Europa e pelos EUA como desculpa para sustentar Mubarak, Ben Ali, & Co. há décadas. O que é curioso é que ele continua sendo ressuscitado quase em sua forma original por gente sem noção do ridículo, como no elogio de Tony Blair a Mubarak, ou na chamada da Veja (ali acima do Luciano Huck) sobre o avanço inexorável do islamofascismo comedor de criancinhas e seus terroristas homicidas.*

A diferença, hoje, é que ele é usado em sua versão gradualista. Como aponta o Slavoj Zîzek, a defesa do gradualismo é, pelo menos em parte, uma defesa de que o poder seja tomado (ou mantido) pela plutocracia aliada do Ocidente - a minha formulação é um pouco o espelho daquela usada pelo Zîzek, mas acho importante essa distinção. Nem essa preocupação, e a simpatia envergonhada pela manutenção do status quo, privilégio dos governos ocidentais apenas - a grande mídia ocidental (e até a de periferias pseudo-ocidentais como Pindorama) dança à mesma música, o que faz a cobertura da Al Jazeera sobre o assunto dar um banho tão grande até na BBC ou na CNN que, assim como a Internet antes e única entre as emissoras de TV ou órgãos de mídia estrangeiros em geral, ela foi proscrita pelo Mubarak. As coisas chegaram ao ponto de muita gente esquecer, ao falar de "manifestantes pró-Mubarakak," de mencionar que se tratava, em boa parte, de gente armada e mal encarada trazida em ônibus da polícia secreta.

O curioso do argumento de que sem uma ditadura não haveria como conter a subida do fundamentalismo autoritário é que, esquadrinhando ele nem tão a fundo, sua base lógica é bem fraca. São vagos paralelos com a subida do fascismo na Europa, é uma alusão igualmente vaga ou outra a Tito (ou, ironicamente, a Saddam Hussein), são apelos francamente racistas à incompatibilidade natural árabe, ou islâmica, com a democracia. Dependem de uma cadeia de possibilidades extensa demais para se tomá-la como inevitável. SE uma democracia plena for por outro lado suscetível à sua anulação sem resistência, e SE um partido fundamentalista islâmico ganhar as eleições, e SE o fizer de modo a ter um domínio completo das instituições democráticas, e SE pensar que pode eliminar a democracia através da lei... ora, não faz sentido o esquema. Se você tem uma democracia plena, ela tem normas contra sua própria abolição. Se o arcabouço de estado é assim tão forte para eliminar a democracia com a canetada islamista, é forte o bastante para resistir a essa canetada. E ninguém garante que os islamistas** venceriam uma eleição livre, em país algum.

O argumento é mais bizarro ainda porque temos um caso de um país que ficou mais democrático, e com isso viu um partido islamista vencer as eleições. E não é um estudo de caso exatamente insignificante - é a Turquia, com quase oitenta milhões de habitantes, mais de 97% dos quais muçulmanos. (Para comparar, o Egito tem uns 90% de muçulmanos.) O resultado não foi exatamente uma transformação imediata numa teocracia distópica - pelo contrário, foi a política, como de costume, sob um partido que nem difere muito, agora que chegou ao poder, das democracias cristãs européias. Pelo contrário, é justamente ao longo e após crises não-democráticas (que são, eventualmente, inevitáveis em autocracias, especialmente nas pessoais) que, como no Irã, islamistas podem impor modelos teocráticos.

Se a Turquia torna o argumento da ditadura para salvar a democracia ridículo, ele se torna francamente uma ópera bufa, algo tragicômica, quando se diz que a casa de Saud tem que ser apoiada no seu domínio hereditário e totalitário sobre a Arábia Saudita - sim, até o nome do país significa "Arábia que pertence aos Saud - para evitar que ela seja tomada pelos maníacos religiosos uarrabitas. Afinal, a seita, da qual fazem parte os chefes da Al Qaida, veio de lá, certo? Pois é. O problema é que praticamente não existe distinção entre a seita uarrabita e a casa de Saud. O velho ibn Saud, afinal, foi quem primeiro espalhou a seita pela Arábia, e cunhou o nome pelo qual ela é conhecida. A legitimidade dos ibn Saud para virarem família real adveio do seu papel de defensores da fé - não da fé islâmica, mas especificamente da fé uarrabita. Os líderes terrenos da seita, desde sua fundação até hoje, são a casa de Saud. Existe, além da polícia política e da polícia secreta, uma polícia religiosa, responsável por entre outras coisas fechar um monte de mulheres numa casa pegando fogo porque não estavam usando véu.

Alguém explica, então, como é que alguém fala no medo de a Arábia Saudita virar uma teocracia fundamentalista?


*A assessoria de imprensa da Casa Branca, em 2001, inventou a charmosa expressão "homicide bomber." Porque veja bem, "suicida" poderia gerar alguma simpatia. Não, não faz sentido, até pelo pleonasmo.

**O uso não é universal, mas "islamista" é um jeito curto de falar "seguidor de algum dos diversos movimentos políticos centrados na idéia da implementação política da religião islâmica, geralmente de cunho conservador."

2 comentários:

Adam Victor Brandizzi disse...

Faltou notas associadas aos asteriscos ou eu não entendi mesmo?

Tiago Thuin disse...

Ops, corrigido.