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17.11.14

Welcome to the jungle

Nos próximos dias, os paulistanos começaremos a beber água do 2º volume morto. Parêntese: O que é o volume morto, e por que a expressão correta é segundo volume morto, e não segunda cota do volume morto? Ora, "segunda cota" implicaria, como reza a propaganda oficial, numa reserva técnica, cujo uso só é restrito por um protocolo, uma autorização da ANA para captar mais um pouco duma reserva singular. Não é o caso. Uma represa é um vale que foi inundado; o volume morto, a área desse vale que fica abaixo das comportas de captação, é deixada lá por três principais motivos, que depois da construção viram três motivos para se mantê-lo sempre: 1) Pela geografia da represa, é difícil simplesmente situar as comportas o mais baixo possível. Este é só contingente, e corresponderia à idéia da "cota." Só que... abaixo do volume morto, o vale não é uma tigela oval e uniforme. São vários pequenos lagos que se formam; frequentemente, o nível da comporta é o mesmo que o nível mais baixo em que se pode falar de um único lago da represa. Por isso, para captar cada volume morto, são necessárias obras de terraplanagem. 2) Pela absorção de água do solo ser menos previsível do que a subida de água num reservatório, uma gradação que mantenha o solo saturado de água torna as coisas mais previsíveis; observe-se que o nível da Cantareira continua baixando mesmo com chuva.  3) Pela manutenção da qualidade da água, filtrando os poluentes carreados pela chuva seja pela decantação no fundo, seja pelo ecossistema funcionando.

Relacionada a esta última função, de todas as preocupações quanto à crise do sistema de abastecimento de água a que mais encontra eco é aquela que fala dos riscos de se beber a água. Curiosamente, também é das menos imediatas; os níveis de poluentes observados na água do volume morto são acima do ideal, mas ainda abaixo do limiar de risco, pelo menos por enquanto; ao contrário das represas do lado sul da metrópole paulistana, ou do vale do Paraíba, as represas da Cantareira estão majoritariamente em áreas rurais e pouco adensadas, com poucas fontes poluidoras. Sequer é a qualidade da água do volume morto o principal problema de qualidade da água da Sabesp; muito pior é a pressão intermitente diária, que permite que poluentes e micróbios do chão entrem nos canos subterrâneos (dos quais eram bloqueados pela alta pressão) e sejam, diariamente, varridos e levados às torneiras.

Vão muito abaixo na hierarquia de preocupações, os efeitos, muito mais graves, sobre o meio ambiente, a economia, ou o abastecimento futuro; precisamos preservar nossos preciosos fluidos corpóreos. Essa prioridade está longe de ser jabuticaba paulistana; é comum mundo afora. Fale que brinquedos chineses destinados a crianças americanas são produzidos em laogai, campos de trabalho prisioneiro-escravo, e a indiferença (ou aquela indignação de internet que é seu sinônimo mais estridente) será a regra; fale que os brinquedos chineses feitos em campos de trabalho escravo contém alguma substância tóxica, e governos se movimentarão, pessoas serão presas, a Justiça se pronunciará altissonante e divina.

Um dos casos mais tristemente hilários desse fenômeno ocorreu com o escritor americano Upton Sinclair. No auge da pujança industrial de Chicago, aquela que Carl Sandburg chamava de City of Big Shoulders*, Upton escreveu The  Jungle, um livro que poderia traquilamente ombrear-se com os clássicos da literatura americana (na Amazon perde feio, é só o 4,966º mais vendido, vs. o 136º lugar de To Kill a Mockingbird). A idéia dele era antes de tudo denunciar as condições horrorosas a que eram submetidos os imigrantes que trabalhavam em todos os abatedouros que fizeram de Chicago a 2ª Cidade dos EUA, com seu protagonista Jurgis que, do alto de seus dois metros de altura e nome gutural, enfrenta cada um dos muitos reveses que o destino lhe atira com a frase "trabalharei mais duro," até morrer de tanto trabalhar. Jurgis sofre assédio moral no trabalho perigoso, mal pago, e sem assistência o tempo todo; sua mulher é estuprada seguidamente pelo chefe e morre no parto; o filho morre afogado brincando na rua-valão... e aí por diante; a força do livro está justamente  em conseguir ligar o instinto de olhar acidente no leitor, de modo que a sucessão de horrores prende ao invés de cansar. The Jungle era uma denúncia, e todo montado em cima de uma descrição vívida e realista do horror da revolução industrial. Causou, como queriam Upton e seus companheiros no jornal socialista Apelo à Razão, um pusta escândalo. Só que... ao invés de se indignar com a vida levada por Jurgis e Ona, as pessoas se indignaram com as nojeiras descritas, e a possibilidade de contaminação dos alimentos. Nossos preciosos fluidos corpóreos. O livro foi indiretamente responsável por criar a FDA; 108 anos depois, boa parte dos americanos ainda têm um Direito ao Trabalho.






*In full:


Hog Butcher for the World,
   Tool Maker, Stacker of Wheat,
   Player with Railroads and the Nation's Freight Handler;
   Stormy, husky, brawling,
   City of the Big Shoulders:

They tell me you are wicked and I believe them, for I have seen your painted women under the gas lamps luring the farm boys.
And they tell me you are crooked and I answer: Yes, it is true I have seen the gunman kill and go free to kill again.
And they tell me you are brutal and my reply is: On the faces of women and children I have seen the marks of wanton hunger.
And having answered so I turn once more to those who sneer at this my city, and I give them back the sneer and say to them:
Come and show me another city with lifted head singing so proud to be alive and coarse and strong and cunning.
Flinging magnetic curses amid the toil of piling job on job, here is a tall bold slugger set vivid against the little soft cities;
Fierce as a dog with tongue lapping for action, cunning as a savage pitted against the wilderness,
   Bareheaded,
   Shoveling,
   Wrecking,
   Planning,
   Building, breaking, rebuilding,
Under the smoke, dust all over his mouth, laughing with white teeth,
Under the terrible burden of destiny laughing as a young man laughs,
Laughing even as an ignorant fighter laughs who has never lost a battle,
Bragging and laughing that under his wrist is the pulse, and under his ribs the heart of the people,
                   Laughing!
Laughing the stormy, husky, brawling laughter of Youth, half-naked, sweating, proud to be Hog Butcher, Tool Maker, Stacker of Wheat, Player with Railroads and Freight Handler to the Nation.


5.11.14

A outra defesa nacional

Feito o alerta, fica a pergunta: o que pode ser feito, então? Precisamos a) de zerar o desmatamento na Amazônia, B) de reflorestar boa parte do Cerrado e da Mata Atlântica, C) de reflorestar integralmente as matas ciliares. Temos que reverter o malfadado código florestal sim, mas não pode-se simplesmente parar por aí.

Bem, pra começar, dar dentes ao ICMBio. Parar de considerar ele uma agência menor, acessória, para reconhecer que é fundamental pra existência do próprio país. A título de comparação, o orçamento do ICMBio atualmente é de 200 milhões, enquanto o plano Safra - que, como já vimos, depende no longo prazo do ICMBio - vai a 156 bilhões. Só o plano safra da agricultura familiar, um detalhe no meio do plano safra do agronegócio, vale 20 bilhões, ou seja, em 4 dias já supera o orçamento anual do ICMBio, que cuida, ou tenta cuidar, diretamente de 500.000km2, e indiretamente de outro milhão de km2, as áreas de preservação, que não são diretamente controladas. Quintuplicar esse orçamento do ICMBio seria o mínimo, para começar. E dar aos seus agentes, quando fosse o caso, poder e equipamento de polícia, ou uma integração operacional mais próxima com a PF e o Exército. Fora dos limites dos parques nacionais, dar dentes também ao Ibama e às agências ambientais estaduais. Cancelar os projetos de construção de usinas na Amazônia, "plataformas" ou não, a fio d'água ou não.



Depois, aumentar os domínios do ICMBio, especialmente fora da Amazônia, que hoje concentra 75% das unidades de conservação (observe que de grande no cerrado, no mapa, só terra indígena - que também pode ser encarada como uma unidade de conservação, já que o desmatamento é muito menor). Precisamos transformar em área de conservação integral toda a área a 1km de represas, de responsabilidade federal ou estadual segundo o caso. 2km, no caso de reservatórios e rios que sejam fonte de abastecimento de água para cidades com mais de um milhão de habitantes. Hoje, o código florestal só fala em APP, mantendo a responsabilidade privada, de 500m para rios grandes a 10m para rios de até 10m. É pouco, e é injusto deixar a responsabilidade por uma área desse tamanho com os particulares. Pior do que ser injusto, é ineficaz, já que não é percebido como do interesse do fazendeiro manter às próprias custas a água comum. Mais que isso, precisamos de grandes reservas no Brasil do lado de cá da serra do Espinhaço, que como pode se ver no mapa são raras. Fragmentos florestais são menos biodiversos e capazes de se sustentar quanto menores forem, algo que foi, aliás, comprovado em pesquisas realizadas no Brasil, na região de Manaus. Mil fragmentos de 1km2 não se equivalem a um fragmento de mil km2 - o que faz com que as % que sobraram, no resumo, dos biomas cisamazônicos, serem muito menores do que parece, já que estão distribuídas por fragmentos minúsculos. Se quiserem agradar aos engenheiros gernsbackianos, desolados com a perda das hidrelétricas, pode-se até implementar minha idéia maluca das termonucleares pré-evacuadas, com grandes parques no seu entorno e gerando carradas de eletricidade na base do sistema.

Isso tudo demandaria muito dinheiro, claro. Da ordem, pelo menos, da dezena de bilhões por ano, senão mais. Mas ora, o Brasil gasta 64 bilhões por ano no ministério da Defesa, contra que inimigo nem se sabe - é bem verdade, 48bn são com pessoal, incluídos 2bn com pensão de filha. Duas vezes mais dinheiro é gasto com a pensão das Maitês Proenças que com o meio ambiente. Com uma reorganização das forças armadas, focada na defesa nacional stricto sensu, sem alistamento "universal," sem porta-aviões, submarinos nucleares, e outros brinquedos de luxo e inúteis, desocupando as vastas áreas nos centros metropolitanos, especialmente no do Rio, sem os quartéis que na prática são condomínios de luxo para oficiais, em suma, tendo uma força militar de autodefesa no modelo sueco (confesso que pessoalmente gostaria inclusive da abdicação do nome "exército," como no Japão)  poderia-se ter uma capacidade de defesa maior com metade do orçamento. Dá para multiplicar por 20 o gasto com a defesa das águas, e ainda sobra muito troco...

4.11.14

Juiz vs guarda de trânsito

Inspirado pelo presidente do TJSP que explicou que o auxílio-moradia na verdade é um aumento, e merecido porque juiz ganha pouco, e pelo incidente em que uma guarda de trânsito foi obrigada a pagar 5000 de idenização ao juiz que parara em uma blitz, resolvi comparar os salários de juízes e guardas de trânsito no Brasil com outros países. Só os da Europa que achei num relatório, porque dá trabalho:


Para o salário brasileiro, foram contados o 13º, auxílio-paletó, e auxílio-moradia. Salários de juízes tirados deste relatório. Salários de guardas fuçados em sites de emprego.

3.11.14

Dilma, o Alckmin de amanhã?

A seca que assola o Sudeste do Brasil pode - provavelmente será - a primeira de muitas, num país mal posicionado para enfrentá-las ou mitigá-las. Nesse sentido, a debâcle da Cantareira pode ser uma prefiguração do que espera o Brasil inteiro...

Este post precisa de duas ressalvas enormes.

Primeiro, a relação inequívoca que faz a atual seca ser culpa do desmatamento amazônico, atribuída ao pesquisador Antônio Nobre por uma imprensa sôfrega de espalhar as responsabilidades pela Cantareira, não é feita no relatório dele, até porque não poderia mesmo, nem na sua apresentação ao público. Atribuir um caso específico de fenômeno climático a um processo de alteração global é impossível, mesmo num trabalho de divulgação, de propaganda, que não se pretende ao rigor de trabalhos mais técnicos. O número de variáveis, em diferentes processos, muitos deles estocásticos, é grande demais; o que os modelos descrevem é o progresso geral, não cada ponto específico. O que o relatório fala, o que é quase certo, é que teremos mais secas assim no futuro que tivemos no passado. O que outros relatórios, os do IPCC, dizem é que teremos mais secas assim no futuro do que tivemos no passado, no sudeste brasileiro, por conta do aquecimento global. E os dois não se somam, se multiplicam (e pra piorar, ao contrário do Antônio Nobre que pretende soar um alerta, o IPCC é ridiculamente conservador nas suas estimativas; é provável que a coisa seja pior). Sinceramente, isso é muito mais importante para a discussão do que as causas da atual seca: as causas das futuras secas, que ainda podemos mitigar. Para a atual, a Inês já é morta,
Secas do rosto as rosas, e perdida
  A branca e viva cor, co'a doce vida.

Segundo, é óbvio que, apesar do título, Dilma não é a única responsável pelo que ocorre no meio ambiente no Brasil. Pelo contrário, pelo menos parte da estagnação ou reversão na queda de desmatamento ocorrida no período 2004-2010 é atribuível ao código florestal, cuja aprovação, em que o PT foi o único partido grande a votar contra, foi celebrada como derrota da presidenta. E, como podemos ver no gráfico abaixo, o desmatamento caiu sob o PT, e muito. Mesmo com o aumento pós-código florestal, ele ainda é uma fração do que era antes, que dirá da tendência apontada até 2004. (De novo, o PT não é tampouco o único responsável por essa queda, apesar de no caso ser o principal.) Se as coisas estão ruins, imagine como estariam com uma década de desmatamento aos níveis de 2004, ou pior ao dobro desses níveis?


Ressalvas feitas, a questão é: o Brasil, assim como as primeiras civilizações no Oriente Médio, no norte da China, no Paquistão, é uma civilização hidráulica. Enquanto a maioria dos países no mundo puxa sua energia elétrica de usinas térmicas, aqui são as hidrelétricas as principais. Nosso maior produto de exportação são os frutos da terra, o que também é chamado de exportação de água. Nossos rios, pelo menos nos planaltos e morros cisamazônicos, são hoje quase todos escadinhas de represas. E como essas primeiras civilizações, cercadas de desertos e se aninhando junto ao Indo, ao Huang Ho, ao Nilo ou o ao Tigre-Eufrates, é uma civilização hidráulica em que a água não abunda. A declaração, a princípio, parece um despautério. É só ver no Google Maps o contraste entre o Brasil verdejante e as áreas no entorno desses rios; o Nilo, em particular, é uma tripa verde em meio ao deserto, a fronteira tão nítida que poderia ter sido talhada a faca; não é por acaso que do deserto vêm os deuses terríveis dessas civilizações, os Apshai e as Lamias, e Set o terrível, o estrangeiro de cabelo vermelho ou cabeça de hiena, que fez em pedaços Osíris, deus morto da ressurreição do grão. Mas porém todavia entretanto, algumas diferenças nas civilizações em questão fazem com que essa seja uma declaração até conservadora. Tebas a gloriosa, cidade das mil portas, não tinha a população da Vila Mariana ou Copacabana. São Paulo fica, não no curso médio do Tietê, mas em suas cabeceiras, assim como outras metrópoles brasileiras. A água no Brasil depende do delicado equilíbrio dos rios voadores para continuar caindo do céu. E a maior parte da energia que supre a civilização industrial brasileira vem de barragens. Manter e aumentar a disponibilidade de água, longe de ser frescura de ambientalista, deveria ser das prioridades principais de qualquer governante. Temos pouca água, teremos menos no futuro.

Temos menos água porque a geografia do Brasil é tal que, sem a Amazônia e seus efeitos peculiares no clima, a maior parte do país seria semiárido ou até desértico. As montanhas íngremes da Serra do Mar bloqueiam a vinda de umidade marinha para o planalto; as chuvas copiosas que caem sobre o vale do Paraná vão escasseando à medida que se sobe para o norte, justamente por serem copiosas no início; a própria Amazônia se situa próxima do grande cinturão global de desertos. A questão é que a grande floresta tropical respira, transpira, evapora água; uma quantidade imensa de água, superior ao próprio volume do rio-mar. Com isso, a chuva que vem do oceano, ao invés de se gastar, como na subida do Paraná, vai é se retroalimentando, até escorregar pelos vales dos grandes afluentes da margem direita, e com isso chegar ao planalto. (Mais chuva ainda bate nos Andes, fazendo da floresta peruana dos lugares mais úmidos, e biodiversos, do planeta.)

E, apesar do mapa abaixo em que boa parte do Brasil tem estresse hídrico fraco, isso não reflete a realidade das grandes cidades brasileiras que, pelos caprichos da história, não ficam em sua maioria junto a grandes cursos d'água, mas bem pelo contrário, nas cabeceiras dos rios, em que eles ainda são pouco mais que riachos, ou em baixadas litorâneas estreitas, cujos rios são igualmente pequenos. O Tietê em São Paulo mal saiu de sua infância encachoeirada antes de ser canalizado; o Anhangabaú, junto ao
qual foi construída a vila, hoje desapareceu, como desapareceu o primo Carioca (este fica sob a rua das Laranjeiras). Estão enterrados sob as avenidas, são apenas galerias pluviais a mais. Do mesmo modo, estão nas cabeceiras, equilibradas sobre as montanhas logo aonde começa a expedição de descida da Serra do Mar, Curitiba,  Campina Grande, Garanhuns, Caruaru... E nas pequenas baixadas litorâneas estão quase o resto todo - Florianópolis, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, João Pessoa...  e sempre temos as cidades erguidas como capitais no planalto, como Belo Horizonte, Goiânia, ou Brasília; nenhuma dessas cidades tem água disponível próxima em grandes quantidades. Vitória, próxima da foz do rio Doce, as capitais alagoana e sergipana, próximas do São Francisco, Porto Alegre junto ao Guaíba, são exceções à regra. Isso não era  problema quando essas cidades nasceram, com as chuvas relativamente abundantes; os riachos e ribeirões bastavam. Hoje, não se pode dizer a mesma coisa, com milhões e milhões de pessoas a circular por metrópoles, sem nem falar das exigências da indústria. Na megalópole do Sudeste, o alto Tietê e os alto e médio Paraíba alimentam mais de quarenta milhões de bocas, fazendo com que a disponibilidade de água por habitante seja comparável à do semiárido ou até pior. Outras precisariam de canalizações ainda maiores para buscar água de rios caudalosos - e para uma definição ampla de caudalosos. O Paraíba já caminha para, como o Colorado nos EUA ou o Huang Ho na China, chegar ao mar só em ano bissexto, ou por benemerência ocasional de seus gestores.




Ao invés disso, a sinalização é de governos - em todos os níveis - fazendo a coisa piorar. Depois do breve interlúdio em que os índices de desmatamento caíram não só na Amazônia mas também no sempre ignorado (às vezes até explicitamente sacrificado) Cerrado, o futuro é de menos mata, e portanto menos água. Só na "nova fronteira" do Cerrado nordestino, ou Mapitoba, a previsão é de um milhão de hectares de nova área agrícola na década de 10.  O novo código florestal causa uma área de desmatamento do tamanho das Ilhas Britânicas só na Amazônia; mais diretamente em relação aos cursos d'água, ele reduziu a faixa de proteção da floresta ao longo deles, a mata ripária. A bancada ruralista parece bêbada com o próprio poder, cega pelo ódio a quem lhe queira impor limites, porque isso tudo significa o fim da própria agricultura de exportação num horizonte de tempo que não chega a ser secular. Não é que ignorem as descobertas científicas, tanto as recentes, caso dos rios voadores amazônicos, quanto as mais velhas que matusalém, como a importância da floresta ripária para a preservação dos cursos d'água (havia leis protegendo matas ciliares com esse objetivo, pelo menos, desde o império romano, que já via os efeitos da devastação na árida orla do Mediterrâneo); nem é a água o único benefício de se manter matas entremeadas às culturas - o consumo necessário de pesticidas, por exemplo, chaga em que o Brasil é campeão mundial, pode ser reduzido substancialmente pela presença de um matinho próximo, em que predadores naturais das pragas da lavoura podem se multiplicar. Pelo contrário, utilizam-nas, sempre que possível; longe da imagem tradicional do latifundiário, coroné da guarda nacional, o agronegócio brasileiro é hoje um negócio, capitalizado (com a ajudinha centibilionária do Banco do Brasil), moderno, que utiliza tecnologia de ponta. A questão é de ocupação de espaço, ideológica apenas como reação à ameaça percebida mesmo; esmagar o inimigo que ousa limitar seu poder. OK, nesse sentido ela se parece com o coroné. E a bancada ruralista é fortíssima, maior que qualquer partido; tem 120 parlamentares hoje, e deve ter 158 a partir do ano que vem. Mais coesa, também, que a maioria dos partidos; ao contrário das demais bancadas que nem sobre os seus temas de base votam sempre alinhadas, a bancada ruralista inclusive negocia com partidos e governo.

Se a bancada ruralista garante a proteção aos particulares que desmatam, o governo avança para a Amazônia fazendo mais barragens, a ferro e fogo, e as estradas abertas, os operários carreados para as obras, abrem novos clarões na Amazônia, sem nem contar a inacreditável ajeitadinha nas reservas de proteção ambiental do Tapajós. De novo, para isso a ideologia parece contar mais do que a lógica. Afinal, se há um consenso científico prevendo clima mais seco, situação agravada com a construção da própria hidrelétria, essa situação vai afetar a própria produção de energia da hidrelétrica. A solução gernsbackiana já é apontada pelo setor elétrico: parar com essa estória de hidrelétrica a fio d'água, sem reservatório, e voltar a inundar grandes lagos para regular a vazão dos rios amazônicos e armazenar energia. Ainda pensamos localmente e agimos globalmente, invertendo o aforisma; ainda pensamos, em outras palavras, como se o Brasil fosse uma terra de infinita abundância. Não é.  É uma terra em que um exótico e frágil mecanismo mantém uma quantidade de água razoável. Razoável, apenas; no Brasil cisamazônico, lar de 90% da população e um terço das águas, nunca foi tão abundante quanto parecia. O Brasil é a São Paulo de amanhã porque corre o risco real de se ver sem água e sem solução. É tanto mais curiosa essa despreocupação quanto o Brasil agrário sonhado pelo Congresso e o Brasil industrial sonhado pelo Executivo necessitam, ambos, de vastas quantidades de água - a carestia em São Paulo já está afetando até, por tabela, a indústria da Suécia. Não é apenas gente, essa coisa sem importância, que vai morrer de sede; o PIB também. O reflorestamento é urgente, e está tão longe de ser coisa de ecoativista hippie na fefeléchi que já é praticado até pelo governo chinês (com resultados dúbios, é verdade).

Alckmin quebrou a Cantareira. Pode ser que ainda vejamos, antes de morrer, à quebra do Paraná. A responsabilidade será mais difusa, é verdade, com vários atores e não um só, o que ajuda cada um a fingir que não tem nada a ver com isso. Sem muita pressão da sociedade, quem vai ganhar politicamente será a bancada ruralista - logo antes de perder, junto com todo mundo, num apocalipse que deixará o dust bowl americano parecendo bolinho. Cupcake, vá lá. Não que essa catástrofe venha de uma vez; o que vai acontecer, o que já está acontecendo, é uma mudança gradual dos padrões. Já estamos pra terceira seca entre as cinco maiores do século, nos últimos 15 anos. (E para uma possível catástrofe urbana sem precedentes na maior cidade do país, apesar disso não ser bem culpa só da seca.) Mesmo com todas as soluções de engenharia tendo sido tomadas - linhas de transmissão, construção de térmicas complementares, integração do sistema - o ONS já fala em blecautes programados na madrugada durante este verão; em São Paulo, já se fala, como nos desertos, em reaproveitamento de esgoto (espero que tratem antes - hoje o efluente das ETEs da Sabesp é secundário, impróprio até para uso industrial; o tratamento a nível de consumo, por outro lado, custaria mais ou menos a mesma coisa ou menos que o plano atual de puxar água de novos mananciais, nas bacias do Paraíba e do Ribeira). Assim como o sapo que pula ao ser jogado no caldeirão fervente, mas deixa-se ferver mansamente quando vão aumentando a temperatura, nós humanos não somos bons em responder a processos graduais. É da boca de um personagem que pertence ao dust bowl que  saem as palavras que, no futuro, poderão ser ditas sobre a preservação da floresta, e portanto da água, no continente sul-americano:

Of all the words of mice and men, the saddest are 'it might have been.'

27.10.14

Pirro no Capão

O PT ganhou - por pouco - a eleição presidencial. Mas, além de perder cadeiras no Congresso, além de ficar cada vez mais claro que perde no imenso e crescente Brasil do agronegócio, que vai do Rio Grande do Sul ao Acre, perdeu - é verdade, também por pouco - no Capão Redondo. É difícil enfatizar o bastante o quanto esse é um resultado horrível em termos simbólicos, para o PT e para o Brasil. O Capão Redondo é um distrito da periferia de São Paulo que virou sinônimo de lugar barra-pesada, graças em parte às estatísticas criminais, mas mais ainda à produção de rappers, musical e em outras linguagens artísticas. Foi do Capão Redondo que saíram Ferréz, Mano Brown, Fuzzil, com obras que descrevem e contestam uma realidade opressora, de discriminação social e racial, de violência estatal e internecina. É um bairro cinza, apesar do nome inspirado num capão de pinheiros (os solos ácidos do rio de mesmo nome afugentam outras árvores); dos mais cinzas, abafados, e quentes de São Paulo. É, também, dos mais pobres, ocupando o 79º lugar no IDH entre os 96 distritos do município de São Paulo, e violentos, sendo o 4º distrito com mais homicídios neste ano. (Um homicídio para cada 10.000 habitantes, facilmente batendo, ainda em setembro, a média da cidade.) Se o PT perde para o partido da polícia no cenário de Negro Drama, vai mal.

Resumindo: é um lugar que é ao mesmo tempo pobre e com uma produção nativa de um discurso contestatário. É o tipo de lugar em que o PT deveria ter ganho de lavada, mas perdeu. Perdeu, também, ainda dentro da metrópole paulistana, em São Bernardo do Campo, berço do partido, cidade ainda marcada pela forte presença de operários, muitos ainda filiados a sindicatos e com tradições e identidades proletárias marcantes. De novo, por pouco, mas a questão é que o PT não poderia perder nesses lugares. Que perca acachapantemente nos Jardins, Nada mais natural (Dilma teve, no 1º turno, 8,6% de votos contra 2,8 de Luciana Genro). Mais do que a derrota do PT, o impressionante é a vitória de Aécio, com um discurso francamente de direita, por mais que preservasse nele o bolsa-família, em duas áreas que seriam consideradas por qualquer um bastiões naturais da esquerda. A pobreza politizada pelo rap, o proletariado industrial, votaram maciçamente na direita, depois de 12 anos do PT na presidência. Algo está errado.

Calma, tem mais más notícias. Dilma perdeu para Aécio entre os jovens, os eleitores com 16 a 24 anos. De novo, foi por pouco - 52 a 48%. Mas de novo, é aonde não podia perder. Afinal, como dizia (?) Churchill, quem não é de esquerda aos 20 é um insenssível, quem não é de direita aos 40 é um idiota. E isso, pra lembrar, num contexto em que os "fundamentos" econômicos e sociais deveriam dar uma vitória folgada ao PT. Desemprego baixíssimo, no ou perto do vale histórico mesmo depois de corrigido pela PEA. Aumento do número de vagas nas faculdades, diminuição da mortalidade. As contas nacionais estão cagadas, sem dúvida, mas com certeza contas nacionais não são preocupação prioritária da grande massa da população. O crescimento de renda dos 20% mais pobres foi mais que chinês na última década. Que a classe média que votava na UDN de macacão tenha abandonado o PT após as denúncias de corrupção faz sentido, mas e os pobres e trabalhadores? Será que é só o canto da sereia dos Olavos de Carvalho e outras cepas do Instituto Millenium que seduz os jovens?

Petistas gostam de invocar o poderio da mídia, ou dizer que os jovens não se lembram de como era ruim antes. As duas desculpas não deixam de ter seu quinhão de verdade. A mídia é um oligopólio, abertamente antipetista (se não assumidamente, fora o Estadão), como é amplamente reconhecido; os Repórteres Sem Fronteira, ONG internacional que advoga pela liberdade de imprensa, recomendam a sua regulamentação e quebra de monopólios; os lugares em que o PT perdeu são aqueles com maior alfabetização, o que é diferente de uma ilustração Goetheana e expõe mais as pessoas à influência de órgãos de mídia. Os tempos tucanos eram mesmo mais bicudos, e a maioria petista no Nordeste se justifica inclusive pela diferença de evolução relativa da região, como dá pra ver nessa tabelinha do crescimento da renda domiciliar per capita:

2003-2012                                                       1995-2002

Nordeste: +74,45%                                           Centro-Oeste +2,44%
Centro-Oeste: +67,09%                                     Sul +0,14%
Sul: +47,91%                                                    Nordeste -3,57%
Sudeste: +44,69%                                             Sudeste -9,79%
Norte: +44,28%                                                 Norte -18,49%


Mas quinhões de verdade não adiantam de nada quando desprovidos de ação, são apenas choro de (futuro) perdedor a gritar "ingratos! Súcia de ingratos!." De UDN de macacão a FHC de macacão... E pior: enganam quando são apresentados como a verdade inteira, tornam complacentes aqueles que neles crêem. Não explicam as situações do Capão e de São Bernardo. Pelo contrário, se houve aumento espetacular da renda das classes mais baixas, elas deveriam votar em peso no PT. O estereótipo petista de que playboys coxinhas e dentistas leitores da Veja são os únicos que votam contra o partido não funciona, a não ser que haja muito mais ricos e dentistas do que se imagina. 150.000 playboys num bairro pobre de São Paulo. Tamos bem, então. Aliás, no Centro-Oeste, que também teve aumento muito acima da média nacional na renda, o PT sofreu derrotas inequívocas; é a região mais antipetista depois de SP. 

Parte da resposta talvez seja que, ocupado na tarefa administrativa-burocrática de construir um estado de bem-estar social à européia, o PT largou mão dos fundamentos políticos que permitiram essa construção do estado de bem-estar. Sem nem tocar aqui nos fundamentos econômicos, largamente fora do controle de qualquer partido ou governo, que permitiram que ele fosse feito nos Trinta Gloriosos anos de crescimento do pós-guerra. O aumento da renda da classe trabalhadora, por exemplo, é propalado pelo PT como "ascensão à classe média." Ora, classe média não vota em partido de esquerda. Ao contrário do que muita gente pensa, o conceito de classe média em questão não é do PT, mas da ONU, foi adotado apenas por aquele. Mas é um enorme tiro no pé. Acelerou a guinada conservadora que ocorreu nos países em que foram criados estados de bem-estar em trinta, quarenta anos, para muito antes desse estado ficar pronto.  O PT deixou de ser identificado como partido dos trabalhadores pela enorme maioria dos trabalhadores. Mais pernicioso ainda do que se recusar a regulamentar a mídia, talvez, seja a recusa ou incapacidade em reforçar os movimentos de trabalhadores, preferindo antes usá-los para reforçar o governo. O "T" no nome precisa fazer mais sentido do que o "SD" que curiosamente orna nosso maior partido liberal.

Outra observação, mais palpite que qualquer outra coisa: no início do ano, fui dos muitos que viram um potencial transformador enorme nos rolezinhos dos jovens de subúrbio, que ao frequentar shoppings em massa foram vistos com pânico pelos administradores. O movimento, como se sabe, não deu em nada; antes mesmo que a esquerda tentasse cooptá-lo, com o rolezinho marcado no shopping Leblon, já tinha perdido força. O jovem de subúrbio, o jovem de classe trabalhadora e pobre, não sonha com o avanço coletivo de sua classe, ou sequer pela melhoria de suas condições materiais (que aliás são cada vez mais razoáveis). Ele sonha, numa sociedade altamente marcada pela hierarquia e pelo status, em avançar naquela grande rat race imaginária. Sonha em estar do lado de dentro, não em que não haja um muro dividindo os lados. Será? É, como disse, um palpite, sem nada que lhe respalde.

Haverá outras razões, que não consigo nem imaginar, mas uma coisa é clara: o PT tem que ganhar o Capão e São Bernardo.  Por sorte, por um triz, por uma diferença do tamanho do eleitorado da Luciana Genro, ainda tem quatro anos para tentar. Se não fizer nada de diferente, daqui a quatro anos acaba a breve experiência de esquerda no país. (E, quiçá, sonha o Department of State, na América do Sul.)







25.10.14

Por que petralho?

Amanhã, 2º turno das eleições presidenciais (e, graças em parte a um estelionato criminoso, não para governador), voto 13. Por quê?

Primeiro de mais nada, NÃO é por Aécio ser filhinho de papai, playboy, ou cheirador. Nada disso é relevante, mesmo que seja verdade. Também NÃO é porque ele seria traficante, corrupto, nepotista, e mentiroso, coisas relevantes, mas que sinceramente não me afetam muito. Sim, acho que com elas ele fica com uma pusta cara de Collor redivivo, ou Bush tropical, mas pra mim isso faz parte da perfumaria. Antes, será por dois motivos que o aproximam, respectivamente, do Bush e do Collor: a ideologia e o poder.

A ideologia é bastante simples. Assim como Bush, e ao contrário do que pensa o povo do "é tudo igual," Aécio representa o primeiro pleito presidencial desde 2002 em que o PSDB deu as caras, pelo menos parcialmente, de sua ideologia, com a enorme exceção de não admitirem que são contra o bolsa-família em público. (Apesar da enorme passada de recibo misturada com preconceito contra nordestino quando refletiram sobre o primeiro turno.) São contra a redistribuição de renda ("meritocracia"), são a favor de um Estado mais fraco ("enxugamento da máquina"), são a favor da privatização de ativos públicos ("não sei o que vai sobrar da Caixa e do BB") e da desregulamentação do mercado, cuja mão invisível proverá. E essa, a parte econômica, é a parte da ideologia que move a candidatura Aécio com que posso ter uma divergência saudável, porque também tem a parte do controle social, em que os coronéis telhadas e malafaias ditam o jogo, e que acho imoral mesmo. Redução da maioridade penal com cadeias privadas. Ataque aos direitos das mulheres. Bullying, com motivação ideológica, dos países vizinhos, puxando os ovos americanos. E por aí em diante.

Dizer tudo isso não significa, claro, achar que o governo do PT, especialmente o de Dilma, está alinhado com minha própria visão do mundo. Não está, nem de longe; uma das tags deste blogue não é "Dilmá" à toa. Dilma não faz nada contra o punitivismo e as PMs, e muito pouco pelos direitos LGBT; acredita em desenvolvimento econômico à custa do meio ambiente e tem uma relação no mínimo tumultuada com as comunidades marginais e tradicionais. Mas enquanto o PT falha por não enfrentar o conservadorismo, ou por absorver parte dele, Aécio é o conservadorismo. Há uma diferença entre não ser contra e ser a favor, entre ser aquilo que eu não gosto e se aliar; Não houvesse, tenho certeza que nos lembraríamos do Stalinista Roosevelt. Não custa lembrar, por exemplo, que o PT foi o único partido grande a ser contra (quase em peso - um tal Loubet foi a favor) do novo e horrendo código florestal, e que Dilma vetou boa parte do documento. O PSDB foi majoritariamente a favor, incluindo o hoje candidato Aécio Neves. Chame, para quem discorda do PT à esquerda, de máxima antitiririca: pior do que tá fica.

Pra além da ideologia, o poder. A semelhança entre Aécio e Collor é a adulação que lhe dão a imprensa e aquela entidade nebulosa apelidada de "O Mercado." Assim como Collor era o caçador de marajás, Aécio aparece na Veja como um superherói (literalmente), enquanto o PT é sempre um vilão. Do mesmo jeito, enquanto denúncias fartamente comprovadas contra o PSDB geralmente morrem na areia, o domínio de fato, "não existem provas mas a literatura me permite" já é suficiente para condenar petistas. Não significa, a paráfrase da ministra Rosa, que eu ache que Dirceu & Co eram inocentes, mas antes que com eles a justiça funcionou. Imprensa, judiciário, tribunais de contas, Congresso: são todos modos de se controlar o Executivo. Mas só funcionam se existe seja alguma imparcialidade, que definitivamente não é o caso, seja uma oposição mesmo. Não é que eu creia que o PT seja mais honesto por ímpeto próprio, convicção interna ou fortaleza moral; é que será pego nas besteiras que cometer, será julgado pelo juiz ou pela opinião pública. Aécio, o superherói, pode fazer o que quiser sem ser julgado. E com o poder sem peias vem... como era aquela frase do Lorde Acton mesmo...?

Ah sim, "o poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente." Quem tem só a presidência não tem o poder absoluto. Ao contrário de quem tem a presidência, o Congresso, a mídia, o capital, o judiciário...

17.10.14

São Pedro e São Paulo

A FIESP fala ao Valor em ao invés de racionamento deixar as empresas formularem projetos de economia. Fio, era pra ter feito ano passado. A combinação do apreço ideológico com o autointeresse de visão curta fez a FIESP acreditar na óbvia mentira de que não tinha crise de água? Aliás, como a FIESP, e a CNI também, não se prepararam pra crise de água na megalópole? Sim, porque a crise já ultrapassou em muito o sistema cantareira; afeta ou afetará de Campinas ao Rio de Janeiro, uma região em que moram mais de um quinto dos brasileros e que responde por quase metade do PIB.

E sim, óbvia mentira e obfuscação; o estranho é que gente inteligente, com recursos e biblioteca à mão, tenha caído tão completamente na esparrela. Mais estranho ainda que a FIESP é o caso da própria Sabesp.

A crise da água na Macrometrópole Paulista é uma cebola em que os erros se aninham e acavalam faz décadas e continuando hoje. Tanto de longo quanto de curto prazo.

De longo prazo:

1, permitir depauperação das margens dos reservatórios, o que corta em pelo menos30% a capacidade, e se for plantação de eucalipto em até 75%. Ao invés da mata nativa que protegeria a represa, nas margens do sistema Cantareira tem fazenda de gado, plantação de eucalipto, condomínio, e até clube de golfe.
Reparem que isso não é que nem a situação ao sul da metrópole, na Guarapiranga, em que as margens foram ocupadas por favelas, que é uma coisa difícil social e financeiramente de se impedir ou corrigir, são represas em áreas rurais. Fazenda de gado. Compra-se, põe-se cerca. O preço nem é tão alto, uma fração do custo do sistema planejado para buscar água a 100km de distância. Admita-se, aqui, que este erro, ao contrário de outros aqui listados, não é algo particular à Cantareira; a maioria dos reservatórios de água pra beber no Brasil, e muitos dos de hidrelétricas, também não tem mata ciliar. (Alguns têm - em Itaipu, por exemplo, cada prefeitura vizinha pode escolher um único ponto de acesso ao lago.)


2 não fazer mais interligação entre os reservatórios, aumentando a capacidade da Guarapiranga ou da Rio Grande de escorar a Cantareira (ou, hipoteticamente, vice-versa), como foi feito com o sistema Alto Tietê. As represas da Serra do Mar, na Zona Sul, estão ainda bem confortáveis, com mais de 40% de água; parte disso poderia ter sido usado no lugar do volume morto. A interligação, inclusive, não é muito mais complexa do que a proposta de Alckmin de fazer uma ligação com o rio Paraíba do Sul, com todos os seus problemas políticos e ambientais - o Paraíba, que também abastece as cidades de seu vale e, pela transposição do Guandu, o Rio de Janeiro, já chega às vezes com menos de 60% de seu volume original na foz. Isso está, inclusive, destruindo a cidadezinha de Atafona, invadida pelo mar e suas dunas.



3 incentivar consumo Não, eu não disse não incentivar economia. Disse incentivar consumo. Até maio, dava desconto pra os grandes clientes (grande é mais de 500m3/mês) que consumissem muito, progressivo. A lógica, que é fazer frente à competição de poços artesianos e caminhões pipa, é explicada aqui. Isso também, claro, é um problema para uma empresa mista listada na Bovespa, que precisa ter lucro e precisa ter perspectiva de vender mais do seu produto, não menos - e aí se pode inclusive questionar o quanto para empresas de administração de bens públicos, universais, e escassos o modelo de empresa pública/privada presta. Não é uma Petrobrás ou Vale em que o recurso é escasso globalmente e se fala de novos paradigmas econômicos da humanidade, mas um recurso localmente escasso, no caso, que já acabou. Não tô falando que estatal é sempre melhor, apenas que neste caso específico o conflito entre shareholders e stakeholders é muito maior. E a Sabesp tem agido mais no modo norte-americano que no renano, com o DAEE só chancelando tudo, sendo quase redundante, e a ANA chantageada ou até ignorada inteiramente. Falei capitalismo americano? A atitude de Alckmin hoje perante a ANA é a do Andrew Jackson, 7º presidente americano, quando ignorou uma decisão da Suprema Corte protegendo a nação de índios Cherokee com as palavras "Mr Jackson has made his decision. Now let him enforce it." (O Sr. Jackson fez seu julgamento; que ele o imponha.)

De curto prazo, de resposta à crise:

1 Ignorar a crise até a onça começar a não beber água. A Cantareira desce desde 2009, mesmo sem grandes secas. Isso já devia ter soado alarme em 2012, no máximo. Não é muito complicado; um sistema que não é suficiente pra situação normal obviamente não vai ser suficiente pra caso aconteça algum problema; a Sabesp nesse sentido operou como o dono dum carro ou bike com pneu careca - só que sem a opção de ficar em casa em dia de chuva. Melhor: como alguém que, com o pneu da bicicleta careca, não desce para empurrar a bicicleta, mesmo numa ladeira durante um temporal.



2 Ignorar a crise mesmo com a onça não bebendo água. INPE e ANA já avisavam há um ano que 2014/15 ia ser punk e recomendavam racionamento, ignorados sempre, com direito à inacreditável nota em que...diz que não acredita em previsão climática, e trabalha só com média passada. Ao invés disso, até maio ignorou-se completamente a crise. Em maio, iniciou-se a resposta mas ainda fingindo que era um problema menor; tirou-se os bônus de consumo e implantou-se bônus de economia. Isso era o que devia ter sido feito em 2012, e devia continuar a ser feito até o final dos tempos. Afinal, o único fato em toda a crise que é uma circunstância adversa fruto apenas do acaso histórico, e não de nenhuma besteira feita, é que a cidade de São Paulo e algumas outras metrópoles brasileiras, ao invés de se situar no baixo ou médio cursos de um rio, com fartura de água, está em volta de suas nascentes, aonde a água ainda é escassa. O rio Tietê que se espraiava enorme na foz no Paraná
(hoje é só represa) é ainda, aqui na capital, pouco mais que um córrego que corria por um enorme brejo. A largura que suas margens de concreto têm hoje é para escoar as chuvas de verão sem a ajuda do brejo e dos riachos paralelos que antes havia, sem a floresta, chuva que escorre direto por uma imensa área concretada e impermeabilizada. É muito maior do que a largura do rio "propriamente dito," das suas condições normais. E debaixo da superfície que se avista das marginais, a profundidade até a camada de lixo e lodo, muitas vezes, não é suficiente para afogar uma criança.

3 ao chamar o volume morto de "reserva técnica,"  acreditar na própria propaganda e tratar como um extra programado, e não como emergência que já era, merecedora de racionamento, campanha diária de esclarecimento, estímulo ao linchamento de quem lava o carro... ok, talvez não o último item. Mas de qualquer jeito; se já se estava puxando o que não era pra puxar, se já se estava cortando na carne, o certo não era dizer "não tem crise, não vai haver racionamento."  E hoje, com a drenagem do segundo volume morto, a história, a besteira, se repetem. A consequência - e aí pode ser chamado de erro 4 do curto prazo, da administração da crise, é que não, as coisas não se resolvem com chuva - outra mentira em que a própria Sabesp pelo visto acabou acreditando. A Cantareira vai entrar na temporada seca de 2015 com 20%, metade deste ano, e o INPE prevê 2015 seco. E as outras represas entram 2015 com níveis baixos também, dimnuindo a capacidade delas de absorver a falta da cantareira. E só pra completar, artesianos não adiantam, porque... a reposição de água na Grande SP é basicamente perda da Sabesp. Se acabar a água dela, o poço artesiano também seca.

Mesmo que não fiquemos sem água neste ano ou no próximo, secar um reservatório não é como secar uma garrafa, tem consequências imprevisíveis e complexas, mas na maioria negativas. O volume morto, afinal, não era nem uma reserva de emergência (se fosse, não precisaria ser instalado equipamento e feitas obras de terraplanagem - sem licitação, claro, porque de emergência -  para bombeá-lo, o equipamento já estaria lá, ou pelo menos os diques e canos) nem um deslize dos engenheiros que projetaram o sistema. Era algo necessário.

1 a represa não foi feita como uma estrutura em si, mas tendo o peso da água de um lado como componente dela. Os efeitos de drenar a água são imprevisíveis, mas provavelmente pioraram a vida útil dos diques.

2 a água, como o dinheiro, vai para onde já tem água; é um dos principais motivos pelos quais florestas aumentam a disponibilidade de água (o outro é aumentar, com suas raízes, a permeabilidade do solo,). A água que sai da transpiração das plantas todo dia é uma massa considerável, que atrai pra si mais água e faz chover; Ao deixar os reservatórios secarem quase completamente, é provável que chova menos no médio prazo sobre as represas.

3 represas não são vasilhas. Boa parte da água está no chão, e é bem difícil de saber como essa água do lençol freático vai se comportar a partir de agora, já que o próprio lençol freático foi drenado. A conta da água no reservatório da Sabesp, que só leva em conta a água livre, como numa vasilha, subestima o quanto foi drenado.

Parabéns Alckmin. Se reelegeu no 1º turno, às custas de meros vinte anos de pepinos. Até porque, feita a caca, não é simplesmente levar adiante as ações que já deviam ter sido feitas. O replantio das margens, por exemplo, pode até melhorar a capacidade total uma vez a floresta mais ou menos madura - mas durante os 20-30 anos que isso demora pra acontecer, a floresta chupa até 30% da água.

 Todas as barbadas na Cantareira são potencializadas por uma situação continental e global adversa, que escapa ao controle do governo estadual, mas também tem causas humanas: o aquecimento global e o desmatamento na América do Sul. Com o aquecimento global, mudam os padrões globais de chuva; as maiores massas d'água evaporadas do oceano caem mais cedo, aumentando a precipitação em lugares próximos aos da geração de água atmosférica no mar e diminuindo a precipitação em locais mais distantes. Como o ciclo de águas no sudeste do Brasil é pautado pela vinda de chuvas do oceano, vai aumentar a queda d'água no baixo vale do Paraná, e diminuir a chuva no mar de morros. Adivinha aonde está São Paulo? Pois é. Já o desmatamento no Brasil e na América do Sul tem duplo efeito: primeiro, no próprio cerrado, diminui a chuva autóctone, aquela mesma já mencionada acima sobre a Cantareira. Segundo, existe um fenômeno na América do Sul chamado de rios voadores: a Amazônia contém tanta água que pode quase ser considerada um mar, e quando a chuva vem do Atlântico cair lá é apenas recarregada, até que os ventos batem nos Andes e vêm para o Sudeste e Sul do Brasil. Por conta desse fenômeno que o Cerrado é muito mais rico do que a Savana africana ou as Great Plains da América do Norte, por conta dele que a vegetação de boa parte do Sudeste era floresta, mesmo estando na sombra orográfica das montanhas da dupla serra do mar e da mantiqueira. Se tem menos Amazônia, esse fenômeno rateia. Só pra constar, o mapa abaixo é apenas do efeito direto do aquecimento global, e não contempla o desmatamento e seus efeitos continentais. Um efeito multiplica o outro...




Não se pode dizer que a seca deste ano, especificamente, é causada por esses grandes processos - nenhum evento isolado pode ser atribuído a um processo gradual assim, inequivocamente - mas pode-se dizer que a probabilidade de secas grandes vai aumentar. Pode-se dizer que a probabilidade de anos de chuva acima da média vai diminuir, e como vimos no gráfico ali em cima, são necessárias chuvas substancialmente acima da média para deixar o Cantareira empatado. O que torna ainda mais temerário o descaso com a questão da água em São Paulo, ao invés de ser desculpa; sabe-se que as coisas vão ficar mais difíceis, não menos.


3.10.14

Os paladinos e seus martelos

A cooperação entre países que alhures se enfrentam usando os cadáveres dos outros  contra o Estado Islâmico da Síria e do Levante, ou Daesh, não deixa de ser impressionante. Os mesmos EUA que patrocinam o governo da Ucrânia contra os rebeldes patrocinados pela Rússia se alia à Rússia contra esses fundamentalistas. A mesma Rússia que patrocina o governo da Síria contra os rebeldes patrocinados pelos EUA se alia aos EUA contra eles. A própria Síria também coopera com os EUA que abertamente procuram eliminar seu governo. A Europa amotinada corre pra ajudar, seja ela conservadora ou socialista. Cá na remota província, a idéia de que bombardear não resolva, aventada pela presidenta, foi criticada como absurdo. É um tal nível de unanimidade na idéia de que é necessário um ataque vingador, uma bomba defensora, contra o Mal que se levanta, que parece que voltamos à cooperação dos Aliados contra o mal apocalíptico do nazismo. (E sim, apocalíptico cabe bem ao nazismo. Às vezes nenhum exagero é possível nem necessário.)


De que os vilões da vez são mesmo horrorosos, não resta dúvida. O grupo de fundamentalistas iraques que megalomanicamente se autointitula Estado Islâmico (tendo deixado de lado a especificação "do Iraque e do Levante" para anunciar suas pretensões universais) tem colecionado, além de triunfos contra o mequetrefe exército do governo de Bagdá, atrocidades de todo o tipo. Cheios de armas, doadas pelos EUA e Arábia Saudita com a intenção de derrubar o presidente-ditador hereditário da Síria, deram uma de gênio da garrafa e não se contentaram com os desejos de seus financiadores; numa espécie de inversão do dito de Marx, são a versão mais a sério da Talibã, num país mais rico, mais educado, e mais antigo do que o Afeganistão. Se no Afeganistão tribal e inóspito foram derrubados os budas de Banyan e conviviam shows de meninos-moça com o fundamentalismo, na Síria e no Iraque o número de patrimônios da humanidade destruídos pela iconoclastia wahabita (sem contar aqueles rebentados pelos azares da guerra em geral) já atinge proporções quase sauditas, e o mundo vai ficando mais estranho e pobre pela derrubada de obras de arte e pelo genocídio de grupos que sobreviviam, nas sombras e dobras da história, há séculos ou milênios.

Um desses grupos, e dos mais proeminentes no noticiário recentemente, o dos iázides, provavelmente seria mais familiar para nossos avós e bisavós que nos dias de hoje, e pelo mesmo motivo que os leva a ser objeto de especial ódio dos fundamentalistas do Daesh. É que a mitologia deles, uma das milhares de seitas gnósticas e neognósticas e antignósticas que surgiram no Oriente Médio no primeiro milênio (duas delas se chamam cristianismo e islã), inverte a narrativa islâmica da queda de Iblis-Lúcifer. Assim para os iázidis o demiurgo Melek Taus, rejeitando a ordem de Deus, de se ajoelhar perante sua nova criação, o homem, por muito amá-lo, é premiado ao invés de punido; essa diferença, mais todos os preceitos de pureza e isolamento comuns às tradições gnósticas, foram o bastante para que fossem considerados adoradores do demônio, e assim os Iázidis percorreram as páginas e telas de romances de aventura do começo do século passado. Fizeram figuração nas aventuras de Khlit, o Cossaco, que serviram de inspiração pro Conan e Cecil B. De Mille, em dúzias de pulps de menor nome... nas revistinhas, mais recentemente e até por isso menos distorcidamente, apareceram nas páginas do Corto Maltese (na Casa Dourada de Samarkand) e do Top 10 do Alan Moore. Sempre por conta desse mito de que são adoradores do demônio, seja o mito reproduzido ou explicado. Além de torná-los alvos para tudo que é fanático religioso, a religião deles também torna muito mais difícil safar-se através da diáspora, aliás; os preceitos estritos de pureza e contaminação são muito mais difíceis de seguir por indivíduos isolados num meio urbano multicultural do que quando se vive nas próprias aldeias; a tragédia do fim dos iázidis pode já ser fato consumado.

Um desses monumentos, curiosamente, é justamente a Igreja Memorial do Genocídio Armênio, o que não deixa de ser uma dupla morte. Os armênios eram boa parte da população do que hoje são a Turquia e o Iraque; foram massacrados, numa prefiguração do Holocausto, por um estado moderno e modernizante, militarizado, presidido por um líder carismático que prometia elevar sua nação acima da nódoa da derrota imperial na Grande Guerra. Eu disse prefiguração do Holocausto? O Hitler concorda comigo. Nas palavras do monstro, Unsere Stärke ist unsere Schnelligkeit und unsere Brutalität. Dschingis Khan hat Millionen Frauen und Kinder in den Tod gejagt, bewußt und fröhlichen Herzens. Die Geschichte sieht in ihm nur den großen Staatengründer. Was die schwache westeuropäische Zivilisation über mich behauptet, ist gleichgültig. Ich habe den Befehl gegeben – und ich lasse jeden füsilieren, der auch nur ein Wort der Kritik äußert – daß das Kriegsziel nicht im Erreichen von bestimmten Linien, sondern in der physischen Vernichtung des Gegners besteht. So habe ich, einstweilen nur im Osten, meine Totenkopfverbände bereitgestellt mit dem Befehl, unbarmherzig und mitleidslos Mann, Weib und Kind polnischer Abstammung und Sprache in den Tod zu schicken. Nur so gewinnen wir den Lebensraum, den wir brauchen. Wer redet heute noch von der Vernichtung der Armenier? (Nossa força está na nossa velocidade e na nossa brutalidade. Gengis Cã levou milhões de mulheres e crianças à morte, de coração ligeiro, mas hoje é lembrado pela História apenas como o fundador de um grande país. Não me importa se uma débil civilização ocidental me condenará. Dei a ordem - e mandarei fuzilar quem solte um pio de crítica - no sentido de que nosso objetivo na guerra não é atingir tal ou qual linha, mas a aniquilação física do inimigo. Assim deixei de sobreaviso minhas formações Caveira - por enquanto apenas no Leste - com ordens para levar à morte sem misericórdia e sem compaixão homens, mulheres, e crianças de extração e língua polonesa. Apenas assim conseguiremos o espaço vital de que precisamos. Quem, afinal, fala hoje da aniquilação dos armênios?)

Então, se há gente tão má no mundo, nada mais natural que as nações da terra se esqueçam por um momento do ódio de sua guerra e se juntem para dar fim aos monstros, não? Bem, não exatamente. Pra início de conversa, se eu disse que a relação entre o Daesh e a Talibã reverte o aforisma de Marx, por outro lado a comparação entre a Arábia Saudita e a Talibã deixa aquelas palavras do 18 Brumário bem no lugar de sempre. A Arábia Saudita, afinal, foi o primeiro resultado moderno da mistura de fundamentalismo islâmico e patrocínio por grandes potências estrangeiras - com o ingrediente adicional explosivo do imenso oceano de petróleo sob o Golfo Pérsico (o campo de Ghawar, em particular, seria sozinho o oitavo país com as maiores reservas do mundo; a usina de processamento de Abqaiq é maior do que a capacidade total do Reino Unido). Assim como os budas de Banyan ou a tumba do profeta Jonas, milhares de sítios históricos foram destruídos pelos sauditas, inclusive no Iraque, mas principalmente em Meca, desde o começo do reino até os dias de hoje, sendo que hoje em dia o fanatismo se mistura ao comercialismo, e vê-se shopping centers se erguerem sobre as ruínas de mesquitas "heréticas." Assim como o Daesh e a Talibã, a Arábia Saudita continua curtindo muito cortar umas cabeças de inimigos da fé em público. É bem verdade, a Arábia Saudita já cometeu seus genocídios no passado e não comete nenhum no momento. Bem, não diretamente. Acontece que a casa de ibn Saud não é apenas a precursora de todos os grupos fundamentalistas wahabbis no mundo, ela lhes patrocina, direta ou indiretamente, é a fonte ideológica e monetária. É dinheiro saudita que financia a pregação de ódio e intolerância da Nigéria à Indonésia, do Marrocos às Filipinas, E, claro, do Afeganistão ao Iraque.

Assim, é curioso que um dos aliados árabes dos EUA na nobre empreitada de bombardear esses monstros do Daesh é... a Arábia Saudita. Aliás, nossos amigos sauditas. Não apenas porque a comparação sabota a narrativa que opõe os nossos paladinos aos sarracenos deles, isso poderia ser confrontado com a simples explicação de que às vezes se precisa da aliança com um monstro para enfrentar outro; afinal, o mundo livre não se aliou a Stalin para enfrentar Hitler e acabar com o Holocausto? Bem, assim como naquela época, não exatamente. Na Segunda Guerra, nenhum dos aliados ligava para o Holocausto; a proposta de bombardear as linhas de trem que levavam seres humanos para Auschwitz foi rejeitada, apesar de demandar apenas meia dúzia dos milhares de bombardeios diários sobre a Alemanha. Enfrentaram Hitler porque este foi quem lhes declarou guerra. E hoje, a apresentação da urgência de se enfrentar o Daesh, e por que, é contraditória, com direito a nomes talvez inventados. Mais do que por também ser um vilão, a contradição inerente no apoio à Arábia Saudita é que ela é a fonte. Seria como se guerrear no Vietnã e ser aliado da União Soviética a comparação histórica mais apropriada. Ou, talvez, como ser anticomunista e se aliar à China para patrocinar o Khmer Vermelho contra o Vietnã. Se os EUA estivessem interessados em diminuir a quantidade de cadáveres produzidos pelo fundamentalismo islâmico, poderiam começar retirando o status de supermelhoramiguinho da Arábia Saudita. Quiçá até ameaçar-lhe com sanções se não parasse a brincadeira (o tamanho do reino no mapa do petróleo não deve ser problema se sanções simultâneas à Rússia e ao Irã são tranqs). No caso do Daesh, mais imediatamente, poderiam parar de armar e financiar a oposição na guerra civil síria, patrocinada desde o começo pelos EUA e de onde saiu o grupo. (E turbinada pelo aquecimento global.)

É claro, o problema disso é que não envolve bombas, e explosões, e decisões duras feitas por homens duros. Não é uma resposta forte, viril, heróica. Não utiliza todo o reluzente armamento que 700bn de dólares ao ano compram. Quando se tem um martelo desses, qualquer coisa mesmo vai começar a parecer um prego. Admita-se que a minha "solução" não é uma solução imediata; não vai ajudar muito as vítimas do presente, só as do futuro. Mas tampouco se tem lá tanta certeza de que os bombardeios sejam uma solução. Fazer ALGUMA COISA porque é um horror, tem que se fazer alguma coisa, é a teoria do martelo; ora, se eu estiver com uma dor de cabeça e sem aspirina à mão, prefiro continuar com a dor de cabeça do que levar uma martelada. Isso tudo assumindo-se, claro, a melhor das intenções e que a Casa Branca e seus aliados realmente se preocupam com a sorte dos iázidis e outras minorias no norte do Iraque e na Síria, o que não é necessariamente verdade. A realpolitik do fetichismo pelo sacrifício, do que já chamei aqui de teriomania, afinal, convive muito bem com a realpolitik realmente real. Aquela em que o ataque ao Daesh pode dar uma esticadinha no Assad, em que pesquisas de opinião sorriem para presidentes guerreiros, em que ações de financiadoras de campanha sobem quando seus produtos estão em alta. Afinal de contas, paladinos também precisam comer, não?

25.9.14

Ajuste sinistro

Convencionou-se, no Brasil, que responsabilidade fiscal é um tema "de direita." Soluciona-se todos os problemas do Brasil seja com a eliminação da corrupção e incompetência (tema que irmana todos que não são, naquele momento, governo), seja com a "auditoria da dívida," que depende de não entender como funciona uma dívida pública e achar que foi um contrato de dívida emitido lá atrás pelo FH ou pelo JK que ainda está sendo pago.

E no entanto, dá pra fazer o ajuste fiscal tão sonhado pelos economistas de direita de uma forma bastante diferente da normalmente assumida. O Brasil - já é quase consenso - é um país em que os impostos indiretos, que pesam mais sobre os mais pobres e atrapalham a economia, são os principais, enquanto os diretos, que pesam sobre renda e patrimônio e portanto sobre os mais ricos, são acessórios. Para inverter essa lógica E fazer o ajuste nas contas públicas, é só

1) Aumentar impostos diretos (IRPFITRITDIPTU (estes últimos subnacionais)). O ITR hoje não morde nem um bilhãozinho; é menor do que o IPTU arrecadado por São Paulo ou pelo Rio. O IRPF para alguém entre os 5% mais ricos não vale 17% (contra 34% nos EUA, que não são exatamente comunistas). O ITD tem alíquota máxima de 4%, vs., de novo nos EUA, 40%. O IGF, que ainda não existe fora da constituição, renderia mais uns trocados. Aumentar o preço da gasolina, sim, que transporte individual motorizado não precisa de subsídio público. Transformar a CIDE numa taxa de carbono, e razoavelmente pesada. 

2) Quando o ajuste tiver sido feito desse jeito, e a necessidade de segurar as pontas tiver passado, cortar os impostos indiretos federais o máximo possível, e incentivar que estados e municípios façam o mesmo. Com sorte, extinguir o IPI, pelo menos, quiçá o ISS, diminuir bastante o ICMS (e unificá-lo num IVA nacional, sempre cobrado no destino). Pode-se até estabelecer a regra de redução dos impostos indiretos já na legislação que aumenta os progressivos. Coisa do tipo "a cada ano, deverão ser feitas desonerações permanentes em tais e tais impostos, equivalente à média do aumento real de arrecadação dos últimos três anos."

Presto: Ajuste nas contas públicas feito com bônus estrutural. 

O bônus não é pequeno. Noves fora a diminuição dos indiretos aumentar a competitividade da economia brasileira, a desigualdade, que se reduziu com a implantação dos benefícios sociais e o crescimento maior de regiões mais pobres (boa parte da desigualdade brasileira é a desigualdade regional), parou de descer nos últimos anos, devido aos limites dessa política. Ora, nos EUA a diferença entre a desigualdade pré e pós impostos é de 0,11 Gini. Isso é 0,11 de diferença a mais do que no Brasil. Sim, os impostos brasileiros não fazem diferença alguma na desigualdade. Admita-se que é um mal continental... reparem no gráfico: a desigualdade latinoamericanaé maior "no mercado" realmente, mas ela fica muito maior depois que os impostos progressivos e benefícios idem fizeram a sua parte na Europa.



A longo prazo, aliás, a redução da desigualdade também é um projeto de responsabilidade fiscal.  E o aumento do ITR pode servir como instrumento de reforma agrária.