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28.3.14

Shop till it drops


O imobilismo dos governos frente ao aquecimento global, criticado até por alguém tão insuspeito de esquerdismo quanto o ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe, que dizia que as convenções internacionais sobre o tema soltavam mais carbono do que poupavam, pode ser considerado estranho por alguém que considere o problema sério, e a maioria dos líderes globais atores racionais. Afinal, o aquecimento global é um problema irreversível, e capaz de trazer sérios danos para a humanidade, e isso não é, fora da política, mais algo tão controverso assim. Pode-se vislumbrar o quanto o aquecimento global antropogênico já passou de controvérsia científica a base de conhecimento aceita, mais do que pelos resultados dos painéis de investigação da ONU sobre o tema, pela preocupação que grupos arquiconservadores como as companhias de seguros demonstram. E no entanto os governos parecem continuar mais preocupados em assegurar suas próprias fontes de combustível fóssil do que em reduzir o uso global, ou em garantir que a redução global seja um fardo que caia antes nos outros do que em si. Mesmo quando, como é o caso da Rússia ou do Brasil, o espaço para redução das emissões de gases de efeito estufa (GHG) com pouco ou nenhum impacto na economia é imenso.

Parêntesis: Digo danos à humanidade, e não ao planeta, porque vamos ser sinceros: o planeta não está em perigo. A Terra é uma bola de seis sextilhões de toneladas de ferro, com 12,800km de diâmetro, e para destruí-la, só com um impacto várias ordens de grandeza maior do que a Lua de repente caindo em cima (bem, ok, tem outras possibilidades neste site). Mesmo se você quiser dizer "acabar com a vida na terra," aquela película de musgo que adere à fina pele de pedra na bolona de ferro, é altamente improvável que consigamos detonar essa. A extinção em massa antropogênica é forte, é quase equivalente ao evento K-T que acabou com os dinossauros, mas ainda empalidece quando comparada com a do final do Permiano; e mesmo essa não chegou nem perto de acabar com a vida observável em registros fósseis da terra. E a não observável - bactérias e archaea - é muito mais importante e resistente. Existem archaea vivendo a vários quilômetros de profundidade na crosta terrestre, em temperaturas superiores a 200ºC; você acha que uma mudança pequena na composição da atmosfera, ou na temperatura média da superfície, incomoda eles?

A tragédia dos comuns, anunciada

Sinceramente, mesmo acabar com a humanidade é improvável. E aí está , creio, uma das chaves para a explicação sobre a ineficácia das reuniões sobre aquecimento global, a pragmática: o aquecimento global não tem efeitos homogêneos, globais. Tem efeitos diferentes em cada lugar e pra cada pessoa, que dependem em boa parte dos recursos de que já se dispõe, como outros impactos espalhados, além da situação geográfica. Ainda que deixemos o planeta uns 12º mais quente, com mares ácidos de carbono, há uma boa possibilidade de que as entidades políticas atuais sobrevivam (fora Bangladesh, que afunda). Veremos muita guerra - aliás, elas talvez já tenham começado: há quem atribua aos efeitos do aquecimento global a guerra civil síria - mas boa parte delas sobrevivem; algumas, como Canadá e Rússia, até lucram com a abertura de áreas hoje ocupadas pelo permafrost à agricultura permanente. Com transmissão intergeneracional de riqueza intacta, ou seja, os que mais lucram hoje vão continuar lucrando amanhã. Baixas - serão, provavelmente, muitas - se concentrarão entre os mais pobres, especialmente os bangladeshis e outros que tiveram a desgraça de nascer, além de pobres, tropicais e costeiros (digamos, os habitantes da costa norte brasileira) ou em regiões áridas (digamos, os habitantes do nordeste).

Ajudando os governos no esforço de passar a bola adiante, culpando uns aos outros pela situação, está o fato de a avaliação da "culpa" individual pela emissão de GHG estar bem longe de ser algo simples ou fácil.  Por exemplo, enquanto normalmente se avalia os processos produtivos para estabelecer a emissão de cada país, a National Geographic resolveu avaliá-la pelo lado do consumo. Afinal, se a União Européia aumentou sua eficiência energética, isso foi em parte graças à terceirização da produção. Um europeu está "gastando" menos energia quando compra uma TV não porque a produção de monitores na Europa ficou muito mais eficiente, mas porque sua TV e seu carro podem vir da China e do Brasil, mas quem está tendo o benefício (uma TV nova) com esse gasto de energia é o europeu.

A distorção aí presente ajuda os governos europeus a apresentarem uma autoimagem como ecologicamente responsáveis que, paradoxalmente, faz com que os europeus se sintam pouco culpados pela situação da biosfera, como aponta a Economist. É uma estratégia mais tortuosa do que a dos políticos americanos ou canadenses, que simplesmente negam de pés juntos que haja qualquer problema, e talvez mais eficaz: assumindo-se que há problema e imputando, injustamente, esse problema primariamente aos terceiromundistas, pode-se impor acordos que deixam uma maior proporção do ônus de resolver o problema nas mãos do terceiro mundo. (Ajuda, também, a superestimar a possibilidade do ganho tecnológico, mas disso podemos falar mais abaixo.) Não se trata, aqui, de dizer que o peso do Brasil é menor que o da Bélgica, mas de apontar que a comparação é descabida: o que vale é o peso por cidadão, e a Bélgica é do tamanho do Rio Grande do Sul, não do Brasil. A idéia de se congelar as emissões chinesas enquanto as européias baixariam para dois terços do que são significaria congelar uma disparidade econômica entre a China e a Europa.

O problema de apontar essa hipocrisia, claro, é tomar cuidado para não se unir às vozes dos políticos dos tais países de terceiro mundo que, por sua vez, utilizam-se da hipocrisia européia como justificativa para fazer qualquer barbárie ambiental (e algumas barbáries sociais junto, que ninguém é de ferro). Nessa roda de empurra, todos sabem que o problema - quer creiam nele ou não - pode ser atribuído aos outros, e que, principalmente, quanto mais dinheiro se acumular antes da bomba explodir, melhor a posição relativa da sua pólis, e portanto sua capacidade de lidar com a mudança, e portanto o poder e riqueza dos estratos superiores aos quais um político pertence; a posição absoluta de miséria de seus concidadãos, quanto mais a dos cidadãos alheios, é uma consideração menor. Por conta dessa ciranda, as apostas já são de que vamos ultrapassar nosso "orçamento" de emissões de carbono máximas para um mundo reconhecível em mais de cinco vezes.

A traição aos letrados

No Brasil, em particular, mas um tanto em todo o mundo, a própria situação da "pólis" brasileira parece às vezes secundária para nossas elites, até mesmo a situação de longo prazo de seus próprios grupos; em parte devido à continuada percepção de questões ambientais como "sociais," isso é pertencentes ao âmbito da caridade e não do planejamento duro, econômico, prático. A questão ambiental é vista como a proteção da beleza cênica ou de pobres coitados ameaçados, e não como algo que possa influenciar questões realmente importantes, um preconceito comum que se aplica também a questões sociais e é perfeitamente capaz de ignorar petabytes de dados concretos. Nesse sentido, a questão ambiental demonstra mais do que outras como o termo "tecnocracia" merece uma qualificação: ela não é o governo do conhecimento, da techné em sentido amplo, mas acima de tudo o governo de uma técnica específica, que é o conhecimento burocrático, e que não é diretamente ligado à ciência moderna, ao contrário do apregoado. Não custa lembrar, afinal, que a tecnocracia nasce, na China T'Ang, com exames em que se avaliava o conhecimento pelo examinado de cânones ortodoxos, e nem a noblesse d'état deixou de existir. Ele pode até utilizar-se de instrumentos científicos - da estatística bayesiana à química metalúrgica - mas apenas instrumentalmente, e não como referendadores de tomadas de decisões. As anedotas atribuídas a Lina Bo Bardi ou Niemeyer, de que teriam desenhado prédios "impossíveis" e deixado aos engenheiros a tarefa de realizá-los mesmo assim, seriam corriqueiras para um tecnocrata.

Mais do que isso, o estranhamento entre os tecnocratas e o conhecimento científico dá espaço para a classificação de senso comum desses conhecimentos científicos ou paracientíficos entre os "sérios" e os "acessórios." Estes, a engenharia, a economia, os úteis para se lucrar; aqueles, todos os outros; e mesmo a engenharia e a economia só são considerados úteis enquanto não apontarem questões embaraçosas. É esse o verdadeiro significado da divisão, por exemplo, entre economistas ortodoxos e heterodoxos; "heterodoxo" poderia muito bem também ser chamado de "herege. Felizmente não se instalam autos-da-fé na Unicamp... A partir da divisão entre as ciências dignas de atenção principal e acessória, se estabelece escalas diferentes de esforço para lidar com cada uma por parte do governo, tanto em consideração quanto em recursos. Por isso o dinheiro para se lidar com aquecimento global ou outras questões ambientais é considerado muito se for uma fração do destinado a "incentivar a economia" ou construir e manter rodovias: trata-se de escalas diferentes. Ao mesmo tempo, a desvalorização da ciência "contra" convive com uma hipervalorização da ciência "a favor," com a crença numa solução salvadora simples - compartilhada, diga-se, pelas esquerdas altermundialistas. A diferença é a base dessa solução salvadora simples, se tecnológica ou social. Exemplo de solução salvadora simples de base tecnológica para um problema complexo: varrer os oceanos.  Exemplo de solução salvadora simples de base social: o crescimento zero (curiosamente, aplicado indistintamente a economias européias e africanas, apesar do abismo de diferença de nível de vida).

O problema é global, mas é tanto mais grave em países em que se somam o relativamente pequeno peso do setor científico (o Brasil, por exemplo, que tem menos graduados universitários que a Bolívia proporcionalmente, e menos pesquisadores do que a Argentina) e uma infecção particularmente grave do setor público pelo paradigma da "gestão" administrativa de faculdades de MBA. O pequeno número de pesquisadores permite que cada disciplina ou órgão de pesquisa e planejamento seja tanto mais insular e afenso ao diálogo - é o exemplo da EPE, que continua aliada ao setor empreiteiro-elétrico na grita por mais hidrelétricas com reservatório na Amazônia, inclusive utilizando-se da chantagem ambiental da energia nuclear, apesar de ser imprevisível e provavelmente pior a quantidade de água disponível no futuro, piorando as contas das tais usinas. Pior, apesar de as usinas poderem, ao incentivar o desmatamento, piorar a situação das usinas existentes. E a hipertrofia da "gestão" significa uma hipertrofia do tipo de pensamento que é pouco permeável a críticas.

A luz no fim do túnel é do trem de carga

Há quem aposte numa campanha popular - o "ultraje moral" - contra a indústria de petróleo, assim como funcionou a campanha contra o Apartheid. Descreio, apesar de acrescentar um exemplo mais próximo e importante, o da campanha contra o tráfico de escravos na Inglaterra, que atingia diretamente os lucros dos grandes negociantes domésticos, vistos como uma das bases da economia, ao contrário do Apartheid, que caiu de maduro e era política de um paiseco estrangeiro para a maioria dos que protestaram.  Não temos, ainda, nosso panfleto do navio Brooks. Talvez nunca o tenhamos, já que o imperativo de não causar aquecimento global não é tão simples quanto o de não escravizar teu semelhante ou não instituir um regime racista. Ter carro é causar aquecimento global? E viajar de avião? E ter um smartphone?

Mais ainda: o imperativo moral contra o sofrimento causado pela escravidão é relativamente simples. O aquecimento global é um dado científico complexo e de difícil compreensão para quem não tem uma educação razoável nas ciências da natureza; até mesmo aqueles que fazem campanha para mitigá-lo frequentemente se confundem sobre sua natureza e seus efeitos. Assim, volta e meia se utiliza de uma onda de calor ou catástrofe climática como "prova do aquecimento global" (um evento isolado não quer dizer nada, nunca). Assim, há quem atribua terremotos ao aquecimento global (não tem absolutamente nada a ver). E, assim, a indústria dos combustíveis fósseis, a mais rica e poderosa do mundo, mais do que qualquer governo, pode patrocinar a obfuscação que faz com que o aquecimento global possa parecer algo contestado entre cientistas, e não amplamente aceito. Às vezes o tiro sai pela culatra, como no estudo encomendado pelos irmãos Koch, mas em geral funciona a estratégia de obfuscação, com direito às pessoas  se perguntando se não há interesses financeiros "dos dois lados" (como se o Greenpeace e a Exxon fossem atores equivalentes).

Mesmo a idéia de que os governos "farão algo" em resposta a uma catástrofe definitivamente ligada ao aquecimento global antropogênico é, talvez, demasiado otimista. Ela assume que o "fazer algo" será algo pragmático, no sentido próprio da palavra e não naquele sentido que políticos geralmente utilizam. Pelo contrário, acho que o o "fazer algo" consistirá de megaprojetos, daqueles que envolvem megalucros para corporações igualmente mega, com consequências imprevistas e geralmente indesejadas, e talvez resultados pífios. Coisas como derramar milhões de toneladas de limalha de ferro no mar para estimular o fitoplâncton, ou instalar espelhos gigantes no espaço, ou criar vastos painéis de absorção química de carbonoTadinhos dos bangladeshis.

PS: se quiser saber em quanto você contribui para a destruição da metade de baixo da humanidade, aqui tem uma calculadora de pegada de carbono razoáverzinha.

PPS: sem dúvida, o aquecimento global antropogênico é apenas a mais urgente e imprevisível das catástrofes globais antropogênicas. Também tem a desertificação das terras, a acidificação, plastificação, e eutrofização dos oceanos, a extinção de diversidade natural e humana, a deposição de metais na atmohidrobiosfera, e outras menos cotadas.

13.3.14

The Monkey's Paw

Katia Abreu pede igualdade de tratamento a índios e fazendeiros no conflito de terras.

Jagunços espancam indígenas e incendeiam aldeia.


Cuidado com o que deseja, Katia Abreu




Part I
Without, the night was cold and wet, but in the small parlour of Laburnum villa the blinds were drawn and the fire burned brightly. Father and son were at chess; the former, who possessed ideas about the game involving radical chances, putting his king into such sharp and unnecessary perils that it even provoked comment from the white-haired old lady knitting placidly by the fire.
"Hark at the wind," said Mr. White, who, having seen a fatal mistake after it was too late, was amiably desirous of preventing his son from seeing it.
"I'm listening," said the latter grimly surveying the board as he stretched out his hand. "Check."
"I should hardly think that he's come tonight, " said his father, with his hand poised over the board.
"Mate," replied the son.
"That's the worst of living so far out," balled Mr. White with sudden and unlooked-for violence; "Of all the beastly, slushy, out of the way places to live in, this is the worst. Path's a bog, and the road's a torrent. I don't know what people are thinking about. I suppose because only two houses in the road are let, they think it doesn't matter."
"Never mind, dear," said his wife soothingly; "perhaps you'll win the next one."
Mr. White looked up sharply, just in time to intercept a knowing glance between mother and son. the words died away on his lips, and he hid a guilty grin in his thin grey beard.
"There he is," said Herbert White as the gate banged to loudly and heavy footsteps came toward the door.
The old man rose with hospitable haste and opening the door, was heard condoling with the new arrival. The new arrival also condoled with himself, so that Mrs. White said, "Tut, tut!" and coughed gently as her husband entered the room followed by a tall, burly man, beady of eye and rubicund of visage.
"Sargeant-Major Morris, " he said, introducing him.
The Sargeant-Major took hands and taking the proffered seat by the fire, watched contentedly as his host got out whiskey and tumblers and stood a small copper kettle on the fire.
At the third glass his eyes got brighter, and he began to talk, the little family circle regarding with eager interest this visitor from distant parts, as he squared his broad shoulders in the chair and spoke of wild scenes and doughty deeds; of wars and plagues and strange peoples.
"Twenty-one years of it," said Mr. White, nodding at his wife and son. "When he went away he was a slip of a youth in the warehouse. Now look at him."
"He don't look to have taken much harm." said Mrs. White politely.
"I'd like to go to India myself," said the old man, just to look around a bit, you know."
"Better where you are," said the Sargeant-Major, shaking his head. He put down the empty glass and sighning softly, shook it again.
"I should like to see those old temples and fakirs and jugglers," said the old man. "what was that that you started telling me the other day about a monkey's paw or something, Morris?"
"Nothing." said the soldier hastily. "Leastways, nothing worth hearing."
"Monkey's paw?" said Mrs. White curiously.
"Well, it's just a bit of what you might call magic, perhaps." said the Sargeant-Major off-handedly.
His three listeners leaned forward eagerly. The visitor absent-mindedly put his empty glass to his lips and then set it down again. His host filled it for him again.
"To look at," said the Sargeant-Major, fumbling in his pocket, "it's just an ordinary little paw, dried to a mummy."
He took something out of his pocket and proffered it. Mrs. White drew back with a grimace, but her son, taking it, examined it curiously.
"And what is there special about it?" inquired Mr. White as he took it from his son, and having examined it, placed it upon the table.
"It had a spell put on it by an old Fakir," said the Sargeant-Major, "a very holy man. He wanted to show that fate ruled people's lives, and that those who interfered with it did so to their sorrow. He put a spell on it so that three separate men could each have three wishes from it."
His manners were so impressive that his hearers were conscious that their light laughter had jarred somewhat.
"Well, why don't you have three, sir?" said Herbert White cleverly.
The soldier regarded him the way that middle age is wont to regard presumptuous youth."I have," he said quietly, and his blotchy face whitened.
"And did you really have the three wishes granted?" asked Mrs. White.
"I did," said the seargent-major, and his glass tapped against his strong teeth.
"And has anybody else wished?" persisted the old lady.
"The first man had his three wishes. Yes, " was the reply, "I don't know what the first two were, but the third was for death. That's how I got the paw."
His tones were so grave that a hush fell upon the group.
"If you've had your three wishes it's no good to you now then Morris," said the old man at last. "What do you keep it for?"
The soldier shook his head. "Fancy I suppose," he said slowly." I did have some idea of selling it, but I don't think I will. It has caused me enough mischief already. Besides, people won't buy. They think it's a fairy tale, some of them; and those who do think anything of it want to try it first and pay me afterward."
"If you could have another three wishes," said the old man, eyeing him keenly," would you have them?"
"I don't know," said the other. "I don't know."
He took the paw, and dangling it between his forefinger and thumb, suddenly threw it upon the fire. White, with a slight cry, stooped down and snatched it off.
"Better let it burn," said the soldier solemnly.
"If you don't want it Morris," said the other, "give it to me."
"I won't." said his friend doggedly. "I threw it on the fire. If you keep it, don't blame me for what happens. Pitch it on the fire like a sensible man."
The other shook his head and examined his possession closely. "How do you do it?" he inquired.
"Hold it up in your right hand, and wish aloud," said the Sargeant-Major, "But I warn you of the consequences."
"Sounds like the 'Arabian Nights'", said Mrs. White, as she rose and began to set the supper. "Don't you think you might wish for four pairs of hands for me."
Her husband drew the talisman from his pocket, and all three burst into laughter as the Seargent-Major, with a look of alarm on his face, caught him by the arm.
"If you must wish," he said gruffly, "Wish for something sensible."
Mr. White dropped it back in his pocket, and placing chairs, motioned his friend to the table. In the business of supper the talisman was partly forgotten, and afterward the three sat listening in an enthralled fashion to a second installment of the soldier's adventures in India.
"If the tale about the monkey's paw is not more truthful than those he has been telling us," said Herbert, as the door closed behind their guest, just in time to catch the last train, "we shan't make much out of it."
"Did you give anything for it, father?" inquired Mrs. White, regarding her husband closely.
"A trifle," said he, colouring slightly, "He didn't want it, but I made him take it. And he pressed me again to throw it away."
"Likely," said Herbert, with pretended horror. "Why, we're going to be rich, and famous, and happy. Wish to be an emperor, father, to begin with; then you can't be henpecked."
He darted around the table, pursued by the maligned Mrs White armed with an antimacassar.
Mr. White took the paw from his pocket and eyed it dubiously. "I don't know what to wish for, and that's a fact," he said slowly. It seems to me I've got all I want."
"If you only cleared the house, you'd be quite happy, wouldn't you!" said Herbert, with his hand on his shoulder. "Well, wish for two hundred pounds, then; that'll just do it."
His father, smiling shamefacedly at his own credulity, held up the talisman, as his son, with a solemn face, somewhat marred by a wink at his mother, sat down and struck a few impressive chords.
"I wish for two hundred pounds," said the old man distinctly.
A fine crash from the piano greeted his words, interrupted by a shuddering cry from the old man. His wife and son ran toward him.
"It moved," he cried, with a glance of disgust at the object as it lay on the floor. "As I wished, it twisted in my hand like a snake."
"Well, I don't see the money," said his son, as he picked it up and placed it on the table, "and I bet I never shall."
"It must have been your fancy, father," said his wife, regarding him anxiously.
He shook his head. "Never mind, though; there's no harm done, but it gave me a shock all the same."
They sat down by the fire again while the two men finished their pipes. Outside, the wind was higher than ever, an the old man started nervously at the sound of a door banging upstairs. A silence unusual and depressing settled on all three, which lasted until the old couple rose to retire for the rest of the night.
"I expect you'll find the cash tied up in a big bag in the middle of your bed," said Herbert, as he bade them good night, " and something horrible squatting on top of your wardrobe watching you as you pocket your ill-gotten gains."
He sat alone in the darkness, gazing at the dying fire, and seeing faces in it. The last was so horrible and so simian that he gazed at it in amazement. It got so vivid that, with a little uneasy laugh, he felt on the table for a glass containing a little water to throw over it. His hand grasped the monkey's paw, and with a little shiver he wiped his hand on his coat and went up to bed.
Part II
In the brightness of the wintry sun next morning as it streamed over the breakfast table he laughed at his fears. There was an air of prosaic wholesomeness about the room which it had lacked on the previous night, and the dirty, shriveled little paw was pitched on the side-board with a carelessness which betokened no great belief in its virtues.
"I suppose all old soldiers are the same," said Mrs White. "The idea of our listening to such nonsense! How could wishes be granted in these days? And if they could, how could two hundred pounds hurt you, father?"
"Might drop on his head from the sky," said the frivolous Herbert.
"Morris said the things happened so naturally," said his father, "that you might if you so wished attribute it to coincidence."
"Well don't break into the money before I come back," said Herbert as he rose from the table. "I'm afraid it'll turn you into a mean, avaricious man, and we shall have to disown you."
His mother laughed, and following him to the door, watched him down the road; and returning to the breakfast table, was very happy at the expense of her husband's credulity. All of which did not prevent her from scurrying to the door at the postman's knock, nor prevent her from referring somewhat shortly to retired Sargeant-Majors of bibulous habits when she found that the post brought a tailor's bill.
"Herbert will have some more of his funny remarks, I expect, when he comes home," she said as they sat at dinner.
"I dare say," said Mr. White, pouring himself out some beer; "but for all that, the thing moved in my hand; that I'll swear to."
"You thought it did," said the old lady soothingly.
"I say it did," replied the other. "There was no thought about it; I had just - What's the matter?"
His wife made no reply. She was watching the mysterious movements of a man outside, who, peering in an undecided fashion at the house, appeared to be trying to make up his mind to enter. In mental connexion with the two hundred pounds, she noticed that the stranger was well dressed, and wore a silk hat of glossy newness. Three times he paused at the gate, and then walked on again. The fourth time he stood with his hand upon it, and then with sudden resolution flung it open and walked up the path. Mrs White at the same moment placed her hands behind her, and hurriedly unfastening the strings of her apron, put that useful article of apparel beneath the cushion of her chair.
She brought the stranger, who seemed ill at ease, into the room. He gazed at her furtively, and listened in a preoccupied fashion as the old lady apologized for the appearance of the room, and her husband's coat, a garment which he usually reserved for the garden. She then waited as patiently as her sex would permit for him to broach his business, but he was at first strangely silent.
"I - was asked to call," he said at last, and stooped and picked a piece of cotton from his trousers. "I come from 'Maw and Meggins.' "
The old lady started. "Is anything the matter?" she asked breathlessly. "Has anything happened to Herbert? What is it? What is it?
Her husband interposed. "There there mother," he said hastily. "Sit down, and don't jump to conclusions. You've not brought bad news, I'm sure sir," and eyed the other wistfully.
"I'm sorry - " began the visitor.
"Is he hurt?" demanded the mother wildly.
The visitor bowed in assent."Badly hurt," he said quietly, "but he is not in any pain."
"Oh thank God!" said the old woman, clasping her hands. "Thank God for that! Thank - "
She broke off as the sinister meaning of the assurance dawned on her and she saw the awful confirmation of her fears in the others averted face. She caught her breath, and turning to her slower-witted husband, laid her trembling hand on his. There was a long silence.
"He was caught in the machinery," said the visitor at length in a low voice.
"Caught in the machinery," repeated Mr. White, in a dazed fashion,"yes."
He sat staring out the window, and taking his wife's hand between his own, pressed it as he had been wont to do in their old courting days nearly forty years before.
"He was the only one left to us," he said, turning gently to the visitor. "It is hard."
The other coughed, and rising, walked slowly to the window. " The firm wishes me to convey their sincere sympathy with you in your great loss," he said, without looking round. "I beg that you will understand I am only their servant and merely obeying orders."
There was no reply; the old woman’s face was white, her eyes staring, and her breath inaudible; on the husband's face was a look such as his friend the sargeant might have carried into his first action.
"I was to say that Maw and Meggins disclaim all responsibility," continued the other. "They admit no liability at all, but in consideration of your son's services, they wish to present you with a certain sum as compensation."
Mr. White dropped his wife's hand, and rising to his feet, gazed with a look of horror at his visitor. His dry lips shaped the words, "How much?"
"Two hundred pounds," was the answer.
Unconscious of his wife's shriek, the old man smiled faintly, put out his hands like a sightless man, and dropped, a senseless heap, to the floor.
Part III
In the huge new cemetery, some two miles distant, the old people buried their dead, and came back to the house steeped in shadows and silence. It was all over so quickly that at first they could hardly realize it, and remained in a state of expectation as though of something else to happen - something else which was to lighten this load, too heavy for old hearts to bear.
But the days passed, and expectations gave way to resignation - the hopeless resignation of the old, sometimes mis-called apathy. Sometimes they hardly exchanged a word, for now they had nothing to talk about, and their days were long to weariness.
It was a about a week after that the old man, waking suddenly in the night, stretched out his hand and found himself alone. The room was in darkness, and the sound of subdued weeping came from the window. He raised himself in bed and listened.
"Come back," he said tenderly. "You will be cold."
"It is colder for my son," said the old woman, and wept afresh.
The sounds of her sobs died away on his ears. The bed was warm, and his eyes heavy with sleep. He dozed fitfully, and then slept until a sudden wild cry from his wife awoke him with a start.
"THE PAW!" she cried wildly. "THE MONKEY'S PAW!"
He started up in alarm. "Where? Where is it? What’s the matter?"
She came stumbling across the room toward him. "I want it," she said quietly. "You've not destroyed it?"
"It's in the parlour, on the bracket," he replied, marveling. "Why?"
She cried and laughed together, and bending over, kissed his cheek.
"I only just thought of it," she said hysterically. "Why didn't I think of it before? Why didn't you think of it?"
"Think of what?" he questioned.
"The other two wishes," she replied rapidly. "We've only had one."
"Was not that enough?" he demanded fiercely.
"No," she cried triumphantly; "We'll have one more. Go down and get it quickly, and wish our boy alive again."
The man sat in bed and flung the bedclothes from his quaking limbs."Good God, you are mad!" he cried aghast. "Get it," she panted; "get it quickly, and wish - Oh my boy, my boy!"
Her husband struck a match and lit the candle. "Get back to bed he said unsteadily. "You don't know what you are saying."
"We had the first wish granted," said the old woman, feverishly; "why not the second?"
"A coincidence," stammered the old man.
"Go get it and wish," cried his wife, quivering with excitement.
The old man turned and regarded her, and his voice shook. "He has been dead ten days, and besides he - I would not tell you else, but - I could only recognize him by his clothing. If he was too terrible for you to see then, how now?"
"Bring him back," cried the old woman, and dragged him towards the door. "Do you think I fear the child I have nursed?"
He went down in the darkness, and felt his way to the parlour, and then to the mantlepiece. The talisman was in its place, and a horrible fear that the unspoken wish might bring his mutilated son before him ere he could escape from the room seized up on him, and he caught his breath as he found that he had lost the direction of the door. His brow cold with sweat, he felt his way round the table, and groped along the wall until he found himself in the small passage with the unwholesome thing in his hand.
Even his wife's face seemed changed as he entered the room. It was white and expectant, and to his fears seemed to have an unnatural look upon it. He was afraid of her.
"WISH!" she cried in a strong voice.
"It is foolish and wicked," he faltered.
"WISH!" repeated his wife.
He raised his hand. "I wish my son alive again."
The talisman fell to the floor, and he regarded it fearfully. Then he sank trembling into a chair as the old woman, with burning eyes, walked to the window and raised the blind.
He sat until he was chilled with the cold, glancing occasionally at the figure of the old woman peering through the window. The candle-end, which had burned below the rim of the china candlestick, was throwing pulsating shadows on the ceiling and walls, until with a flicker larger than the rest, it expired. The old man, with an unspeakable sense of relief at the failure of the talisman, crept back back to his bed, and a minute afterward the old woman came silently and apathetically beside him.
Neither spoke, but lat silently listening to the ticking of the clock. A stair creaked, and a squeaky mouse scurried noisily through the wall. The darkness was oppressive, and after lying for some time screwing up his courage, he took the box of matches, and striking one, went downstairs for a candle.
At the foot of the stairs the match went out, and he paused to strike another; and at the same moment a knock came so quiet and stealthy as to be scarcely audible, sounded on the front door.
The matches fell from his hand and spilled in the passage. He stood motionless, his breath suspended until the knock was repeated. Then he turned and fled swiftly back to his room, and closed the door behind him. A third knock sounded through the house.
"WHAT’S THAT?" cried the old woman, starting up.
"A rat," said the old man in shaking tones - "a rat. It passed me on the stairs."
His wife sat up in bed listening. A loud knock resounded through the house.
"It's Herbert!"
She ran to the door, but her husband was before her, and catching her by the arm, held her tightly.
"What are you going to do?" he whispered hoarsely.
"It's my boy; it's Herbert!" she cried, struggling mechanically. "I forgot it was two miles away. What are you holding me for? Let go. I must open the door."
"For God's sake don't let it in," cried the old man, trembling.
"You're afraid of your own son," she cried struggling. "Let me go. I'm coming, Herbert; I'm coming."
There was another knock, and another. The old woman with a sudden wrench broke free and ran from the room. Her husband followed to the landing, and called after her appealingly as she hurried downstairs. He heard the chain rattle back and the bolt drawn slowly and stiffly from the socket. Then the old woman’s voice, strained and panting.
"The bolt," she cried loudly. "Come down. I can't reach it."
But her husband was on his hands and knees groping wildly on the floor in search of the paw. If only he could find it before the thing outside got in. A perfect fusillade of knocks reverberated throgh the house, and he heard the scraping of a chair as his wife as his wife put it down in the passage against the door. He heard the creaking of the bolt as it came slowly back, and at the same moment he found the monkey's paw, and frantically breathed his third and last wish.
The knocking ceased suddenly, although the echoes of it were still in the house. He heard the chair drawn back, and the door opened. A cold wind rushed up the staircase, and a long loud wail of disappointment and misery from his wife gave him the courage to run down to her side, and then to the gate beyond. The street lamp flickering opposite shone on a quiet and deserted road.

12.3.14

Semântica

Uma das consequências das redes sociais é o acirramento dos discursos. Não há mais quem discorda civilizadamente, e o adversário corre o risco de virar rapidamente o demônio, caindo na velha lei de Godwin. E se alguém pontua fora da curva, mostra alguma simpatia ou tentativa de entender o outro lado - presto, é um quisling redivivo, um traidor do movimento. Véi. E se reclama-se desse radicalismo, ouve-se que é essencial ser radical, que sem mudanças radicais não se consegue nada, que a radicalidade é uma necessidade. Bem, eu concordaria, só que acho que tem uma pequena confusão semântica, com dois significados bem diferentes de radical sendo empregados, um para defender o outro. Chamemos de radicalidade e radicalismo.

Radicalidade é do que se fala quando se fala em mudanças radicais; é "ir à raiz do problema." Alguém que pense, por exemplo, ser necessária uma revolução socialista é radical. Numa chave menor, alguém que pense em dobrar os impostos pra implantar um estado de bem estar também. Não é privilégio da esquerda, claro - um anarcocapitalista ou defensor de imposto único também são radicais. Radicalidade, portanto, seria uma posição em relação à política ou à sociedade. Deixando claro que não acho que radicalidade, apesar de ser o sentido que sim tem mais simpatia minha, seja um bem-em-si (nazistas são radicais), nem imune à crítica (uma posição radical é frequentemente uma posição hipócrita, pouco realista, ou contraditória).

Radicalismo é uma característica do tom da discussão, mais do que da posição nela. Assim, é radicalismo, por exemplo, fulanizar o debate, falando mais da incúria de tal ou qual pessoa ou grupo do que da discordância com suas opiniões e posições; no limite, é a demonização, em que a única coisa possível é destruir fulano, depois do que entraremos felizes na Cocanha, da qual só estamos alijados porque estes sujeitos (obviamente mal intencionados) estão de propósito ferrando conosco. É a abdicação da idéia, sequer como objetivo vago, de que a intenção do debate é convencer o adversário; a intenção é gritar, reforçar o próprio sentimento de grupo, e submeter o adversário pelo volume. O mais próximo que se chega da idéia de convencimento é o objetivo de envergonhar o outro por suas posições nefastas.

Reparem que os dois não são ligados. Pelo contrário, o personagem do ano 2013 das redes sociais, o coxinha, é basicamente um centrista radicalista, alguém cujas posições políticas são banais (contra a corrupção, a favor da educação, etc) ou, quando não, próximas do centro (a favor de aumentos salariais, a favor da dureza contra o crime), e  cuja forma de expressá-las é radical, raivosa, injuriada, demonizante. É tudo culpa do PT/PSoL/PMDB/Sarney/Alckmin, quem seja. Só uma anta rematada não percebe que estou certo, e qualquer ressalva ou ponderação é ímpia, quase criminosa. A divergência, então, só pode ser coisa de quem é comprado, corrupto, criminoso mesmo. Vide, por exemplo, os boatos de que o PT e a "turma dos direitos humanos" seriam "mancomunados ao PCC," pela parte da direita, ou pela parte da esquerda a idéia de que metade do orçamento federal é entregue aos bancos.

O coxinha, claro, não é o único; se radicalismo e radicalidade não são xipófagos, tampouco se repelem; nem a radicalidade é algum dado-em-si, mas depende antes de diversas métricas diferentes. Cada uma será importante para alguém, e menos importante para outros. A radicalidade aos próprios olhos pode, sim, ajudar ainda mais a consolidar o radicalismo, a falta deste implicaria uma traição àquela, uma traição do movimento. E a idéia de que "nós" os poucos, os puros, os eleitos estamos ameaçados pela corrupção da Babilônia que nos cerca não é, curiosamente, incompatível com a idéia de que as massas só aguardam um sinal para se erguerem junto conosco.

Não estou, aqui, suspirando por uma política de cavalheiros whig, oitocentista, em que não há grandes divergências porque estamos todos dentro do mesmo objetivo e da mesma classe. Ou, melhor dizendo, com uma imagem estereotipada do século XIX anglo-saxão, já que ninguém que tenha lido Thompson, Saki, ou Mark Twain poderia achar que um dia existiu essa política polida dos aristocratas. (O espaço entre os lados no parlamento inglês é da largura de um florete mais um braço...) Claro que política inclui sim emoção, inclui xingos, inclui porrada (geralmente só figurada). Nem estou dizendo que a recusa a transigir, a compor forças, está a priori errada - muitas vezes é justíssima, e até eficaz. Se estou propondo alguma coisa, é digamos um pessimismo esclarecido. Recusar-se a pensar que com a saída "deles" do poder estará tudo resolvido, e por isso mesmo aceitar, não a composição, muito menos a aliança, mas o diálogo com "eles." Recusar-se a pensar que nós somos intrinsecamente melhores, ao invés de apenas termos opiniões e idéias que reputamos melhores. Porque achar que a simples saída Deles ou mesmo acesso Nosso ao poder vai resolver as coisas é ter como destino a decepção. Repetida.

 Se se pode fazê-lo olhando pra situação ucraniana, em que um autocrata stalino-tsarista e seus capangas enfrentam os capangas (inclusive neonazistas) do império, por que não no próprio quintal? Winston Churchill não era exatamente um traidor do movimento anticomunista, mas definiu assim a coisa: "fazer 'jaw-jaw' ao invés de 'war-war."

Gaiola Dourada II, a revanche redux

ATUALIZAÇÃO

E lá se vão os vereadores, rumo à nova Gaiola Dourada.

Curioso que os vereadores de partidos de esquerda, que deveriam se preocupar com o desmonte das relações do povo com a Cinelândia - e aí incluo PT, PSoL, e PDT, que todos usaram muito a praça - ficaram mudos ou (no caso do Eliomar e Cinco) participaram ativamente do processo de nomadismo.

O post que se segue é de 27 de Abril de 2010 - de outra legislatura municipal, portanto.

A câmara municipal do Rio de Janeiro ganhou, quando construída, o apelido de "gaiola dourada," porque custou algo como quatro vezes o preço de seu vizinho Theatro Municipal. Está superlotada apenas porque há assessores demais, mas mesmo assim o preço do prédio vizinho alugado é relativamente baixo, e situa-se em localização conveniente tanto para suas excelenças quanto para o povão. (A praça da Cinelândia, em frente, é local favorito para carros de som e manifestações.)

Pois bem, tem vereador espertinho falando em mudar a câmara de vereadores para a Zona Portuária. Além da mágica palavra "revitalização," a alegação é de que, com isso, a gaiola dourada viraria um museu da cidade. Noves fora que a prefeitura já tem um espaço perfeitamente adequado para transformar em museu da cidade, para o qual até o projeto já foi feito, que é o Cassino da Urca.

Imagino que uma das características mais importantes do novo prédio seria uma garagem integrada e nenhuma praça na frente, dando aos vereadores a privacidade de não ter que se constranger por manifestações populares...

Achava que o caso tivesse morrido. Pois qual não foi minha surpresa ao constatar que segue firme e forte.

Não confundir, por favor, com a idéia similar esposada pela Assembléia Legislativa estadual, que queria ir para o prédio da Bolsa (o mais caro da cidade), chegou a decretar desapropriação, e agora pretende, como a Câmara, ir para algum lugar na Zona Portuária.

A necessidade de errar, o wanderlust, é um traço admirável. Pena que, no caso dos vereadores e deputados do Rio, saia um pouco caro...

12.2.14

Ducha de água quente

Depois das manifestações de Junho, e da posterior disseminação de black blocs e protestos centrais (porque os periféricos nunca cessaram), muita gente boa viu neles, e no protesto violento em geral, a vanguarda que iria nos redimir, criando o novo mundo. A morte do cinegrafista Santiago Andrade, talvez imputável aos manifestantes, foi uma imensa ducha de água fria. Por seu lado, a felicidade da mídia e dos governistas com o mártir é nojenta, mas é previsível, chegando ao horror da proposta de lei antiterrorismo, avançada pelo governo federal apesar de um de seus líderes a chamar de novo AI-5. Previsível como a própria morte que deu à repressão seu mártir - já houve mais de um quase-linchamento, e o povo que tentava virar uma van de tv no largo do Patriarca não queria fazer carinho aos jornalistas lá dentro.

Um duplo exórdio, antes de continuar o argumento principal: concordo plenamente com a legitimidade da violência popular contra o Estado, que é este que deve temer seu povo. Mais, que essa legitimidade não se aplica apenas ao Estado, mas a todas as instâncias do Poder. Por isso, inclusive, vou além da maioria das pessoas que estão do lado dos manifestantes e não considero a morte do cinegrafista - que não era um neutro relatando o que acontecia, mas um representante da grande mídia, inimiga dos manifestantes -  um assassinato. Lamentável, sem dúvida nenhuma, como é a morte de qualquer ser humano, mas não é mais um assassinato do que as mortes causadas por soldados em guerra. (Se você considera estas também assassinatos, talvez concordemos, retoricamente, cristãmente. Mas são contextos e estados mentais bem diferentes.)  E qualquer comparação da violência pelos manifestantes (não só os black blocs) e a polícia é uma falsa equivalência do tamanho de um bonde. A polícia brasileira mata, aos milhares, e por execução, não como dano colateral em batalhas campais. 

Feito esse exórdio, passo para a questão que me interessa mais, que é a da utilidade.  Quando teve a grande manif no Largo da Batalha, aquela à qual se seguiu a revogação do aumento das passagens em SP, muita gente denunciou o material de construção largado de véspera no Largo, sem tapume em volta. O consenso era de que se tratava de armadilha da PM, para que as pessoas pegassem e cometessem atos violentos, justificando a repressão. Em retrospecto, era provavelmente histeria nossa, e foi só coincidência (aquela porcaria de obra não acaba nunca). Mas o espírito da idéia - que, repito, perpassou aquelas primeiras manifestações, que se multiplicaram justamente a partir da percepção delas como não-violentas era de que violência seria jogar o jogo da polícia. Não creio que essa percepção (repito, difusa, generalizada, e horizontal) estivesse errada. O próprio Gandhi, mais famoso líder de ações não-violentas, com o ligeiro impacto da independência da maior democracia do planeta,  não era um advogado da não-violência apenas por convicção religiosa de jaina (ele nem era jaina, na verdade). A questão é "o que pode funcionar melhor." 

A violência, a ação direta, é o sonho da polícia, como foi reconhecido pelos boateiros do Largo da Batata. Porque a ação direta propriamente dita (o terrorismo popular contra o Estado) não levará a uma vitória contra as forças da repressão, a não ser que se esteja num momento de fermento prérevolucionário (a Economist tentou quantificar esse estado de fermentação, sem tanto sucesso). A violência, fora desse contexto, pode fazer sentido íntimo para os próprios manifestantes, como queria Franz Fanon, de libertação, de descolonização. Mas não traz mudança política, ou pelo menos não no sentido que pretende trazer. Nem o povo que via sua catarse na violência contra a PM, que reclamava de qualquer crítica como "governismo," ou simplesmente censurava a insuficiente radicalidade alheia,  ignorava isso de todo. Não fosse isso, não renegaria toda e qualquer evidência de violência concreta como obra de P2s e outros agents provocateurs, ao mesmo tempo que louvava a violência abstrata. E sim, acho que o entusiasmo generalizado entre a esquerda e a mómenos-esquerda indignada de facebook pelos bbs ajudou a por lenha na fogueira. Ninguém é black bloc essencialmente, nem se autodesignar bb significa sempre um mesmo continuum de força em toda manifestação. 

Não adianta muito denunciar que a grande mídia e governos manipulam e distorcem as notícias em proveito próprio. Bem, dã. Eu faria o mesmo. OK, não faria, mas eu não seria um bom editor de jornal. Aliás, essa renúncia, junto com a confusão de radicalidade com maniqueísmo, leva até a chamar de ilações uma reportagem da revista Época justamente de que o político fluminense Garotinho estaria inserindo seus próprios agents provocateurs em protestos. (Em que isso é defender os manifestantes? Só são inimigos os agents provocateurs da polícia oficial, e não os das milícias com quem Garotinho já foi acusado de ser conectado?)  Do mesmo jeito, vi chamarem o deputado e candidato recente a prefeito Marcelo Freixo de pelego por se distanciar da violência nos protestos, além de negar a rocambolesca acusação que lhe foi feita pela Globo. Ora, se Freixo depender unicamente da esquerda radical para se eleger, volta a ser procurador ano que vem. O jogo a ser jogado no momento se dá num caldo de cultura brasileiro que é profundamente legitimador da violência autoritária, mesmo por quem a sofre. É um jogo em que mesmo a esperança de que a violência, provocando uma radicalização da brutalidade policial, a exporia, não é muito alentadora -  e não só porque todas as informações serão manipuladas, e o poder de informação ou desinformação anda junto com o poder estatal e econômico. Paradoxalmente, um jogo em que a violência não funciona em parte justamente porque a violência é tão legítima, tão aprovada, tão onipresente. 

8.8.13

Megaflora carismática, quantificada

Eu volta e meia reclamo do fenômeno da megaflora carismática, isso é da tendência às pessoas se concentrarem na devastação ecológica em locais cênicos e ignorarem (ou mesmo acharem que não tem problema nenhum) essa devastação em lugares mais, digamos, andrajosos. Assim, o governo brasileiro já pretendeu estimular a ocupação do cerrado para salvar a amazônia. Assim, a perenização de rios da Caatinga não é considerada devastação ecológica, fazer o deserto florescer é bônus e não ônus. Idem a plantação de florestas comerciais no Pampa - aliás, a maioria dos países conta a plantação de florestas comerciais em suas contas de "desmatamento líquido."

Enfim. Lendo um artigo na UNESP Ciência que tinha o número de artigos científicos cadastrados na Scopus pra cada bioma brasileiro, resolvi quantificar essa atenção. Aí embaixo está a tabelinha. Espero que os campos sejam autoexplicativos; na busca do google news adicionei "desmatamento" quando vi que muitos artigos se referiam àquele bioma entendido como região, e não apenas como bioma, mas não quis jogar fora o primeiro dado.

https://docs.google.com/spreadsheet/ccc?key=0Ag0-e7PoCAFcdGJ4VnJRQy1LT0N5QTZ1NklfRGxGWXc#gid=0


12.7.13

Socorro!

Já que torrar todas as minhas economias com médico não adiantou de nada, lanço aqui na internet, sem muita esperança, a pergunta:

Estou há já um ano com dor no pescoço, que vai se tornando insuportável quando fico de pé, e especialmente no computador; desde novembro do ano passado, a essa dor se compuseram dores irradiadas pelo corpo. A mais frequente, nos dedos das mãos e dos pés, é aliviada (enquanto não estou há muito tempo de pé) inclinando a cabeça à esquerda, quando ocorre um estalo na área circulada na imagem abaixo, entre a vértebra C3 e o crânio.

Desde que fui num acupunturista que resolveu dar uma de quiroprata, intensificaram-se dores também na parte de trás das coxas e pernas, e no bíceps esquerdo; essas estão associadas a um desconforto na região assinalada na terceira imagem, quase na base do pescoço.

Além de ficar muito tempo em pé ou sentado, deitar-se com o pescoço inclinado também aumenta as dores.

Alguém tem idéia do que fazer ou quem procurar? Já estou fazendo fisio 3x por semana, osteopata 1x por semana.  Já fui num energúmeno no Instituto Vita que me cobrou 600 reais para dizer que devia ser depressão, receitar antidepressivo, e dizer que "fazer esporte é bom pra saúde," depois d'eu começar a consulta reclamando de não conseguir fazer exercício. Os laudos da ressonância magnética apontam obliteração foraminal, mas não hérnia que cause compressão da coluna. Estou desde janeiro de licença médica.






27.6.13

O gigante confuso

Numa demonstração de força da velha mídia que considerávamos morta, O Gigante Acordou. Que nem no comercial de uísque. Não foi a mídia que o acordou, claro - as tentativas de fazer passeata própria com o Cansei deram todas com os burros n'água. O que acordou foram as cenas horrendas da Quinta de Sangue e Vinagre, espalhadas pelas redes sociais, cheias de jovens brancos de classe média agredidos barbaramente pela polícia, que fizeram com que a mídia - que até então era contra qualquer protesto porque impedia o Mélange, perdão, o trânsito de fluir - resolvesse partir para a agenda positiva e pautar o movimento. Tiveram sucesso, com a ajuda de grupos como o Anonymous Brasil. Hoje, as manifestações são só acessoriamente pelo passe livre; são por tudo e por nada, com direito a toques de micareta, dicas da Capricho, e gente fazendo joinha com o Choque.

Pela polissemia extrema, tem muita gente que se avogou em porta voz do povo na rua, seja a favor (imputando suas próprias convicções a ele, e se dirigindo às autoridades) ou contra (temendo um golpe ou fascismo). Besteira. O movimento não é unificado, apesar da preponderância de pautas caras à classe média, influenciada mas não comandada pela mídia. Tem abaixo a rede Globo e abaixo o Bolsa-Família, tudo junto e misturado. E a FIESP não tem nenhuma vontade de fazer golpe contra uma presidenta que é sua aliada contra a FEBRABAN. Não quando o pior que pode acontecer é ser eleito ano que vem o candidato da FEBRABAN. Os milicos até muito gostariam, foram lá na Pirâmide do Mal da Paulista em romaria (e a visão do povo na frente cantando o hino enrolado na bandeira deve ter lhes levado lágrimas aos olhos), mas não são eles quem manda.

Saíram, dessa geléia geral, alguns temas recorrentes, e já que não tenho a hybris de dizer que o movimento realmente é pelo que quero, falo do que gostaria que fosse:

1) O passe livre, reinvindicação que começou tudo. No começo era contra, por achar que tem coisa melhor pra fazer com 12 bilhões de reais por ano só em São Paulo. Hoje, acho razoável. Faria uma verdadeira revolução no acesso à cidade e, se financiado por um IPTU triplicado e pedágio urbano de 10 reais por dia, seria ainda por cima fortemente progressivo. Até as empresas gostariam de não ter que pagar vale-transporte. E eu nunca mais ficaria catando o bilhete único pela casa. Aliás, para dar uma idéia do quanto  IPTU no Brasl é baixo, meu IPTU, num apartamento de três quartos num bairro burguês (a três quarteirões do apartamento do prefeito, pra ser exato), poderia triplicar que o passe livre para duas pessoas compensaria plenamente o aumento.

2) A copa do mundo. A galera que é contra a copa do mundo pelos gastos públicos exagera, e muito, o tamanho desses gastos. Nos estádios e seu entorno propriamente ditos o gasto não chega, na mais exagerada das estimativas, a 12 bilhões. Ao longo de oito anos. 1,5 bilhões por ano não chega a 3% do gasto de um ministério grande como educação, saúde, ou defesa. E sobre a corrupção, não é como se a copa fosse especial. Pra ficar na saúde, o hospital inaugurado com show superfaturado da Ivete Sangalo já começou a ruir...

Não que eu não tenha problemas com a copa e a olimpíada (e quiçá a expo 2020). Mas eles são por outro lado. Tenho problemas com a lei esdrúxula que submente o Brasil à FIFA. Tenho problemas com desfigurarem os estádios em nome do padrão FIFA, que aliás vai ser péssimo pros clubes depois, com os VIPS e VVIPS. Tenho problemas com o plano urbanístico previsto na maioria dos estádios, incluindo as remoções.

3) A PEC 37. Nos EUA, o ministério público não investiga, nem na maioria dos países de sistema judicial de common law. E é órgão do Executivo, não independente. Não consta que a justiça americana seja tão pior do que a nossa assim. Não que eu seja a favor dela, mas que não consigo, honestamente, formar opinião. E olha que, ao contrário de 99% dos que protestam contra ela, li a porcaria e as opiniões de juristas sobre.

4) Contra a corrupção, pela paz, pela saúde e educação, etc. Cês sabem que o Collor se elegeu com a bandeira de combate à corrupção, né? E Nação acima de partidos. Serião que cês querem reeleger o Collor?

5) Last but not least, a violência policial, que fez com que o movimento restrito pelo passe livre se tornasse um fenômeno de massa. Sem negar o quanto de sensibilidades injustas teve na reação chocada à violência policial contra jovens de classe média, o fato de na favela a bala ser de chumbo não torna menos legítima a indignação com a bala de borracha no protesto. São ambas ilegítimas, ilegais, e erradas. E não dá pra simplesmente dizer que a polícia "se excedeu." Não se excedeu. Ela é feita pra fazer isso mesmo. A polícia brasileira mata milhares de pessoas por ano, com a alegação de proteger a Ordem. Não as leis escritas, mas a Ordem hierárquica, consuetudinária. A polícia brasileira consiste de soldados, não de policiais, que são treinados para fazer o que se vê eles fazendo nestas últimas semanas. Sem desmilitarizar as polícias, criando uma polícia civil única (e sem "guarda metropolitana" também), não tem como falar em justiça no Brasil.

Não que seja nos costumes e hierarquias da polícia e das forças armadas apenas que o autoritarismo sobreviveu no Brasil. Ainda tem muita coisa nas próprias leis. Quer coisa mais kafkiana do que o crime de "resistência à prisão"? Ou "apologia ao crime," que a rigor proibiria a menção de descriminalização de qualquer coisa, fora a amplitude com que é interpretado. Desacato à autoridade? A polícia brasileira não é horrível porque os policiais contratados são más pessoas, mas porque é para isso que serve. Isso tem que mudar. Isso - vergonhosamente ausente dos "pactos" da presidenta - deveria ser, mais do que tudo, a prioridade nos protestos que tomaram corpo com a própria violência policial.

16.5.13

Maurício Gernsback Tolmasquim, a ferro e fogo



Em entrevista concedida ao Valor para neutralizar, digo comentar sobre estudo do WWF sobre a necessidade de proteção de ecossistemas amazônicos, o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, diz que "não se vai construir a ferro e fogo" enquanto explica que sim, vai construir a ferro e fogo.





Problemas na entrevista do Tolmasquim: 1) Tolmasquin: Tapajós é uma área pouco antropizada. O grande desafio ali não é desenvolver, é construir preservando o máximo possível. Por isso a ideia das usinas plataformas, pensando em que as áreas onde ficariam os operários da obra sejam temporários e que não se formem cidades, que pessoas não se estabeleçam ali e que as áreas mexidas sejam reflorestadas.

Hidros-plataforma são um embuste, por uma série de motivos que já comentei aqui. Resumindo, é que plataformas não são isoladas e de baixo impacto no sítio por alguma forma exótica de planejamento ou engenharia, mas porque sendo flutuantes são construídas longe de seu destino final. O local de impacto da construção de uma plataforma é Niterói, não a bacia de Campos. Não dá pra rebocar usina hidrelétrica. http://sambadoaviao.blogspot.com.br/2012/05/projeto-hudson-redux.html


2) Tolmasquim: No caso do Tapajós, não tenho dúvida. Não se pode construir uma usina a ferro e fogo, destruindo todos os Ecossistemas. É claro que esse modelo vai contrariar tanto o pessoal que quer otimizar o uso daquela bacia, que não está usando da forma ótima, como vai contrariar os que desejam preservar intocado aquele ambiente. É preciso ter uma solução de compromisso. O potencial do Tapajós, Teles Pires e Juruena é de 28 mil MW - isso é o que é possível, não o que será feito. O que será feito é o que vamos ver no futuro. Só uma parte pequena está planejada.

Falar que "não fazer 100% de um nem de outro" é conciliação. Só que só de projeto firme ele fala em mais de 60% dos MW. Fazer só quase tudo o que ele quer é fingir que houve conciliação. Aliás, restringir a questão ao Tapajós, idem. As usinas do Madeira e do Xingu não entram na conta do "a parte que nós desenvolvimentistas queríamos" por quê?


3) Tolmasquim: Pelo inventário do Teles Pires, Juruena e Tapajós são 42 usinas. Isso não significa que serão construídas, o que está em planejamento é outra coisa. Mas no inventário há potencial para sete usinas no Tapajós, 29 no Juruena e seis no rio Teles Pires. São desde usinas bem pequenas até grandes.

O último PDE tem oito usinas na região no planejamento até 2021. São quatro no Teles Pires - Colider (342 MW) e Teles Pires (1820 MW) que já estão em construção, Sinop (461 MW), que deve ir a leilão possivelmente em agosto, e São Manuel (746 MW), onde ainda temos que fazer audiência pública. No rio Tapajós são outras duas, São Luiz do Tapajós (6133 MW), que está em estudos e provavelmente vamos leiloar em meados do ano que vem, e Jatobá (2338 MW). Por fim, no Juruena, São Simão (3509 MW) e Salto Augusto (1461 MW), que ainda nem se iniciaram os estudos. Isso não quer dizer que as outras estão abandonadas, apenas não estão ainda no horizonte do planejamento. Os estudos serão úteis para a discussão no futuro.

Ao falar de MW, tratar dano ambiental como se fosse coisa fungível. "Não mexemos em x% da área". Só que o pedaço que mexeu ferrou tudo. Arguivelmente, apenas a hidrelétrica de São Luís do Tapajós, com 6GW anunciados, já mexe com toda a bacia, já que interrompe o fluxo do Tapajós. Rios em particular são por definição ambientes dinâmicos, e o mesmo peixe pode ter como seu território todo o comprimento do Tapajós. E não, escadinha não resolve o problema, até porque além da barreira física tem a zona morta a montante da barragem, em que a água parada tem menos oxigênio.


4) Tolmasquim: Na Amazônia há dois tipos de usinas, dois modelos. Um deles é para áreas antropizadas, onde há muita atividade humana, que é o caso das usinas do Madeira, em Rondônia, e de Belo Monte, no Pará, onde 70% do entorno são fazendas. Nessas áreas, muitas vezes longínquas, com uma considerável população pobre vivendo em situação precária, a usina é vista como vetor de desenvolvimento regional. As condicionantes da obra levam o tratamento de esgoto aos municípios, melhoram o sistema de saúde. Nesses casos, as usinas podem significar desenvolvimento regional e também preservação ambiental, com a obrigação de criar áreas de conservação, recompor a mata ciliar. Obrigações que procuram reverter o processo de degradação e proporcionar desenvolvimento regional.

Falar do ideal de desenvolvimento levado por usinas em áreas já desmatadas como se tivesse relação com a realidade. Esgotamento, recomposição de matas ciliares, e companhia, são belas intenções, não o que as empresas construtoras de barragens realmente fazem, muito menos o que acontece na região, para além do controle delas. Sem prever as falhas nem ter mecanismos para preveni-las, os "planos" da EPE, com todo o seu custo e todos os seus pesquisadores, são wishful thinking, e valem tanto quanto um post no meu blog propondo usinas nucleares-parque no sudeste.


5) Tolmasquim: O potencial hidrelétrico, da mesma forma que a Biodiversidade, é uma riqueza. Temos a matriz energética que menos emite gás estufa do mundo. Não vamos aproveitar todo o nosso potencial hidrelétrico de lá. Belomonte, do ponto de vista de engenharia não é um projeto onde se visou produção de energia máxima. Não é que a engenharia não saiba fazer uma usina, poderia gerar mais se tivesse um reservatório grande, mas o impacto disso não seria aceitável. Mas não terá os impactos negativos que poderia ter. Esse meio termo é o que buscamos, esse é o debate.

Valor: E a preservação é uma variável importante?

Tolmasquim: No caso do Tapajós, não tenho dúvida. Não se pode construir uma usina a ferro e fogo, destruindo todos os Ecossistemas. É claro que esse modelo vai contrariar tanto o pessoal que quer otimizar o uso daquela bacia, que não está usando da forma ótima, como vai contrariar os que desejam preservar intocado aquele ambiente. É preciso ter uma solução de compromisso. O potencial do Tapajós, Teles Pires e Juruena é de 28 mil MW - isso é o que é possível, não o que será feito. O que será feito é o que vamos ver no futuro. Só uma parte pequena está planejada.

Valor: Essa bacia é a mais importante como potencial hídrico do país, representando 25%?

Tolmasquim: Sim, entre as que não foram exploradas ainda. O que precisamos agora é criar elementos importantes para o diálogo entre as áreas. Não necessariamente todo mundo vai concordar no fim, mas isso faz parte do processo.

Valor: E a questão indígena?

Tolmasquim: É o tema mais importante no planejamento de hoje. 

Exagerar a importância da energia do Tapajós. Se Belo Monte é o modelo, o "meio termo" propalado são 11GW, não 28. Com 100% de aproveitamento. Afinal, Belo Monte tem uma potência nominal de 11GW, e geração firme de 4, e o regime de águas do Xingu é muito parecido com o do Tapajós. 28GW são duas Itaipus, é um número impressionante. "Um pouco menos de uma Itaipu" em troca de eliminar completamente uma área de Amazônia maior do que a maioria dos estados brasileiros é menos atraente.