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12.5.05

Negócio da China

O Valor Econômico noticia que o lucro da Vale no trimestre passou de R$1,6bn. Com isso, o lucro anualizado acaba de passar a 200% do preço que o governo recebeu por ela. (Não o pago pelos novos donos, já que graças à divisão entre ação ordinária e preferencial, e à possibilidade de se ter parte de uma companhia controladora*, você pode ser dono de uma empresa com menos de um sexto dela nas mãos. À época, com o preço do minério de ferro perto do vale(sem trocadilho), era de "só" 50%

Cabe lembrar que os únicos "investimentos," pelo critérios pelos quais se diz que "o governo não investe," feitos pela Vale privada foram a mina de cobre de Sossego e a compra de outras empresas. Se bem que, pelo acontecido em Guapimirim, parece que os gastos de custeio deles são realmente baixos... Aliás, é interessante ver como a Vale, depois de privatizada*, ficou mais próxima do monopólio (vertical e horizontal) do que antes. Interessante, mas previsível, haja visto o papel das instalações dela no escoamento de minérios brasileiros. (O maior porto do Brasil (Tubarão) é da Vale, assim como o segundo maior (Itaqui). O terceiro é público (Santos), o quarto (S. Sebastião) da Petrobras.)

Fora isso, é mais um capítulo da história do Brasil pós-varguista anunciado no discurso de despedida do senador FHC. Ao invés de o governo gastar muito (diretamente e via BNDES) para promover a industrialização, ele gasta mais ainda para incentivar o setor primário, seja ele o BlairoMaggi, a Vale, ou a Petrobrás. Afinal, cabe lembrar que, ao mesmo tempo que o patrimônio público e as verbas de custeio diretas (ie custeio da atividade-fim do estado, ie saúde e educação) diminuíam, ao longo dos anos 90, a carga tributária e a dívida pública subiam a níveis nunca vistos. Pra fingir que o neoliberalismo do estado do bem-estar corporativo era liberalismo, inventou-se, para maquiar essa subida, o superávit "primário" (que mascarou déficits nominais altíssimos em "responsabilidade fiscal") e a terceirização (pela qual a ideologia do corte de pessoal pode ser seguida muito além do pessoal mínimo para executar um serviço).

Pelo menos a Petrobrás está, agora, sendo usada em industrialização também (especificamente na construção naval). Ia ser interessante se a Vale também estivesse disponível pra fazer o mesmo. (Tanto com a indústria naval quanto com a ferroviária). Cue Steinbeck.

Falando na Petrobrax e na construção naval, é interessante ver como os estaleiros, que aqui disputam a foice e a justiça a licitação da Petrobras, na Venezuela se apresentam como corporação unificada. Por outro lado, a Venezuela não tem uma lei de licitações tão avançada quanto a nossa, nem um sistema judicial tão simples.

*Litel participações significa "os fundos de pensão das estatais."

3 comentários:

Andr? Kenji disse...

A questão é complicada. No terreno da logística, responsavel pela maior parte da receita dela, ela parece ser bem mais eficiente que a média. Não só é a única a manter transporte de passageiros como tem batido recordes de escoamento por ferrovia, com MUITO mais eficiencia, tanto em material rodante como em manutenção de vias que a antiga RFFSA ou mesmo da parte da FEPASA que ela administra, tanto na Vale, como na FCA e na MRS, que ela tem participação minoritária.

Tiago disse...

O terreno da logística é responsável pela maior parte dos lucros, não da receita, se bem me lembro, e a questão é complicada, já que a Vale cobra de si mesma e das controladas. (Tanto na EFVM e na EFC quanto na Docenave)

Mas eu não estou negando a qualidade da cultura corporativa da Vale* - que antecede a privatização. A execução do projeto Carajás - da mina ao porto na Praia Mole - é usada como exemplo mundo afora (e tinha acabado de receber o último dos U$3bn em investimentos quando a vale foi privatizada).

Acho que é bastante discutível se a Vale deveria ter sido feita pra começar, ainda mais expropriando estradas de ferro privadas. Mas a privatização dela foi jogar dinheiro fora. E os novos investimentos feitos desde então (em vagões e locos, principalmente) não foram aportes de capital privado, foram dinheiro do BNDES e da geração de caixa monstruosa.

*Se bem que o histórico recente da FCA é meio ALL.

Andr? Kenji disse...

O ponto em questão nem é a malha que a Vale do Rio Doce construiu ou já administrava antes da privatização, mas a Malha que ela recebeu da RFFSA ou ainda parte da malha da FEPASA que ela recebeu da Ferroban. Tanto como na FCA, que ela é dona quase que sozinha quanto na MRS(Minoritária), ao meu ver a melhor operadora ferroviária do país depois da Vale.

A RFFSA, em boa parte, quando privatizada, era inutilizável.