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24.5.05

O desmatamento do Mato Grosso

Citar a si mesmo é sempre um péssimo hábito, mas o que fazer se as notícias são cíclicas?* A obsessão da imprensa brasileira por Brasília é impressionante. Brasília não é nem a quinta maior cidade do Brasil; não é um centro de decisões econômicas; até regionalmente, divide a primazia com Goiânia; até em número de servidores públicos federais perde do Rio. Ao contrário da França em que 90% das verbas nacionais (e lá não existe federação) de C&T e Cultura vão parar em Paris, no Brasil nem a Biblioteca ou o Museu Nacionais estão em Brasília, e a principal universidade federal ainda é a UFRJ (fora que o Rio, na prática, tem três, se você não cair na lenda de que Niterói é uma cidade). As redações dos grandes jornais e cadeias de TV, que tanto falam do Planalto, estão no eixo Rio-SP.

O Brasil é uma federação, e mais : ao contrário de outras federações, soma ao governo central e ao estado o nível municipal. Com atribuições previstas em lei para todas as esferas do poder, da segurança à educação ao meio ambiente. Apesar disso, lendo um jornal brasileiro parece que o Brasil é mais macrocefálico que o México, o Japão ou a Argentina.** Em parte, isso reflete uma real distorção da nossa federação, que foi feita para sujeitar a União às oligarquias locais, não para preservar a independência destas em relação àquela, situação que se agravou com a renegociação das dívidas públicas inferiores e com a institucionalização dos repasses federais como fonte de receita estadual e municipal (sem falar nos impostos compartilhados). Mas em boa parte é simplesmente uma manifestação do uso generalizado de antolhos, que os governantes de todos os níveis tentam utilizar a seu favor.

Agora, saíram os novos índices (previsíveis) de desmatamento, gerando mais calor do que luz. São "índices do governo (inserir nome do presidente corrente)." Mas desde 98 o IBGE já constata que o desmatamento ocorre principalmente em áreas onde ele já ocorria - ou em floresta secundária, ou em área de floresta primária dentro dos mesmos municípios, na mesma região. Ou seja, essa estória de "coração da Amazônia" é bobagem : o desmatamento está se intensificando no mesmo lugar. O "arco do desmatamento" não é uma frente. E esse arco (voltando à macrocefalia) está muito mais ligado ao poder local e estadual do que ao federal. É uma "questão de polícia" acima de tudo (e, como os assassinatos no Rio, tem mais de envolvimento ativo do poder estadual do que de omissão). Do ano passado para este, o desmatamento diminuiu em quase todos os estados da Amazônia Legal :



A devastação, diga-se, não compreende somente a Amazônia. O Cerrado e a Caatinga sofrem muito mais. E, se fosse incluída a área antropizada destes nos números da tabela acima, a liderança do Mato Grosso aumentaria ainda mais. Blairo Maggi demoraria, ao passo corrente, 200 anos para reduzir a Amazônia a algo parecido com as Great Plains americanas ou a Floresta Negra alemã. O Cerrado, ele pode deixar assim ainda em vida. Detalhe : os rios que abastecem de água e energia elétrica o Brasil não nascem na Amazônia.


*Assim como a economia; saber disso nos pouparia de algumas notícias cíclicas, como o desemprego aumentando no começo do ano e caindo no final, ou a inflação do tomate.
**Todas as três representam mais de um terço da população e algo parecido com a metade do PIB de seus países. No Brasil, isso seria uma cidade de uns 60 milhões de habitantes, com PIB de 1 trilhão de reais.

Um comentário:

Andr? Kenji disse...

Exatamente o que eu sempre penso.

Inclusive muitos blogs falam de Lula, mas quase ninguém do seu governador ou do seu prefeito.

Eu penso o contrário. Meio que ignoro o Lula, odeio a maioria dos prefeitos que governam cidades que eu ando, odeio boa parte da hierarquia estadual. O petista que mais me preocupa é Emidio, prefeito de Osasco.