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17.10.14

São Pedro e São Paulo

A FIESP fala ao Valor em ao invés de racionamento deixar as empresas formularem projetos de economia. Fio, era pra ter feito ano passado. A combinação do apreço ideológico com o autointeresse de visão curta fez a FIESP acreditar na óbvia mentira de que não tinha crise de água? Aliás, como a FIESP, e a CNI aliás, não se prepararam pra crise de água na megalópole? Sim, porque a crise já ultrapassou em muito o sistema cantareira; afeta ou afetará de Campinas ao Rio de Janeiro, uma região em que moram mais de um quinto dos brasileros e que responde por quase metade do PIB.

E sim, óbvia mentira e obfuscação; o estranho é que gente inteligente, com recursos e biblioteca à mão, tenha caído tão completamente na esparrela. Mais estranho ainda que a FIESP é o caso da própria Sabesp.

A crise da água na Macrometrópole Paulista é uma cebola em que os erros se aninham e acavalam faz décadas e continuando hoje. Tanto de longo quanto de curto prazo.

De longo prazo:

1, permitir depauperação das margens dos reservatórios, o que corta em pelo menos30% a capacidade, e se for plantação de eucalipto em até 75%. Ao invés da mata nativa que protegeria a represa, nas margens do sistema Cantareira tem fazenda de gado, plantação de eucalipto, condomínio, e até clube de golfe.
Reparem que isso não é que nem a situação ao sul da metrópole, na Guarapiranga, em que as margens foram ocupadas por favelas, que é uma coisa difícil social e financeiramente de se impedir ou corrigir, são represas em áreas rurais. Fazenda de gado. Compra-se, põe-se cerca. O preço nem é tão alto, uma fração do custo do sistema planejado para buscar água a 100km de distância. Admita-se, aqui, que este erro, ao contrário de outros aqui listados, não é algo particular à Cantareira; a maioria dos reservatórios de água pra beber no Brasil, e muitos dos de hidrelétricas, também não tem mata ciliar. (Alguns têm - em Itaipu, por exemplo, cada prefeitura vizinha pode escolher um único ponto de acesso ao lago.)

2 não fazer mais interligação entre os reservatórios, aumentando a capacidade da Guarapiranga ou da Rio Grande de escorar a Cantareira (ou, hipoteticamente, vice-versa), como foi feito com o sistema Alto Tietê. As represas da Serra do Mar, na Zona Sul, estão ainda bem confortáveis, com mais de 40% de água; parte disso poderia ter sido usado no lugar do volume morto.

3 incentivar consumo Não, eu não disse não incentivar economia. Disse incentivar consumo. Até maio, dava desconto pra os grandes clientes (grande é mais de 500m3/mês) que consumissem muito, progressivo. A lógica, que é fazer frente à competição de poços artesianos e caminhões pipa, é explicada aqui. Isso também, claro, é um problema para uma empresa mista listada na Bovespa, que precisa ter lucro e precisa ter perspectiva de vender mais do seu produto, não menos - e aí se pode inclusive questionar o quanto para empresas de administração de bens públicos, universais, e escassos o modelo de empresa pública/privada presta. Não é uma Petrobrás ou Vale em que o recurso é escasso globalmente e se fala de novos paradigmas econômicos da humanidade, mas um recurso localmente escasso, no caso, que já acabou. Não tô falando que estatal é sempre melhor, apenas que neste caso específico o conflito entre shareholders e stakeholders é muito maior. E a Sabesp tem agido mais no modo norte-americano que no renano, com o DAEE só chancelando tudo, sendo quase redundante, e a ANA chantageada.

De curto prazo, de resposta à crise:

1 Ignorar a crise até a onça começar a não beber água. A Cantareira desce desde 2009, mesmo sem grandes secas. Isso já devia ter soado alarme em 2012, no máximo. Não é muito complicado; um sistema que não é suficiente pra situação normal obviamente não vai ser suficiente pra caso aconteça algum problema; a Sabesp nesse sentido operou como o dono dum carro ou bike com pneu careca - só que sem a opção de ficar em casa em dia de chuva.



2 Ignorar a crise mesmo com a onça não bebendo água. INPE e ANA já avisavam há um ano que 2014/15 ia ser punk e recomendavam racionamento, ignorados sempre, com direito à inacreditável nota em que...diz que não acredita em previsão climática, e trabalha só com média passada. Ao invés disso, até maio ignorou-se completamente a crise. Em maio, iniciou-se a resposta mas ainda fingindo que era um problema menor; tirou-se os bônus de consumo e implantou-se bônus de economia. Isso era o que devia ter sido feito em 2012, e devia continuar a ser feito até o final dos tempos.

3 ao chamar o volume morto de "reserva técnica,"  acreditar na própria propaganda e tratar como um extra programado, e não como emergência que já era, merecedora de racionamento, campanha diária de esclarecimento, estímulo ao linchamento de quem lava o carro... ok, talvez não o último. Mas de qualquer jeito; se já se estava puxando o que não era pra puxar, se já se estava cortando na carne, o certo não era dizer "não tem crise, não vai haver racionamento." A consequência - e aí pode ser chamado de erro 4 do curto prazo, da administração da crise, é que não, as coisas não se resolvem com chuva - outra mentira em que a própria Sabesp pelo visto acabou acreditando. A Cantareira vai entrar na temporada seca de 2015 com 20%, metade deste ano, e o INPE prevê 2015 seco. E as outras represas entram 2015 com níveis baixos também, dimnuindo a capacidade delas de absorver a falta da cantareira. E só pra completar, artesianos não adiantam, porque... a reposição de água na Grande SP é basicamente perda da Sabesp. Se acabar a água dela, o poço artesiano também seca.

Mesmo que não fiquemos sem água neste ano ou no próximo, secar um reservatório não é como secar uma garrafa, tem consequências imprevisíveis e complexas, mas na maioria negativas. O volume morto, afinal, não era nem uma reserva de emergência (se fosse, não precisaria ser instalado equipamento e feitas obras de terraplanagem - sem licitação, claro, porque de emergência -  para bombeá-lo, o equipamento já estaria lá, ou pelo menos os diques e canos) nem um deslize dos engenheiros que projetaram o sistema. Era algo necessário.

1 a represa não foi feita como uma estrutura em si, mas tendo o peso da água de um lado como componente dela. Os efeitos de drenar a água são imprevisíveis, mas provavelmente pioraram a vida útil dos diques.

2 a água, como o dinheiro, vai para onde já tem água; é um dos principais motivos pelos quais florestas aumentam a disponibilidade de água (o outro é aumentar, com suas raízes, a permeabilidade do solo,). A água que sai da transpiração das plantas todo dia é uma massa considerável, que atrai pra si mais água e faz chover; Ao deixar os reservatórios secarem quase completamente, é provável que chova menos no médio prazo sobre as represas.

3 represas não são vasilhas. Boa parte da água está no chão, e é bem difícil de saber como essa água do lençol freático vai se comportar a partir de agora, já que o próprio lençol freático foi drenado. A conta da água no reservatório da Sabesp, que só leva em conta a água livre, como numa vasilha, subestima o quanto foi drenado.

Parabéns Alckmin. Se reelegeu no 1º turno, às custas de meros vinte anos de pepinos.

3.10.14

Os paladinos e seus martelos

A cooperação entre países que alhures se enfrentam usando os cadáveres dos outros  contra o Estado Islâmico da Síria e do Levante, ou Daesh, não deixa de ser impressionante. Os mesmos EUA que patrocinam o governo da Ucrânia contra os rebeldes patrocinados pela Rússia se alia à Rússia contra esses fundamentalistas. A mesma Rússia que patrocina o governo da Síria contra os rebeldes patrocinados pelos EUA se alia aos EUA contra eles. A própria Síria também coopera com os EUA que abertamente procuram eliminar seu governo. A Europa amotinada corre pra ajudar, seja ela conservadora ou socialista. Cá na remota província, a idéia de que bombardear não resolva, aventada pela presidenta, foi criticada como absurdo. É um tal nível de unanimidade na idéia de que é necessário um ataque vingador, uma bomba defensora, contra o Mal que se levanta, que parece que voltamos à cooperação dos Aliados contra o mal apocalíptico do nazismo. (E sim, apocalíptico cabe bem ao nazismo. Às vezes nenhum exagero é possível nem necessário.)


De que os vilões da vez são mesmo horrorosos, não resta dúvida. O grupo de fundamentalistas iraques que megalomanicamente se autointitula Estado Islâmico (tendo deixado de lado a especificação "do Iraque e do Levante" para anunciar suas pretensões universais) tem colecionado, além de triunfos contra o mequetrefe exército do governo de Bagdá, atrocidades de todo o tipo. Cheios de armas, doadas pelos EUA e Arábia Saudita com a intenção de derrubar o presidente-ditador hereditário da Síria, deram uma de gênio da garrafa e não se contentaram com os desejos de seus financiadores; numa espécie de inversão do dito de Marx, são a versão mais a sério da Talibã, num país mais rico, mais educado, e mais antigo do que o Afeganistão. Se no Afeganistão tribal e inóspito foram derrubados os budas de Banyan e conviviam shows de meninos-moça com o fundamentalismo, na Síria e no Iraque o número de patrimônios da humanidade destruídos pela iconoclastia wahabita (sem contar aqueles rebentados pelos azares da guerra em geral) já atinge proporções quase sauditas, e o mundo vai ficando mais estranho e pobre pela derrubada de obras de arte e pelo genocídio de grupos que sobreviviam, nas sombras e dobras da história, há séculos ou milênios.

Um desses grupos, e dos mais proeminentes no noticiário recentemente, o dos iázides, provavelmente seria mais familiar para nossos avós e bisavós que nos dias de hoje, e pelo mesmo motivo que os leva a ser objeto de especial ódio dos fundamentalistas do Daesh. É que a mitologia deles, uma das milhares de seitas gnósticas e neognósticas e antignósticas que surgiram no Oriente Médio no primeiro milênio (duas delas se chamam cristianismo e islã), inverte a narrativa islâmica da queda de Iblis-Lúcifer. Assim para os iázidis o demiurgo Melek Taus, rejeitando a ordem de Deus, de se ajoelhar perante sua nova criação, o homem, por muito amá-lo, é premiado ao invés de punido; essa diferença, mais todos os preceitos de pureza e isolamento comuns às tradições gnósticas, foram o bastante para que fossem considerados adoradores do demônio, e assim os Iázidis percorreram as páginas e telas de romances de aventura do começo do século passado. Fizeram figuração nas aventuras de Khlit, o Cossaco, que serviram de inspiração pro Conan e Cecil B. De Mille, em dúzias de pulps de menor nome... nas revistinhas, mais recentemente e até por isso menos distorcidamente, apareceram nas páginas do Corto Maltese (na Casa Dourada de Samarkand) e do Top 10 do Alan Moore. Sempre por conta desse mito de que são adoradores do demônio, seja o mito reproduzido ou explicado. Além de torná-los alvos para tudo que é fanático religioso, a religião deles também torna muito mais difícil safar-se através da diáspora, aliás; os preceitos estritos de pureza e contaminação são muito mais difíceis de seguir por indivíduos isolados num meio urbano multicultural do que quando se vive nas próprias aldeias; a tragédia do fim dos iázidis pode já ser fato consumado.

Um desses monumentos, curiosamente, é justamente a Igreja Memorial do Genocídio Armênio, o que não deixa de ser uma dupla morte. Os armênios eram boa parte da população do que hoje são a Turquia e o Iraque; foram massacrados, numa prefiguração do Holocausto, por um estado moderno e modernizante, militarizado, presidido por um líder carismático que prometia elevar sua nação acima da nódoa da derrota imperial na Grande Guerra. Eu disse prefiguração do Holocausto? O Hitler concorda comigo. Nas palavras do monstro, Unsere Stärke ist unsere Schnelligkeit und unsere Brutalität. Dschingis Khan hat Millionen Frauen und Kinder in den Tod gejagt, bewußt und fröhlichen Herzens. Die Geschichte sieht in ihm nur den großen Staatengründer. Was die schwache westeuropäische Zivilisation über mich behauptet, ist gleichgültig. Ich habe den Befehl gegeben – und ich lasse jeden füsilieren, der auch nur ein Wort der Kritik äußert – daß das Kriegsziel nicht im Erreichen von bestimmten Linien, sondern in der physischen Vernichtung des Gegners besteht. So habe ich, einstweilen nur im Osten, meine Totenkopfverbände bereitgestellt mit dem Befehl, unbarmherzig und mitleidslos Mann, Weib und Kind polnischer Abstammung und Sprache in den Tod zu schicken. Nur so gewinnen wir den Lebensraum, den wir brauchen. Wer redet heute noch von der Vernichtung der Armenier? (Nossa força está na nossa velocidade e na nossa brutalidade. Gengis Cã levou milhões de mulheres e crianças à morte, de coração ligeiro, mas hoje é lembrado pela História apenas como o fundador de um grande país. Não me importa se uma débil civilização ocidental me condenará. Dei a ordem - e mandarei fuzilar quem solte um pio de crítica - no sentido de que nosso objetivo na guerra não é atingir tal ou qual linha, mas a aniquilação física do inimigo. Assim deixei de sobreaviso minhas formações Caveira - por enquanto apenas no Leste - com ordens para levar à morte sem misericórdia e sem compaixão homens, mulheres, e crianças de extração e língua polonesa. Apenas assim conseguiremos o espaço vital de que precisamos. Quem, afinal, fala hoje da aniquilação dos armênios?)

Então, se há gente tão má no mundo, nada mais natural que as nações da terra se esqueçam por um momento do ódio de sua guerra e se juntem para dar fim aos monstros, não? Bem, não exatamente. Pra início de conversa, se eu disse que a relação entre o Daesh e a Talibã reverte o aforisma de Marx, por outro lado a comparação entre a Arábia Saudita e a Talibã deixa aquelas palavras do 18 Brumário bem no lugar de sempre. A Arábia Saudita, afinal, foi o primeiro resultado moderno da mistura de fundamentalismo islâmico e patrocínio por grandes potências estrangeiras - com o ingrediente adicional explosivo do imenso oceano de petróleo sob o Golfo Pérsico (o campo de Ghawar, em particular, seria sozinho o oitavo país com as maiores reservas do mundo; a usina de processamento de Abqaiq é maior do que a capacidade total do Reino Unido). Assim como os budas de Banyan ou a tumba do profeta Jonas, milhares de sítios históricos foram destruídos pelos sauditas, inclusive no Iraque, mas principalmente em Meca, desde o começo do reino até os dias de hoje, sendo que hoje em dia o fanatismo se mistura ao comercialismo, e vê-se shopping centers se erguerem sobre as ruínas de mesquitas "heréticas." Assim como o Daesh e a Talibã, a Arábia Saudita continua curtindo muito cortar umas cabeças de inimigos da fé em público. É bem verdade, a Arábia Saudita já cometeu seus genocídios no passado e não comete nenhum no momento. Bem, não diretamente. Acontece que a casa de ibn Saud não é apenas a precursora de todos os grupos fundamentalistas wahabbis no mundo, ela lhes patrocina, direta ou indiretamente, é a fonte ideológica e monetária. É dinheiro saudita que financia a pregação de ódio e intolerância da Nigéria à Indonésia, do Marrocos às Filipinas, E, claro, do Afeganistão ao Iraque.

Assim, é curioso que um dos aliados árabes dos EUA na nobre empreitada de bombardear esses monstros do Daesh é... a Arábia Saudita. Aliás, nossos amigos sauditas. Não apenas porque a comparação sabota a narrativa que opõe os nossos paladinos aos sarracenos deles, isso poderia ser confrontado com a simples explicação de que às vezes se precisa da aliança com um monstro para enfrentar outro; afinal, o mundo livre não se aliou a Stalin para enfrentar Hitler e acabar com o Holocausto? Bem, assim como naquela época, não exatamente. Na Segunda Guerra, nenhum dos aliados ligava para o Holocausto; a proposta de bombardear as linhas de trem que levavam seres humanos para Auschwitz foi rejeitada, apesar de demandar apenas meia dúzia dos milhares de bombardeios diários sobre a Alemanha. Enfrentaram Hitler porque este foi quem lhes declarou guerra. E hoje, a apresentação da urgência de se enfrentar o Daesh, e por que, é contraditória, com direito a nomes talvez inventados. Mais do que por também ser um vilão, a contradição inerente no apoio à Arábia Saudita é que ela é a fonte. Seria como se guerrear no Vietnã e ser aliado da União Soviética a comparação histórica mais apropriada. Ou, talvez, como ser anticomunista e se aliar à China para patrocinar o Khmer Vermelho contra o Vietnã. Se os EUA estivessem interessados em diminuir a quantidade de cadáveres produzidos pelo fundamentalismo islâmico, poderiam começar retirando o status de supermelhoramiguinho da Arábia Saudita. Quiçá até ameaçar-lhe com sanções se não parasse a brincadeira (o tamanho do reino no mapa do petróleo não deve ser problema se sanções simultâneas à Rússia e ao Irã são tranqs). No caso do Daesh, mais imediatamente, poderiam parar de armar e financiar a oposição na guerra civil síria, patrocinada desde o começo pelos EUA e de onde saiu o grupo. (E turbinada pelo aquecimento global.)

É claro, o problema disso é que não envolve bombas, e explosões, e decisões duras feitas por homens duros. Não é uma resposta forte, viril, heróica. Não utiliza todo o reluzente armamento que 700bn de dólares ao ano compram. Quando se tem um martelo desses, qualquer coisa mesmo vai começar a parecer um prego. Admita-se que a minha "solução" não é uma solução imediata; não vai ajudar muito as vítimas do presente, só as do futuro. Mas tampouco se tem lá tanta certeza de que os bombardeios sejam uma solução. Fazer ALGUMA COISA porque é um horror, tem que se fazer alguma coisa, é a teoria do martelo; ora, se eu estiver com uma dor de cabeça e sem aspirina à mão, prefiro continuar com a dor de cabeça do que levar uma martelada. Isso tudo assumindo-se, claro, a melhor das intenções e que a Casa Branca e seus aliados realmente se preocupam com a sorte dos iázidis e outras minorias no norte do Iraque e na Síria, o que não é necessariamente verdade. A realpolitik do fetichismo pelo sacrifício, do que já chamei aqui de teriomania, afinal, convive muito bem com a realpolitik realmente real. Aquela em que o ataque ao Daesh pode dar uma esticadinha no Assad, em que pesquisas de opinião sorriem para presidentes guerreiros, em que ações de financiadoras de campanha sobem quando seus produtos estão em alta. Afinal de contas, paladinos também precisam comer, não?

25.9.14

Ajuste sinistro

Convencionou-se, no Brasil, que responsabilidade fiscal é um tema "de direita." Soluciona-se todos os problemas do Brasil seja com a eliminação da corrupção e incompetência (tema que irmana todos que não são, naquele momento, governo), seja com a "auditoria da dívida," que depende de não entender como funciona uma dívida pública e achar que foi um contrato de dívida emitido lá atrás pelo FH ou pelo JK que ainda está sendo pago.

E no entanto, dá pra fazer o ajuste fiscal tão sonhado pelos economistas de direita de uma forma bastante diferente da normalmente assumida. O Brasil - já é quase consenso - é um país em que os impostos indiretos, que pesam mais sobre os mais pobres e atrapalham a economia, são os principais, enquanto os diretos, que pesam sobre renda e patrimônio e portanto sobre os mais ricos, são acessórios. Para inverter essa lógica E fazer o ajuste nas contas públicas, é só

1) Aumentar impostos diretos (IRPFITRITDIPTU (estes últimos subnacionais)). O ITR hoje não morde nem um bilhãozinho. O IRPF para alguém entre os 5% mais ricos não vale 17% (contra 34% nos EUA, que não são exatamente comunistas). O ITD tem alíquota máxima de 4%, vs., de novo nos EUA, 40%. O IGF, que ainda não existe fora da constituição, renderia mais uns trocados. Aumentar o preço da gasolina, sim, que transporte individual motorizado não precisa de subsídio público. Transformar a CIDE numa taxa de carbono, e razoavelmente pesada. 

2) Quando o ajuste tiver sido feito desse jeito, e a necessidade de segurar as pontas tiver passado, cortar os impostos indiretos federais o máximo possível. Com sorte, extinguir o IPI, pelo menos.

Presto: Ajuste nas contas públicas feito com bônus.

O bônus não é pequeno. Noves fora a diminuição dos indiretos aumentar a competitividade da economia brasileira, a desigualdade, que se reduziu com a implantação dos benefícios sociais e o crescimento maior de regiões mais pobres (boa parte da desigualdade brasileira é a desigualdade regional), parou de descer nos últimos anos, devido aos limites dessa política. Ora, nos EUA a diferença entre a desigualdade pré e pós impostos é de 0,11 Gini. Isso é 0,11 de diferença a mais do que no Brasil. Sim, os impostos brasileiros não fazem diferença alguma na desigualdade. Admita-se que é um mal continental...

10.9.14

A guerra ideológica de Haddad

O texto não é meu, tirei de um tópico no Skyscrapercity, mas curti. Sobre as críticas ao jeito improvisado e muitas vezes falho das ciclovias sendo construídas em São Paulo:

http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?p=117241922#post117241922




O improviso era esperado, e ele existe porque na verdade a prefeitura está numa corrida contra o tempo. Uma corrida ideológica. 


E nessa corrida, o resultado só pode ser assim nas coxas mesmo.


Explico:

1 - Existe uma ideologia cultural forte em São Paulo completamente anti-bicicleta, anti-pedestre, anti-tudo que não seja colocar o automóvel em um pedestal. 

2 - Qualquer outro político de São Paulo que não seja da esquerda petista ou pior, não vai fazer belas ciclovias permanentes, bem projetadas, tirando para sempre o espaço dos carros. Na verdade NÃO-VAI-FAZER-CICLOVIA-NENHUMA.

No máximo, como era a política até então, ciclofaixas DE LAZER, pois "bicicleta é somente lazer excêntrico de fim de semana. Dia-dia é carro, pois faz calor, tem ladeira e blablabla".


3 - Então a corrida contra o tempo é DAR O DIREITO A LOCOMOÇÃO POR BICICLETAS NA MAIOR EXTENSÃO POSSÍVEL, para que uma parte da população SE APOSSE DESSE DIREITO, de forma que depois ninguém consiga tirar dela.


A meta é entregar logo esses 400 km de ciclovias para que a próxima gestão seja obrigada a cuidar delas (apesar dos protestos dos super-coxinhas que vão querer a remoção da maioria). 

Se a meta fosse fazer bem feito apenas 20 km de ciclovia, podem ter certeza que em 2020, ao final da gestão seguinte (que não será a do Haddad), sabem quantos km de ciclovia existiram? OS MESMOS 20 KM, APENAS. 

(Salvo uma ou outra ciclovia criada por IMPOSIÇÃO contrária ao velho interesse ideológico, por compensação ambiental, como a ciclovia sob os monotrilhos. Imposição, não iniciativa)


Eu aprovo essa medida pois é uma guerra contra a ideologia atrasada dominante. E entendendo isso, acho até que a maior parte da crítica é muita frescura e exigência demais.

Andei nas ciclovias do centro e achei elas o suficiente, o suficiente para eu me locomover sem ser atropelado. É isso o que importa.

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Obviamente essa guerra não será vencida por completo, afinal, a ideologia "only-carro" de São Paulo é defendida por grande parte da população, pela imprensa, por políticos tradicionais.

Porém é certo que na próxima gestão, dos 400 km de ciclovia, a maior parte vai permanecer. Isso é muito. São literalmente "50 anos em 5" para o mundo ciclístico em São Paulo, coisa que jamais iria acontecer em décadas de outras gestões.



18.8.14

All things to all men

A maior fonte de força de Marina Silva - provável nova candidata do PSB que ela denunciava há menos de um ano como velha política - também é a fonte da minha rejeição pessoal a ela. Não é a sua posição política real que, tanto quanto possa ser precisada, é mais ou menos a direita do PT, nem tanto à direita da Dilma que também está na direita do PT. Mais economicamente liberal por um lado (o programa de 2010 incluía privatização da previdência), talvez mais ambientalista por outro (mas não se manifestou contra Belo Monte durante a campanha de 2010, e aprovou a BR-364); certamente mais moralmente conservadora pessoalmente, mas não se sabe o quanto isso faria diferença prática. O problema é esse não se sabe, é o quanto a candidata foge da definição, se apresentando não como a proponente de um plano mas como uma personalidade em cima da qual cada eleitor pode, apaixonadamente, projetar seus próprios anseios. Não é uma solução híbrida, em que altermundialistas convivem resignados e inamistosos com o Povo de Deus, mas uma solução absoluta em que Marina levará o Brasil ao caminho anticapitalista da liberdade para uns, à República Cristã para outros.

Marina tem força porque é a missionária Marina da Assembléia de Deus, que prega o ensino nas escolas públicas do criacionismo junto ao "evolucionismo" "para que as crianças possam escolher em que acreditar," um discurso aparentemente democrático usado pelos defensores americanos do criacionismo há tempos. Os criacionistas sabem bem o que significa essa cifra; os defensores modenos e laicos da candidata acreditam que isso é um repúdio ao criacionismo. Ambos, ferrenhos opositores entre si, acreditam que ela está do seu lado e na verdade o outro, em seu apoio, é um tolo iludido.

Marina tem força porque é a candidata amada pelo Mercado, aquela nebulosa entidade que representa os interesses do grande capital internacional, repudiado tanto por muitos evangélicos quanto por quase todos os altermundialistas. O Mercado acredita na privatização da Previdência lá do programa de 2010, acredita na expansão da BR-364, e num governo brasileiro mais amigo dos seus interesses, enquanto altermundialistas e evangélicos sonham com uma candidata que leve o Brasil para um caminho diferente de desenvolvimento, ou até à renúncia do desenvolvimento capitalista,  certamente não é nisso que os analistas do Mercado acreditam. Mas uns votam e outros investem.

Marina tem força porque é a candidata que supera o fla-flu na política, a baixaria eleitoral, a polarização, dizem-nos outros eleitores - apesar de não apenas todos os acima mencionados mas eles próprios se dedicarem à polarização, à torcida, à discussão antes dos defeitos dos outros que de programas, à glosa de quaisquer defeitos da candidata e de seus aliados. Aliás, apesar da esquiva da candidata em se aferrar a qualquer programa definido, com direito a anunciar que há pontos (indefinidos) do próprio programa escrito da candidatura que não são dela. Porque é a candidata da nova política ética contra tudo isto que está aí, mesmo sendo aliada (sem querer o registro da foto em cartaz) de Alckmin, tendo sido vice na chapa de um governador hereditário, tendo sido ministra colega de Dilma, política experiente e afeta a alianças por vinte anos. Não importa a história, importa o sonho.

Enfim, Marina tem força porque é, qual Dom Sebastião surgindo da vaga bruma, o novo, a superação da vergonha pela iníqua história brasileira, que é mistura de gargalhada e vale de lágrimas, a utopia que varrerá para sempre o passado. Porque é a negação da história (exceto pela sua própria história pessoal, mesmo esta convenientemente editada), uma tabula rasa em que qualquer um pode projetar o que quiser. (Não confundir tabula rasa com poste; de Dilma ou Haddad nada se sabia das suas competências pessoais como governante, o que é diferente de rejeitar a precisão de sua ideologia. Um foi melhor que a outra...) E eu admito, de bom grado, que sou mais tímido do que esperançoso, e projeto nessa tabula rasa mais medos que sonhos. Principalmente graças à tal preferência do Mercado, que é quem tem mais força passada a eleição.

25.7.14

O ovo da anfisbena

A Anfisbena é uma cobra lendária, descrita por Plínio, o velho, como tendo duas cabeças "como se não fosse suficiente uma para que se escoasse o veneno de seu corpo." Também estrela os bestiários do Borges e do TH White. Também poderia descrever a polícia brasileira, com alguma liberdade.  Afinal, a polícia que mata na favela é a que reprime na rua, como ficou demonstrado pela ópera bufa (libreto de Philip K. Dick) encenada no Rio de Janeiro, em que meia dúzia de pessoas que sonhavam em ser revolucionários e acreditavam que o Mujica do Facebook iria lhes salvar foram pintados como terroristas perigosos a partir do depoimento de outros tantos descompensados.  Bem, mais ou menos.

A polícia brasileira é das que mais matam no mundo. Possivelmente a que mais mata, em termos absolutos - é o tipo de estatística que é difícil de auferir com certeza, mas não se tem notícia de policiais tão violentos em nenhum país com tamanho similar ao nosso ou maior; os únicos concorrentes, no Caribe, Venezuela, e Colômbia, são países com população menor que a de São Paulo. Não que a polícia de, digamos, Mumbai seja gente boa, só mata menos do que a daqui. Os EUA, então, considerados o símbolo do Sistema duro por gente que ama e odeia isso, mata menos de um terço. Por que exatamente a polícia brasileira mata tanto é uma resposta difícil de se atingir, com uma longa história; tem a ver com a sociedade hierárquica e racista, com a guerra às drogas, com a legitimidade da violência, com a falta de supervisão, com a organização militar, com a desigualdade de renda... o que se sabe é que mata. Mata e tortura. Muito. Mas não mata, em hipótese alguma, de forma indiscriminada; pelo contrário, é de maneira extremamente discriminatória. Morre-se às pencas na favela da Rocinha; na Gávea, ali ao lado, cada assassinato é uma notícia de jornal.

E isso pode ser dito também da repressão às manifestações de classe média que vêm se estendendo desde Julho. A polícia que mata pode ser o mesmo organismo que reprime, pode ter os mesmos membros, mas definitivamente não é a mesma. Fosse a mesma, Sininho, Eloisa, Camila, e companhia  não estariam neste momento livres da cadeia, mas livres das amarras da carne (pra não falar dos destinos de Caio e Fábio, que mataram mesmo o cinegrafista Santiago); pela média estatística, nos dias que durou sua prisão foram 72 mortos pela polícia, sem uma sombra de gritos. Nem a repressão às manifestações é um desenvolvimento orgânico da violência genérica; pelo contrário, a polícia brasileira, por conta daquela hierarquia muito bem delimitada, reprime manifestações de gente branca, com acesso a advogado, à luz da imprensa, com infinitamente mais pudores do que reprime - bem, qualquer coisa na favela. Incluindo manifestações; é muito etnocentrismo da Vila Madalena achar que não havia manifestações constantes no Brasil antes de Junho do ano passado, é que o título da matéria era "moradores de lugar x queimam ônibus."

A repressão violenta às manifestações, antes de ser uma consequência natural da polícia militarizada de sempre, é uma importação de países com trabalho cotidiano de polícia muito mais civilizado, mas que desde os anos 90 têm militarizado e sofisticado o aparato de repressão a manifestações políticas, e a polícia em geral. As táticas como o kettling - encurralar ao invés de dispersar a manifestação - e o uso de câmeras para intimidar vieram diretamente da Europa, e foram ensinadas por instrutores ingleses, alemães, e americanos. O mesmo pode ser dito dos amplos poderes de vigilância eletrônica (aliás, ampliados no Reino Unido durante o desenrolar do Minority Report carioca). Se trata de uma luta específica contra um inimigo externo muitas vezes imaginário, e que não faz parte das práticas ensinadas e costumeiras; as práticas são sujas e antidemocráticas, mas não são algo que "nem a ditadura fez," mas sim algo que foi importado diretamente do que é considerado o estado da arte em democracia. Curiosamente, num paralelo próximo à importação de técnicas dos soldados anticoloniais do general Massu contra a luta armada, durante a ditadura. E até na mesma Manaus. De novo, se trata de ensinar a uma polícia e um exército toscos e brutos algo mais sofisticado.

E é aí que mora o perigo. Se no momento as duas modalidades de repressão caminham em estratos separados, com alvos separados, não há nada que impeça que, no futuro, elas se misturem, como o saber dos torturadores franceses e a visão do território como guerra se espalharam e tornaram assassina a polícia que já era brutal. Não foram os milicos que inventaram a polícia militar; ela existe desde os tempos coloniais, em paralelo à civil e diretamente subordinada a um executivo que se confundia com o poder militar; a separação dos poderes no Brasil, historicamente, foi mais entre civil e militar que a de Montesquieu. Mas foi com a repressão ao comunismo aprendida da CIA e da Legião Estrangeira, mais a guerra às drogas aprendida com o ATF, que ela mudou a marcha das mortes (e superou, como hoje supera em ordens de grandeza, a pistolagem interiorana que antes respondia pela maioria das mortes "de emboscada antes dos vinte.")

As chances de que isso signifique a migração das mortes e torturas do morro para o asfalto não é tão grande - acho, não tendo os poderes precognitivos da polícia fluminense; haverá as exceções dos exaltados, como aquele policial do vídeo que é puxado por seus próprios pares enquanto tenta chutar uma menina com um cartaz. Não estamos no mesmo contexto da ditadura, em que torturar e matar os rebeldes era parde explícita das aulas, chancelada por todos os níveis da hierarquia, e tem que ser dito novamente que o que a polícia faz não é porque os policiais são doidos, mas porque são legitimados e apoiados por governo e sociedade. Mas as chances de que isso represente um grau de repressão muito maior nas favelas são muito boas; mesmo em países com um grau de respeito aos direitos humanos e instituições de controle muito mais sólidos que os nossos, a Guerra ao Terror vem resultando num rosário de presos. Dilma, no medo de que a Copa desse errado, ajudou a chocar o ovo da anfisbena.

11.7.14

Triumph des sambens

A se julgar por parte dos comentários que circulam pelas bocas e teclas em torno da Copa, cada resultado de partida de futebol - aziago ou alvissareiro - seria a representação das qualidades essenciais do povo representado, sejam elas suas virtude e força ou o contrário. Se James fez mais gols que Neymar, é porque o povo colombiano tem uma paixão alegre e saudável pelo futebol, ao contrário do Brasil corrupto e assassino. Se a Argentina foi à final, é porque a raça, a garra, a determinação de um país cujo zagueiro dá o cu pela pátria brilharam. Se a Holanda massacrou a Espanha, é a vitória da alegre e maconheira Holanda sobre o vetusto império espanhol. Se o Brasil venceu Camarões, é porque os africanos - sim, os africanos, é um país só - são crianças inconsequentes, e talvez não seja inteiramente fortuito que o único exemplo pró-brasileiro que achei ter tido do outro lado um time africano. E por aí além, num festival de essencialização, de metonímia, de investimento simbólico, que deve ter rendido sorrisos a Leni Riefenstahl no inferno. Sim, até o inferno tem folga em dias de jogo da Copa.

Até aí, é do jogo, com o perdão do trocadilho. O esporte coletivo internacional tem sido visto por esse prisma desde os seus primórdios, e mesmo o doméstico; Barcelona catalã contra Real Madrid franquista, Flamengo favelado contra Fluminense pó de arroz... a lista é grande. Mas uma dessas manifestações do triunfo da vontade, e uma que deixaria Leni Riefenstahl particularmente sorridente, é a que reza que a vitória acachapante da Alemanha sobre o Brasil seria o triunfo da "seriedade alemã contra a malandragem brasileira." Não difere do resto na sua essencialização de um fato passageiro; afinal, mesmo que acreditássemos que os resultados no futebol demonstram a força de um povo, o Brasil ainda tem cinco copas contra três da Alemanha, que até Domingo quando muito diminui a liderança. Nem a maior população explica tudo, já que o Brasil só superou a Alemanha nesse quesito em 1965, sem nem levar em conta o dinheiro. Também não difere da maioria das outras na hierarquia de povos presente nessas essencializações. Mas talvez seja particularmente forte como triunfo do estereótipo sobre a realidade.

A idéia de uma América do Sul lúdica e uma Europa operosa não resiste às estatísticas de trabalho. Fora as horas trabalhadas - que sempre foram muitas -a América do Sul é cada vez mais operária, e a Europa cada vez menos; um continente industrializa-se e o outro se transforma numa economia de serviços. Mas deixemos isso pra lá, que falar em quem tem mais "seriedade" é coisa pra quem acredita naquelas essências nacionais todas. Vamos reduzir o campo de visão e olhar só para os times. Alguém vê na Alemanha um time sério e vetusto e no Brasil um alegre e festeiro? Eu vejo o contrário, uma Alemanha caindo na gandaia tanto dentro quanto fora do campo, numa ilha tropical, cantando hino do Bahia, fazendo amizade com meio mundo. E um Brasil sisudo, concentrado na fria Teresópolis, sem festa, sem sexo na concentração (e não estou falando do David Luiz não querer, mas de a ninguém ser permitido), sem brincadeira. Um Brasil felipônico, mortalmente sério, que não estava ali pra brincadeira nem dentro nem fora do gramado. Batalhador, com vontade de vencer e não de jogar bonito. Aliás, insuspeito de jogar bonito. Se alguém ganhou, foi justamente a malandragem alemã contra a seriedade brasileira, até em termos bem práticos - o excesso de peso dado à partida, de pressão, resultou no pânico brasileiro. E talvez essa derrota devesse levar ao questionamento da sisudez como da CBF. Sonho, eu sei.

No futebol, claro, essa idéia do vencer e pra isso deixar de lado a alegria vem do acaso de 1982; fora dele, ignoro. Quem sabe veio do futebol mesmo. Mas difunde-se cada vez mais o par de idéias que exalta os vencedores e a seriedade, como se só o que importasse na vida fossem a seriedade e a vitória, como se elas tivessem um valor moral próprio, e esse valor é um valor do peso, da densidade, que rechaça a leveza como leviandade, que significa levar tudo a sério, que vê em cada adversário inimigos a serem derrotados com choro e ranger de dentes. No fundo, tanto o vencedorismo quanto a sisudez são facetas de uma apologética do peso, vitoriana, quase o contrário da leveza com que sonhava Ítalo Calvino em suas Seis Propostas Para o Próximo Milênio. Vitoriana ou stalinista, tanto faz. E estridente, infinitamente estridente. Engana-se quem pensa em vitorianos calados; é a grande era do jornalismo no Tennessee, das jeremíadas, da indignação... o peso só é calado nas próprias fantasias de gravitas romana, a pedra de moinho guincha mais que a roda de brincar. E a alegria - como ser alegre, num mundo de tanta desgraça? Como admitir a alegria, se há coisas importantes em jogo? A alegria é um pecado, um aleijão moral, que nos atrapalha na corrida rumo à sonhada vitória, rumo à utopia, ao paraíso (e ao gozo de ver os inimigos no inferno). O reino de meu pai é outro, mas pelo menos o cristianismo sempre teve festas; hoje o feriado atrapalha o faturamento da Fecomércio em dois ponto quarenta e oito bilhões de bruzudangas.

Se Paolo Rossi em 1982 realmente impulsionou essa corrida ao peso, desconheço. Mas tomara que os sambantes - e vitoriosos -  Klose, Kroos, Özil, Schweinsteiger, Neue, Götze, Gmbh tenham conseguido deixar a lição oposta.


PS Orlando - no livro da Virginia Woolf - via no século XX a libertação dos grilhões vitorianos. A segunda é de lei?

8.7.14

Neymar e o pleonasmo

Neymar, melhor jogador do Brasil na Copa, foi tirado dela por uma falta carniceira que lhe rebentou um pedaço da coluna. Não foi o primeiro jogador do mundial a ir parar no hospital, nem seu agressor foi punido sequer com um cartão amarelo, deixando claro o quanto o sistema (tanto as regras formais quanto as instruções e entendimentos informais) de arbitragem da FIFA é inútil. Zuñiga, o carniceiro escolhido para bater na Colômbia, explicou que "poderia ser ele, poderia ser o James, é assim mesmo." Mas ao invés de se ater à necessidade de reformar as regras para preservar o futebol dos Neymares e James contra os Zuñigas e Fernandinhos, o que se vê muito é gente da torcida antibrasileira (incluídos os muitos brasileiros que a integram - desconheço se o fenômeno é comum mundo afora) explicar que "Neymar não era nenhum santinho," ou que "o Brasil também é violento." Ora, se isso é, rigorosamente, verdade - e, de novo, precisa ser impedido, porque prefiro ver Neymar e James jogarem do que Zuñiga e Fernandinho, porrada já tem seus eventos esportivos - também é rigorosamente irrelevante. Nem pode-se argumentar que o animus de falar da violência brasileira esteja falando em "consequência" e não no "bem-feito,"  porque não há nenhum indício de que o técnico da Colômbia, Pekerman, ou Zuñiga tenham ficado dias insones olhando para as maldades de Felipão e Neymar, e jurado vingar suas vítimas. Felipão e Pekerman sabem bem que o jogo violento funciona, e por isso mandam bater; e mandariam mesmo que a seleção adversária fosse de quakers.

Se a vítima é boazinha, pura, ou inocente, isso não importa pra que a agressão seja um absurdo, não muda sua condição de vítima. "Vítima inocente" não devia ser um pleonasmo enfático, como fica sendo quando seguimos o raciocínio de que só pode ser vítima o inocente, nunca o culpado. Neymar poderia ter quebrado mil colunas que ter a sua quebrada não seria apenas uma justa paga. Há oito anos atrás, escrevi coisa parecida, quando da iteração daquele ano da longa marcha descivilizatória de Israel.

Normalmente, eu odeio comparações entre Israel e os nazistas. Não gosto de "ironias e lições da história" reducionistas, e essa em particular tem um odor a anti-semitismo que, por mais leve que seja, fede. O anti-semitismo, em parte graças à contribuição israelense fornecendo desculpas para ele, nunca esteve tão morto quanto, na ressaca do pior crime da história, gostaríamos de supor que ele estivesse, afinal.

Mas a comparação é inevitável, quando Israel estabelece uma razão de 1:10 a ser observada em termos de prédios atingidos por bombas. Isso é retribuição coletiva, sem nenhuma "razão militar" (sem entrar no mérito do caráter esfarrapado das justificativas militares para bombardeios aéreos). E fala em prédios por pura hipocrisia, para não falar em gente. Aliás, a razão è obviamente muito maior do que dez pra um, já que a densidade populacional nos subúrbios de Haifa é muito menor do que no Líbano, e as bombas israelenses muito mais destrutivas do que os foguetes do Partido de Deus.

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O mencionado Hezbollah não é flor que se cheire, de jeito nenhum. É uma milícia violenta, racista e fundamentalista religiosa, no pior sentido. Mas essa é uma característica comum das vítimas de massacres: se recusam a ser puras e angélicas. Não eram anjos as vítimas de Pol Pot, Hitler, Stálin, Mao, Saddam, ou de qualquer outro massacre. Condenar o crime, felizmente, pra qualquer pessoa decente, não depende dessa pureza, e para qualquer pessoa inteligente não implica em inventá-la. Quem insiste nessa falta de pureza para exonerar os criminosos lembra um advogado de estuprador dizendo que a vítima usava saia curta. (Outro exemplo comum são aqueles articulistas que "denunciam" que índios também guerreavam, ou que africanos fizeram a sua parte no tráfico atlântico).

É claro que uma joelhada nas costas não se compara a bombardear cidades inteiras - nem tampouco a violência em campo de Neymar ou Felipão se compara a explodir praças. Deixemos Neymar ser vítima quando é, por mais que não gostemos do Brasil, da seleção, da CBF, do próprio Neymar, ou o que seja. 

PS Absolutamente nada contra quem torce a favor de outro time que não o do país aonde nasceu. Pessoalmente, queria que não houvessem mais países... 

PPS Particularmente horrível-engraçado na história toda foi a guerra de comentaristas de página na Internet - essa espécie estranha de hominídeo - em torno da foto da filha de Zuñiga, com uns desejando "currar a filha desse preto safado" e outros respondendo aos primeiros com "só podia ser brasileiro, vergonha desse país," numa espiral de ódio que poderia facilmente suprir energia ao mundo sem precisar de Belo Monte nenhuma.

2.7.14

Mais médicos mais caros, ou, de como a desigualdade é um problema financeiro

Em meio à disputa sobre o programa Mais Médicos, uma das questões mais citadas pelos defensores do programa foi o alto valor das bolsas pagas aos médicos participantes, chamados pelos seus detratores de "escravos." Com efeito, as bolsas que o governo pagará aos médicos situariam alguém entre os 3% mais ricos dos assalariados (caso representassem salário bruto, e não líquido). Mesmo o quinhão do custo dos médicos cubanos que ficará com os próprios, de 4.000 reais, situariam os cubanos entre os 10% mais ricos. Entretanto, não se viu, numa cena política pródiga de jacobinos, ninguém que considerasse esses valores demasiado altos, senão para ironizar os médicos que os desprezavam. Não deixa de ser curioso compará-los com os valores pagos a médicos que praticam a residência obrigatória no serviço público em outros países: eles vão de nada (Itália) a um pouco menos da renda per capita (Reino Unido), em geral. No Brasil, a "escravidão" vale dez rendas per capita.

Não se trata, aqui, de enfatizar o quão generosa é a oferta do governo (e registre-se que em outros países com serviço compulsório especificamente voltado para áreas carentes, a oferta pode ser muito mais generosa em outros quesitos, como preferência para especialização). O governo não está sendo generoso, mas oferecendo o mínimo possível. Isso porque o tal salário de dez mil reais líquidos não é significativamente superior à renda média dos egressos de medicina - dependendo de a quem você pergunta, entre 20% e 50% maior. Os médicos são considerados arrogantes e insensíveis por não se candidatarem ao Mais Médicos, mas você aceitaria ganhar 20% a mais do que ganha em São Paulo para trabalhar num lugar em que só se chega em lombo de burro ou canoa? O comportamento dos conselhos de medicina é francamente deplorável, mas essa equação simples, feita pela maioria dos médicos que nem protagonizaram cenas de racismo explícito para ser contra, nem se juntaram ao programa, é bastante razoável. A pergunta poderia ser "por que no Brasil dez  rendas per capita são insuficientes, e no Reino Unido menos de uma é razoável, como salário para um médico ou outro profissional qualificado"? E o que creio é que a resposta a essa pergunta é necessária para qualquer projeto de Brasil, e que ela é simples. Chama-se desigualdade.

É necessária porque o ponto em comum de todas as múltiplas e díspares reinvindicações que foram às ruas em Junho de 2013 é que não querem algum tipo de estado minarquista, mínimo, em que os fracos não têm vez e o darwinismo social impera. Pelo contrário, mesmo aqueles que reclamavam de altos impostos reinvindicavam, ao mesmo tempo, sistemas públicos de saúde e educação melhores. Ora, a não ser que a idéia seja reinivindicar uma versão contábil de "sejamos realistas, reinvindiquemos o impossível," essa conta não bate, nas condições atuais - a não ser que a idéia seja o "desenvolvimento" como panacéia, e bem, mesmo descontando aqueles dos marchantes que são contra o desenvolvimentismo, os que são a favor tampouco sabem de verdade como conseguir esse mítico desenvolvimento rápido. São poucos os países que conseguiram pular de patamar de renda, e a maioria em situações de crise aguda infinitamente mais graves do que as do Brasil de hoje e/ou com a ajuda direta das potências centrais, por suas próprias razões geopolíticas. E com enorme sacrifício do povão enquanto o desenvolvimento não chegava, no mais das vezes.

Então, se desenvolvimento é algo que não se gera apenas com vontade, e se o que se quer é mais dinheiro pra saúde e educação, precisamos de mais impostos sobre o dinheiro que há, ou mais eficiência ao gastá-los, ou os dois. E eficiência no gasto não é algo que depende apenas da qualidade ou da honestidade de nossos gestores públicos; como tanta coisa, depende também de fatores estruturais e infraestruturais. Os estruturais, como a péssima lei de licitações, são relativamente mais fáceis de enfrentar. Com os infraestruturais, voltamos ao problema do primeiro parágrafo. Médicos são apenas uma das diversas categorias de profissionais altamente educados necessárias para um estado moderno funcionar, principalmente na provisão de saúde e educação aos seus cidadãos (em outros campos do estado, os profissionais não são menos educados, mas são em menor número). E profissionais desse nível de educação ocupam um local proporcionalmente alto na escala de rendimentos. O resultado inevitável - poder-se-ia quase dizer aritmético - disso é que quanto mais ampla essa escala, quanto maior a desigualdade, mais caro é o Estado para um mesmo patamar de serviços. A desigualdade brasileira torna o Estado menos eficiente, faz com que seja mais difícil prover saúde e educação. Não é apenas uma questão de justiça.

Não é um processo muito complicado. A expectativa de renda de uma pessoa não é ilimitada (como proposto por algumas escolas econômico-filosóficas) mas, empiricamente, ancorada numa noção de renda justa que tem muito a ver com a renda observada do mesmo estrato social. Médicos, advogados, e professores, e outros profissionais, parte de uma elite social por um zilhão de motivos (inclusive a reprodução intergeneracional de seu capital social ostensivamente meritocrático), e tem suas expectativas de renda balizadas pelo seu entorno. O Estado, portanto, (como qualquer empregador) a longo prazo terá o salário médio de seus profissionais qualificados puxado para a média dos salários de elite, ou bem terá que conviver com a insatisfação crônica desses profissionais e, no limite, o abandono por parte deles das carreiras públicas. E agora vou além do que falei sobre o desenvolvimento: não adiantaria de nada aumentar o PIB, porque esse balizamento é em boa parte feito comparativamente, e não em termos absolutos. A vida material de alguém de classe média-média hoje é bem mais abastada do que a de alguém mais rico em 1900; isso não muda suas classificações. A desigualdade brasileira baliza expectativas de desigualdade também - é a indignação com um professor ganhando o mesmo salário de alguém com menos educação, frequente mesmo entre quem se considera de esquerda. Aliás, fazendo uma enquete informal com amigos que se definem como de esquerda ou até socialistas, a diferença de renda considerada razoável entre um professor universitário e um de 1º grau é de 3x, e entre este e um faxineiro, de outras 4x. Dá mais do que a diferença entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres na maioria dos países do mundo (entre o prof. universitário e o faxineiro), e coisa próxima à diferença entre os 20% mais ricos e a média da população (entre o prof. universitário e o escolar) no Brasil. Mesmo acha errada a diferença de renda baliza suas expectativas de renda nela.

Vamos fazer uma simplificação tosca para a conta de como isso afeta as finanças públicas ficar mais fácil: Falemos de duas nações, Laputa e Houyhnhn. Em ambas, os funcionários públicos qualificados - médicos, professores universitários, promotores, auditores, e quejandos - representam 5% da população. Em ambos, os governos têm como prioridade o bom funcionamento dos serviços públicos, então o salário médio de seus funcionários está em linha com suas expectativas, isso é, em linha com os rendimentos do quintil (20%) mais rico da população. A diferença é que em Laputa, o quintil mais rico ganha 3,6x mais que o PIB per capita, enquanto em Houyhnhn, mais igualitária, o quintil mais rico ganha apenas 1,7x o PIB per capita. Pois bem, para fazer funcionar a contento sua máquina pública, Laputa gastará 18% do PIB só em salários de funcionários qualificados, enquanto Houyhnhn gastará 8,5% do PIB com os mesmos funcionários. Laputa e Houyhnhn são os nomes de países visitados por Gulliver, mas os dados de desigualdade são os do Brasil e do Japão, respectivamente.

Vamos lá: o simples fato de a desigualdade ser menor no Japão faz com que seu governo, para prover os mesmos serviços aos cidadãos, possa ter uma carga tributária 10% menor. O equivalente a desonerar o tal "setor produtivo" de toda a arrecadação direta estadual brasileira. Não é uma discussão pequena, em tempos em que hospitais erguidos não funcionam por falta de médicos, e universidades novas não conseguem achar professores. Na mesma tradição da direita que, previdente, pretende reformar a previdência pensando no longo prazo, os efeitos de uma redução de 10% na carga tributária no longo prazo não podem er subestimados. Sem coração de banana, sem questões abstratas de justiça, sem o medo de madame Guilhotina que já anima alguns megaempresários mundo afora. E quais seriam as ferramentas apropriadas para diminuir a desigualdade? Oras, impostos sobre a renda e patrimônio das pessoas físicas. Não é uma discussão teórica, é o que foi feito no mundo pós-guerra, e funcionou. É simples e calculável. O imposto sobre grandes fortunas, um aumento do IRPF, do imposto sobre a herança, do IPTU, não são apenas jeitos de se arrecadar mais dinheiro para o governo, mas jeitos de fazer esse dinheiro render mais.