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22.1.16

Impostos IV - Herança

O imposto sobre heranças é uma das maiores conquistas liberais, apesar de em geral se associar liberais apenas ao corte de impostos. Isso porque uma das premissas básicas do liberalismo - a de que haja algum nível de, se não igualdade, paridade de oportunidades - é minada pela transmissão intergeneracional de riqueza. Em algum momento, o acúmulo intergeneracional significa, de facto, uma diferença intransponível, mesmo depois de abolidos os privilégios hereditários de jure que faziam com que só alguém que fosse um fidalgo (um filho de alguém, literalmente) pudesse carregar uma arma de fogo ou espada, usar roupas vermelhas, ou sapatos ridículos. O imposto sobre as heranças serve de freio a essa trasmissão intergeneracional. Claro que o Thor Batista vai continuar sendo bilionário herdando qualquer proporção maior do que 3% da fortuna paterna, mas para a grande massa das classes média e alta, o imposto aumenta notavelmente a mobilidade social.

É um ponto em que acho que não fui claro o suficiente nas outras defesas de aumento de impostos sobre patrimônio e renda: esses impostos são bens em si, e não um jeito de o Estado aumentar sua arrecadação (e com isso cortar impostos que são prejudiciais à economia, como IPI e quejandos). Um imposto que diminua a vantagem de um fidalgo moderno significa mais mobilidade social, o que imagino que seja universalmente considerado uma coisa boa. Entre o imposto sobre herança e o ITR, a reforma agrária se daria pela lógica tributária, sem precisar de desapropriação do INCRA. O IRPF alto gera incentivos à doação e à poupança. Um imposto sobre dividendos alto incentiva o reinvestimento de lucros na própria empresa. (No Brasil, ao contrário, dividendos são obrigatórios.)

Então, vamos comparar o imposto sobre a herança no mundo e aquele no Brasil?

Brasil: Federal 0%, estaduais de 0 a 8% - mais comum sendo por volta de 4.
EUA: Federal até 55%, estaduais entre 0 e 10% - mais comum sendo uns 6
França: até 60%
Alemanha: até 50%
Reino Unido: até 40%
Rússia: até 13%
China: não há. (Outro ponto importante: é o Estado que garante a transmissão de bens e direitos; a taxa cobrada sobre essa transmissão é mais legítima que qualquer outra por causa disso. Na China, essa transmissão não é tão segura assim...)

19.1.16

Desenhando o racismo

A essa altura, acho que nem o Ali Kamel deveria acreditar de verdade que não existe racismo no Brasil. É uma noção que já foi mais popular, tanto que a ONU um dia mandou fazer estudo para reproduzir essa falta de racismo pelo mundo, mas hoje em dia largamente desacreditada. O problema é que a discussão sobre isso geralmente descamba para o lado anedotal, para o lado do "troféu Ali Kamel" cada vez que rola um ato mais flagrante de racismo. E bem, esse não é um assunto subjetivo apenas. Há dados, e eles mostram que há sim racismo no Brasil, e permitem até comparar o racismo brasileiro com outros - e o que esses dados mostram é mais complexo do que a negação ou afirmação do racismo, ou de que ele seja melhor do que alhures. (Ou pior, como quer a tradição inspirada no Abdias do Nascimento, que via nos EUA um modelo.) Então este artigo tenta transformar alguns desses dados em imagens, pra tentar tornar a compreensão deles mais fácil

Primeiro de mais nada: quem é negro, quem sofre racismo, no Brasil e alhures. O critério do IBGE, da autodeclaração, é o único possível tanto ética quanto estatisticamente pra isso. Eticamente, porque algum tipo de "olheiro racial" seria algo que remexeria bastante o lodo nazista. Estatisticamente, porque esses olheiros raciais, em larga escala, não seriam mais confiáveis do que os autodeclarantes. Até menos. (E sim, apesar do critério ser a autodeclaração, de facto existem entre os agentes do censo aqueles que tacam o que acham que viram ao invés da autodeclaração.) É possível, sim, averiguar o quanto de ascendência africana uma pessoa tem - mas isso não é necessariamente uma boa medida, já que o preconceito que atinge as pessoas depende mais da aparência externa do que da genética. Isso não apenas aqui, país em que sempre se falou do "preconceito de cor," em contraposição ao "preconceito de raça ou etnia" americano. Nos próprios EUA e África do Sul, mais de um estudo já verificou que sim, entre pessoas igualmente classificadas como negras, aquelas com pele mais escura sofrem mais os efeitos do racismo. 

Note que o mesmo processo acontecer mundo afora não significa que acontece da mesma maneira. Inclusive, quantos são os negros de cada país vai variar de acordo com o critério, se genético ou autodeclaratório - e essa variação vai indicar o quanto houve, no passado, uma mistura mais ou menos livre entre pretos e brancos pra ter filhos. O gráfico abaixo tenta mostrar essa diferença, com o tamanho da população afrodescendente versus o tamanho da população que se autodefine como negra em cada país: 


Na escala horizontal, a proporção da população do país que descende em boa parte (pelo menos 15% da ascendência) de africanos. Na vertical, a proporção que se autodefine como negra. A bola indica o tamanho da população descendente de africanos. Pode-se ver no gráfico, por exemplo, a diferença entre uma proporção e outra - ou seja, o quanto alguém vai ser considerado descendente de africanos por ser descendente de africanos. Reparem que não existe absolutamente nenhum país acima da linha do 1 pra 1... e que o Brasil é aquele em que a desproporção é maior. 

Também é interessante fazer essa distinção por outro motivo. É que se você reparar na posição do Brasil na escala horizontal (perto da África do Sul), o Brasil é basicamente um país negro e mulato, em termos de ascendência. Acontece que na escala nativa brasileira boa parte desses mulatos é branco. Não "se considera," já que branco e mulato são características sociais, que dependem da ordem social, mas é branco - no Brasil. Muitos deles descobrem, chocados, que não são tão brancos assim no Atlântico Norte. Ou seja, de certa forma, o Brasil, que se considera branco amestiçado com negro - nas famosas palavras de Gilberto Freyre, o brasileiro se misturou com o negro e com o índio (ie, é diferente deles) pode ser considerado, como um todo, como um país negro. Não sei se ajuda a entender essa distinção entre afrodescendente e negro, mas vá lá: no Haiti, como em todos os países do Atlântico, o racismo pós-escravidão é um problema real e palpável. Lá, os mulatos dominam a vida econômica e social do país - a ponto do termo ser sinônimo com burguesia, sendo entretanto em geral excluídos dos cargos principais políticos, pela resistência dos negros. Ora, a olhos brasileiros, é bem difícil distinguir esses dois grupos perfeitamente distintos aos olhos haitianos. A mesma coisa acontece com os pretos, pardos, e brancos brasileiros. Gradações raciais são inventadas e peculiares a cada sociedade, mas por isso mesmo incrivelmente sutis. De acordo com essas sutilezas, o Brasil pode ser considerado um país heterogêneo, em que negros são uma minoria discriminada (o modelo americano) ou, o que raramente vejo, um país negro, dominado por uma elite branca e mestiça clara. Como na África do Sul do Apartheid, isso não significa que todo branco é rico e influente. Mas admita-se que é um modo de enxergar um pouco diferente...

Primeiro parêntese de cautela ao ler gráficos: a proporção de 15% para chamar alguém de "afrodescendente" é, obviamente, arbitrária. Não foi tirada do nada; é a utilizada por muitos desses estudos genéticos, e corresponde mais ou menos, no Code Noire francês, à última categoria de mulato, o "oitrão."  Mas o gráfico acima poderia ficar muito diferente se se utilizasse dez, cinco, ou cinquenta como "nota de corte." Isso não quer dizer, por outro lado, que pode-se dizer qualquer coisa com gráficos; as proporções podem mudar, mas as posições relativas dos países - quem está acima ou abaixo de quem - mudam bem menos. Outro caveat é que estamos comparando um número atingido por um censo nacional que, com todas as falhas, é uma tentativa de recolher a totalidade da população, com pesquisas feitas com voluntários que, por mais que tenham usado técnicas até sofisticadas para tentar se adequar ao que sabemos via os censos, têm um fator variável muito maior envolvido.  Então tomem este gráfico, como qualquer outro gráfico ou número, com uma pitada de sal.

Talvez não inteiramente por coincidência, o Brasil também se aproxima da África do sul no quão tardio o sistema de ação afirmativa é por aqui. Vamos ao gráfico: 



Como pode se ver, ação afirmativa, conceito novo no Brasil, é algo que data do começo do século XX, e se espalhou pelo mundo no pós-guerra, dos dois lados da Cortina de Ferro. Pode-se ver também que, enquanto a ação afirmativa no Brasil atinge basicamente um campo (universidade), e muito parcialmente outro (emprego público), em outros países ela atinge uma variedade enorme de campos. Podem reparar também que a proporção de gente da etnia atingida beneficiada é muito menor no Brasil...

Pegadinha. Todas as afirmações acima são verdadeiras, mas todas elas dependem, muito mais do que no primeiro gráfico, de uma série de pressupostos diferentes no contexto de cada país. Até porque enquanto os países do gráfico anterior dividem uma iteração específica do preconceito entre si (o racismo nascido da lida de seres humanos através do oceano Atlântico para as colônias européias na América, nas suas versões metropolitana, colonial, e (pós-escravidão de jure) imperial), as situações de que trata este são bastante díspares. São todas elas redutíveis à existência de minorias étnicas em desvantagem social, mas em contextos muito diferentes. Nas sociedades asiáticas (e euroasiática) deste gráfico, essas minorias são antes comparáveis aos indígenas brasileiros, e essas medidas de ação afirmativa são inclusive parte de estratégias de assimilação no corpo nacional - não necessariamente, e às vezes inclusive de maneira digna de aplausos, necessariamente no corpo étnico dominante. E mesmo assim há diferenças, como pode ser visto na proporção de gente afetada; enquanto na China é corretíssimo falar de uma minoria quase residual (se enorme em números absolutos), na Índia é o grosso da população do país que pertence às "castas atrasadas."

Comparando apenas com os países mais parelhos, o que se vê é que a ação afirmativa no âmbito do racismo contra negros nos países atlânticos é algo que nasce nos EUA no contexto dos direitos civis do pós-guerra, como reação a uma legislação e uma atitude sociais particularmente virulentos (comparáveis ou até piores do que o Apartheid sul-africano) implantados logo após a guerra de secessão e o fim da escravidão. O mesmo se pode dizer do contexto do pós-apartheid. Só no Brasil é que ela nasce sem esse processo de reparação de feridas étnicas - até porque, inclusive não sem um quinhão de razão, nunca foi reconhecida a existência de uma etnia negra no Brasil, um povo separado, com cultura e tradições separadas. Assim, é graças justamente a ativistas de inspiração americana, que denunciam a propaganda da falta de racismo, que se começa a fazer, alguns anos depois do fim da ditadura militar, o reconhecimento oficial do racismo - e o sistema de ação afirmativa, ainda imperfeito.

Então, com esse atraso todo na ação afirmativa, com essa dominação branca sequer reconhecida, o Brasil pode ser considerado particularmente racista, ou mesmo, como tem gente que afirma, invertendo a inexistência do racismo, o mais racista do mundo? Bem, não exatamente. E sim, dá pra quantificar o racismo. Não perfeitamente - digamos que dê pra ver a sombra na parede da caverna. Já é mais que nada. O último gráfico deste primeiro post, assim, olha pra duas dimensões do racismo; vamos chamá-las de vertical e horizontal. Racismo horizontal é o quanto as pessoas se misturam ou não. Aqui pegamos a segregação residencial, mas ela serve razoavelmente como indicador pra outras segregações que, como essa, se baseiem em negros e brancos (ou quaisquer outros grupos) sendo grupos diferentes, separados. E vertical seria o quanto existem diferenças de renda, que aqui serve como indicador imperfeito de status em geral, entre os grupos.


Como dá pra ver, a diferença salarial entre negros e brancos no Brasil é muito maior do que nos EUA; em compensação, a segregação racial é muito menor. Em outras palavras, o brasileiro negro tem mais chance de ter um vizinho branco, mas menos chance de ser chefe de um branco. Na África do Sul, medo. Só que - ok, este é um post de como gráficos podem ter várias interpretações e dados não são "fatos" autoevidentes tanto quanto sobre racismo - essa diferença não foi "calibrada" pela alta propensão da sociedade brasileira à diferença salarial, de modo geral. Vejamos a diferença entre salários de juízes e guardas de trânsito, duas funções estatais, e dentro mais ou menos da mesma função do Estado, determinados em bloco, ou seja teoricamente sem a influência do racismo:

Feita essa correção, ainda dá pra falar em racismo vertical mais intenso no Brasil que nos EUA? Como nem eu nem ninguém fez essa conta, que seria bastante complexa de fazer (deflacionar pelo índice de gini, comparar com outras diferenças de renda por grupo social, são várias opções possíveis)  vamos ter que voltar pro achismo: eu diria que sim, de olhada, simplesmente porque a diferença é muito grande para atribuir apenas à propensão de diferença, e porque a diferença entre a renda de um homem negro e de uma mulher branca é maior. Mas inda precisa cavoucar mais. Quando conseguir, faço o segundo post. 

15.1.16

Os vendilhões da indignação

Somos um país, talvez um planeta de indignados. "É um absurdo" é das frases mais comuns; uma charge argentina de alguns anos atrás mostrava um casal: um lendo alto no jornal sobre o cometa Shoemaker-Levy, que explodiria sobre Júpiter com a força de dez mil bombas atômicas. O outro responde: "Absurdo! Cadê o governo que não faz nada!?"  Alguém dirá que é melhor do que o conformismo, mas essa indignação fácil não é ativa, não é direcionada. Não é, em outras palavras, em nada diferente do conformismo. E é vendida, ativamente, o tempo todo, além de ser reforçada "digrátish" pela internet. Dois exemplos brasileiros:

A Folha anuncia Roupa doada a vítimas das chuvas em Paraitinga vai parar no lixo. Lendo a matéria, entende-se que

A) Como a tragédia teve repercussão nacional e S. Luís do Paraitinga é minúscula, as roupas foram em quantidade muito maior do que a suficiente para cada morador de lá ter um closet maior do que o da Angela Merkel.

B) As roupas em excesso, após a distribuição, foram endereçadas a vários galpões de empresários que se voluntariaram para encaminhá-las a entidades assistenciais em outras plagas.

C) O galpão em que as roupas apodreciam encaminhou a roupa que estava em boas condições para uma entidade de Campinas, e não conseguiu foi achar jeito hábil de se livrar das roupas já rotas, sujas, ou já mofadas.

Em resumo, é uma não-notícia. Talvez pudesse ser notícia "parte das roupas doadas a S. Luís do Paraitinga estava em mal estado." Mas é claro que isso não alcançaria a indignação fácil no mesmo nível da sugestão de que roupas doadas mofaram ao invés de ser entregues a seus destinatários de direito, reforçando a percepção de corrupção generalizada e que, por sua própria onipresença, leva ao desânimo, não à ação. (A Folha não menciona, por supuesto, nessa ação de desinformação, o partido da prefeita de SLP. Ganha um bico esponjoso e colorido quem adivinhar.)

Na outra ponta do espectro político, uma imagem recorrente nas correntes de email, facebook ou twitter da esquerda brasileira é esta aqui:


Olhem que estarrecedor! Quase a metade do orçamento brasileiro vai para o pagamento dos juros da dívida - ok, e amortizações, que devem ser outra variedade de juros em tecniquês. De qualquer jeito, é evidente que o governo títere dos bancos, se quisesse, poderia declarar a moratória, ou a redução dos juros, e incontinenti sobraria dinheiro para saúde, educação, e tudo o mais.

Pois bem, a imagem mente que nem uma matéria da Folha sobre São Luís do Paraitinga. "Amortizações" se refere à rolagem da dívida. Explicando: a dívida brasileira não é como uma dívida que tenhamos no banco, mas sim uma massa imensa de dívidas e títulos. Como o Brasil não tem superávit nominal, à medida que estes vão vencendo, são pagos e contrata-se igual quantidade de dívida, por mais 1, 2, 4 ou 20 anos. A isso chama-se "rolagem," e o efeito total no dinheiro disponível é zero. Para fazer a conta refletida no gráfico acima, integraram os pagamentos de juros - o dinheiro gasto efetivamente - e a rolagem ("amortizações"). Pôr a rolagem na conta de gastos é, mal comparando, como se você não pagasse a conta integral do cartão de crédito e contasse tudo que ficou devendo como gasto mensal, ao invés de apenas o que está pagando.

Ora, um gráfico equivalente da receita federal teria, pela mesma lógica, que incluir a dita cuja. Em outras palavras teria como maior fonte de receitas, com proporção similar à das despesas, "empréstimos bancários." Para ficar claro: ainda que decretasse uma moratória, com todos os efeitos negativos dela consequentes, o governo não teria quase o dobro do dinheiro de que dispõe, mas uns 10% a mais. A proporção do orçamento brasileiro gasta com juros da dívida é alta e vergonhosa, mas não chega nem à metade daquela mostrada nesse gráfico, e assemelha-se àquela gasta com a previdência.  Tentando explicar de outro jeito: o Brasil não está pegando 100 mariolas de imposto e dando 40 pros bancos. Ele está pegando 65 mariolas de imposto, 35 mariolas emprestado dos bancos, e pagando 40 mariolas pros bancos. Se declarar a moratória, como não vai ter mais banco dando dinheiro, ele não fica com 40 mariolas a mais, fica com 5. (Isso num ano normal; ano passado, com nada.)

É até uma questão de não subestimar a inteligência alheia nem crer na maldade abnegada: se a proporção fosse essa mesma, qualquer governante declararia a moratória, dobraria o orçamento disponível com uma canetada, e instauraria um Reich de mil anos. Dilma, Lula, e FH seriam não apenas perversos, mas perversos dispostos a sacrificar o próprio poder (e riqueza, se quiser ir por esse lado - imagine a Odebrecht com um orçamento da União dobrado) pra ferrar com o país.

Não que eu imagine, pela grita sobre a diminuição dos juros da poupança, que boa parte das pessoas de classe média que repassa esse gráfico, detentoras de poupanças e fundos de renda fixa, ficasse assim tão feliz com a moratória, ou mesmo queda acentuada dos juros (esta sim sendo uma excelente ideia). Ou alguém acha que na Suíça se ganha 6% ao ano em aplicação segura? Ou que os próprios títulos não estariam incluídos na tal moratória, e sim só os "dos ricos" (que sempre são os outros). Mas não seria só a classe média que sofreria os efeitos dum calote. A quebradeira bancária teria efeitos negativos em toda a economia do país - o que reduziria as receitas tributárias, anulando a vantagem de economizar as atuais despesas com juros. Nunca é demais lembrar: ao contrário do Equador ou da Grécia, no Brasil a maior parte da dívida é interna, não externa. É devida a instituições e pessoas brasileiras.

E pra deixar claro: em termos econômicos, a "auditoria cidadã," que é vendida como uma redenção da pátria que anularia a dívida contraída por meios escusos, seria apenas um calote com motivação política. Não estou dizendo que não houve dívida contraída por motivos escusos (segurar o dólar em 1998 pra reeleição foi no mínimo eticamente questionável), mas que a auditoria é tanto desnecessária quanto irrelevante. (E sinceramente, quem divulga o gráfico acima não é confiável. Ou entende como funciona dívida pública, e acha que os fins justificam meios desonestos, ou não entende.)

Primeiro a irrelevância: não sei se fui claro ao descrever a rolagem. O que ela significa é que a dívida que estamos pagando hoje NÃO é a dívida contraída por FH, Itamar, Collor, ou mesmo Lula, em sua maior parte. São papéis relativamente novos, contraídos para pagar a dívida que vencia. De novo a analogia do cartão de crédito (vamos ver até onde dá pra forçar sem que ela quebre): pense numa pessoa que tem dois cartões de crédito, e usa um para pagar o outro. Dizer ao banco Mansa Musa que a compra feita no banco Maeda estava errada, quando você só sacou dinheiro no banco Mansa Musa, vai fazer com que este perdoe a sua dívida? Agora imagine que não tem só Maeda e Mansa Musa nessa cadeia, mas entre eles o Fugger, o Médici, a Mendes, uns trocentos elos. Por que o banco com quem você pegou dinheiro ontem, pra pagar a dívida de antes de ontem, perdoaria essa dívida se você demonstrar que láaaa atrás a dívida original era ilegítima?

E a desnecessidade, que é até mais importante: se não se preocupar com os efeitos econômicos, o Brasil não precisa de absolutamente auditoria nenhuma para pagar a sua dívida soberana. É isso que "soberano" significa. O Brasil é um país independente, e os tempos das canhoneiras européias estacionadas no porto para forçar pagamento (o Haiti sofreu bastante com isso) estão no passado. Se Dilma quiser declarar moratória (o nome técnico pro que se chama de calote, e o resultado almejado de uma auditoria cidadã), pode fazer isso porque sim. Porque acordou de mau humor. Como forma de performance artística, chamando a Marina Abramovic pra ler o decreto.

E as auditorias na Grécia e no Equador? Bem, elas demonstram o ponto: as duas não foram absorvidas pelo mercado de dívida como algum tipo de perdão bancário, mas como calote. Os juros pagos subiram após essa moratória parcial. A denúncia das condições escusas das quais se originou o endividamento, do sistema-mundo iníquo, não vão sensibilizar o coração de quem importa, que é o dono da dívida. Ela pode servir, no máximo, como justificativa política para uma moratória - que, de novo, o país pode fazer sem nenhuma auditoria, no dia que quiser. O problema é que o Brasil já quis, mais de uma vez, e em nenhuma dessas vezes o resultado final foi lá tão bom (lembrando de novo que o gasto público com a dívida não é de 40% do orçamento, e sim abaixo de 10 - e ano passado foi zero). A última foi em 1987, sob o Sarney. Sim, aquele Sarney. Não que uma moratória seja sempre a pior opção - na Grécia, ou na Argentina, recentemente houve crises de dívida realmente insustentável. Mas quem fala em auditoria da dívida tem que ter em mente que o efeito econômico, qualquer que seja a justificativa política, é complicado.

A auditoria da dívida é sedutora porque lida com duas narrativas da simplicidade. A primeira é o diagnóstico: não aconteceu uma situação complexa e difícil de entender pra se chegar aonde estamos, o que aconteceu foi que homens maus nos feriram, e depois que os denunciarmos, os exorcizarmos, jogarmos um balde de água na cara deles até que derretam, vamos nos redimir. A segunda é o prognóstico: pra resolver a situação, não precisamos de resolver problemas complicados. Não há interesses divergentes, entre os bons, para serem conciliados. Depois de denunciarmos e pisarmos nos maus, todos os bons viverão felizes  na Cocanha. (Sim, dobrar o orçamento federal sem nenhum efeito negativo daria uma bela duma Cocanha.) É sedutor, mas - como o gráfico de pizza, como a maioria das soluções simples - é mentira.



PS O faq do movimento auditoria cidadã tem esta pequena resposta à questão da rolagem:

MENTIRA. Frequentemente, pessoas ligadas ao governo afirmam que parte destes 40,3% seria apenas “rolagem” ou “refinanciamento” da dívida, ou seja, o pagamento de amortizações (principal) da dívida por meio da emissão de novos títulos (nova dívida). Portanto, isto seria apenas uma troca de títulos velhos por novos, não representando custo para o país. Porém, a recente CPI da Dívida realizada na Câmara dos Deputados revelou que grande parte desta “rolagem” ou “refinanciamento” contabilizada pelo governo não representa pagamento de principal, mas sim, o pagamento de juros. Portanto, a capacidade de endividamento do país está sendo utilizada para pagar juros e encher o bolso dos bancos, ao invés de, por exemplo, financiar a melhoria da saúde, educação, transportes, etc. 

Bem, ela é confusa, na melhor das hipóteses. Dizer que é rolagem não significa dizer que se está pagando o "principal" da dívida (de novo, não há um principal no sentido de uma dívida privada). Não é um julgamento de valor, como o embutido nessa resposta, mas uma definição da coisa. Significa dizer que o dinheiro para esse pagamento está vindo de novos empréstimos, e não de impostos arrecadados, só. Nem foi necessária pra ver isso a CPI da dívida - que, aliás, já fez basicamente o que uma auditoria teria para fazer, com todos os recursos do Congresso. O relatório está aqui. As informações sobre a dívida não são secretas, podem ser consultadas na internet a qualquer momento, o que faz da invocação da CPI um artifício retórico, assim como falar da saúdeeducação.

PPS Repetindo: já foi feita auditoria da dívida, pelo Congresso Nacional, eleito pelo povo (pode ser uma bosta a democracia, mas inda não achei a opção melhor), com todos os seus recursos. O pedido de outra "auditoria," por gente que parece pouco disposta a fazer perguntas e mais a apresentar respostas prontas, é antes um pedido de moratória versão apito de cachorro. Nada contra - mas que se apresente, ao invés de meias verdades, os prós e contras reais de uma moratória.

5.1.16

Museu do Amanhã e o de Ontem

O Museu do Amanhã, recém-inaugurado na Praça Mauá e principal equipamento cultural do projeto de renovação urbana do porto do Rio (dentre outros há ainda o museu de arte na mesma praça, a hemeroteca da Biblioteca Nacional, e as instalações de apoio do Theatro Municipal), foi alvo de mais críticas do que elogios, exceto entre os apoiadores diretos do atual governo municipal. As críticas, em geral, passam pela alegada suntuosidade do local, um projeto "faraônico" enquanto bibliotecas, hospitais, e museus estão fechados. Pessoalmente, acho essa linha de crítica um pouco míope. Não fosse porque os órgãos fechados não pertencem à prefeitura (que, aliás, emprestou ou deu dinheiro ao Estado para manter abertos escolas e hospitais), ou porque a decisão de construir o museu não se deu agora, mas há anos atrás, no auge da bonança, porque acho que um museu, e especificamente um museu de ciências, está longe de ser uma firula supérflua. Museus são uma das principais ferramentas que temos de atrair pessoas para se interessar por assuntos considerados mais arcanos, da arte contemporânea à cosmologia. E que o público se interessa por eles está mais que confirmado, tanto pelas filas enormes no próprio Museu do Amanhã (fiquei duas horas na fila, chegando às dez da manhã de um domingo de sol) quanto pelos dados de revistas especializadas, em que consistentemente museus de arte brasileiros estão entre os mais visitados do mundo. O argumento de que não se pode investir em museu por conta da saúdeeducação é, francamente, ignorar que museu É educação. Mais até do que boa parte do investimento em universidades...




Mas discordar das críticas mais comuns não quer dizer que não tenha críticas - e razoavelmente fortes - ao Museu do Amanhã. Apesar desse tema-nome nebuloso, "Amanhã," o museu era, esperava, basicamente um museu de ciência, com ênfase nas consequências futuras de nossas ações presentes. E por isso mesmo eu era um entusiasta da idéia; falta ao Brasil um museu de ciência de grande porte, e é  também a falta de interesse ou até saber do que se trata, e não só a facilidade de montar o curso, que faz com que uma proporção tão grande de nossos universitários esteja cursando administração e direito. Meu medo, por estar sendo montado pelo mesmo povo (a mesma panelinha que, ao que parece, monopoliza com seus contatos a organização museológica no Brasil, e oriunda antes do setor de espetáculos que do de ensino e pesquisa)  que organizou o Museu da Língua Portuguesa na estação da Luz, era que, como aquele, o museu virasse um museu chinfrim, um site de internet pra se acessar em quiosques num prédio lindíssimo.Pois bem, esse medo não vingou, mas o museu não é, ao fim e ao cabo, bem um museu de ciência. É mais um museu de arte com instalações vagamente organizadas em redor do tema do "amanhã." O Guardian, que põe o museu entre os dez melhores novos museus do mundo, diz que a exposição é "fruto da mente do físico e cosmólogo Luiz Alberto Oliveira," e que "conduz o visitante por uma série de experimentos e experiências," o que me faz pensar que não chegaram a conhecer o museu in loco, só o press release. Como eu torrei no sol pra ter essa experiência in loco, vamos à descrição, passo por passo, da visita:
- O prédio em si, de Calatrava, é belíssimo, por dentro e por fora. Na marquise, as vigas abauladas se encontrando em ângulos agudos lembram uma catedral gótica vazada. No saguão, já se vê formas mais compactas, orgânicas, fluidas. Os setores de exposição na exposição permanente, grandes sólidos negros dentro do cavernoso espaço branco, também são impactantes. E o mirante, com o grande espelho d'água com a estrela aluminizada no meio, é tão impressionante quanto qualquer mirante do mundo. Logo no saguão de entrada tem um globo revestido de leds, no qual são mostradas diversas informações sobre o planeta, como a contração e expansão do gelo polar ou as correntes marítimas. O globo é lindo, mas ficaria ainda mais interessante se, como no caso de seu primo maior no Miraikan ("Museu do amanhã") de Tóquio, houvesse espaço embaixo para se reclinar e admirá-lo, ou se os eixos do planeta mudassem - de novo, como no Museu do Amanhã japonês. Como está, o globo fica sobre o lobby (quase exatamente em cima do balcão de recepção), e o norte fica sempre pra cima, ou seja, quem está embaixo olhando só verá, sempre, a Antártida. 

- O primeiro setor da exposição permanente, "cosmos," alojado num elipsóide negro, é basicamente um pequeno planetário. Por um lado é ciência, por outro lado é um pouco redundante numa cidade que tem um planetário de verdade enorme, com três cúpulas (duas na Gávea e uma em Santa Cruz), com projetores Zeiss. A cúpula principal da Gávea, aliás, não faz feio entre os grandes planetários do mundo (tem 23m, contra 27m do planetário do Museu de História Natural de Nova Iorque). E com o museu a plena capacidade tem, claro, filas enormes - é um espaço relativamente pequeno - O setor seguinte, terra, consiste de três grandes cubos. Naquele dedicado ao oceano, uma belíssima instalação consiste de panos metálicos sendo soprados por jatos de ar e fazendo uma espécie de balé aéreo; nas paredes, fotos aéreas diversas de água. É, de novo, belíssimo. Mas não excita particularmente a curiosidade sobre qualquer coisa relacionada às águas, muito menos explica alguma coisa. No da vida, temos algumas informações - mal redigidas ao ponto de poderem ser chamadas de incorretas - sobre a baía da Guanabara e, de novo, mais fotos. Num mundo em que fotos similares podem ser vistas por todo mundo na tela do celular, não deixa de ser o equivalente do Museu da Língua Portuguesa com seus recursos similares aos de um CD-Rom. Finalmente, no cubo das culturas humanas pequenos totens dispostos dentro do cubo têm, adivinhem, mais fotos. Estas do tamanho dum celular mesmo. - Antropoceno talvez seja o melhor setor, pensando como museu de ciências. Um anel de monólitos gigantes parece que está caindo sobre nós. Nas suas faces internas, vídeos sobre o impacto humano no planeta; o som que acompanha o vídeo, grave, tonitruante, se soma aos monolitos "caindo" para aumentar o impacto da instalação. Dentro deles, pequenos espaços com descrições mais detalhadas desses impactos (seria mais interessante se fossem interativas, mas não se pode querer tudo.) - O quarto setor, "amanhãs," é descrito no folheto como "para onde vamos - nossas escolhas definirão os próximos 50 anos." São grandes mesas, com telas dispostas ao redor delas. Nas telas, jogos. Jogos científicos, você imagina. Nãaaaao. Um exemplo, jogado até o fim, é o jogo que lhe oferece o desafio se você seria um candidato a tripulante de uma viagem a Marte. Um jogo científico perguntaria sobre fôlego, resistência ao isolamento, disponibilidade para não voltar. Não este, ele pergunta coisas como se você se considera uma pessoa sociável e divertida. E o resultado, ao invés de ser se você seria ou não um bom tripulante numa missão a marte, foi que eu era um "andróide visionário." No melhor estilo de quizes de Facebook. Diacho, se calhar foi roubado de um quiz de facebook. A seção interativa da exposição permanente do maior museu de ciências do Brasil são quizzes de Facebook. Só falta "qual amigo lhe beijará na nave pra Marte."-  Finalmente, temos "Nós." Um par de conchas de treliça de madeira envolve, algo entre um náutilo e uma vulva, um pneu de cerâmica rabiscado com a palavra amanhã em diversas línguas. Uma pena de bronze de um metro está fincada no meio desse pneu. Além da instalação dos oceanos na exposição permanente, outra excelente instalação artística é a da exposição temporária "queda da perimetral." Você entra achando que terá um vídeo com as transformações do porto nestes 50 anos, depois da explicação da monitora acha que verá uma experiência imersiva da queda da perimetral. E dentro vê vídeos preto e branco que alteram padrões abstratos, rostos humanos soprados, e pedaços de vídeos da demolição da perimetral, usados como material pra remixagens abstratas. Não te aproxima da experiência real, não te explica nada. É bonito, com as diversas camadas de telas e a fumaça no escuro. É, de novo, uma boa instalação artística. Para coroar a impressão do museu, a lojinha, ao invés de jogos educativos e brinquedos científicos, como lojinhas de museu de ciências sói terem, tem bolsas, camisetas, suvenires de design, agendas... nem uma mísera geleca inteligente ou um kit monte seu robô solar. As figuras que aparecem nos créditos são todas carimbadas, todas ligadas ao establishment midiático (os tais quizzes de facebook foram feitos, aparentemente, pelo Marcelo Tas). E deu nesse museu altamente "simbólico" e com pouca informação. A tentação de puxar daí uma parábola para os males do Brasil, pós-saúva e saúde, não é fraca.


Nada do que falei é irremediável, tudo pode ser mudado, e até com relativamente pouco investimento de dinheiro. Tudo bem que o meu sonho seria, na verdade, a construção de um museu de ciências, com parque em volta, no terreno que era da fábrica da GE nos subúrbios da Leopoldina, e a transformação do museu do amanhã em museu do mar, muito mais temático. E, claro e principalmente - já fiz, afinal, até petição no Avaaz pra isso, gorada - a criação de um museu da África e da Escravidão no cais do Valongo.  



Por que no Valongo? Porque tanto simbolismo quanto conveniência ali convergem. O cais do Valongo, recentemente escavado, foi a instalação única pela qual passaram mais pés de escravos no planeta (mais de meio milhão de pessoas, entre 1811 e 1850). E o armazém defronte, um dos primeiros armazéns “modernos” do porto do Rio, foi projetado por André Rebouças, ele mesmo negro, neto de escravos, e abolicionista, um dos maiores engenheiros do Império, que proibiu a utilização de escravos como mão de obra na sua execução (em 1871, quase vinte anos antes da escravidão ser abolida no Brasil), homenageado junto com seu irmão no maior túnel da cidade (mas quantos por ali passam saberão ligar o nome à pessoa?). Não é uma instalação qualquer, em um lugar qualquer: é um memorial de importãncia, sem falsa modéstia, planetária. Instalação que, aliás, foi ela mesma uma tentativa, por estranho que pareça a nossos ouvidos ouvir isso, de apagar o passado colonial e andrajoso fazendo instalações científicas e higiênicas para o tráfico de seres humanos.

Além de ter o maior porto receptor de escravos do mundo, nesta cidade funcionava toda a complexa cadeia de tráfico humano, que ia desde a construção e contratação de navios à contratação e repasse de seguros. Aqui, também, na condição de capital imperial, foram tomadas decisões importantes que mudaram a história do tráfico e da escravidão no Brasil, como por exemplo, a proibição do tráfico negreiro e a definitiva abolição da escravidão em  13 de Maio de 1888, quando nos tornamos o último pais das américas a fazê-lo.

É uma nódoa na história nacional, portanto algo melhor esquecido? Não. Nódoas são para serem lembradas, e a cultura que saiu da escravidão deve ser celebrada. Nem é uma idéia tão original - existem museus da Escravidão em outras cidades, ligadas mais ou menos ao tráfico, como em Liverpool e Nova Iorque. Existem museus do Holocausto, outra grande tragédia da humanidade, como em Berlim ou Washington. Este, aliás, atrai 17 milhões de visitantes por ano, muito mais que qualquer atração turística brasileira. Hoje, o Brasil retoma ligações com a África que em parte se perderam ao longo do Século XX, e um museu que registre o maior laço entre os dois países é também importante. E, finalmente, na parte “África,” sem falar da escravidão, o Rio de Janeiro, com uma população negra bem maior que a de São Paulo, não tem algo da importância do Museu Afro-Brasil, do Ibirapuera.

Acervo não falta - as próprias escavações do porto retiraram inúmeras peças relevantes à história da escravidão no Brasil, e os arquivos em mãos de diversas instituições públicas na cidade também não são pequenos. Não que a idéia seja um museu “sótão,” à moda antiga. Pelo contrário, o ensino, a celebração e a mem´ da tragédia que foi a escravidão e da riqueza que dela se extraiu, devem incluir seções interativas, devem incluir fac-símile, toda a tecnologia necessária pra que o Museu da África e da Escravidão não seja “mais um museu,” visitado principalmente por colegiais entediados, e sim o que tem potencial para ser - uma atração internacional carioca, no nível do Cristo ou do Pão de Açúcar. (E um centro de pesquisas, igualmente de importância internacional.) Tem, também, o potencial para reforçar e reforjar as relações brasileiras com a África, continente que é hoje o que mais rápido cresce no mundo, e com a diáspora negra em toda a orla do Oceano Atlântico. Enfim, tem tudo pra ser uma atração cultural global, inclusive se prestando melhor do que os museus genéricos escolhidos para o papel de dar ao "Porto Maravilha," em seu papel de cidade globalizada, vernizes de cultura e sofisticação. E não se pode conceber um amanhã ignorando o ontem.








PS: Curiosamente, a brochura do museu em espanhol (tinham acabado as cópias em português) o chama de museu de "el" mañana ao invés de "la" mañana. Vai ver tem na prefeitura algum fã de Gorillaz.

19.11.15

A utopia de mercearia

Os estragos do acidente industrial da Samarco, em Minas Gerais, que rapidamente foram reconhecidos como parte de um problema maior, com dezenas de barragens em condições semelhantes à que ruiu e os rios assoreados e poluídos em boa parte do território do estado, levaram muita gente a propor a tese de que é o capitalismo em si o culpado pela mineração predatória que acontece por lá. E, portanto, para resolver o problema da exploração predatória de recursos naturais - minerais em Minas, biológicos um pouco por toda a parte no Brasil - é necessário superar o capitalismo.  Ora, sem querer entrar nessa discussão (mas sou pessimista, e noto que exploração predatória de recursos naturais é algo que antecede, e muito, o capitalismo), acho que cabe observar que nem todo capitalismo é igual. O capitalismo brasileiro é de um tipo colonial, predatório e oligopolista, com relações intestinas com um estado brutal, cordial, e hierárquico. E bem, se "superar o capitalismo" é algo confortavelmente utópico, muito além do alcance de qualquer agente específico (imagino Dilma, encarnando a Dilma Bolada, tweetando "está decretado o socialismo em todo o território nacional") pelo que se pode bradar do conforto do Facebook sem imaginar jamais vê-lo realizado, corrigir, a partir da tragédia da Samarco, algumas das piores facetas do capitalismo brasileiro é algo que pode muito bem ser logrado.

Começando por baixo: o sistema de licenciamento e fiscalização ambiental no Brasil é, obviamente, longe de hiper estrito como frequentemente alegado, bastante leniente. Ou melhor: é esquizofrênico. Faz, em teoria, demandas até estritas, mas a falta de fiscalização (e inclusive de pessoal técnico para fiscalizar) significa, na prática, uma leniência extrema. E frequentemente ele é sensível aos argumentos da opção de saída, do "você não pode paralisar uma atividade que gera empregos." Ora, pode sim, se ela é ilegal. Por esse argumento, a polícia não poderia estourar uma boca de fumo. O que não significa sair fechando empresas a torto e a direito, mas significa, sim, parar qualquer coisa que represente risco inaceitável à população. No momento, estão em curso mais de uma tentativa de tornar esse sistema ainda mais fraco. Uma delas é o novo código mineiro, de interesse das mineradoras, inacreditavelmente defendido, entre outros, por Eduardo Cunha e Aécio neves usando como argumento o desastre da Samarco. 

Outra questão - passando da morte do Rio Doce pra morte do Xingu - é a conduta, tanto ao nível da legislação quanto ao da elaboração dos editais, do governo no que tange à implantação de obras de infraestrutura, especialmente as de eletricidade. Com a paranóia dupla da ameaça de faltar energia e da preocupação com a corrupção por empreiteiras, cronogramas curtos são estimulados, e não cumpri-los significa prejuízos maciços para as concessionárias. Pode ser isso, por exemplo, e não a mera cupidez irresponsável (sem descartar esta), que está fazendo com que o consórcio de Belo Monte esteja queimando as toras de sua área de desmate, ao invés de vendê-las. Toda represa hidrelétrica tem que desmatar a área que será morta pelas águas que sobem, caso contrário a vegetação, presa sob o lago, começa a gerar quantidades maciças de metano, resultando num lago morto e numa represa de energia renovável que emite mais gases de efeito estufa do que uma termelétrica do mesmo tamanho. No caso de Belo Monte, a floresta de transição amazônica que está sendo desmatada está coalhada de árvores nobres; florestas semelhantes são desmatadas para vender madeira o tempo todo. Mas a empresa, ilegalmente, porque o Ibama só autorizou a queimada de galhos e folhas, está queimando essa madeira ao invés disso. É só uma suposição, e com um bom planejamento provavelmente teria sido possível cumprir o cronograma e não queimar as toras, mas resta o fato de que a obsessão com resultados rápidos induz ao desleixo. O Estado, novamente, não é só omisso: ao demandar velocidade e ignorar o controle, é cúmplice.

Outra ainda: a legislação tributária brasileira, especificamente a lei Kandir - lei complementar 87 - não apenas não desestimula, como em diversos outros países, a exportação de produtos primários sem elaboração ou tratamento algum, como a estimula, isentando de impostos. E isenta a importação de bens de capital para a indústria mineradora. É isso mesmo: não apenas o Brasil permite a exploração maciça de minério como nem sequer ganha muito dinheiro com isso. As máquinas podem ser compradas alhures, os trabalhadores numa mina moderna são relativamente poucos, comparados à escala do empreendimento, não se paga imposto na exportação. E o problema ambiental disso é que, se não se paga imposto, e portanto o produto é muito barato de ser exportado como produto primário, não existe grande incentivo pra se maximizar a eficiência da mina. Por exemplo, tratando os rejeitos e recuperando a quantidade de ferro ainda bastante grande que existe neles, o que resultaria numa necessidade de barragens menor. O que seria uma boa, sem chegar a ser um bem puro e sem porém, solução  definitiva: os rejeitos mais tratados seriam mais tóxicos. Os rejeitos (muito mais tóxicos ainda, por serem de outros metais que não o ferro) da mina Gold King, no Colorado, cuja barragem rebentou em agosto deste ano, eram insignificantes em quantidade comparados aos da Germano, mas por serem mais tóxicos causaram um dano ambiental bastante significativo. Enfim, é mais um exemplo de como a legislação, no Brasil, o papel do estado, é antes apoiar e estimular a exploração em larga escala e predatória de recursos naturais do que limitar e conduzir esse processo. O Estado é um agente, um servidor da empreitada colonial, mais do que um Príncipe. 

Nem podia deixar de ser assim, dada a concentração de poder econômico existente no Brasil. Não só econômico - ortodoxias, ainda que radicais, predominam na maioria das áreas técnicas, cf. a manutenção dos juros punitivos pra impedir uma inflação que não é de demanda, há já umas duas décadas. Mas falemos do econômico: quando foi privatizada, a Vale do Rio Doce respondia por uma proporção bem menor da produção de minério de Minas Gerais do que hoje, quando a empresa e a economia de Minas se confundem. Foi absorvendo as concorrentes, cevada a créditos do BNDES (e à própria geração de caixa monstruosa, com a compra a preço camarada dos ativos durante a privatização), e sob um olhar benevolente do Cade. A ideologia de que devemos incentivar grandes empresas foi mais plenamente articulada sob a presidência de Lessa no BNDES, mas veio antes dele (a Ambev foi formada, com o beneplácito do banco de desenvolvimento, ainda sob FH) e sobreviveu à sua exoneração. Essa concentração de poder em uns quantos grupos empresariais significa, por sua vez, que o próprio Estado é vulnerável, por canais lícitos ou não, à sua pressão. Que governador cassaria a licença ambiental da Vale, com o ônus econômico que isso significa? E, claro, à medida que se desce as esferas de governo, a pressão vai ficando mais forte. O Estado brasileiro de que os médios e pequenos empresários reclamam é antes uma mãe para os grandes. Seria necessário, para melhorar não apenas as condições socioambientais de exploração mas a própria economia, reverter essa idéia de incentivo à formação de chaebols ou zaibatsus, e pelo contrário, começar a quebrar trustes. Até porque, convenhamos, se é pra fazer alguma comparação histórica, o Brasil se parece mais com os EUA do século XIX do que com o Japão e a Coréia do pós-guerra, em todos os sentidos. 

Um Sherman Act brasileiro pode não ser uma utopia. Mas que ajudaria, ajudaria. 


18.11.15

El Mayor del Mundo 2 - São Paulo Capital Mundial da Gastronomia

A idéia desta série é conferir as alegações recorrentes de que tal ou qual coisa é "a maior do mundo," que fazem com que os vizinhos do Brasil no continente riam muito do "país do más grande del mundo." As alegações são repetidas não só pelas pessoas, mas pela imprensa e pelos órgãos oficiais, sem nunca serem conferidas. Às vezes, por modéstia, se adiciona uma qualificação, temporal ou regional, virando o maior da América Latina, o maior do mundo à sua época, ou quevalhas. Para o número 2, algo que vejo volta e meia pipocar nos jornais da minha cidade de adoção:



São Paulo Capital Mundial da Gastronomia



Bem, primeiro: quem deu esse título a SP não foi alguma publicação ou concurso internacional, mas o próprio escritório de promoção de turismo do município. Não é exatamente uma fonte isenta... mas a pergunta, claro, é se o título se sustentaria de alguma forma, não importando que tenha sido autoconcedido. Então pra isso, acho, valeria tentar definir o que se entende por uma "capital gastronômica."

Se for pela quantidade de restaurantes de primeira linha, de elite, considerados dentre os melhores do mundo pelos gastrônomos, então... não. Assim, não apenas não, mas nem de longe. O guia Michelin diz que São Paulo tem uma dezena de restaurantes de uma estrela e um único (o DOM) de duas estrelas - o Rio tem cinco de uma estrela. Kobe, subúrbio de Osaca, tem mais estrelas Michelin. Paris tem quase uma centena. Tóquio tem 218 no total. É até fácil de entender isso: alta gastronomia depende de dinheiro, uma relação próxima da cultura nacional com comida, e ingredientes de qualidade. São Paulo até tem bastante dinheiro, mas muito pouco se comparada com as grandes cidades dos países ricos - Tóquio, em particular, tem um PIB comparável ao do Brasil inteiro, e Nova Iorque não fica muito atrás. Quanto à relação próxima da cultura local, qualquer visita à maioria dos restaurantes populares, ou mesmo mais sofisticados, na cidade vai ver é a repetição ad infinitum dos mesmos pratos, com os mesmos (e poucos) temperos. No Brasil metropolitano, se come arroz, feijão, e a proteína do dia, às quartas e sábados uma feijoada sem as carnes "esquisitas." E a maioria das pessoas acha qualquer coisa que fuja muito dessa toada esquisito, e esquisito é sinônimo de ruim.

Se for pela gastronomia de rua, se pode dizer a mesma coisa. No caso, o dinheiro é menos importante, mas a variedade de imigrantes de diferentes culturas pesa. E, de novo, se São Paulo nesse quesito se destaca no Brasil, quando comparada mesmo com uma cidade média de um dos países centrais, atratores de imigrantes, ou com uma cidade na África e na Ásia, com culturas diferentes vivendo mais ombro a ombro, perde feio. Há restaurantes libaneses excelentes, sem sombra de dúvida, e pizza idem. Mas também há coisas excelentes mundo afora, e a comida popular básica é aquele trio sem graça, hiper salgado e hipotemperado. Feijão, arroz, proteína animal. (O carioca que ainda sou se sente tentado a adicionar "e nem é o feijão certo," mas vou me conter.)

Conclusão: São Paulo poderia ser chamada, provavelmente sem isso ser muita bravata, de capital brasileira da gastronomia. Para almejar um título mundial parecido, ainda tem que comer - ou deixar de comer - muito feijão com arroz.

17.11.15

The Doce and the Xingu: a requiem for Brazil's rivers

Two rivers in Brazil have recently suffered a sort of death. They are not small rivers, by any standards: the Doce, which now lies buried under sixty-two million tonnes of ferruginous, toxic silt, is longer than Baudelaire's "Seine or the Green Loire," mightier than the Rhine, the, Colorado or the Dniepr, while the Xingu, almost thrice as long and ten times wider, flows into the Amazon with more water than the Ganges or the Yellow River. But their size is not the be-all and end-all of their importance to Brazil. In a sense, they can be said to have defined, in their aquatic persons and in their names, the country's twentieth century. In that sense, it is perhaps fitting that the 21st has seen their deaths.

Mud from Samarco's dam reaches a hydro station in the lower Doce


The Doce, or "Sweet" river's death has been catastrophic and surprising, or at least surprising to outsiders - environmental activists in the state of Minas Gerais might be horrified, but they are hardly surprised. An industrial accident:  a tailings dam at the São Germano mine burst, releasing its contents onto a tributary of the Doce, the Piracicaba river (a similarly-named river further south runs through the eponymous town, a haven for confederate refugees from the American Civil War). Besides the river, the village of Bento Rodrigues (pop. 600), and an unknown number of its residents, were buried under the mineral waste. It is, perhaps, hard to understand such a number - when one goes much beyond the dozens and scores of our direct experience, numbers acquire a phantasmagorical existence, and the average postindustrial citizen of the world has little experience with the massive scale of such things as open-cast mines and power stations.

The press - when it pays attention, for mining companies' pockets are deep - tries to make sense of it, as is its wont, with trucks, and cartloads. But there is a closer analogy: that with the discharge of great rivers themselves. The Amazon, the largest river in the world, flows through the Óbidos straits with 200.000m3 of water every second. Thus, the muddy mass that bore down on the villagers of Bento Rodrigues had, for those brief moments, the weight of several Amazons. Spread out over the Doce's valley, it still amounted to something closer to the river's full flood, at 2000m3 per second, than the 126m3 per second the drought-stricken Doce had in it at the time - a mass of water which certainly accounts, when it churned the riverbed, for the presence in downriver cities' drinking water of compounds which aren't present in the tailings of an iron mine, such as arsenic and quicksilver.

Yes, for the Doce was by no means pristine before this month's disaster, It runs through a landscape that has been amongst the world's most intensely mined since the XVIII century - indeed, through mines which gave the state of Minas Gerais its name, the "General Mines," The results of such mining have been paired with the result of extensive deforestation (and soil-handling practices developed in heavy European soils, for faint European sunlight, ill-suited to the light red soil and harsh sunlight of the tropics), of intensive urbanization without adequate sewerage, and of industrialization, to mean the Doce, like its neighbour the São Francisco, was already a sick river. A few days before the accident at the Germano mine, Governador Valadares, the largest city in the river, was already in a state of near-emergency thanks to the drought and the concentration of pollutants in riverwater.

Governments are no more immune to the power of mining money than the press, and there is reason to suspect foul play involved in the accident,which was, at first, talked about as if it were a natural disaster. For Brazilians, used to landslides and floods (most of the country's population dwells on hilly country that receives torrential tropical storms in summer), this was easy to understand; many still think rain and flooding are what happened. The Germano mine, of which only the smaller backup dams burst, is not generally talked about, only the dam itself. There is evidence of several warnings about all three dams' structural integrity, ignored by the state government when it authorized not only the mine's continual operation but for the dams to be piled higher and deeper with industrial tailings than they were built to contain. Samarco failed, as well, to implement a safety plan together with the village downstream. There were no alarms when the dam burst), only the sound of the rushing waters themselves. And even now, information about the main dam's chances of bursting, releasing almost ten times as much mud as has already been released, are few and far between, leaked rather than announced as they should be.



One of the construction sites of the Belo Monte dam
The Xingu's life and death both contrast greatly with the Doce's. Longer, coursing through a gentler, wider valley, the Xingu sits at the border between the mixed forest (which separates the Brazilian highlands' savannah from the Amazon forest) and the Amazon forest proper. The largest town on its banks could hardly be called a metropolis: it is Altamira, 140 thousand souls strong - 100.000 a scarce five years ago, before the Belo Monte dam's construction entered into its peak phase. The river, despite the impacts of deforestation and cattle raising, mining and agribusiness, remains wide enough to absorb all those. The land is still wild enough (though "progress" advances rapidly), its waters torrential enough. Here, on a river whose water can still be drunk without treatment, whose transitional nature means one of the highest fish biodiversities in the world, death comes slowly and announced, even celebrated by the authorities, rather than hidden. This death, too, has a date: December the 27th, 2012, when the Xingu was first torn away from its Volta Grande, or Big Bend, a scenario of rapids and remanses which served as a nursery for much of the Amazon's aquatic animals. into the dam's side channel.


Belo Monte from space. In black, to the right, the area which will become dry land.


Belo Monte's history has its roots in the military dictatorship which ruled Brazil from 1964 to 1985 with an iron fist, all the harsher when it closed around indigenous peoples and poor peasants. The dictatorship was obssessed with huge construction sites, whether those were useful (such as Itaipu, the dam in the south of the country which even today provides over 15% of its electricity) or not so much (such as the Rio-Niterói bridge, linking Rio with its eastern suburbs). Belo Monte's original plans, indeed, were of a far larger dam and even larger reservoir than the ones eventually implemented; the current dam is a "run of the river" dam, one which does not accumulate large quantities of water, with a reservoir just large enough to ensure an even flow. In a sense, the Xingu's problem is the opposite of the Doce's: thanks to the dam, silt will no longer flow from its upper reaches, nor will fish be able to migrate. It is a river cut in half. Almost as importantly, those 40.000 extra people, and the ones who will follow them, will intensify the proccesses by which the river's valley will become "developed." And development means wastes, chemical and human, means deforestation, means the ethnocide of traditional populations. Means death.

Thus, the deaths. But what is curious about those not quite simultaneous deaths is, as I mentioned at the beginnning of this post, that the two rivers could be said, in their names, to stand for two different conceptions of Brazil. First, the Doce: its name used to be in the full name of the corporation which killed it, Vale. Or, as it used to be called before privatisation, Companhia Vale do Rio Doce, the Company Of the Doce River Valley. First conceived by the American mogul Percival Faquhar, the company represented a dream of development - heavy, industrial development. Where there's muck there's gold, ran the old British adage. As recently as the early 90s, institutional propaganda for Vale still beamed about the "savage" indians whom it had to deal with before laying the tracks of the dedicated railway running from mines to port. Yes, for despite the building of some steelworks, and the name of the area along the river being "Metropolitan Area of the Steel Valley" (and not the Doce Valley), most of that iron was sent overseas. Development, wildly successful (Vale is the world's largest iron miner, and second largest mining company overall), remained focused on the, some would say predatory, exploitation of natural wealth, with minimal proccessing. And it remained being run from far away. Vale's offices are in Rio de Janeiro, the former national capital, not close to the mines and railways.

Here, too, the Xingu stands almost the opposite of the Doce. Because what the name brings to the mind is, rather, the work of the Villas Bôas brothers, explorers who told the wider world about the peoples who lived in the middle course of the Xingu (hundreds of miles upstream from Altamira and the Belo Monte dam). There, in 1961, a national indigenous park was created, 27.000km2, home to fourteen different ethnicities. Both the expedition and the park represented a sea change in the relationship between the Brazilian state and the land and its peoples, replacing predation with respect. A vision for the future which included pristine rivers instead of tailings dams.  It never became fully realised; today the Xingu park is an island in a sea of pastures full of cattle and soybeans planted by automated combines; during the dictatorship, not only were those incentivated by the central government, but even wilder visions of destruction were entertained. At one point, the Hudson Institute, a conservative American think tank, even proposed, and was taken up seriously, damming the Amazon itself - engineering on a truly titanic scale, which would create a sea larger than the Caspian in the middle of the South American continent. But the vision never went away either; Brazil's network of nature preserves and indigenous areas, to which were added in this century the areas occupied by maroon communities of ex-slaves, occupies a far larger proportion of the country's land than in any other large country.

The death-dirge of the two rivers, however, is a warning sign that Percival Faquhar's song is winning over the Villas Boas brothers'. Even now, there are several bills proposed at the national congress which aim to make it easier to mine despite the rights of traditional peoples and with less care for the environment; to limit the creation of new indigenous areas; to limit the creation of new nature preserves; to permit mining and other high-impact activities within preservations; to cut away swathes of preservations so new dams can be built in pristine areas of the Amazon. Those bills have the full or partial support of almost all relevant parties (there are 28 parties in Brazil's Congress, of which some ten have actual weight), including, for some of them, the centre-left Workers' Party, currently heading a tenuous government coalition - but if the government can broadly be said to be antienvironmental, the opposition is much worse.  The new, more corporation-friendly mining code, in particular, has been defended by both the Speaker of the House and the defeated presidential candidate from the rightwing PSDB using the Doce river disaster as a reason for its approval. That's not a typo.

It is hard not to see the death of those two rivers as a prefiguration of a more general massacre of all other rivers, from the sea-like Amazon to the smallest stream. But where there's life, there's hope: despite the best efforts of the organized press to make it a minor issue, public pressure has already resulted in Samarco being hit with the largest environmental fine ever, the largest preliminary bail ever, and quite likely paying for the entirety of the largest clean-up effort in the history of the country. If Brazil's rivers are to survive this century, we'll need that pressure. We'll need more Xingu parks. And, perhaps, we'll need less Vales, or, at least, less predatory ones. And for that, there's hope in the atomized, sometimes chaotic, even hysterical (there are people even now believing that a presidential decree freeing up social security monies for the disaster-struck somehow clears Samarco of any guilt) action of people on online social networks.

It's a sliver of hope. But it's hope.

12.11.15

Os presidenciáveis e a Samarco

Uma semana depois, temos  as seguintes declarações dos que queriam governar o Brasil sobre o maior desastre ambiental do século no país (bem, os três principais, e mais a Luciana Genro, que tem mais apelo nas chattering classes):

Dilma Vania Rousseff: 

Nós estamos empenhados, o governo federal e os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo, em, primeiro: responsabilizar quem tem de ser responsabilizado. Uma empresa privada grande, Samarco, que tem como sócios a Vale e a BHP Billiton.
As empresas têm de ser responsabilizadas por várias coisas. Primeiro: pelo atendimento emergencial da população. Segundo: pela busca de soluções mais estáveis, mais perenes. Terceiro: pela reconstrução e pela capacidade de resolver os problemas da vida de cada um afetado por esse desastre.
Mas também tem uma outra questão, que diz respeito ao fato de que várias legislações foram, na verdade, descumpridas. Daí porque nós demos uma multa preliminar.
O que nós podemos fazer, o governo federal, diante da legislação vigente? Primeiro, multas; segundo: indenização; terceiro: procurar também o ressarcimento dos custos de reconstrução e os custos que digam respeito a todas as atividades que foram cessadas ou interrompidas.


Aécio Neves 


Sem transformar isso em uma questão política, de apontar o dedo para A ou para B. É hora de todos nos unirmos porque a tragédia foi enorme e é preciso que nos precavamos para que outras tragédias como essa não ocorram mais em nosso Estado. Não ocorram mais no Brasil.

O importante é que o governo federal se sinta também responsável ou co-responsável para dar a essas famílias atingidas e que perderam absolutamente tudo a possibilidade de um recomeço


Marina Silva: 


Tragédia ambiental em Mariana (MG) acontece justamente no momento em que governo e poder econômico pressionam pela flexibilização das regras do licenciamento ambiental, que pretendem evitar desastres como esse.


Luciana Genro


Este texto deixa bem claras as responsabilidades e conivências políticas em relação à tragédia da cidade mineira de Mariana, que foi inundada pela lama do rompimento de barragens das mineradoras Samarco/Vale.
A privatização da Vale ocorreu no governo federal do PSDB e agora assistimos ao governador Fernando Pimentel, do PT, dar até entrevista coletiva dentro da mineradora e protocolar projetos para flexibilizar o licenciamento ambiental em Minas Gerais.

A tragédia estampa as seguintes notícias nos sites de seus partidos: 


PT:  na "manchete" principal,

Mineradora responsável por desastre em Minas será multada em R$ 250 mi, diz Dilma


PSDB: uma notinha com

Enquanto mineiros de Mariana tentam se recuperar de tragédia, governo federal corta gastos de prevenção de desastres

 Rede: numa notícia grande,

Rede se solidariza com as vítimas da mineração na região de Mariana-MG

 PSoL: numa nota média com

"

 


 

9.11.15

A realidade não é verossímil II - Egil Skallagrimsson, o pirata-poeta troll

A idéia dessa série não é falar de pessoas excepcionais, cuja vida daria um filme. É de falar de gente que, se fosse personagem de cinema, seria considerada um bando de apelão. Das pessoas que fizeram de verdade coisas que você, vendo na tela, falaria “ah vá.” Enfim, daquele povo que fez a ficha no RPG da vida roubando muito, roubando forte, roubando rude. O segundo personagem histórico da série foi um poeta viking lobisomem. Bem, a parte do "lobisomem" era só superstição. Acho.




Egil Skallagrímsson, pirata, poeta, e pioneiro, tinha esse nome de urro de guerra e, dizem, uma cara mais feia ainda. Seu avô, Kveldulf, era chamado de lobisomem; seu pai, apelidado Skallagrím (caveira sombria), por muito tempo desconfiou que o amado filho mais velho, Thorolf, era filho do padeiro, digo do irmão (também chamado Thorolf), por ser bonito. Não é só nisso que ele é bem diferente da estrela anterior; viveu até provectos 91 anos de idade, e isso durante a idade Viking, aquele pedaço da história escandinava quase pré-histórico, quase medieval, que veio logo antes da cristianização. Foi das poucas figuras que não eram reis, fundadores de dinastias de chefes, ou quevalhas a ganhar uma saga pra si, e provavelmente a melhor delas, escrita por Snorri Sturlusson. Do mesmo jeito, os poemas dele, registrados na saga e aqui e acolá em outros textos, são considerados os melhores poemas de skald que sobreviveram.

Não só a feiura dava a reputação sobrenatural à família do velho Kveldulf; eles também eram, reza a tradição, meio sami, o povo que cavalga renas no extremo norte e que os noruegos viam como feiticeiros. A mesma tradição diz que o menino cometeu o primeiro poema (infelizmente não registrado, então não dá pra saber se bom ou ruim) aos três anos de idade, e teve o primeiro acesso de fúria berserkr aos seis. Berserkr sendo os guerreiros doidos vikings que, depois de comer uns cogumelos daora, mordiam o próprio escudo de vontade de entrar na batalha, e lutavam sem sentir as feridas até morrer. A maioria, ao contrário de Egil, morria bem cedo, pelo motivo evidente de que, se você não tá prestando atenção nas próprias feridas, seus inimigos estão. O primeiro assassinato foi aos sete, de um moleque que roubou no xadrez; ao invés de berrar que fulano estava roubandooooo, Egil simplesmente voltou calmamente pra casa, pegou um machado, e partiu a cabeça do outro ao meio. Coisa de nada. Quando o pai do menino veio reclamar, Egil (de novo: sete anos) desafiou o coitado para um duelo. Ganho. Com o mesmo machado.

Mais tarde, já adolescente, o moleque embarcou na sua primeira viagem comercial, em que foram hóspedes de um dos intendentes reais na mesma época em que o rei estava naquela casa. O intendente, Bard, tinha deixado os hóspedes num celeiro, mas o rei mandou trazê-los para o salão, com comida e bebida àvonts. Egil, longe de agradecer pelo upgrade, começou a fazer poeminhas insultando Bard pela sua avareza com os hóspedes; esses estão registrados, e são das coisas mais antigas de poesia escandinava conhecida. O intendente e a rainha, putos com o adolescente idiota que reclamava e ainda bebia como uma esponja, resolveram envenená-lo; Egil pegou o copo envenenado, declamou poema em que se autoatribuía grandes poderes rúnicos, e apertou até rebentar. Daí começou sua reputação de feiticeiro, à época quase tão grande quanto as de poeta e pirata. Daí começaram também as aflições de Egil com a família real, já que o passo seguinte do moço foi matar Bard e a rainha, fugir na confusão, empacotar as próprias armas e levá-las a nado para uma ilha deserta próxima (no meio da noite, no outono, no norte da Noruega), e ludibriar os grupos de busca que foram enviados, matando os três que o encontraram e roubando seu bote para chegar à casa de um lorde seu amigo. Dessa primeira rusga régia, conseguiu se safar pagando uma multa às famílias dos defuntos.

Já mais velho, conseguiu acumular uma vasta carreira de pirata, poeta, e duelista em todo o mar do Norte, do círculo polar ártico à Cornualha. Duelar, aliás, era algo em comum entre o feíssimo Egil e a bela Maupin: os dois duelavam por dinheiro, e se o cliente não tiver dinheiro tudo bem, vai por lazer mesmo. Num desses duelos, numa pendenga jurídica, Egil reparou que o outro era melhor com espada e escudo, jogou ambos fora, agarrou o oponente, e mordeu-lhe fora a jugular.  Noutro, ele enfrentou outro tipo de duelista que existia na Escandinávia da época: uma espécie de ladrão legalizado. No holmgang, o duelo nórdico, quem ganhasse uma causa jurídica através do duelo podia ficar com os bens móveis do defunto, e alguns faziam disso uma carreira, desafiando gente relativamente fraca para duelos com motivos pífios ou inventados. Ljot o Pálido, conhecido como um berserkr, um comedor de cogumelos alucinógenos devoto de Odin Senhor dos Enforcados, desafiou um menino de família amiga de Egil, e ele, chamado, prontamente foi lá para a briga, rachou o coco do berserker em dois, e cavalgou em direção ao pôr do sol cantando “I’m a poor lonesome cowboy…” ok, talvez essa última parte seja o Lucky Luke.

Eventualmente, procurando riqueza nas terras cristãs da Inglaterra (ele até fez um contrato de “cristianismo prévio” para poder trabalhar para o rei cristão e carola Athelstane) Egil foi capturado pelas forças do rei norueguês Eric Machado Sangrento, que era tão simpático quanto seu apelido. Inimigo de Egil desde a adolescência, o rei já tinha resolvido cortar-lhe a carantonha feia pra longe dos ombros, quando recebeu de Egil e de seu amigo Arinbjorn, que também era amigo do rei, uma oferta irrecusável: um poema laudando o rei, em troca da cabeça do poeta e de seus companheiros, mais um barco. O poema, o “resgate da cabeça,” é uma das obras primas da poesia nórdica até hoje; tem 20 estrofes de oito versos cada. Liberado, Egil voltou para o acampamento do rei Athelstane, e entregou a maior parte do tesouro para o amigo, que em troca lhe deu a espada Dragvandil (entre os nórdicos da época, tudo tinha nome. A espada fulana, a mesa sicrana, o vaso de planta beltrano, “vou comer a sopa com a colher Thurfynnjanngar e me sentar depois na poltrona-do-papai Gylfagynnigjur.”) Pouco depois, com a morte de seu filho mais velho, Egil trancou-se no quarto sem comer nem beber nada senão algas e água do mar, por uma semana, até que a filha, postando-se ao lado para fazer a mesma coisa, conseguiu tirá-lo da depressão com a promessa de morrer junto. O brutamontes parou de besteira pra não por em risco a filha que ainda tinha, e se livrou da depressão escrevendo um poema.

Já no final dos seus noventa anos de vida, cego e com dificuldade em andar, Egil pensou num plano genial para usar todo o tesouro que tinha acumulado: levá-lo à assembléia do povo islandês, e jogar para a multidão, pra ver em que briga ia dar. O filho e a nora conseguiram impedir, mas poucos dias depois ele arranjou um escravo e duas mulas, foi até um pântano ermo, enterrou o tesouro e matou o escravo. Porque com isso, explicou o velho pirata enorme com cara de lobisomem pra quem ouvia, estaria semeando muitas brigas e vendetas futuras; a última ação registrada dele antes de morrer foi essa trollada épica. Só pra completar, quando o cemitério local foi renovado, um século mais tarde, acharam o esqueleto de um homem grande, com a cabeça muito maior que a dos outros, e que na testa tinha linhas onduladas; tentou-se rebentar a caveira com um machado, sem que os golpes fizessem mais do que embranquecer a parte atingida (hoje especula-se que ele tivesse alguma desordem regenerativa óssea, que também explicaria a feiúra, e a cegueira e frio na velhice). Em resumo: o homem não era exatamente um pirata troll, era um feiticeiro-poeta-pirata klingon.


Estatísticas de D&D: St 19 Dx 15 Co 19 Int 18 Wis 11 Cha 14

6.11.15

A realidade não é verossímil I - A Maupin: o que os três mosqueteiros queriam ser quando crescessem

A idéia desta série não é falar de pessoas excepcionais, cuja vida daria um filme. É falar de gente que, se fosse personagem de cinema, seria considerada um bando de apelão. Das pessoas que fizeram de verdade coisas que você, vendo na tela, falaria “ah vá.” Enfim, daquele povo que fez a ficha no RPG da vida roubando muito, roubando forte, roubando rude. A primeira delas é uma mulher do século XVII que era basicamente uma mistura do James Bond com o d’Artagnan, só que com mais mortes e sexo envolvidos. Bisexual. No século XVII. Com vocês, a incomparável Maupin. (Sim, eu sei que falar “incomparável” é coisa de locutor de circo, mas lê que cê entende.)




Julie D'Aubigny, aka Julie Maupin, aka La Maupin, era o que o D'Artagnan queria ser quando crescer. O gênero de capa-e-espada não é tão popular quanto já foi um dia, e os espadões medievais parece que substituíram os floretes, então não sei o quanto a referência faz sentido pra muita gente, mas... talvez lembrem do Dartacão. Enfim. Julie Maupin nasceu filha de um secretário do Conde de Armagnac em 1670 e morreu em 1707. Nesses 37 anos, foi espadachim, cantora de ópera, aventureira, e duelista profissional. Entre outras coisas.


O que é um duelista profissional?


É alguém que, quando você desafia um sujeito casca-grossa para um duelo até a morte, pode contratar para ir no seu lugar. Não é exatamente uma profissão segura... mas estamos pondo a carroça na frente dos bois. Julie D'Aubigny começou a ser diferente da maioria das mulheres abastadas da época, condenadas a uma vida acessória de bordados e fofocas, na infância - quando o velho Gaston D'Aubigny fez com que ela recebesse o mesmo tipo de educação que os meninos na casa do patrão, o conde de Armagnac, que era responsável pela educação dos pagens e escudeiros reais. O que quer dizer que a menina foi muito bem ensinada não apenas nas letras, matemática, e outros passatempos, mas também em coisas sérias: no labirinto de formalidades e informalidades rituais da Corte, na música, e a usar uma espada.


Aos quatorze ou quinze anos de idade - os relatos divergem - a menina seduziu o conde de Armagnac. Seduziu, é o que nos dizem, não "foi seduzida." E não, apesar de na época isso já ser jovem e não "adolescente," não era normal dizer que uma menininha de quinze anos de idade seduziu um dos maiores figurões do reino. Enfim, tornados amantes, o conde arrumou um marido para dar respeitabilidade à moça, o tal Maupin, de quem não se fala mais muita coisa nesta estória, porque afinal a única função dele era dar um motivo pra Julie acompanhar seu amante.


O romance não durou muito, e Sêo Maupin foi mandado de volta para a província. Já a Julie não curtiu muito a idéia de seguir junto, preferiu continuar em Paris. Vivendo de bicos como aulas de esgrima e a tal duelagem profissional. E, pra se divertir, sair na rua arrumando confusão e mais duelos, porque a vida só vale a pena ser vivida quando tem alguém tentando enfiar um espeto afiado de um metro e meio na sua barriga. Nessa vida pacata, ela encontrou um novo par romântico; outro valentão de rua, chamado Sérannes. Perseguidos pela polícia (aliás pela polícia inteira e pelo comissário de polícia, pessoalmente), foram obrigados a correr de Paris pra Marselha - na época a polícia não era exatamente nacional. Não tinha banco de dados. Nem a justiça; uma pessoa era criminosa em Paris mas em Marselha era livre.


Em Marselha, sem grana, sem tantos fidalgos bundões pra pedir socorro num duelo, o casal pra viver fazia apresentações de duelos e musicais, e às vezes das duas coisas juntas. Foi nessa época que, durante um duelo encenado, um mané da platéia gritou que era mentira que aquela criatura, vestida de homem e manejando uma espada, fosse mulher mesmo. Julie na mesma hora arrancou a camisa, mostrando os peitos, considerados depois os mais bonitos da França. (Outra coisa que ainda não existia: silicone.) Como ela cantava realmente muito bem, passou da estalagem ao teatro e à academia de Marselha (recém criada). Pouco depois, anunciou à platéia que tinha se cansado do Sérannes, e dos homens em geral. Rapidamente arrumou uma patricinha loira (pra contrastar com a morenice dela e compor quadro, nas próprias palavras), cujos pais horrorizados mandaram prum convento em Avignon. Sem problema; a Maupin entrou ela também pra ordem religiosa das carmelitas descalças, arrumou o cadáver de uma freira recém-morta, pôs na cama da menina, e tacou fogo no convento. Com o incêndio, o cadáver queimado e carbonizado foi identificado como se fosse da loirinha. Depois desse começo épico, no entanto, o relacionamento parece não ter dado muito certo; poucos meses depois, a menina apareceu, rejeitada, chamada de tediosa, e abandonada, na casa dos pais. E de volta pro convento. Pelo menos era uma construção novinha em folha...


Com o testemunho da ex-, e a animosidade dos pais influentes, a Maupin foi acusada de meio código penal e condenada pelo tribunal de Marselha. Nova fuga, de volta a Paris, cantando e fazendo acrobacia pelas tavernas e estalagens. Numa dessas, arrumou briga com um nobrezinho que se achava bom de espada e seus amigos; desarmou os três e enfiou a espada no ombro do garoto; arrependida, foi no dia seguinte perguntar como ele estava; novo romance alucinado e curto (ele foi mandado pra guerra na Alemanha). Próximo! Foi um cantor de ópera, na próxima cidade, Ruão. Com a ajuda do primeiro ex, o conde de Armagnac, e porque o rei quando leu as acusações todas se divertiu pra cacete, conseguiu acabar com as condenações e voltar a Paris, virando cantora de ópera. (Sim, no palco ela usava roupa de mulher; também, reza a lenda, só precisava ler uma vez qualquer libreto.) Aqui para a conta de amantes, porque ela basicamente passou o rodo na Ópera, atores, atrizes, e patronos.


Como ninguém era de ferro, e apesar do salário de cantora de ópera, a Maupin continou a fazer bico de duelista. Como duelo depois de um tempo fica chato, ela se especializou em duelos au mouchoir, ao lenço. Duelo "ao lenço" significa o seguinte: cada duelista pega uma ponta de um lenço de linho, mais ou menos de meio metro, com a mão esquerda. Na direita, uma espada um pouco mais curta que o florete, mas tão afiada quanto. Parabéns, toma aqui teu atestado de doido, e quem largar o lenço ou morrer primeiro perde. O fato do rei se divertir com as aventuras da menina salvou ela de ser presa por conta desse trampo, ou por conta da vez em que ela, num baile real, agarrou uma condessa e derrotou (não se sabe se matou; como o caso foi no Louvre, nem chegou a ir pro tribunal) os três pretendentes dela, que ficaram putos com a falta de vergonha. (E com o gosto amargo de chupar o próprio dedão). A justificativa do rei foi que a lei dos duelos proibia eles apenas aos homens, e ela era mulher.


Por via das dúvidas, a Maupin resolveu passear um pouco longe de Paris. Em andanças Europa acima e Europa abaixo, foi amante do eleitor da Bavária em Bruxelas, e quando ele, que era quem mandava no país (que ainda não se chamava Bélgica), resolveu terminar o namoro e ofereceu um saco de ouro como compensação, Julie não se fez de rogada: jogou-lhe o saco na cara (literalmente. Ouro é pesado. Dói.). Foi dama de companhia em Madri, e quando cansou da duquesa escrota fez-lhe um penteado com nabos na parte de trás, invisível ao espelho, sucesso absoluto entre os não-tão-amigos. Ameaçou de morte outra duquesa se se engraçasse com Albert (o nobrezinho dois parágrafos acima; ele morreu na guerra  antes que pudesse por em perigo a vida de uma bela dama, muito nobre da parte dele). E assim por diante, Europa afora, até morrer, aos 37 anos de idade, ainda cantora de ópera e espadachim. Provavelmente pra seduzir as anjinhas e cair na porrada com os querubins.

Quem quiser mais informações, tem nesses sites:


http://www.corrieweb.nl/amazon/historica8.htm
http://www.eldacur.com/~brons/Maupin/LaMaupin.html


Estatísticas de D&D: St 14 Dx 19 Co 16 Int 14 Wis 6 Cha 19