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25.7.14

O ovo da anfisbena

A Anfisbena é uma cobra lendária, descrita por Plínio, o velho, como tendo duas cabeças "como se não fosse suficiente uma para que se escoasse o veneno de seu corpo." Também estrela os bestiários do Borges e do TH White. Também poderia descrever a polícia brasileira, com alguma liberdade.  Afinal, a polícia que mata na favela é a que reprime na rua, como ficou demonstrado pela ópera bufa (libreto de Philip K. Dick) encenada no Rio de Janeiro, em que meia dúzia de pessoas que sonhavam em ser revolucionários e acreditavam que o Mujica do Facebook iria lhes salvar foram pintados como terroristas perigosos a partir do depoimento de outros tantos descompensados.  Bem, mais ou menos.

A polícia brasileira é das que mais matam no mundo. Possivelmente a que mais mata, em termos absolutos - é o tipo de estatística que é difícil de auferir com certeza, mas não se tem notícia de policiais tão violentos em nenhum país com tamanho similar ao nosso ou maior; os únicos concorrentes, no Caribe, Venezuela, e Colômbia, são países com população menor que a de São Paulo. Não que a polícia de, digamos, Mumbai seja gente boa, só mata menos do que a daqui. Os EUA, então, considerados o símbolo do Sistema duro por gente que ama e odeia isso, mata menos de um terço. Por que exatamente a polícia brasileira mata tanto é uma resposta difícil de se atingir, com uma longa história; tem a ver com a sociedade hierárquica e racista, com a guerra às drogas, com a legitimidade da violência, com a falta de supervisão, com a organização militar, com a desigualdade de renda... o que se sabe é que mata. Mata e tortura. Muito. Mas não mata, em hipótese alguma, de forma indiscriminada; pelo contrário, é de maneira extremamente discriminatória. Morre-se às pencas na favela da Rocinha; na Gávea, ali ao lado, cada assassinato é uma notícia de jornal.

E isso pode ser dito também da repressão às manifestações de classe média que vêm se estendendo desde Julho. A polícia que mata pode ser o mesmo organismo que reprime, pode ter os mesmos membros, mas definitivamente não é a mesma. Fosse a mesma, Sininho, Eloisa, Camila, e companhia  não estariam neste momento livres da cadeia, mas livres das amarras da carne (pra não falar dos destinos de Caio e Fábio, que mataram mesmo o cinegrafista Santiago); pela média estatística, nos dias que durou sua prisão foram 72 mortos pela polícia, sem uma sombra de gritos. Nem a repressão às manifestações é um desenvolvimento orgânico da violência genérica; pelo contrário, a polícia brasileira, por conta daquela hierarquia muito bem delimitada, reprime manifestações de gente branca, com acesso a advogado, à luz da imprensa, com infinitamente mais pudores do que reprime - bem, qualquer coisa na favela. Incluindo manifestações; é muito etnocentrismo da Vila Madalena achar que não havia manifestações constantes no Brasil antes de Junho do ano passado, é que o título da matéria era "moradores de lugar x queimam ônibus."

A repressão violenta às manifestações, antes de ser uma consequência natural da polícia militarizada de sempre, é uma importação de países com trabalho cotidiano de polícia muito mais civilizado, mas que desde os anos 90 têm militarizado e sofisticado o aparato de repressão a manifestações políticas, e a polícia em geral. As táticas como o kettling - encurralar ao invés de dispersar a manifestação - e o uso de câmeras para intimidar vieram diretamente da Europa, e foram ensinadas por instrutores ingleses, alemães, e americanos. O mesmo pode ser dito dos amplos poderes de vigilância eletrônica (aliás, ampliados no Reino Unido durante o desenrolar do Minority Report carioca). Se trata de uma luta específica contra um inimigo externo muitas vezes imaginário, e que não faz parte das práticas ensinadas e costumeiras; as práticas são sujas e antidemocráticas, mas não são algo que "nem a ditadura fez," mas sim algo que foi importado diretamente do que é considerado o estado da arte em democracia. Curiosamente, num paralelo próximo à importação de técnicas dos soldados anticoloniais do general Massu contra a luta armada, durante a ditadura. E até na mesma Manaus. De novo, se trata de ensinar a uma polícia e um exército toscos e brutos algo mais sofisticado.

E é aí que mora o perigo. Se no momento as duas modalidades de repressão caminham em estratos separados, com alvos separados, não há nada que impeça que, no futuro, elas se misturem, como o saber dos torturadores franceses e a visão do território como guerra se espalharam e tornaram assassina a polícia que já era brutal. Não foram os milicos que inventaram a polícia militar; ela existe desde os tempos coloniais, em paralelo à civil e diretamente subordinada a um executivo que se confundia com o poder militar; a separação dos poderes no Brasil, historicamente, foi mais entre civil e militar que a de Montesquieu. Mas foi com a repressão ao comunismo aprendida da CIA e da Legião Estrangeira, mais a guerra às drogas aprendida com o ATF, que ela mudou a marcha das mortes (e superou, como hoje supera em ordens de grandeza, a pistolagem interiorana que antes respondia pela maioria das mortes "de emboscada antes dos vinte.")

As chances de que isso signifique a migração das mortes e torturas do morro para o asfalto não é tão grande - acho, não tendo os poderes precognitivos da polícia fluminense; haverá as exceções dos exaltados, como aquele policial do vídeo que é puxado por seus próprios pares enquanto tenta chutar uma menina com um cartaz. Não estamos no mesmo contexto da ditadura, em que torturar e matar os rebeldes era parde explícita das aulas, chancelada por todos os níveis da hierarquia, e tem que ser dito novamente que o que a polícia faz não é porque os policiais são doidos, mas porque são legitimados e apoiados por governo e sociedade. Mas as chances de que isso represente um grau de repressão muito maior nas favelas são muito boas; mesmo em países com um grau de respeito aos direitos humanos e instituições de controle muito mais sólidos que os nossos, a Guerra ao Terror vem resultando num rosário de presos. Dilma, no medo de que a Copa desse errado, ajudou a chocar o ovo da anfisbena.

11.7.14

Triumph des sambens

A se julgar por parte dos comentários que circulam pelas bocas e teclas em torno da Copa, cada resultado de partida de futebol - aziago ou alvissareiro - seria a representação das qualidades essenciais do povo representado, sejam elas suas virtude e força ou o contrário. Se James fez mais gols que Neymar, é porque o povo colombiano tem uma paixão alegre e saudável pelo futebol, ao contrário do Brasil corrupto e assassino. Se a Argentina foi à final, é porque a raça, a garra, a determinação de um país cujo zagueiro dá o cu pela pátria brilharam. Se a Holanda massacrou a Espanha, é a vitória da alegre e maconheira Holanda sobre o vetusto império espanhol. Se o Brasil venceu Camarões, é porque os africanos - sim, os africanos, é um país só - são crianças inconsequentes, e talvez não seja inteiramente fortuito que o único exemplo pró-brasileiro que achei ter tido do outro lado um time africano. E por aí além, num festival de essencialização, de metonímia, de investimento simbólico, que deve ter rendido sorrisos a Leni Riefenstahl no inferno. Sim, até o inferno tem folga em dias de jogo da Copa.

Até aí, é do jogo, com o perdão do trocadilho. O esporte coletivo internacional tem sido visto por esse prisma desde os seus primórdios, e mesmo o doméstico; Barcelona catalã contra Real Madrid franquista, Flamengo favelado contra Fluminense pó de arroz... a lista é grande. Mas uma dessas manifestações do triunfo da vontade, e uma que deixaria Leni Riefenstahl particularmente sorridente, é a que reza que a vitória acachapante da Alemanha sobre o Brasil seria o triunfo da "seriedade alemã contra a malandragem brasileira." Não difere do resto na sua essencialização de um fato passageiro; afinal, mesmo que acreditássemos que os resultados no futebol demonstram a força de um povo, o Brasil ainda tem cinco copas contra três da Alemanha, que até Domingo quando muito diminui a liderança. Nem a maior população explica tudo, já que o Brasil só superou a Alemanha nesse quesito em 1965, sem nem levar em conta o dinheiro. Também não difere da maioria das outras na hierarquia de povos presente nessas essencializações. Mas talvez seja particularmente forte como triunfo do estereótipo sobre a realidade.

A idéia de uma América do Sul lúdica e uma Europa operosa não resiste às estatísticas de trabalho. Fora as horas trabalhadas - que sempre foram muitas -a América do Sul é cada vez mais operária, e a Europa cada vez menos; um continente industrializa-se e o outro se transforma numa economia de serviços. Mas deixemos isso pra lá, que falar em quem tem mais "seriedade" é coisa pra quem acredita naquelas essências nacionais todas. Vamos reduzir o campo de visão e olhar só para os times. Alguém vê na Alemanha um time sério e vetusto e no Brasil um alegre e festeiro? Eu vejo o contrário, uma Alemanha caindo na gandaia tanto dentro quanto fora do campo, numa ilha tropical, cantando hino do Bahia, fazendo amizade com meio mundo. E um Brasil sisudo, concentrado na fria Teresópolis, sem festa, sem sexo na concentração (e não estou falando do David Luiz não querer, mas de a ninguém ser permitido), sem brincadeira. Um Brasil felipônico, mortalmente sério, que não estava ali pra brincadeira nem dentro nem fora do gramado. Batalhador, com vontade de vencer e não de jogar bonito. Aliás, insuspeito de jogar bonito. Se alguém ganhou, foi justamente a malandragem alemã contra a seriedade brasileira, até em termos bem práticos - o excesso de peso dado à partida, de pressão, resultou no pânico brasileiro. E talvez essa derrota devesse levar ao questionamento da sisudez como da CBF. Sonho, eu sei.

No futebol, claro, essa idéia do vencer e pra isso deixar de lado a alegria vem do acaso de 1982; fora dele, ignoro. Quem sabe veio do futebol mesmo. Mas difunde-se cada vez mais o par de idéias que exalta os vencedores e a seriedade, como se só o que importasse na vida fossem a seriedade e a vitória, como se elas tivessem um valor moral próprio, e esse valor é um valor do peso, da densidade, que rechaça a leveza como leviandade, que significa levar tudo a sério, que vê em cada adversário inimigos a serem derrotados com choro e ranger de dentes. No fundo, tanto o vencedorismo quanto a sisudez são facetas de uma apologética do peso, vitoriana, quase o contrário da leveza com que sonhava Ítalo Calvino em suas Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Vitoriana ou stalinista, tanto faz. E estridente, infinitamente estridente. Engana-se quem pensa em vitorianos calados; é a grande era do jornalismo no Tennessee, das jeremíadas, da indignação... o peso só é calado nas próprias fantasias de gravitas romana, a pedra de moinho guincha mais que a roda de brincar. E a alegria - como ser alegre, num mundo de tanta desgraça? Como admitir a alegria, se há coisas importantes em jogo? A alegria é um pecado, um aleijão moral, que nos atrapalha na corrida rumo à sonhada vitória, rumo à utopia, ao paraíso (e ao gozo de ver os inimigos no inferno). O reino de meu pai é outro, mas pelo menos o cristianismo sempre teve festas; hoje o feriado atrapalha o faturamento da Fecomércio em dois ponto quarenta e oito bilhões de bruzudangas.

Se Paolo Rossi em 1982 realmente impulsionou essa corrida ao peso, desconheço. Mas tomara que os sambantes - e vitoriosos -  Klose, Kroos, Özil, Schweinsteiger, Neue, Götze, Gmbh tenham conseguido deixar a lição oposta.


PS Orlando - no livro da Virginia Woolf - via no século XX a libertação dos grilhões vitorianos. A segunda é de lei?

8.7.14

Neymar e o pleonasmo

Neymar, melhor jogador do Brasil na Copa, foi tirado dela por uma falta carniceira que lhe rebentou um pedaço da coluna. Não foi o primeiro jogador do mundial a ir parar no hospital, nem seu agressor foi punido sequer com um cartão amarelo, deixando claro o quanto o sistema (tanto as regras formais quanto as instruções e entendimentos informais) de arbitragem da FIFA é inútil. Zuñiga, o carniceiro escolhido para bater na Colômbia, explicou que "poderia ser ele, poderia ser o James, é assim mesmo." Mas ao invés de se ater à necessidade de reformar as regras para preservar o futebol dos Neymares e James contra os Zuñigas e Fernandinhos, o que se vê muito é gente da torcida antibrasileira (incluídos os muitos brasileiros que a integram - desconheço se o fenômeno é comum mundo afora) explicar que "Neymar não era nenhum santinho," ou que "o Brasil também é violento." Ora, se isso é, rigorosamente, verdade - e, de novo, precisa ser impedido, porque prefiro ver Neymar e James jogarem do que Zuñiga e Fernandinho, porrada já tem seus eventos esportivos - também é rigorosamente irrelevante. Nem pode-se argumentar que o animus de falar da violência brasileira esteja falando em "consequência" e não no "bem-feito,"  porque não há nenhum indício de que o técnico da Colômbia, Pekerman, ou Zuñiga tenham ficado dias insones olhando para as maldades de Felipão e Neymar, e jurado vingar suas vítimas. Felipão e Pekerman sabem bem que o jogo violento funciona, e por isso mandam bater; e mandariam mesmo que a seleção adversária fosse de quakers.

Se a vítima é boazinha, pura, ou inocente, isso não importa pra que a agressão seja um absurdo, não muda sua condição de vítima. "Vítima inocente" não devia ser um pleonasmo enfático, como fica sendo quando seguimos o raciocínio de que só pode ser vítima o inocente, nunca o culpado. Neymar poderia ter quebrado mil colunas que ter a sua quebrada não seria apenas uma justa paga. Há oito anos atrás, escrevi coisa parecida, quando da iteração daquele ano da longa marcha descivilizatória de Israel.

Normalmente, eu odeio comparações entre Israel e os nazistas. Não gosto de "ironias e lições da história" reducionistas, e essa em particular tem um odor a anti-semitismo que, por mais leve que seja, fede. O anti-semitismo, em parte graças à contribuição israelense fornecendo desculpas para ele, nunca esteve tão morto quanto, na ressaca do pior crime da história, gostaríamos de supor que ele estivesse, afinal.

Mas a comparação é inevitável, quando Israel estabelece uma razão de 1:10 a ser observada em termos de prédios atingidos por bombas. Isso é retribuição coletiva, sem nenhuma "razão militar" (sem entrar no mérito do caráter esfarrapado das justificativas militares para bombardeios aéreos). E fala em prédios por pura hipocrisia, para não falar em gente. Aliás, a razão è obviamente muito maior do que dez pra um, já que a densidade populacional nos subúrbios de Haifa é muito menor do que no Líbano, e as bombas israelenses muito mais destrutivas do que os foguetes do Partido de Deus.

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O mencionado Hezbollah não é flor que se cheire, de jeito nenhum. É uma milícia violenta, racista e fundamentalista religiosa, no pior sentido. Mas essa é uma característica comum das vítimas de massacres: se recusam a ser puras e angélicas. Não eram anjos as vítimas de Pol Pot, Hitler, Stálin, Mao, Saddam, ou de qualquer outro massacre. Condenar o crime, felizmente, pra qualquer pessoa decente, não depende dessa pureza, e para qualquer pessoa inteligente não implica em inventá-la. Quem insiste nessa falta de pureza para exonerar os criminosos lembra um advogado de estuprador dizendo que a vítima usava saia curta. (Outro exemplo comum são aqueles articulistas que "denunciam" que índios também guerreavam, ou que africanos fizeram a sua parte no tráfico atlântico).

É claro que uma joelhada nas costas não se compara a bombardear cidades inteiras - nem tampouco a violência em campo de Neymar ou Felipão se compara a explodir praças. Deixemos Neymar ser vítima quando é, por mais que não gostemos do Brasil, da seleção, da CBF, do próprio Neymar, ou o que seja. 

PS Absolutamente nada contra quem torce a favor de outro time que não o do país aonde nasceu. Pessoalmente, queria que não houvessem mais países... 

PPS Particularmente horrível-engraçado na história toda foi a guerra de comentaristas de página na Internet - essa espécie estranha de hominídeo - em torno da foto da filha de Zuñiga, com uns desejando "currar a filha desse preto safado" e outros respondendo aos primeiros com "só podia ser brasileiro, vergonha desse país," numa espiral de ódio que poderia facilmente suprir energia ao mundo sem precisar de Belo Monte nenhuma.

2.7.14

Mais médicos mais caros, ou, de como a desigualdade é um problema financeiro

Em meio à disputa sobre o programa Mais Médicos, uma das questões mais citadas pelos defensores do programa foi o alto valor das bolsas pagas aos médicos participantes, chamados pelos seus detratores de "escravos." Com efeito, as bolsas que o governo pagará aos médicos situariam alguém entre os 3% mais ricos dos assalariados (caso representassem salário bruto, e não líquido). Mesmo o quinhão do custo dos médicos cubanos que ficará com os próprios, de 4.000 reais, situariam os cubanos entre os 10% mais ricos. Entretanto, não se viu, numa cena política pródiga de jacobinos, ninguém que considerasse esses valores demasiado altos, senão para ironizar os médicos que os desprezavam. Não deixa de ser curioso compará-los com os valores pagos a médicos que praticam a residência obrigatória no serviço público em outros países: eles vão de nada (Itália) a um pouco menos da renda per capita (Reino Unido), em geral. No Brasil, a "escravidão" vale dez rendas per capita.

Não se trata, aqui, de enfatizar o quão generosa é a oferta do governo (e registre-se que em outros países com serviço compulsório especificamente voltado para áreas carentes, a oferta pode ser muito mais generosa em outros quesitos, como preferência para especialização). O governo não está sendo generoso, mas oferecendo o mínimo possível. Isso porque o tal salário de dez mil reais líquidos não é significativamente superior à renda média dos egressos de medicina - dependendo de a quem você pergunta, entre 20% e 50% maior. Os médicos são considerados arrogantes e insensíveis por não se candidatarem ao Mais Médicos, mas você aceitaria ganhar 20% a mais do que ganha em São Paulo para trabalhar num lugar em que só se chega em lombo de burro ou canoa? O comportamento dos conselhos de medicina é francamente deplorável, mas essa equação simples, feita pela maioria dos médicos que nem protagonizaram cenas de racismo explícito para ser contra, nem se juntaram ao programa, é bastante razoável. A pergunta poderia ser "por que no Brasil dez  rendas per capita são insuficientes, e no Reino Unido menos de uma é razoável, como salário para um médico ou outro profissional qualificado"? E o que creio é que a resposta a essa pergunta é necessária para qualquer projeto de Brasil, e que ela é simples. Chama-se desigualdade.

É necessária porque o ponto em comum de todas as múltiplas e díspares reinvindicações que foram às ruas em Junho de 2013 é que não querem algum tipo de estado minarquista, mínimo, em que os fracos não têm vez e o darwinismo social impera. Pelo contrário, mesmo aqueles que reclamavam de altos impostos reinvindicavam, ao mesmo tempo, sistemas públicos de saúde e educação melhores. Ora, a não ser que a idéia seja reinivindicar uma versão contábil de "sejamos realistas, reinvindiquemos o impossível," essa conta não bate, nas condições atuais - a não ser que a idéia seja o "desenvolvimento" como panacéia, e bem, mesmo descontando aqueles dos marchantes que são contra o desenvolvimentismo, os que são a favor tampouco sabem de verdade como conseguir esse mítico desenvolvimento rápido. São poucos os países que conseguiram pular de patamar de renda, e a maioria em situações de crise aguda infinitamente mais graves do que as do Brasil de hoje e/ou com a ajuda direta das potências centrais, por suas próprias razões geopolíticas. E com enorme sacrifício do povão enquanto o desenvolvimento não chegava, no mais das vezes.

Então, se desenvolvimento é algo que não se gera apenas com vontade, e se o que se quer é mais dinheiro pra saúde e educação, precisamos de mais impostos sobre o dinheiro que há, ou mais eficiência ao gastá-los, ou os dois. E eficiência no gasto não é algo que depende apenas da qualidade ou da honestidade de nossos gestores públicos; como tanta coisa, depende também de fatores estruturais e infraestruturais. Os estruturais, como a péssima lei de licitações, são relativamente mais fáceis de enfrentar. Com os infraestruturais, voltamos ao problema do primeiro parágrafo. Médicos são apenas uma das diversas categorias de profissionais altamente educados necessárias para um estado moderno funcionar, principalmente na provisão de saúde e educação aos seus cidadãos (em outros campos do estado, os profissionais não são menos educados, mas são em menor número). E profissionais desse nível de educação ocupam um local proporcionalmente alto na escala de rendimentos. O resultado inevitável - poder-se-ia quase dizer aritmético - disso é que quanto mais ampla essa escala, quanto maior a desigualdade, mais caro é o Estado para um mesmo patamar de serviços. A desigualdade brasileira torna o Estado menos eficiente, faz com que seja mais difícil prover saúde e educação. Não é apenas uma questão de justiça.

Não é um processo muito complicado. A expectativa de renda de uma pessoa não é ilimitada (como proposto por algumas escolas econômico-filosóficas) mas, empiricamente, ancorada numa noção de renda justa que tem muito a ver com a renda observada do mesmo estrato social. Médicos, advogados, e professores, e outros profissionais, parte de uma elite social por um zilhão de motivos (inclusive a reprodução intergeneracional de seu capital social ostensivamente meritocrático), e tem suas expectativas de renda balizadas pelo seu entorno. O Estado, portanto, (como qualquer empregador) a longo prazo terá o salário médio de seus profissionais qualificados puxado para a média dos salários de elite, ou bem terá que conviver com a insatisfação crônica desses profissionais e, no limite, o abandono por parte deles das carreiras públicas. E agora vou além do que falei sobre o desenvolvimento: não adiantaria de nada aumentar o PIB, porque esse balizamento é em boa parte feito comparativamente, e não em termos absolutos. A vida material de alguém de classe média-média hoje é bem mais abastada do que a de alguém mais rico em 1900; isso não muda suas classificações. A desigualdade brasileira baliza expectativas de desigualdade também - é a indignação com um professor ganhando o mesmo salário de alguém com menos educação, frequente mesmo entre quem se considera de esquerda. Aliás, fazendo uma enquete informal com amigos que se definem como de esquerda ou até socialistas, a diferença de renda considerada razoável entre um professor universitário e um de 1º grau é de 3x, e entre este e um faxineiro, de outras 4x. Dá mais do que a diferença entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres na maioria dos países do mundo (entre o prof. universitário e o faxineiro), e coisa próxima à diferença entre os 20% mais ricos e a média da população (entre o prof. universitário e o escolar) no Brasil. Mesmo acha errada a diferença de renda baliza suas expectativas de renda nela.

Vamos fazer uma simplificação tosca para a conta de como isso afeta as finanças públicas ficar mais fácil: Falemos de duas nações, Laputa e Houyhnhn. Em ambas, os funcionários públicos qualificados - médicos, professores universitários, promotores, auditores, e quejandos - representam 5% da população. Em ambos, os governos têm como prioridade o bom funcionamento dos serviços públicos, então o salário médio de seus funcionários está em linha com suas expectativas, isso é, em linha com os rendimentos do quintil (20%) mais rico da população. A diferença é que em Laputa, o quintil mais rico ganha 3,6x mais que o PIB per capita, enquanto em Houyhnhn, mais igualitária, o quintil mais rico ganha apenas 1,7x o PIB per capita. Pois bem, para fazer funcionar a contento sua máquina pública, Laputa gastará 18% do PIB só em salários de funcionários qualificados, enquanto Houyhnhn gastará 8,5% do PIB com os mesmos funcionários. Laputa e Houyhnhn são os nomes de países visitados por Gulliver, mas os dados de desigualdade são os do Brasil e do Japão, respectivamente.

Vamos lá: o simples fato de a desigualdade ser menor no Japão faz com que seu governo, para prover os mesmos serviços aos cidadãos, possa ter uma carga tributária 10% menor. O equivalente a desonerar o tal "setor produtivo" de toda a arrecadação direta estadual brasileira. Não é uma discussão pequena, em tempos em que hospitais erguidos não funcionam por falta de médicos, e universidades novas não conseguem achar professores. Na mesma tradição da direita que, previdente, pretende reformar a previdência pensando no longo prazo, os efeitos de uma redução de 10% na carga tributária no longo prazo não podem er subestimados. Sem coração de banana, sem questões abstratas de justiça, sem o medo de madame Guilhotina que já anima alguns megaempresários mundo afora. E quais seriam as ferramentas apropriadas para diminuir a desigualdade? Oras, impostos sobre a renda e patrimônio das pessoas físicas. Não é uma discussão teórica, é o que foi feito no mundo pós-guerra, e funcionou. É simples e calculável. O imposto sobre grandes fortunas, um aumento do IRPF, do imposto sobre a herança, do IPTU, não são apenas jeitos de se arrecadar mais dinheiro para o governo, mas jeitos de fazer esse dinheiro render mais.

30.6.14

Gaiola Dourada II, a revanche redux

Nova atualização nas crônicas de duas mortes anunciadas:

A ALERJ já divulgou o projeto da sua nova e milionária sede na Cidade Nova. (Sim, a Câmara E a ALERJ tão se mudando.) É um bunker com uma "praça cívica" isolada do povo em cima junto com um espigão genérico (parece pastiche dos do Banco Central). O povo poderia, glória a Deus!, assistir os procedimentos num telão.

E, claro, assim como a Gaiola Dourada, o Palácio Tiradentes vai virar museu de si mesmo. Nossos políticos devem se achar muito interessantes pra merecerem tantos museus de si.

Atualização, de novo:

Já está fechado o acordo, a Câmara vai pra Cidade Nova, a nova sede custará centenas de milhões.  Só a área custou quase 70.  Tá rica, essa Câmara do Rio de Janeiro.


ATUALIZAÇÃO

E lá se vão os vereadores, rumo à nova Gaiola Dourada.

Curioso que os vereadores de partidos de esquerda, que deveriam se preocupar com o desmonte das relações do povo com a Cinelândia - e aí incluo PT, PSoL, e PDT, que todos usaram muito a praça - ficaram mudos ou (no caso do Eliomar e Cinco) participaram ativamente do processo de nomadismo.

O post que se segue é de 27 de Abril de 2010 - de outra legislatura municipal, portanto.

A câmara municipal do Rio de Janeiro ganhou, quando construída, o apelido de "gaiola dourada," porque custou algo como quatro vezes o preço de seu vizinho Theatro Municipal. Está superlotada apenas porque há assessores demais, mas mesmo assim o preço do prédio vizinho alugado é relativamente baixo, e situa-se em localização conveniente tanto para suas excelenças quanto para o povão. (A praça da Cinelândia, em frente, é local favorito para carros de som e manifestações.)

Pois bem, tem vereador espertinho falando em mudar a câmara de vereadores para a Zona Portuária. Além da mágica palavra "revitalização," a alegação é de que, com isso, a gaiola dourada viraria um museu da cidade. Noves fora que a prefeitura já tem um espaço perfeitamente adequado para transformar em museu da cidade, para o qual até o projeto já foi feito, que é o Cassino da Urca.

Imagino que uma das características mais importantes do novo prédio seria uma garagem integrada e nenhuma praça na frente, dando aos vereadores a privacidade de não ter que se constranger por manifestações populares...

Achava que o caso tivesse morrido. Pois qual não foi minha surpresa ao constatar que segue firme e forte.

Não confundir, por favor, com a idéia similar esposada pela Assembléia Legislativa estadual, que queria ir para o prédio da Bolsa (o mais caro da cidade), chegou a decretar desapropriação, e agora pretende, como a Câmara, ir para algum lugar na Zona Portuária.

A necessidade de errar, o wanderlust, é um traço admirável. Pena que, no caso dos vereadores e deputados do Rio, saia um pouco caro...

3.6.14

O primo rico e o primo pobre

A Folha de São Paulo fez uma reportagem, ou antes um editorial camuflado de reportagem, sobre como muitos dos alunos da USP poderiam sim pagar mensalidade. Pelos planos do jornal, bem básicos (quase conta de guardanapo),  37% dos alunos continuariam sem pagar nada, 18% pagariam meia mensalidade ("receberiam bolsa," diz o jornal), e 45% pagariam a mensalidade integral. Curiosamente, essas proporções se mantêm nas duas opções de valor da mensalidade propostas pelo jornal, apesar de serem derivadas da renda familiar; não fica claro como alguém que ganha 5 salários mínimos, ou 3800 reais, pagaria a meia mensalidade "para custear a USP só com mensalidade," que seria de 2950.  E esse é só o ponto mais bizarro do editorial, que no geral é bem fraco.

É curioso, então, que a reação, principalmente de esquerda, ao editorial, ao invés de comentar suas fraquezas, questionar seus pressupostos e metodologia bem falhos, comparar com os prós e contras de processos similares ou opostos mundo afora... seguiu linhas de argumento que pareciam as dos opositores às cotas - para falar de outra defesa de privilégios em universidades públicas brasileiras. Sim, privilégio. Quem estuda em universidades públicas está, em termos de capital educacional (o do Bourdieu), nos 3% mais privilegiados da população brasileira. Outros 9% estudam em universidades particulares, dos quais a proporção das PUCs e outras decentes é mínima. Vá, dos 4% mais privilegiados. A Folha quer que 2/3 desses 3% paguem como aquele outro 1%; são os 2% do topo. Quase o 1% do Occupy Wall Street. 

"Ah, mas eu não me sinto privilegiado, na verdade eu sou pobre, quando muito classe média, mal dá pra viver" é um discurso que os brancos contra cotas também usam. "Vai criar duas classes de cidadãos" idem. A defesa de um princípio universal como defesa do privilégio - neste caso, a universalização do ensino ao invés do sonho do Martin Luther King - é quase gozada, quando, de novo, 3% da população - e países que cobram mensalidade, simbólica ou não, têm muito mais gente se formando na faculdade. Diacho, a Bolívia tem quase o triplo de universitários, proporcionalmente, que o Brasil, e uma proporção destes em universidades públicas também maior. "Ah, a Folha não sabe, mas tem pobres na USP sim," ué, a Folha sabe, e previu que estes não pagassem a mensalidade. É que nem "ah eu preferia cotas socioeconômicas," um desconhecimento do argumento adversário.*

Mas tem um argumento que foi lançado que é o melhor, e que é o mais relevante, não só sobre o debate acerca do financiamento das universidades públicas em geral, mas sobre o editorial da Folha em particular: por que começar a progressivização (ô palavrão) da tributação brasileira pela universidade? O Brasil tem um IRPF relativamente baixo, tem um ITR que arrecada várias vezes menos do que o IPTU da cidade de SP, que por sua vez arrecada menos que o ISS. Tem dos menores impostos sobre a herança do mundo. Não tem o imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição. Então por que começar pelo aluno da universidade? A resposta parece ser porque a idéia não é a justiça social, apesar de esta ser invocada como reforço, mas sim o estado pago pelo serviço. Taxa de água, de luz, de lixo, mensalidade universitária, pagamento direto como o de qualquer serviço privado, e não a partir de um imposto universal. E com, obviamente, uma progressividade muito mais restrita; todo mundo com renda maior do que 7600 pagaria o mesmo valor para a mensalidade da USP, nem mais nem menos. Nem sequer a mesma alíquota, o mesmo valor. É uma visão profundamente privatizante,** neoliberal (usado aqui no seu sentido próprio, e não como sinônimo de reaça) do Estado e da sociedade. Não quero dizer que eles querem privatizar a USP, mas sim que a visão é a do Estado como um fornecedor de serviço - e do valor da universidade apenas como valor direto prestado ao estudante que tem x% mais renda esperada, ou no registro de patentes no caso da pesquisa. Aliás, a Folha continua sendo contra cotas, raciais ou socioeconômicas, para as universidades estaduais paulistas, chegando a chamar o Alckmin de populista, pra deixar bem claro que não se preocupa lá muito com a igualdade de condições dos estudantes pobres. 

Virando ao outro lado a comparação com os debates contra as cotas, o aluno da USP rico da Folha é primo do branco pobre dos anticotas. Os ricos não pagarem o que devem só é problema na hora de defender a mensalidade (e com isso uma espécie de privatização branca), nunca na hora de defender impostos (pelo contrário, a Folha denunciou até a revisão de IPTU do aliado Kassab), assim como o branco pobre, quando não é um preterido pelas cotas raciais, é um vagabundo que faz filho pra ganhar bolsa-família. Não se trata de negar que os dois existam - no Brasil, a maior parte da população branca, ou quase-branca, é pobre, e conheci vários alunos da UFRJ que reclamavam de não poderem estacionar seus carros no campus. É que os que os invocam como retórica, como a Folha, nunca lembram deles no resto do tempo. 

Ou isso ou houve um golpe na redação da Folha, que se tornou um jornal socialista ou pelo menos social-democrata, e logo veremos uma defesa de IGF, aumento de ITD, aumento de IPTU, de IRPF, e de toda a sopa de letrinhas. (Fazendo minha própria conta de guardanapo, um aumento do imposto sobre a herança paulista para níveis similares ao do imposto sobre a herança federal americano custearia a USP, sozinho.***) E uma defesa das cotas.




*As cotas raciais no Brasil (ao contrário da Índia, por exemplo) só existem dentro das cotas socioeconômicas. Na UERJ, a primeira a instituir o sistema, são 45% das vagas, e você precisa ter renda familiar per capita inferior a R$960, E ( ser negro (20%) OU estudante de escola pública (20%) OU filho de policial, bombeiro, ou agente penitenciário (5%)).

**Tem também a teoria de conspiração segundo a qual a desgraça da gestão do Rodas foi, como as das estatais federais na época em que Serra foi ministro do Planejamento, deliberada, pra justificar a privatização literal. Mas não precisa ser malícia, mera incompetência, etc...

*** Hoje, a 4% de máximo, arrecada 1,2bn. O ITD federal americano (a maioria dos estados adiciona o seu próprio, o que lá não é considerado dupla tributação) tem limite de 40%. Sendo pessimista, 6bn por ano com o aumento. No Rio, segundo estado mais rico, são 400M todo ano atualmente, com os mesmos 4%. 2bn seria o dobro da Uerj...

28.3.14

Shop till it drops


O imobilismo dos governos frente ao aquecimento global, criticado até por alguém tão insuspeito de esquerdismo quanto o ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe, que dizia que as convenções internacionais sobre o tema soltavam mais carbono do que poupavam, pode ser considerado estranho por alguém que considere o problema sério, e a maioria dos líderes globais atores racionais. Afinal, o aquecimento global é um problema irreversível, e capaz de trazer sérios danos para a humanidade, e isso não é, fora da política, mais algo tão controverso assim. Pode-se vislumbrar o quanto o aquecimento global antropogênico já passou de controvérsia científica a base de conhecimento aceita, mais do que pelos resultados dos painéis de investigação da ONU sobre o tema, pela preocupação que grupos arquiconservadores como as companhias de seguros demonstram. E no entanto os governos parecem continuar mais preocupados em assegurar suas próprias fontes de combustível fóssil do que em reduzir o uso global, ou em garantir que a redução global seja um fardo que caia antes nos outros do que em si. Mesmo quando, como é o caso da Rússia ou do Brasil, o espaço para redução das emissões de gases de efeito estufa (GHG) com pouco ou nenhum impacto na economia é imenso.

Parêntesis: Digo danos à humanidade, e não ao planeta, porque vamos ser sinceros: o planeta não está em perigo. A Terra é uma bola de seis sextilhões de toneladas de ferro, com 12,800km de diâmetro, e para destruí-la, só com um impacto várias ordens de grandeza maior do que a Lua de repente caindo em cima (bem, ok, tem outras possibilidades neste site). Mesmo se você quiser dizer "acabar com a vida na terra," aquela película de musgo que adere à fina pele de pedra na bolona de ferro, é altamente improvável que consigamos detonar essa. A extinção em massa antropogênica é forte, é quase equivalente ao evento K-T que acabou com os dinossauros, mas ainda empalidece quando comparada com a do final do Permiano; e mesmo essa não chegou nem perto de acabar com a vida observável em registros fósseis da terra. E a não observável - bactérias e archaea - é muito mais importante e resistente. Existem archaea vivendo a vários quilômetros de profundidade na crosta terrestre, em temperaturas superiores a 200ºC; você acha que uma mudança pequena na composição da atmosfera, ou na temperatura média da superfície, incomoda eles?

A tragédia dos comuns, anunciada

Sinceramente, mesmo acabar com a humanidade é improvável. E aí está , creio, uma das chaves para a explicação sobre a ineficácia das reuniões sobre aquecimento global, a pragmática: o aquecimento global não tem efeitos homogêneos, globais. Tem efeitos diferentes em cada lugar e pra cada pessoa, que dependem em boa parte dos recursos de que já se dispõe, como outros impactos espalhados, além da situação geográfica. Ainda que deixemos o planeta uns 12º mais quente, com mares ácidos de carbono, há uma boa possibilidade de que as entidades políticas atuais sobrevivam (fora Bangladesh, que afunda). Veremos muita guerra - aliás, elas talvez já tenham começado: há quem atribua aos efeitos do aquecimento global a guerra civil síria - mas boa parte delas sobrevivem; algumas, como Canadá e Rússia, até lucram com a abertura de áreas hoje ocupadas pelo permafrost à agricultura permanente. Com transmissão intergeneracional de riqueza intacta, ou seja, os que mais lucram hoje vão continuar lucrando amanhã. Baixas - serão, provavelmente, muitas - se concentrarão entre os mais pobres, especialmente os bangladeshis e outros que tiveram a desgraça de nascer, além de pobres, tropicais e costeiros (digamos, os habitantes da costa norte brasileira) ou em regiões áridas (digamos, os habitantes do nordeste).

Ajudando os governos no esforço de passar a bola adiante, culpando uns aos outros pela situação, está o fato de a avaliação da "culpa" individual pela emissão de GHG estar bem longe de ser algo simples ou fácil.  Por exemplo, enquanto normalmente se avalia os processos produtivos para estabelecer a emissão de cada país, a National Geographic resolveu avaliá-la pelo lado do consumo. Afinal, se a União Européia aumentou sua eficiência energética, isso foi em parte graças à terceirização da produção. Um europeu está "gastando" menos energia quando compra uma TV não porque a produção de monitores na Europa ficou muito mais eficiente, mas porque sua TV e seu carro podem vir da China e do Brasil, mas quem está tendo o benefício (uma TV nova) com esse gasto de energia é o europeu.

A distorção aí presente ajuda os governos europeus a apresentarem uma autoimagem como ecologicamente responsáveis que, paradoxalmente, faz com que os europeus se sintam pouco culpados pela situação da biosfera, como aponta a Economist. É uma estratégia mais tortuosa do que a dos políticos americanos ou canadenses, que simplesmente negam de pés juntos que haja qualquer problema, e talvez mais eficaz: assumindo-se que há problema e imputando, injustamente, esse problema primariamente aos terceiromundistas, pode-se impor acordos que deixam uma maior proporção do ônus de resolver o problema nas mãos do terceiro mundo. (Ajuda, também, a superestimar a possibilidade do ganho tecnológico, mas disso podemos falar mais abaixo.) Não se trata, aqui, de dizer que o peso do Brasil é menor que o da Bélgica, mas de apontar que a comparação é descabida: o que vale é o peso por cidadão, e a Bélgica é do tamanho do Rio Grande do Sul, não do Brasil. A idéia de se congelar as emissões chinesas enquanto as européias baixariam para dois terços do que são significaria congelar uma disparidade econômica entre a China e a Europa.

O problema de apontar essa hipocrisia, claro, é tomar cuidado para não se unir às vozes dos políticos dos tais países de terceiro mundo que, por sua vez, utilizam-se da hipocrisia européia como justificativa para fazer qualquer barbárie ambiental (e algumas barbáries sociais junto, que ninguém é de ferro). Nessa roda de empurra, todos sabem que o problema - quer creiam nele ou não - pode ser atribuído aos outros, e que, principalmente, quanto mais dinheiro se acumular antes da bomba explodir, melhor a posição relativa da sua pólis, e portanto sua capacidade de lidar com a mudança, e portanto o poder e riqueza dos estratos superiores aos quais um político pertence; a posição absoluta de miséria de seus concidadãos, quanto mais a dos cidadãos alheios, é uma consideração menor. Por conta dessa ciranda, as apostas já são de que vamos ultrapassar nosso "orçamento" de emissões de carbono máximas para um mundo reconhecível em mais de cinco vezes.

A traição aos letrados

No Brasil, em particular, mas um tanto em todo o mundo, a própria situação da "pólis" brasileira parece às vezes secundária para nossas elites, até mesmo a situação de longo prazo de seus próprios grupos; em parte devido à continuada percepção de questões ambientais como "sociais," isso é pertencentes ao âmbito da caridade e não do planejamento duro, econômico, prático. A questão ambiental é vista como a proteção da beleza cênica ou de pobres coitados ameaçados, e não como algo que possa influenciar questões realmente importantes, um preconceito comum que se aplica também a questões sociais e é perfeitamente capaz de ignorar petabytes de dados concretos. Nesse sentido, a questão ambiental demonstra mais do que outras como o termo "tecnocracia" merece uma qualificação: ela não é o governo do conhecimento, da techné em sentido amplo, mas acima de tudo o governo de uma técnica específica, que é o conhecimento burocrático, e que não é diretamente ligado à ciência moderna, ao contrário do apregoado. Não custa lembrar, afinal, que a tecnocracia nasce, na China T'Ang, com exames em que se avaliava o conhecimento pelo examinado de cânones ortodoxos, e nem a noblesse d'état deixou de existir. Ele pode até utilizar-se de instrumentos científicos - da estatística bayesiana à química metalúrgica - mas apenas instrumentalmente, e não como referendadores de tomadas de decisões. As anedotas atribuídas a Lina Bo Bardi ou Niemeyer, de que teriam desenhado prédios "impossíveis" e deixado aos engenheiros a tarefa de realizá-los mesmo assim, seriam corriqueiras para um tecnocrata.

Mais do que isso, o estranhamento entre os tecnocratas e o conhecimento científico dá espaço para a classificação de senso comum desses conhecimentos científicos ou paracientíficos entre os "sérios" e os "acessórios." Estes, a engenharia, a economia, os úteis para se lucrar; aqueles, todos os outros; e mesmo a engenharia e a economia só são considerados úteis enquanto não apontarem questões embaraçosas. É esse o verdadeiro significado da divisão, por exemplo, entre economistas ortodoxos e heterodoxos; "heterodoxo" poderia muito bem também ser chamado de "herege. Felizmente não se instalam autos-da-fé na Unicamp... A partir da divisão entre as ciências dignas de atenção principal e acessória, se estabelece escalas diferentes de esforço para lidar com cada uma por parte do governo, tanto em consideração quanto em recursos. Por isso o dinheiro para se lidar com aquecimento global ou outras questões ambientais é considerado muito se for uma fração do destinado a "incentivar a economia" ou construir e manter rodovias: trata-se de escalas diferentes. Ao mesmo tempo, a desvalorização da ciência "contra" convive com uma hipervalorização da ciência "a favor," com a crença numa solução salvadora simples - compartilhada, diga-se, pelas esquerdas altermundialistas. A diferença é a base dessa solução salvadora simples, se tecnológica ou social. Exemplo de solução salvadora simples de base tecnológica para um problema complexo: varrer os oceanos.  Exemplo de solução salvadora simples de base social: o crescimento zero (curiosamente, aplicado indistintamente a economias européias e africanas, apesar do abismo de diferença de nível de vida).

O problema é global, mas é tanto mais grave em países em que se somam o relativamente pequeno peso do setor científico (o Brasil, por exemplo, que tem menos graduados universitários que a Bolívia proporcionalmente, e menos pesquisadores do que a Argentina) e uma infecção particularmente grave do setor público pelo paradigma da "gestão" administrativa de faculdades de MBA. O pequeno número de pesquisadores permite que cada disciplina ou órgão de pesquisa e planejamento seja tanto mais insular e afenso ao diálogo - é o exemplo da EPE, que continua aliada ao setor empreiteiro-elétrico na grita por mais hidrelétricas com reservatório na Amazônia, inclusive utilizando-se da chantagem ambiental da energia nuclear, apesar de ser imprevisível e provavelmente pior a quantidade de água disponível no futuro, piorando as contas das tais usinas. Pior, apesar de as usinas poderem, ao incentivar o desmatamento, piorar a situação das usinas existentes. E a hipertrofia da "gestão" significa uma hipertrofia do tipo de pensamento que é pouco permeável a críticas.

A luz no fim do túnel é do trem de carga

Há quem aposte numa campanha popular - o "ultraje moral" - contra a indústria de petróleo, assim como funcionou a campanha contra o Apartheid. Descreio, apesar de acrescentar um exemplo mais próximo e importante, o da campanha contra o tráfico de escravos na Inglaterra, que atingia diretamente os lucros dos grandes negociantes domésticos, vistos como uma das bases da economia, ao contrário do Apartheid, que caiu de maduro e era política de um paiseco estrangeiro para a maioria dos que protestaram.  Não temos, ainda, nosso panfleto do navio Brooks. Talvez nunca o tenhamos, já que o imperativo de não causar aquecimento global não é tão simples quanto o de não escravizar teu semelhante ou não instituir um regime racista. Ter carro é causar aquecimento global? E viajar de avião? E ter um smartphone?

Mais ainda: o imperativo moral contra o sofrimento causado pela escravidão é relativamente simples. O aquecimento global é um dado científico complexo e de difícil compreensão para quem não tem uma educação razoável nas ciências da natureza; até mesmo aqueles que fazem campanha para mitigá-lo frequentemente se confundem sobre sua natureza e seus efeitos. Assim, volta e meia se utiliza de uma onda de calor ou catástrofe climática como "prova do aquecimento global" (um evento isolado não quer dizer nada, nunca). Assim, há quem atribua terremotos ao aquecimento global (não tem absolutamente nada a ver). E, assim, a indústria dos combustíveis fósseis, a mais rica e poderosa do mundo, mais do que qualquer governo, pode patrocinar a obfuscação que faz com que o aquecimento global possa parecer algo contestado entre cientistas, e não amplamente aceito. Às vezes o tiro sai pela culatra, como no estudo encomendado pelos irmãos Koch, mas em geral funciona a estratégia de obfuscação, com direito às pessoas  se perguntando se não há interesses financeiros "dos dois lados" (como se o Greenpeace e a Exxon fossem atores equivalentes).

Mesmo a idéia de que os governos "farão algo" em resposta a uma catástrofe definitivamente ligada ao aquecimento global antropogênico é, talvez, demasiado otimista. Ela assume que o "fazer algo" será algo pragmático, no sentido próprio da palavra e não naquele sentido que políticos geralmente utilizam. Pelo contrário, acho que o o "fazer algo" consistirá de megaprojetos, daqueles que envolvem megalucros para corporações igualmente mega, com consequências imprevistas e geralmente indesejadas, e talvez resultados pífios. Coisas como derramar milhões de toneladas de limalha de ferro no mar para estimular o fitoplâncton, ou instalar espelhos gigantes no espaço, ou criar vastos painéis de absorção química de carbonoTadinhos dos bangladeshis.

PS: se quiser saber em quanto você contribui para a destruição da metade de baixo da humanidade, aqui tem uma calculadora de pegada de carbono razoáverzinha.

PPS: sem dúvida, o aquecimento global antropogênico é apenas a mais urgente e imprevisível das catástrofes globais antropogênicas. Também tem a desertificação das terras, a acidificação, plastificação, e eutrofização dos oceanos, a extinção de diversidade natural e humana, a deposição de metais na atmohidrobiosfera, e outras menos cotadas.

13.3.14

The Monkey's Paw

Katia Abreu pede igualdade de tratamento a índios e fazendeiros no conflito de terras.

Jagunços espancam indígenas e incendeiam aldeia.


Cuidado com o que deseja, Katia Abreu




Part I
Without, the night was cold and wet, but in the small parlour of Laburnum villa the blinds were drawn and the fire burned brightly. Father and son were at chess; the former, who possessed ideas about the game involving radical chances, putting his king into such sharp and unnecessary perils that it even provoked comment from the white-haired old lady knitting placidly by the fire.
"Hark at the wind," said Mr. White, who, having seen a fatal mistake after it was too late, was amiably desirous of preventing his son from seeing it.
"I'm listening," said the latter grimly surveying the board as he stretched out his hand. "Check."
"I should hardly think that he's come tonight, " said his father, with his hand poised over the board.
"Mate," replied the son.
"That's the worst of living so far out," balled Mr. White with sudden and unlooked-for violence; "Of all the beastly, slushy, out of the way places to live in, this is the worst. Path's a bog, and the road's a torrent. I don't know what people are thinking about. I suppose because only two houses in the road are let, they think it doesn't matter."
"Never mind, dear," said his wife soothingly; "perhaps you'll win the next one."
Mr. White looked up sharply, just in time to intercept a knowing glance between mother and son. the words died away on his lips, and he hid a guilty grin in his thin grey beard.
"There he is," said Herbert White as the gate banged to loudly and heavy footsteps came toward the door.
The old man rose with hospitable haste and opening the door, was heard condoling with the new arrival. The new arrival also condoled with himself, so that Mrs. White said, "Tut, tut!" and coughed gently as her husband entered the room followed by a tall, burly man, beady of eye and rubicund of visage.
"Sargeant-Major Morris, " he said, introducing him.
The Sargeant-Major took hands and taking the proffered seat by the fire, watched contentedly as his host got out whiskey and tumblers and stood a small copper kettle on the fire.
At the third glass his eyes got brighter, and he began to talk, the little family circle regarding with eager interest this visitor from distant parts, as he squared his broad shoulders in the chair and spoke of wild scenes and doughty deeds; of wars and plagues and strange peoples.
"Twenty-one years of it," said Mr. White, nodding at his wife and son. "When he went away he was a slip of a youth in the warehouse. Now look at him."
"He don't look to have taken much harm." said Mrs. White politely.
"I'd like to go to India myself," said the old man, just to look around a bit, you know."
"Better where you are," said the Sargeant-Major, shaking his head. He put down the empty glass and sighning softly, shook it again.
"I should like to see those old temples and fakirs and jugglers," said the old man. "what was that that you started telling me the other day about a monkey's paw or something, Morris?"
"Nothing." said the soldier hastily. "Leastways, nothing worth hearing."
"Monkey's paw?" said Mrs. White curiously.
"Well, it's just a bit of what you might call magic, perhaps." said the Sargeant-Major off-handedly.
His three listeners leaned forward eagerly. The visitor absent-mindedly put his empty glass to his lips and then set it down again. His host filled it for him again.
"To look at," said the Sargeant-Major, fumbling in his pocket, "it's just an ordinary little paw, dried to a mummy."
He took something out of his pocket and proffered it. Mrs. White drew back with a grimace, but her son, taking it, examined it curiously.
"And what is there special about it?" inquired Mr. White as he took it from his son, and having examined it, placed it upon the table.
"It had a spell put on it by an old Fakir," said the Sargeant-Major, "a very holy man. He wanted to show that fate ruled people's lives, and that those who interfered with it did so to their sorrow. He put a spell on it so that three separate men could each have three wishes from it."
His manners were so impressive that his hearers were conscious that their light laughter had jarred somewhat.
"Well, why don't you have three, sir?" said Herbert White cleverly.
The soldier regarded him the way that middle age is wont to regard presumptuous youth."I have," he said quietly, and his blotchy face whitened.
"And did you really have the three wishes granted?" asked Mrs. White.
"I did," said the seargent-major, and his glass tapped against his strong teeth.
"And has anybody else wished?" persisted the old lady.
"The first man had his three wishes. Yes, " was the reply, "I don't know what the first two were, but the third was for death. That's how I got the paw."
His tones were so grave that a hush fell upon the group.
"If you've had your three wishes it's no good to you now then Morris," said the old man at last. "What do you keep it for?"
The soldier shook his head. "Fancy I suppose," he said slowly." I did have some idea of selling it, but I don't think I will. It has caused me enough mischief already. Besides, people won't buy. They think it's a fairy tale, some of them; and those who do think anything of it want to try it first and pay me afterward."
"If you could have another three wishes," said the old man, eyeing him keenly," would you have them?"
"I don't know," said the other. "I don't know."
He took the paw, and dangling it between his forefinger and thumb, suddenly threw it upon the fire. White, with a slight cry, stooped down and snatched it off.
"Better let it burn," said the soldier solemnly.
"If you don't want it Morris," said the other, "give it to me."
"I won't." said his friend doggedly. "I threw it on the fire. If you keep it, don't blame me for what happens. Pitch it on the fire like a sensible man."
The other shook his head and examined his possession closely. "How do you do it?" he inquired.
"Hold it up in your right hand, and wish aloud," said the Sargeant-Major, "But I warn you of the consequences."
"Sounds like the 'Arabian Nights'", said Mrs. White, as she rose and began to set the supper. "Don't you think you might wish for four pairs of hands for me."
Her husband drew the talisman from his pocket, and all three burst into laughter as the Seargent-Major, with a look of alarm on his face, caught him by the arm.
"If you must wish," he said gruffly, "Wish for something sensible."
Mr. White dropped it back in his pocket, and placing chairs, motioned his friend to the table. In the business of supper the talisman was partly forgotten, and afterward the three sat listening in an enthralled fashion to a second installment of the soldier's adventures in India.
"If the tale about the monkey's paw is not more truthful than those he has been telling us," said Herbert, as the door closed behind their guest, just in time to catch the last train, "we shan't make much out of it."
"Did you give anything for it, father?" inquired Mrs. White, regarding her husband closely.
"A trifle," said he, colouring slightly, "He didn't want it, but I made him take it. And he pressed me again to throw it away."
"Likely," said Herbert, with pretended horror. "Why, we're going to be rich, and famous, and happy. Wish to be an emperor, father, to begin with; then you can't be henpecked."
He darted around the table, pursued by the maligned Mrs White armed with an antimacassar.
Mr. White took the paw from his pocket and eyed it dubiously. "I don't know what to wish for, and that's a fact," he said slowly. It seems to me I've got all I want."
"If you only cleared the house, you'd be quite happy, wouldn't you!" said Herbert, with his hand on his shoulder. "Well, wish for two hundred pounds, then; that'll just do it."
His father, smiling shamefacedly at his own credulity, held up the talisman, as his son, with a solemn face, somewhat marred by a wink at his mother, sat down and struck a few impressive chords.
"I wish for two hundred pounds," said the old man distinctly.
A fine crash from the piano greeted his words, interrupted by a shuddering cry from the old man. His wife and son ran toward him.
"It moved," he cried, with a glance of disgust at the object as it lay on the floor. "As I wished, it twisted in my hand like a snake."
"Well, I don't see the money," said his son, as he picked it up and placed it on the table, "and I bet I never shall."
"It must have been your fancy, father," said his wife, regarding him anxiously.
He shook his head. "Never mind, though; there's no harm done, but it gave me a shock all the same."
They sat down by the fire again while the two men finished their pipes. Outside, the wind was higher than ever, an the old man started nervously at the sound of a door banging upstairs. A silence unusual and depressing settled on all three, which lasted until the old couple rose to retire for the rest of the night.
"I expect you'll find the cash tied up in a big bag in the middle of your bed," said Herbert, as he bade them good night, " and something horrible squatting on top of your wardrobe watching you as you pocket your ill-gotten gains."
He sat alone in the darkness, gazing at the dying fire, and seeing faces in it. The last was so horrible and so simian that he gazed at it in amazement. It got so vivid that, with a little uneasy laugh, he felt on the table for a glass containing a little water to throw over it. His hand grasped the monkey's paw, and with a little shiver he wiped his hand on his coat and went up to bed.
Part II
In the brightness of the wintry sun next morning as it streamed over the breakfast table he laughed at his fears. There was an air of prosaic wholesomeness about the room which it had lacked on the previous night, and the dirty, shriveled little paw was pitched on the side-board with a carelessness which betokened no great belief in its virtues.
"I suppose all old soldiers are the same," said Mrs White. "The idea of our listening to such nonsense! How could wishes be granted in these days? And if they could, how could two hundred pounds hurt you, father?"
"Might drop on his head from the sky," said the frivolous Herbert.
"Morris said the things happened so naturally," said his father, "that you might if you so wished attribute it to coincidence."
"Well don't break into the money before I come back," said Herbert as he rose from the table. "I'm afraid it'll turn you into a mean, avaricious man, and we shall have to disown you."
His mother laughed, and following him to the door, watched him down the road; and returning to the breakfast table, was very happy at the expense of her husband's credulity. All of which did not prevent her from scurrying to the door at the postman's knock, nor prevent her from referring somewhat shortly to retired Sargeant-Majors of bibulous habits when she found that the post brought a tailor's bill.
"Herbert will have some more of his funny remarks, I expect, when he comes home," she said as they sat at dinner.
"I dare say," said Mr. White, pouring himself out some beer; "but for all that, the thing moved in my hand; that I'll swear to."
"You thought it did," said the old lady soothingly.
"I say it did," replied the other. "There was no thought about it; I had just - What's the matter?"
His wife made no reply. She was watching the mysterious movements of a man outside, who, peering in an undecided fashion at the house, appeared to be trying to make up his mind to enter. In mental connexion with the two hundred pounds, she noticed that the stranger was well dressed, and wore a silk hat of glossy newness. Three times he paused at the gate, and then walked on again. The fourth time he stood with his hand upon it, and then with sudden resolution flung it open and walked up the path. Mrs White at the same moment placed her hands behind her, and hurriedly unfastening the strings of her apron, put that useful article of apparel beneath the cushion of her chair.
She brought the stranger, who seemed ill at ease, into the room. He gazed at her furtively, and listened in a preoccupied fashion as the old lady apologized for the appearance of the room, and her husband's coat, a garment which he usually reserved for the garden. She then waited as patiently as her sex would permit for him to broach his business, but he was at first strangely silent.
"I - was asked to call," he said at last, and stooped and picked a piece of cotton from his trousers. "I come from 'Maw and Meggins.' "
The old lady started. "Is anything the matter?" she asked breathlessly. "Has anything happened to Herbert? What is it? What is it?
Her husband interposed. "There there mother," he said hastily. "Sit down, and don't jump to conclusions. You've not brought bad news, I'm sure sir," and eyed the other wistfully.
"I'm sorry - " began the visitor.
"Is he hurt?" demanded the mother wildly.
The visitor bowed in assent."Badly hurt," he said quietly, "but he is not in any pain."
"Oh thank God!" said the old woman, clasping her hands. "Thank God for that! Thank - "
She broke off as the sinister meaning of the assurance dawned on her and she saw the awful confirmation of her fears in the others averted face. She caught her breath, and turning to her slower-witted husband, laid her trembling hand on his. There was a long silence.
"He was caught in the machinery," said the visitor at length in a low voice.
"Caught in the machinery," repeated Mr. White, in a dazed fashion,"yes."
He sat staring out the window, and taking his wife's hand between his own, pressed it as he had been wont to do in their old courting days nearly forty years before.
"He was the only one left to us," he said, turning gently to the visitor. "It is hard."
The other coughed, and rising, walked slowly to the window. " The firm wishes me to convey their sincere sympathy with you in your great loss," he said, without looking round. "I beg that you will understand I am only their servant and merely obeying orders."
There was no reply; the old woman’s face was white, her eyes staring, and her breath inaudible; on the husband's face was a look such as his friend the sargeant might have carried into his first action.
"I was to say that Maw and Meggins disclaim all responsibility," continued the other. "They admit no liability at all, but in consideration of your son's services, they wish to present you with a certain sum as compensation."
Mr. White dropped his wife's hand, and rising to his feet, gazed with a look of horror at his visitor. His dry lips shaped the words, "How much?"
"Two hundred pounds," was the answer.
Unconscious of his wife's shriek, the old man smiled faintly, put out his hands like a sightless man, and dropped, a senseless heap, to the floor.
Part III
In the huge new cemetery, some two miles distant, the old people buried their dead, and came back to the house steeped in shadows and silence. It was all over so quickly that at first they could hardly realize it, and remained in a state of expectation as though of something else to happen - something else which was to lighten this load, too heavy for old hearts to bear.
But the days passed, and expectations gave way to resignation - the hopeless resignation of the old, sometimes mis-called apathy. Sometimes they hardly exchanged a word, for now they had nothing to talk about, and their days were long to weariness.
It was a about a week after that the old man, waking suddenly in the night, stretched out his hand and found himself alone. The room was in darkness, and the sound of subdued weeping came from the window. He raised himself in bed and listened.
"Come back," he said tenderly. "You will be cold."
"It is colder for my son," said the old woman, and wept afresh.
The sounds of her sobs died away on his ears. The bed was warm, and his eyes heavy with sleep. He dozed fitfully, and then slept until a sudden wild cry from his wife awoke him with a start.
"THE PAW!" she cried wildly. "THE MONKEY'S PAW!"
He started up in alarm. "Where? Where is it? What’s the matter?"
She came stumbling across the room toward him. "I want it," she said quietly. "You've not destroyed it?"
"It's in the parlour, on the bracket," he replied, marveling. "Why?"
She cried and laughed together, and bending over, kissed his cheek.
"I only just thought of it," she said hysterically. "Why didn't I think of it before? Why didn't you think of it?"
"Think of what?" he questioned.
"The other two wishes," she replied rapidly. "We've only had one."
"Was not that enough?" he demanded fiercely.
"No," she cried triumphantly; "We'll have one more. Go down and get it quickly, and wish our boy alive again."
The man sat in bed and flung the bedclothes from his quaking limbs."Good God, you are mad!" he cried aghast. "Get it," she panted; "get it quickly, and wish - Oh my boy, my boy!"
Her husband struck a match and lit the candle. "Get back to bed he said unsteadily. "You don't know what you are saying."
"We had the first wish granted," said the old woman, feverishly; "why not the second?"
"A coincidence," stammered the old man.
"Go get it and wish," cried his wife, quivering with excitement.
The old man turned and regarded her, and his voice shook. "He has been dead ten days, and besides he - I would not tell you else, but - I could only recognize him by his clothing. If he was too terrible for you to see then, how now?"
"Bring him back," cried the old woman, and dragged him towards the door. "Do you think I fear the child I have nursed?"
He went down in the darkness, and felt his way to the parlour, and then to the mantlepiece. The talisman was in its place, and a horrible fear that the unspoken wish might bring his mutilated son before him ere he could escape from the room seized up on him, and he caught his breath as he found that he had lost the direction of the door. His brow cold with sweat, he felt his way round the table, and groped along the wall until he found himself in the small passage with the unwholesome thing in his hand.
Even his wife's face seemed changed as he entered the room. It was white and expectant, and to his fears seemed to have an unnatural look upon it. He was afraid of her.
"WISH!" she cried in a strong voice.
"It is foolish and wicked," he faltered.
"WISH!" repeated his wife.
He raised his hand. "I wish my son alive again."
The talisman fell to the floor, and he regarded it fearfully. Then he sank trembling into a chair as the old woman, with burning eyes, walked to the window and raised the blind.
He sat until he was chilled with the cold, glancing occasionally at the figure of the old woman peering through the window. The candle-end, which had burned below the rim of the china candlestick, was throwing pulsating shadows on the ceiling and walls, until with a flicker larger than the rest, it expired. The old man, with an unspeakable sense of relief at the failure of the talisman, crept back back to his bed, and a minute afterward the old woman came silently and apathetically beside him.
Neither spoke, but lat silently listening to the ticking of the clock. A stair creaked, and a squeaky mouse scurried noisily through the wall. The darkness was oppressive, and after lying for some time screwing up his courage, he took the box of matches, and striking one, went downstairs for a candle.
At the foot of the stairs the match went out, and he paused to strike another; and at the same moment a knock came so quiet and stealthy as to be scarcely audible, sounded on the front door.
The matches fell from his hand and spilled in the passage. He stood motionless, his breath suspended until the knock was repeated. Then he turned and fled swiftly back to his room, and closed the door behind him. A third knock sounded through the house.
"WHAT’S THAT?" cried the old woman, starting up.
"A rat," said the old man in shaking tones - "a rat. It passed me on the stairs."
His wife sat up in bed listening. A loud knock resounded through the house.
"It's Herbert!"
She ran to the door, but her husband was before her, and catching her by the arm, held her tightly.
"What are you going to do?" he whispered hoarsely.
"It's my boy; it's Herbert!" she cried, struggling mechanically. "I forgot it was two miles away. What are you holding me for? Let go. I must open the door."
"For God's sake don't let it in," cried the old man, trembling.
"You're afraid of your own son," she cried struggling. "Let me go. I'm coming, Herbert; I'm coming."
There was another knock, and another. The old woman with a sudden wrench broke free and ran from the room. Her husband followed to the landing, and called after her appealingly as she hurried downstairs. He heard the chain rattle back and the bolt drawn slowly and stiffly from the socket. Then the old woman’s voice, strained and panting.
"The bolt," she cried loudly. "Come down. I can't reach it."
But her husband was on his hands and knees groping wildly on the floor in search of the paw. If only he could find it before the thing outside got in. A perfect fusillade of knocks reverberated throgh the house, and he heard the scraping of a chair as his wife as his wife put it down in the passage against the door. He heard the creaking of the bolt as it came slowly back, and at the same moment he found the monkey's paw, and frantically breathed his third and last wish.
The knocking ceased suddenly, although the echoes of it were still in the house. He heard the chair drawn back, and the door opened. A cold wind rushed up the staircase, and a long loud wail of disappointment and misery from his wife gave him the courage to run down to her side, and then to the gate beyond. The street lamp flickering opposite shone on a quiet and deserted road.