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30.10.14

Enquanto o trem-bala não vem...

Eu faço um esboço duma idéia. Em azul, trens regionais, em vermelho os bala.

27.10.14

Pirro no Capão

O PT ganhou - por pouco - a eleição presidencial. Mas, além de perder cadeiras no Congresso, além de ficar cada vez mais claro que perde no imenso e crescente Brasil do agronegócio, que vai do Rio Grande do Sul ao Acre, perdeu - é verdade, também por pouco - no Capão Redondo. É difícil enfatizar o bastante o quanto esse é um resultado horrível em termos simbólicos, para o PT e para o Brasil. O Capão Redondo é um distrito da periferia de São Paulo que virou sinônimo de lugar barra-pesada, graças em parte às estatísticas criminais, mas mais ainda à produção de rappers, musical e em outras linguagens artísticas. Foi do Capão Redondo que saíram Ferréz, Mano Brown, Fuzzil, com obras que descrevem e contestam uma realidade opressora, de discriminação social e racial, de violência estatal e internecina. É um bairro cinza, apesar do nome inspirado num capão de pinheiros (os solos ácidos do rio de mesmo nome afugentam outras árvores); dos mais cinzas, abafados, e quentes de São Paulo. É, também, dos mais pobres, ocupando o 79º lugar no IDH entre os 96 distritos do município de São Paulo, e violentos, sendo o 4º distrito com mais homicídios neste ano. (Um homicídio para cada 10.000 habitantes, facilmente batendo, ainda em setembro, a média da cidade.) Se o PT perde para o partido da polícia no cenário de Negro Drama, vai mal.

Resumindo: é um lugar que é ao mesmo tempo pobre e com uma produção nativa de um discurso contestatário. É o tipo de lugar em que o PT deveria ter ganho de lavada, mas perdeu. Perdeu, também, ainda dentro da metrópole paulistana, em São Bernardo do Campo, berço do partido, cidade ainda marcada pela forte presença de operários, muitos ainda filiados a sindicatos e com tradições e identidades proletárias marcantes. De novo, por pouco, mas a questão é que o PT não poderia perder nesses lugares. Que perca acachapantemente nos Jardins, Nada mais natural (Dilma teve, no 1º turno, 8,6% de votos contra 2,8 de Luciana Genro). Mais do que a derrota do PT, o impressionante é a vitória de Aécio, com um discurso francamente de direita, por mais que preservasse nele o bolsa-família, em duas áreas que seriam consideradas por qualquer um bastiões naturais da esquerda. A pobreza politizada pelo rap, o proletariado industrial, votaram maciçamente na direita, depois de 12 anos do PT na presidência. Algo está errado.

Calma, tem mais más notícias. Dilma perdeu para Aécio entre os jovens, os eleitores com 16 a 24 anos. De novo, foi por pouco - 52 a 48%. Mas de novo, é aonde não podia perder. Afinal, como dizia (?) Churchill, quem não é de esquerda aos 20 é um insenssível, quem não é de direita aos 40 é um idiota. E isso, pra lembrar, num contexto em que os "fundamentos" econômicos e sociais deveriam dar uma vitória folgada ao PT. Desemprego baixíssimo, no ou perto do vale histórico mesmo depois de corrigido pela PEA. Aumento do número de vagas nas faculdades, diminuição da mortalidade. As contas nacionais estão cagadas, sem dúvida, mas com certeza contas nacionais não são preocupação prioritária da grande massa da população. O crescimento de renda dos 20% mais pobres foi mais que chinês na última década. Que a classe média que votava na UDN de macacão tenha abandonado o PT após as denúncias de corrupção faz sentido, mas e os pobres e trabalhadores? Será que é só o canto da sereia dos Olavos de Carvalho e outras cepas do Instituto Millenium que seduz os jovens?

Petistas gostam de invocar o poderio da mídia, ou dizer que os jovens não se lembram de como era ruim antes. As duas desculpas não deixam de ter seu quinhão de verdade. A mídia é um oligopólio, abertamente antipetista (se não assumidamente, fora o Estadão), como é amplamente reconhecido; os Repórteres Sem Fronteira, ONG internacional que advoga pela liberdade de imprensa, recomendam a sua regulamentação e quebra de monopólios; os lugares em que o PT perdeu são aqueles com maior alfabetização, o que é diferente de uma ilustração Goetheana e expõe mais as pessoas à influência de órgãos de mídia. Os tempos tucanos eram mesmo mais bicudos, e a maioria petista no Nordeste se justifica inclusive pela diferença de evolução relativa da região, como dá pra ver nessa tabelinha do crescimento da renda domiciliar per capita:

2003-2012                                                       1995-2002

Nordeste: +74,45%                                           Centro-Oeste +2,44%
Centro-Oeste: +67,09%                                     Sul +0,14%
Sul: +47,91%                                                    Nordeste -3,57%
Sudeste: +44,69%                                             Sudeste -9,79%
Norte: +44,28%                                                 Norte -18,49%


Mas quinhões de verdade não adiantam de nada quando desprovidos de ação, são apenas choro de (futuro) perdedor a gritar "ingratos! Súcia de ingratos!." De UDN de macacão a FHC de macacão... E pior: enganam quando são apresentados como a verdade inteira, tornam complacentes aqueles que neles crêem. Não explicam as situações do Capão e de São Bernardo. Pelo contrário, se houve aumento espetacular da renda das classes mais baixas, elas deveriam votar em peso no PT. O estereótipo petista de que playboys coxinhas e dentistas leitores da Veja são os únicos que votam contra o partido não funciona, a não ser que haja muito mais ricos e dentistas do que se imagina. 150.000 playboys num bairro pobre de São Paulo. Tamos bem, então. Aliás, no Centro-Oeste, que também teve aumento muito acima da média nacional na renda, o PT sofreu derrotas inequívocas; é a região mais antipetista depois de SP. 

Parte da resposta talvez seja que, ocupado na tarefa administrativa-burocrática de construir um estado de bem-estar social à européia, o PT largou mão dos fundamentos políticos que permitiram essa construção do estado de bem-estar. Sem nem tocar aqui nos fundamentos econômicos, largamente fora do controle de qualquer partido ou governo, que permitiram que ele fosse feito nos Trinta Gloriosos anos de crescimento do pós-guerra. O aumento da renda da classe trabalhadora, por exemplo, é propalado pelo PT como "ascensão à classe média." Ora, classe média não vota em partido de esquerda. Ao contrário do que muita gente pensa, o conceito de classe média em questão não é do PT, mas da ONU, foi adotado apenas por aquele. Mas é um enorme tiro no pé. Acelerou a guinada conservadora que ocorreu nos países em que foram criados estados de bem-estar em trinta, quarenta anos, para muito antes desse estado ficar pronto.  O PT deixou de ser identificado como partido dos trabalhadores pela enorme maioria dos trabalhadores. Mais pernicioso ainda do que se recusar a regulamentar a mídia, talvez, seja a recusa ou incapacidade em reforçar os movimentos de trabalhadores, preferindo antes usá-los para reforçar o governo. O "T" no nome precisa fazer mais sentido do que o "SD" que curiosamente orna nosso maior partido liberal.

Outra observação, mais palpite que qualquer outra coisa: no início do ano, fui dos muitos que viram um potencial transformador enorme nos rolezinhos dos jovens de subúrbio, que ao frequentar shoppings em massa foram vistos com pânico pelos administradores. O movimento, como se sabe, não deu em nada; antes mesmo que a esquerda tentasse cooptá-lo, com o rolezinho marcado no shopping Leblon, já tinha perdido força. O jovem de subúrbio, o jovem de classe trabalhadora e pobre, não sonha com o avanço coletivo de sua classe, ou sequer pela melhoria de suas condições materiais (que aliás são cada vez mais razoáveis). Ele sonha, numa sociedade altamente marcada pela hierarquia e pelo status, em avançar naquela grande rat race imaginária. Sonha em estar do lado de dentro, não em que não haja um muro dividindo os lados. Será? É, como disse, um palpite, sem nada que lhe respalde.

Haverá outras razões, que não consigo nem imaginar, mas uma coisa é clara: o PT tem que ganhar o Capão e São Bernardo.  Por sorte, por um triz, por uma diferença do tamanho do eleitorado da Luciana Genro, ainda tem quatro anos para tentar. Se não fizer nada de diferente, daqui a quatro anos acaba a breve experiência de esquerda no país. (E, quiçá, sonha o Department of State, na América do Sul.)







25.10.14

Por que petralho?

Amanhã, 2º turno das eleições presidenciais (e, graças em parte a um estelionato criminoso, não para governador), voto 13. Por quê?

Primeiro de mais nada, NÃO é por Aécio ser filhinho de papai, playboy, ou cheirador. Nada disso é relevante, mesmo que seja verdade. Também NÃO é porque ele seria traficante, corrupto, nepotista, e mentiroso, coisas relevantes, mas que sinceramente não me afetam muito. Sim, acho que com elas ele fica com uma pusta cara de Collor redivivo, ou Bush tropical, mas pra mim isso faz parte da perfumaria. Antes, será por dois motivos que o aproximam, respectivamente, do Bush e do Collor: a ideologia e o poder.

A ideologia é bastante simples. Assim como Bush, e ao contrário do que pensa o povo do "é tudo igual," Aécio representa o primeiro pleito presidencial desde 2002 em que o PSDB deu as caras, pelo menos parcialmente, de sua ideologia, com a enorme exceção de não admitirem que são contra o bolsa-família em público. (Apesar da enorme passada de recibo misturada com preconceito contra nordestino quando refletiram sobre o primeiro turno.) São contra a redistribuição de renda ("meritocracia"), são a favor de um Estado mais fraco ("enxugamento da máquina"), são a favor da privatização de ativos públicos ("não sei o que vai sobrar da Caixa e do BB") e da desregulamentação do mercado, cuja mão invisível proverá. E essa, a parte econômica, é a parte da ideologia que move a candidatura Aécio com que posso ter uma divergência saudável, porque também tem a parte do controle social, em que os coronéis telhadas e malafaias ditam o jogo, e que acho imoral mesmo. Redução da maioridade penal com cadeias privadas. Ataque aos direitos das mulheres. Bullying, com motivação ideológica, dos países vizinhos, puxando os ovos americanos. E por aí em diante.

Dizer tudo isso não significa, claro, achar que o governo do PT, especialmente o de Dilma, está alinhado com minha própria visão do mundo. Não está, nem de longe; uma das tags deste blogue não é "Dilmá" à toa. Dilma não faz nada contra o punitivismo e as PMs, e muito pouco pelos direitos LGBT; acredita em desenvolvimento econômico à custa do meio ambiente e tem uma relação no mínimo tumultuada com as comunidades marginais e tradicionais. Mas enquanto o PT falha por não enfrentar o conservadorismo, ou por absorver parte dele, Aécio é o conservadorismo. Há uma diferença entre não ser contra e ser a favor, entre ser aquilo que eu não gosto e se aliar; Não houvesse, tenho certeza que nos lembraríamos do Stalinista Roosevelt. Não custa lembrar, por exemplo, que o PT foi o único partido grande a ser contra (quase em peso - um tal Loubet foi a favor) do novo e horrendo código florestal, e que Dilma vetou boa parte do documento. O PSDB foi majoritariamente a favor, incluindo o hoje candidato Aécio Neves. Chame, para quem discorda do PT à esquerda, de máxima antitiririca: pior do que tá fica.

Pra além da ideologia, o poder. A semelhança entre Aécio e Collor é a adulação que lhe dão a imprensa e aquela entidade nebulosa apelidada de "O Mercado." Assim como Collor era o caçador de marajás, Aécio aparece na Veja como um superherói (literalmente), enquanto o PT é sempre um vilão. Do mesmo jeito, enquanto denúncias fartamente comprovadas contra o PSDB geralmente morrem na areia, o domínio de fato, "não existem provas mas a literatura me permite" já é suficiente para condenar petistas. Não significa, a paráfrase da ministra Rosa, que eu ache que Dirceu & Co eram inocentes, mas antes que com eles a justiça funcionou. Imprensa, judiciário, tribunais de contas, Congresso: são todos modos de se controlar o Executivo. Mas só funcionam se existe seja alguma imparcialidade, que definitivamente não é o caso, seja uma oposição mesmo. Não é que eu creia que o PT seja mais honesto por ímpeto próprio, convicção interna ou fortaleza moral; é que será pego nas besteiras que cometer, será julgado pelo juiz ou pela opinião pública. Aécio, o superherói, pode fazer o que quiser sem ser julgado. E com o poder sem peias vem... como era aquela frase do Lorde Acton mesmo...?

Ah sim, "o poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente." Quem tem só a presidência não tem o poder absoluto. Ao contrário de quem tem a presidência, o Congresso, a mídia, o capital, o judiciário...

17.10.14

São Pedro e São Paulo

A FIESP fala ao Valor em ao invés de racionamento deixar as empresas formularem projetos de economia. Fio, era pra ter feito ano passado. A combinação do apreço ideológico com o autointeresse de visão curta fez a FIESP acreditar na óbvia mentira de que não tinha crise de água? Aliás, como a FIESP, e a CNI também, não se prepararam pra crise de água na megalópole? Sim, porque a crise já ultrapassou em muito o sistema cantareira; afeta ou afetará de Campinas ao Rio de Janeiro, uma região em que moram mais de um quinto dos brasileros e que responde por quase metade do PIB.

E sim, óbvia mentira e obfuscação; o estranho é que gente inteligente, com recursos e biblioteca à mão, tenha caído tão completamente na esparrela. Mais estranho ainda que a FIESP é o caso da própria Sabesp.

A crise da água na Macrometrópole Paulista é uma cebola em que os erros se aninham e acavalam faz décadas e continuando hoje. Tanto de longo quanto de curto prazo.

De longo prazo:

1, permitir depauperação das margens dos reservatórios, o que corta em pelo menos30% a capacidade, e se for plantação de eucalipto em até 75%. Ao invés da mata nativa que protegeria a represa, nas margens do sistema Cantareira tem fazenda de gado, plantação de eucalipto, condomínio, e até clube de golfe.
Reparem que isso não é que nem a situação ao sul da metrópole, na Guarapiranga, em que as margens foram ocupadas por favelas, que é uma coisa difícil social e financeiramente de se impedir ou corrigir, são represas em áreas rurais. Fazenda de gado. Compra-se, põe-se cerca. O preço nem é tão alto, uma fração do custo do sistema planejado para buscar água a 100km de distância. Admita-se, aqui, que este erro, ao contrário de outros aqui listados, não é algo particular à Cantareira; a maioria dos reservatórios de água pra beber no Brasil, e muitos dos de hidrelétricas, também não tem mata ciliar. (Alguns têm - em Itaipu, por exemplo, cada prefeitura vizinha pode escolher um único ponto de acesso ao lago.)


2 não fazer mais interligação entre os reservatórios, aumentando a capacidade da Guarapiranga ou da Rio Grande de escorar a Cantareira (ou, hipoteticamente, vice-versa), como foi feito com o sistema Alto Tietê. As represas da Serra do Mar, na Zona Sul, estão ainda bem confortáveis, com mais de 40% de água; parte disso poderia ter sido usado no lugar do volume morto. A interligação, inclusive, não é muito mais complexa do que a proposta de Alckmin de fazer uma ligação com o rio Paraíba do Sul, com todos os seus problemas políticos e ambientais - o Paraíba, que também abastece as cidades de seu vale e, pela transposição do Guandu, o Rio de Janeiro, já chega às vezes com menos de 60% de seu volume original na foz. Isso está, inclusive, destruindo a cidadezinha de Atafona, invadida pelo mar e suas dunas.



3 incentivar consumo Não, eu não disse não incentivar economia. Disse incentivar consumo. Até maio, dava desconto pra os grandes clientes (grande é mais de 500m3/mês) que consumissem muito, progressivo. A lógica, que é fazer frente à competição de poços artesianos e caminhões pipa, é explicada aqui. Isso também, claro, é um problema para uma empresa mista listada na Bovespa, que precisa ter lucro e precisa ter perspectiva de vender mais do seu produto, não menos - e aí se pode inclusive questionar o quanto para empresas de administração de bens públicos, universais, e escassos o modelo de empresa pública/privada presta. Não é uma Petrobrás ou Vale em que o recurso é escasso globalmente e se fala de novos paradigmas econômicos da humanidade, mas um recurso localmente escasso, no caso, que já acabou. Não tô falando que estatal é sempre melhor, apenas que neste caso específico o conflito entre shareholders e stakeholders é muito maior. E a Sabesp tem agido mais no modo norte-americano que no renano, com o DAEE só chancelando tudo, sendo quase redundante, e a ANA chantageada ou até ignorada inteiramente. Falei capitalismo americano? A atitude de Alckmin hoje perante a ANA é a do Andrew Jackson, 7º presidente americano, quando ignorou uma decisão da Suprema Corte protegendo a nação de índios Cherokee com as palavras "Mr Jackson has made his decision. Now let him enforce it." (O Sr. Jackson fez seu julgamento; que ele o imponha.)

De curto prazo, de resposta à crise:

1 Ignorar a crise até a onça começar a não beber água. A Cantareira desce desde 2009, mesmo sem grandes secas. Isso já devia ter soado alarme em 2012, no máximo. Não é muito complicado; um sistema que não é suficiente pra situação normal obviamente não vai ser suficiente pra caso aconteça algum problema; a Sabesp nesse sentido operou como o dono dum carro ou bike com pneu careca - só que sem a opção de ficar em casa em dia de chuva. Melhor: como alguém que, com o pneu da bicicleta careca, não desce para empurrar a bicicleta, mesmo numa ladeira durante um temporal.



2 Ignorar a crise mesmo com a onça não bebendo água. INPE e ANA já avisavam há um ano que 2014/15 ia ser punk e recomendavam racionamento, ignorados sempre, com direito à inacreditável nota em que...diz que não acredita em previsão climática, e trabalha só com média passada. Ao invés disso, até maio ignorou-se completamente a crise. Em maio, iniciou-se a resposta mas ainda fingindo que era um problema menor; tirou-se os bônus de consumo e implantou-se bônus de economia. Isso era o que devia ter sido feito em 2012, e devia continuar a ser feito até o final dos tempos. Afinal, o único fato em toda a crise que é uma circunstância adversa fruto apenas do acaso histórico, e não de nenhuma besteira feita, é que a cidade de São Paulo e algumas outras metrópoles brasileiras, ao invés de se situar no baixo ou médio cursos de um rio, com fartura de água, está em volta de suas nascentes, aonde a água ainda é escassa. O rio Tietê que se espraiava enorme na foz no Paraná
(hoje é só represa) é ainda, aqui na capital, pouco mais que um córrego que corria por um enorme brejo. A largura que suas margens de concreto têm hoje é para escoar as chuvas de verão sem a ajuda do brejo e dos riachos paralelos que antes havia, sem a floresta, chuva que escorre direto por uma imensa área concretada e impermeabilizada. É muito maior do que a largura do rio "propriamente dito," das suas condições normais. E debaixo da superfície que se avista das marginais, a profundidade até a camada de lixo e lodo, muitas vezes, não é suficiente para afogar uma criança.

3 ao chamar o volume morto de "reserva técnica,"  acreditar na própria propaganda e tratar como um extra programado, e não como emergência que já era, merecedora de racionamento, campanha diária de esclarecimento, estímulo ao linchamento de quem lava o carro... ok, talvez não o último item. Mas de qualquer jeito; se já se estava puxando o que não era pra puxar, se já se estava cortando na carne, o certo não era dizer "não tem crise, não vai haver racionamento."  E hoje, com a drenagem do segundo volume morto, a história, a besteira, se repetem. A consequência - e aí pode ser chamado de erro 4 do curto prazo, da administração da crise, é que não, as coisas não se resolvem com chuva - outra mentira em que a própria Sabesp pelo visto acabou acreditando. A Cantareira vai entrar na temporada seca de 2015 com 20%, metade deste ano, e o INPE prevê 2015 seco. E as outras represas entram 2015 com níveis baixos também, dimnuindo a capacidade delas de absorver a falta da cantareira. E só pra completar, artesianos não adiantam, porque... a reposição de água na Grande SP é basicamente perda da Sabesp. Se acabar a água dela, o poço artesiano também seca.

Mesmo que não fiquemos sem água neste ano ou no próximo, secar um reservatório não é como secar uma garrafa, tem consequências imprevisíveis e complexas, mas na maioria negativas. O volume morto, afinal, não era nem uma reserva de emergência (se fosse, não precisaria ser instalado equipamento e feitas obras de terraplanagem - sem licitação, claro, porque de emergência -  para bombeá-lo, o equipamento já estaria lá, ou pelo menos os diques e canos) nem um deslize dos engenheiros que projetaram o sistema. Era algo necessário.

1 a represa não foi feita como uma estrutura em si, mas tendo o peso da água de um lado como componente dela. Os efeitos de drenar a água são imprevisíveis, mas provavelmente pioraram a vida útil dos diques.

2 a água, como o dinheiro, vai para onde já tem água; é um dos principais motivos pelos quais florestas aumentam a disponibilidade de água (o outro é aumentar, com suas raízes, a permeabilidade do solo,). A água que sai da transpiração das plantas todo dia é uma massa considerável, que atrai pra si mais água e faz chover; Ao deixar os reservatórios secarem quase completamente, é provável que chova menos no médio prazo sobre as represas.

3 represas não são vasilhas. Boa parte da água está no chão, e é bem difícil de saber como essa água do lençol freático vai se comportar a partir de agora, já que o próprio lençol freático foi drenado. A conta da água no reservatório da Sabesp, que só leva em conta a água livre, como numa vasilha, subestima o quanto foi drenado.

Parabéns Alckmin. Se reelegeu no 1º turno, às custas de meros vinte anos de pepinos. Até porque, feita a caca, não é simplesmente levar adiante as ações que já deviam ter sido feitas. O replantio das margens, por exemplo, pode até melhorar a capacidade total uma vez a floresta mais ou menos madura - mas durante os 20-30 anos que isso demora pra acontecer, a floresta chupa até 30% da água.

 Todas as barbadas na Cantareira são potencializadas por uma situação continental e global adversa, que escapa ao controle do governo estadual, mas também tem causas humanas: o aquecimento global e o desmatamento na América do Sul. Com o aquecimento global, mudam os padrões globais de chuva; as maiores massas d'água evaporadas do oceano caem mais cedo, aumentando a precipitação em lugares próximos aos da geração de água atmosférica no mar e diminuindo a precipitação em locais mais distantes. Como o ciclo de águas no sudeste do Brasil é pautado pela vinda de chuvas do oceano, vai aumentar a queda d'água no baixo vale do Paraná, e diminuir a chuva no mar de morros. Adivinha aonde está São Paulo? Pois é. Já o desmatamento no Brasil e na América do Sul tem duplo efeito: primeiro, no próprio cerrado, diminui a chuva autóctone, aquela mesma já mencionada acima sobre a Cantareira. Segundo, existe um fenômeno na América do Sul chamado de rios voadores: a Amazônia contém tanta água que pode quase ser considerada um mar, e quando a chuva vem do Atlântico cair lá é apenas recarregada, até que os ventos batem nos Andes e vêm para o Sudeste e Sul do Brasil. Por conta desse fenômeno que o Cerrado é muito mais rico do que a Savana africana ou as Great Plains da América do Norte, por conta dele que a vegetação de boa parte do Sudeste era floresta, mesmo estando na sombra orográfica das montanhas da dupla serra do mar e da mantiqueira. Se tem menos Amazônia, esse fenômeno rateia. Só pra constar, o mapa abaixo é apenas do efeito direto do aquecimento global, e não contempla o desmatamento e seus efeitos continentais. Um efeito multiplica o outro...




Não se pode dizer que a seca deste ano, especificamente, é causada por esses grandes processos - nenhum evento isolado pode ser atribuído a um processo gradual assim, inequivocamente - mas pode-se dizer que a probabilidade de secas grandes vai aumentar. Pode-se dizer que a probabilidade de anos de chuva acima da média vai diminuir, e como vimos no gráfico ali em cima, são necessárias chuvas substancialmente acima da média para deixar o Cantareira empatado. O que torna ainda mais temerário o descaso com a questão da água em São Paulo, ao invés de ser desculpa; sabe-se que as coisas vão ficar mais difíceis, não menos.


3.10.14

Os paladinos e seus martelos

A cooperação entre países que alhures se enfrentam usando os cadáveres dos outros  contra o Estado Islâmico da Síria e do Levante, ou Daesh, não deixa de ser impressionante. Os mesmos EUA que patrocinam o governo da Ucrânia contra os rebeldes patrocinados pela Rússia se alia à Rússia contra esses fundamentalistas. A mesma Rússia que patrocina o governo da Síria contra os rebeldes patrocinados pelos EUA se alia aos EUA contra eles. A própria Síria também coopera com os EUA que abertamente procuram eliminar seu governo. A Europa amotinada corre pra ajudar, seja ela conservadora ou socialista. Cá na remota província, a idéia de que bombardear não resolva, aventada pela presidenta, foi criticada como absurdo. É um tal nível de unanimidade na idéia de que é necessário um ataque vingador, uma bomba defensora, contra o Mal que se levanta, que parece que voltamos à cooperação dos Aliados contra o mal apocalíptico do nazismo. (E sim, apocalíptico cabe bem ao nazismo. Às vezes nenhum exagero é possível nem necessário.)


De que os vilões da vez são mesmo horrorosos, não resta dúvida. O grupo de fundamentalistas iraques que megalomanicamente se autointitula Estado Islâmico (tendo deixado de lado a especificação "do Iraque e do Levante" para anunciar suas pretensões universais) tem colecionado, além de triunfos contra o mequetrefe exército do governo de Bagdá, atrocidades de todo o tipo. Cheios de armas, doadas pelos EUA e Arábia Saudita com a intenção de derrubar o presidente-ditador hereditário da Síria, deram uma de gênio da garrafa e não se contentaram com os desejos de seus financiadores; numa espécie de inversão do dito de Marx, são a versão mais a sério da Talibã, num país mais rico, mais educado, e mais antigo do que o Afeganistão. Se no Afeganistão tribal e inóspito foram derrubados os budas de Banyan e conviviam shows de meninos-moça com o fundamentalismo, na Síria e no Iraque o número de patrimônios da humanidade destruídos pela iconoclastia wahabita (sem contar aqueles rebentados pelos azares da guerra em geral) já atinge proporções quase sauditas, e o mundo vai ficando mais estranho e pobre pela derrubada de obras de arte e pelo genocídio de grupos que sobreviviam, nas sombras e dobras da história, há séculos ou milênios.

Um desses grupos, e dos mais proeminentes no noticiário recentemente, o dos iázides, provavelmente seria mais familiar para nossos avós e bisavós que nos dias de hoje, e pelo mesmo motivo que os leva a ser objeto de especial ódio dos fundamentalistas do Daesh. É que a mitologia deles, uma das milhares de seitas gnósticas e neognósticas e antignósticas que surgiram no Oriente Médio no primeiro milênio (duas delas se chamam cristianismo e islã), inverte a narrativa islâmica da queda de Iblis-Lúcifer. Assim para os iázidis o demiurgo Melek Taus, rejeitando a ordem de Deus, de se ajoelhar perante sua nova criação, o homem, por muito amá-lo, é premiado ao invés de punido; essa diferença, mais todos os preceitos de pureza e isolamento comuns às tradições gnósticas, foram o bastante para que fossem considerados adoradores do demônio, e assim os Iázidis percorreram as páginas e telas de romances de aventura do começo do século passado. Fizeram figuração nas aventuras de Khlit, o Cossaco, que serviram de inspiração pro Conan e Cecil B. De Mille, em dúzias de pulps de menor nome... nas revistinhas, mais recentemente e até por isso menos distorcidamente, apareceram nas páginas do Corto Maltese (na Casa Dourada de Samarkand) e do Top 10 do Alan Moore. Sempre por conta desse mito de que são adoradores do demônio, seja o mito reproduzido ou explicado. Além de torná-los alvos para tudo que é fanático religioso, a religião deles também torna muito mais difícil safar-se através da diáspora, aliás; os preceitos estritos de pureza e contaminação são muito mais difíceis de seguir por indivíduos isolados num meio urbano multicultural do que quando se vive nas próprias aldeias; a tragédia do fim dos iázidis pode já ser fato consumado.

Um desses monumentos, curiosamente, é justamente a Igreja Memorial do Genocídio Armênio, o que não deixa de ser uma dupla morte. Os armênios eram boa parte da população do que hoje são a Turquia e o Iraque; foram massacrados, numa prefiguração do Holocausto, por um estado moderno e modernizante, militarizado, presidido por um líder carismático que prometia elevar sua nação acima da nódoa da derrota imperial na Grande Guerra. Eu disse prefiguração do Holocausto? O Hitler concorda comigo. Nas palavras do monstro, Unsere Stärke ist unsere Schnelligkeit und unsere Brutalität. Dschingis Khan hat Millionen Frauen und Kinder in den Tod gejagt, bewußt und fröhlichen Herzens. Die Geschichte sieht in ihm nur den großen Staatengründer. Was die schwache westeuropäische Zivilisation über mich behauptet, ist gleichgültig. Ich habe den Befehl gegeben – und ich lasse jeden füsilieren, der auch nur ein Wort der Kritik äußert – daß das Kriegsziel nicht im Erreichen von bestimmten Linien, sondern in der physischen Vernichtung des Gegners besteht. So habe ich, einstweilen nur im Osten, meine Totenkopfverbände bereitgestellt mit dem Befehl, unbarmherzig und mitleidslos Mann, Weib und Kind polnischer Abstammung und Sprache in den Tod zu schicken. Nur so gewinnen wir den Lebensraum, den wir brauchen. Wer redet heute noch von der Vernichtung der Armenier? (Nossa força está na nossa velocidade e na nossa brutalidade. Gengis Cã levou milhões de mulheres e crianças à morte, de coração ligeiro, mas hoje é lembrado pela História apenas como o fundador de um grande país. Não me importa se uma débil civilização ocidental me condenará. Dei a ordem - e mandarei fuzilar quem solte um pio de crítica - no sentido de que nosso objetivo na guerra não é atingir tal ou qual linha, mas a aniquilação física do inimigo. Assim deixei de sobreaviso minhas formações Caveira - por enquanto apenas no Leste - com ordens para levar à morte sem misericórdia e sem compaixão homens, mulheres, e crianças de extração e língua polonesa. Apenas assim conseguiremos o espaço vital de que precisamos. Quem, afinal, fala hoje da aniquilação dos armênios?)

Então, se há gente tão má no mundo, nada mais natural que as nações da terra se esqueçam por um momento do ódio de sua guerra e se juntem para dar fim aos monstros, não? Bem, não exatamente. Pra início de conversa, se eu disse que a relação entre o Daesh e a Talibã reverte o aforisma de Marx, por outro lado a comparação entre a Arábia Saudita e a Talibã deixa aquelas palavras do 18 Brumário bem no lugar de sempre. A Arábia Saudita, afinal, foi o primeiro resultado moderno da mistura de fundamentalismo islâmico e patrocínio por grandes potências estrangeiras - com o ingrediente adicional explosivo do imenso oceano de petróleo sob o Golfo Pérsico (o campo de Ghawar, em particular, seria sozinho o oitavo país com as maiores reservas do mundo; a usina de processamento de Abqaiq é maior do que a capacidade total do Reino Unido). Assim como os budas de Banyan ou a tumba do profeta Jonas, milhares de sítios históricos foram destruídos pelos sauditas, inclusive no Iraque, mas principalmente em Meca, desde o começo do reino até os dias de hoje, sendo que hoje em dia o fanatismo se mistura ao comercialismo, e vê-se shopping centers se erguerem sobre as ruínas de mesquitas "heréticas." Assim como o Daesh e a Talibã, a Arábia Saudita continua curtindo muito cortar umas cabeças de inimigos da fé em público. É bem verdade, a Arábia Saudita já cometeu seus genocídios no passado e não comete nenhum no momento. Bem, não diretamente. Acontece que a casa de ibn Saud não é apenas a precursora de todos os grupos fundamentalistas wahabbis no mundo, ela lhes patrocina, direta ou indiretamente, é a fonte ideológica e monetária. É dinheiro saudita que financia a pregação de ódio e intolerância da Nigéria à Indonésia, do Marrocos às Filipinas, E, claro, do Afeganistão ao Iraque.

Assim, é curioso que um dos aliados árabes dos EUA na nobre empreitada de bombardear esses monstros do Daesh é... a Arábia Saudita. Aliás, nossos amigos sauditas. Não apenas porque a comparação sabota a narrativa que opõe os nossos paladinos aos sarracenos deles, isso poderia ser confrontado com a simples explicação de que às vezes se precisa da aliança com um monstro para enfrentar outro; afinal, o mundo livre não se aliou a Stalin para enfrentar Hitler e acabar com o Holocausto? Bem, assim como naquela época, não exatamente. Na Segunda Guerra, nenhum dos aliados ligava para o Holocausto; a proposta de bombardear as linhas de trem que levavam seres humanos para Auschwitz foi rejeitada, apesar de demandar apenas meia dúzia dos milhares de bombardeios diários sobre a Alemanha. Enfrentaram Hitler porque este foi quem lhes declarou guerra. E hoje, a apresentação da urgência de se enfrentar o Daesh, e por que, é contraditória, com direito a nomes talvez inventados. Mais do que por também ser um vilão, a contradição inerente no apoio à Arábia Saudita é que ela é a fonte. Seria como se guerrear no Vietnã e ser aliado da União Soviética a comparação histórica mais apropriada. Ou, talvez, como ser anticomunista e se aliar à China para patrocinar o Khmer Vermelho contra o Vietnã. Se os EUA estivessem interessados em diminuir a quantidade de cadáveres produzidos pelo fundamentalismo islâmico, poderiam começar retirando o status de supermelhoramiguinho da Arábia Saudita. Quiçá até ameaçar-lhe com sanções se não parasse a brincadeira (o tamanho do reino no mapa do petróleo não deve ser problema se sanções simultâneas à Rússia e ao Irã são tranqs). No caso do Daesh, mais imediatamente, poderiam parar de armar e financiar a oposição na guerra civil síria, patrocinada desde o começo pelos EUA e de onde saiu o grupo. (E turbinada pelo aquecimento global.)

É claro, o problema disso é que não envolve bombas, e explosões, e decisões duras feitas por homens duros. Não é uma resposta forte, viril, heróica. Não utiliza todo o reluzente armamento que 700bn de dólares ao ano compram. Quando se tem um martelo desses, qualquer coisa mesmo vai começar a parecer um prego. Admita-se que a minha "solução" não é uma solução imediata; não vai ajudar muito as vítimas do presente, só as do futuro. Mas tampouco se tem lá tanta certeza de que os bombardeios sejam uma solução. Fazer ALGUMA COISA porque é um horror, tem que se fazer alguma coisa, é a teoria do martelo; ora, se eu estiver com uma dor de cabeça e sem aspirina à mão, prefiro continuar com a dor de cabeça do que levar uma martelada. Isso tudo assumindo-se, claro, a melhor das intenções e que a Casa Branca e seus aliados realmente se preocupam com a sorte dos iázidis e outras minorias no norte do Iraque e na Síria, o que não é necessariamente verdade. A realpolitik do fetichismo pelo sacrifício, do que já chamei aqui de teriomania, afinal, convive muito bem com a realpolitik realmente real. Aquela em que o ataque ao Daesh pode dar uma esticadinha no Assad, em que pesquisas de opinião sorriem para presidentes guerreiros, em que ações de financiadoras de campanha sobem quando seus produtos estão em alta. Afinal de contas, paladinos também precisam comer, não?

25.9.14

Ajuste sinistro

Convencionou-se, no Brasil, que responsabilidade fiscal é um tema "de direita." Soluciona-se todos os problemas do Brasil seja com a eliminação da corrupção e incompetência (tema que irmana todos que não são, naquele momento, governo), seja com a "auditoria da dívida," que depende de não entender como funciona uma dívida pública e achar que foi um contrato de dívida emitido lá atrás pelo FH ou pelo JK que ainda está sendo pago.

E no entanto, dá pra fazer o ajuste fiscal tão sonhado pelos economistas de direita de uma forma bastante diferente da normalmente assumida. O Brasil - já é quase consenso - é um país em que os impostos indiretos, que pesam mais sobre os mais pobres e atrapalham a economia, são os principais, enquanto os diretos, que pesam sobre renda e patrimônio e portanto sobre os mais ricos, são acessórios. Para inverter essa lógica E fazer o ajuste nas contas públicas, é só

1) Aumentar impostos diretos (IRPFITRITDIPTU (estes últimos subnacionais)). O ITR hoje não morde nem um bilhãozinho. O IRPF para alguém entre os 5% mais ricos não vale 17% (contra 34% nos EUA, que não são exatamente comunistas). O ITD tem alíquota máxima de 4%, vs., de novo nos EUA, 40%. O IGF, que ainda não existe fora da constituição, renderia mais uns trocados. Aumentar o preço da gasolina, sim, que transporte individual motorizado não precisa de subsídio público. Transformar a CIDE numa taxa de carbono, e razoavelmente pesada. 

2) Quando o ajuste tiver sido feito desse jeito, e a necessidade de segurar as pontas tiver passado, cortar os impostos indiretos federais o máximo possível. Com sorte, extinguir o IPI, pelo menos.

Presto: Ajuste nas contas públicas feito com bônus.

O bônus não é pequeno. Noves fora a diminuição dos indiretos aumentar a competitividade da economia brasileira, a desigualdade, que se reduziu com a implantação dos benefícios sociais e o crescimento maior de regiões mais pobres (boa parte da desigualdade brasileira é a desigualdade regional), parou de descer nos últimos anos, devido aos limites dessa política. Ora, nos EUA a diferença entre a desigualdade pré e pós impostos é de 0,11 Gini. Isso é 0,11 de diferença a mais do que no Brasil. Sim, os impostos brasileiros não fazem diferença alguma na desigualdade. Admita-se que é um mal continental...

A longo prazo, aliás, a redução da desigualdade também é um projeto de responsabilidade fiscal.  E o aumento do ITR pode servir como instrumento de reforma agrária.

10.9.14

A guerra ideológica de Haddad

O texto não é meu, tirei de um tópico no Skyscrapercity, mas curti. Sobre as críticas ao jeito improvisado e muitas vezes falho das ciclovias sendo construídas em São Paulo:

http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=117241922#post117241922




O improviso era esperado, e ele existe porque na verdade a prefeitura está numa corrida contra o tempo. Uma corrida ideológica. 


E nessa corrida, o resultado só pode ser assim nas coxas mesmo.


Explico:

1 - Existe uma ideologia cultural forte em São Paulo completamente anti-bicicleta, anti-pedestre, anti-tudo que não seja colocar o automóvel em um pedestal. 

2 - Qualquer outro político de São Paulo que não seja da esquerda petista ou pior, não vai fazer belas ciclovias permanentes, bem projetadas, tirando para sempre o espaço dos carros. Na verdade NÃO-VAI-FAZER-CICLOVIA-NENHUMA.

No máximo, como era a política até então, ciclofaixas DE LAZER, pois "bicicleta é somente lazer excêntrico de fim de semana. Dia-dia é carro, pois faz calor, tem ladeira e blablabla".


3 - Então a corrida contra o tempo é DAR O DIREITO A LOCOMOÇÃO POR BICICLETAS NA MAIOR EXTENSÃO POSSÍVEL, para que uma parte da população SE APOSSE DESSE DIREITO, de forma que depois ninguém consiga tirar dela.


A meta é entregar logo esses 400 km de ciclovias para que a próxima gestão seja obrigada a cuidar delas (apesar dos protestos dos super-coxinhas que vão querer a remoção da maioria). 

Se a meta fosse fazer bem feito apenas 20 km de ciclovia, podem ter certeza que em 2020, ao final da gestão seguinte (que não será a do Haddad), sabem quantos km de ciclovia existiram? OS MESMOS 20 KM, APENAS. 

(Salvo uma ou outra ciclovia criada por IMPOSIÇÃO contrária ao velho interesse ideológico, por compensação ambiental, como a ciclovia sob os monotrilhos. Imposição, não iniciativa)


Eu aprovo essa medida pois é uma guerra contra a ideologia atrasada dominante. E entendendo isso, acho até que a maior parte da crítica é muita frescura e exigência demais.

Andei nas ciclovias do centro e achei elas o suficiente, o suficiente para eu me locomover sem ser atropelado. É isso o que importa.

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Obviamente essa guerra não será vencida por completo, afinal, a ideologia "only-carro" de São Paulo é defendida por grande parte da população, pela imprensa, por políticos tradicionais.

Porém é certo que na próxima gestão, dos 400 km de ciclovia, a maior parte vai permanecer. Isso é muito. São literalmente "50 anos em 5" para o mundo ciclístico em São Paulo, coisa que jamais iria acontecer em décadas de outras gestões.



18.8.14

All things to all men

A maior fonte de força de Marina Silva - provável nova candidata do PSB que ela denunciava há menos de um ano como velha política - também é a fonte da minha rejeição pessoal a ela. Não é a sua posição política real que, tanto quanto possa ser precisada, é mais ou menos a direita do PT, nem tanto à direita da Dilma que também está na direita do PT. Mais economicamente liberal por um lado (o programa de 2010 incluía privatização da previdência), talvez mais ambientalista por outro (mas não se manifestou contra Belo Monte durante a campanha de 2010, e aprovou a BR-364); certamente mais moralmente conservadora pessoalmente, mas não se sabe o quanto isso faria diferença prática. O problema é esse não se sabe, é o quanto a candidata foge da definição, se apresentando não como a proponente de um plano mas como uma personalidade em cima da qual cada eleitor pode, apaixonadamente, projetar seus próprios anseios. Não é uma solução híbrida, em que altermundialistas convivem resignados e inamistosos com o Povo de Deus, mas uma solução absoluta em que Marina levará o Brasil ao caminho anticapitalista da liberdade para uns, à República Cristã para outros.

Marina tem força porque é a missionária Marina da Assembléia de Deus, que prega o ensino nas escolas públicas do criacionismo junto ao "evolucionismo" "para que as crianças possam escolher em que acreditar," um discurso aparentemente democrático usado pelos defensores americanos do criacionismo há tempos. Os criacionistas sabem bem o que significa essa cifra; os defensores modenos e laicos da candidata acreditam que isso é um repúdio ao criacionismo. Ambos, ferrenhos opositores entre si, acreditam que ela está do seu lado e na verdade o outro, em seu apoio, é um tolo iludido.

Marina tem força porque é a candidata amada pelo Mercado, aquela nebulosa entidade que representa os interesses do grande capital internacional, repudiado tanto por muitos evangélicos quanto por quase todos os altermundialistas. O Mercado acredita na privatização da Previdência lá do programa de 2010, acredita na expansão da BR-364, e num governo brasileiro mais amigo dos seus interesses, enquanto altermundialistas e evangélicos sonham com uma candidata que leve o Brasil para um caminho diferente de desenvolvimento, ou até à renúncia do desenvolvimento capitalista,  certamente não é nisso que os analistas do Mercado acreditam. Mas uns votam e outros investem.

Marina tem força porque é a candidata que supera o fla-flu na política, a baixaria eleitoral, a polarização, dizem-nos outros eleitores - apesar de não apenas todos os acima mencionados mas eles próprios se dedicarem à polarização, à torcida, à discussão antes dos defeitos dos outros que de programas, à glosa de quaisquer defeitos da candidata e de seus aliados. Aliás, apesar da esquiva da candidata em se aferrar a qualquer programa definido, com direito a anunciar que há pontos (indefinidos) do próprio programa escrito da candidatura que não são dela. Porque é a candidata da nova política ética contra tudo isto que está aí, mesmo sendo aliada (sem querer o registro da foto em cartaz) de Alckmin, tendo sido vice na chapa de um governador hereditário, tendo sido ministra colega de Dilma, política experiente e afeta a alianças por vinte anos. Não importa a história, importa o sonho.

Enfim, Marina tem força porque é, qual Dom Sebastião surgindo da vaga bruma, o novo, a superação da vergonha pela iníqua história brasileira, que é mistura de gargalhada e vale de lágrimas, a utopia que varrerá para sempre o passado. Porque é a negação da história (exceto pela sua própria história pessoal, mesmo esta convenientemente editada), uma tabula rasa em que qualquer um pode projetar o que quiser. (Não confundir tabula rasa com poste; de Dilma ou Haddad nada se sabia das suas competências pessoais como governante, o que é diferente de rejeitar a precisão de sua ideologia. Um foi melhor que a outra...) E eu admito, de bom grado, que sou mais tímido do que esperançoso, e projeto nessa tabula rasa mais medos que sonhos. Principalmente graças à tal preferência do Mercado, que é quem tem mais força passada a eleição.

25.7.14

O ovo da anfisbena

A Anfisbena é uma cobra lendária, descrita por Plínio, o velho, como tendo duas cabeças "como se não fosse suficiente uma para que se escoasse o veneno de seu corpo." Também estrela os bestiários do Borges e do TH White. Também poderia descrever a polícia brasileira, com alguma liberdade.  Afinal, a polícia que mata na favela é a que reprime na rua, como ficou demonstrado pela ópera bufa (libreto de Philip K. Dick) encenada no Rio de Janeiro, em que meia dúzia de pessoas que sonhavam em ser revolucionários e acreditavam que o Mujica do Facebook iria lhes salvar foram pintados como terroristas perigosos a partir do depoimento de outros tantos descompensados.  Bem, mais ou menos.

A polícia brasileira é das que mais matam no mundo. Possivelmente a que mais mata, em termos absolutos - é o tipo de estatística que é difícil de auferir com certeza, mas não se tem notícia de policiais tão violentos em nenhum país com tamanho similar ao nosso ou maior; os únicos concorrentes, no Caribe, Venezuela, e Colômbia, são países com população menor que a de São Paulo. Não que a polícia de, digamos, Mumbai seja gente boa, só mata menos do que a daqui. Os EUA, então, considerados o símbolo do Sistema duro por gente que ama e odeia isso, mata menos de um terço. Por que exatamente a polícia brasileira mata tanto é uma resposta difícil de se atingir, com uma longa história; tem a ver com a sociedade hierárquica e racista, com a guerra às drogas, com a legitimidade da violência, com a falta de supervisão, com a organização militar, com a desigualdade de renda... o que se sabe é que mata. Mata e tortura. Muito. Mas não mata, em hipótese alguma, de forma indiscriminada; pelo contrário, é de maneira extremamente discriminatória. Morre-se às pencas na favela da Rocinha; na Gávea, ali ao lado, cada assassinato é uma notícia de jornal.

E isso pode ser dito também da repressão às manifestações de classe média que vêm se estendendo desde Julho. A polícia que mata pode ser o mesmo organismo que reprime, pode ter os mesmos membros, mas definitivamente não é a mesma. Fosse a mesma, Sininho, Eloisa, Camila, e companhia  não estariam neste momento livres da cadeia, mas livres das amarras da carne (pra não falar dos destinos de Caio e Fábio, que mataram mesmo o cinegrafista Santiago); pela média estatística, nos dias que durou sua prisão foram 72 mortos pela polícia, sem uma sombra de gritos. Nem a repressão às manifestações é um desenvolvimento orgânico da violência genérica; pelo contrário, a polícia brasileira, por conta daquela hierarquia muito bem delimitada, reprime manifestações de gente branca, com acesso a advogado, à luz da imprensa, com infinitamente mais pudores do que reprime - bem, qualquer coisa na favela. Incluindo manifestações; é muito etnocentrismo da Vila Madalena achar que não havia manifestações constantes no Brasil antes de Junho do ano passado, é que o título da matéria era "moradores de lugar x queimam ônibus."

A repressão violenta às manifestações, antes de ser uma consequência natural da polícia militarizada de sempre, é uma importação de países com trabalho cotidiano de polícia muito mais civilizado, mas que desde os anos 90 têm militarizado e sofisticado o aparato de repressão a manifestações políticas, e a polícia em geral. As táticas como o kettling - encurralar ao invés de dispersar a manifestação - e o uso de câmeras para intimidar vieram diretamente da Europa, e foram ensinadas por instrutores ingleses, alemães, e americanos. O mesmo pode ser dito dos amplos poderes de vigilância eletrônica (aliás, ampliados no Reino Unido durante o desenrolar do Minority Report carioca). Se trata de uma luta específica contra um inimigo externo muitas vezes imaginário, e que não faz parte das práticas ensinadas e costumeiras; as práticas são sujas e antidemocráticas, mas não são algo que "nem a ditadura fez," mas sim algo que foi importado diretamente do que é considerado o estado da arte em democracia. Curiosamente, num paralelo próximo à importação de técnicas dos soldados anticoloniais do general Massu contra a luta armada, durante a ditadura. E até na mesma Manaus. De novo, se trata de ensinar a uma polícia e um exército toscos e brutos algo mais sofisticado.

E é aí que mora o perigo. Se no momento as duas modalidades de repressão caminham em estratos separados, com alvos separados, não há nada que impeça que, no futuro, elas se misturem, como o saber dos torturadores franceses e a visão do território como guerra se espalharam e tornaram assassina a polícia que já era brutal. Não foram os milicos que inventaram a polícia militar; ela existe desde os tempos coloniais, em paralelo à civil e diretamente subordinada a um executivo que se confundia com o poder militar; a separação dos poderes no Brasil, historicamente, foi mais entre civil e militar que a de Montesquieu. Mas foi com a repressão ao comunismo aprendida da CIA e da Legião Estrangeira, mais a guerra às drogas aprendida com o ATF, que ela mudou a marcha das mortes (e superou, como hoje supera em ordens de grandeza, a pistolagem interiorana que antes respondia pela maioria das mortes "de emboscada antes dos vinte.")

As chances de que isso signifique a migração das mortes e torturas do morro para o asfalto não é tão grande - acho, não tendo os poderes precognitivos da polícia fluminense; haverá as exceções dos exaltados, como aquele policial do vídeo que é puxado por seus próprios pares enquanto tenta chutar uma menina com um cartaz. Não estamos no mesmo contexto da ditadura, em que torturar e matar os rebeldes era parde explícita das aulas, chancelada por todos os níveis da hierarquia, e tem que ser dito novamente que o que a polícia faz não é porque os policiais são doidos, mas porque são legitimados e apoiados por governo e sociedade. Mas as chances de que isso represente um grau de repressão muito maior nas favelas são muito boas; mesmo em países com um grau de respeito aos direitos humanos e instituições de controle muito mais sólidos que os nossos, a Guerra ao Terror vem resultando num rosário de presos. Dilma, no medo de que a Copa desse errado, ajudou a chocar o ovo da anfisbena.