As pessoas ficaram chocadas com o reverendo Pat Robertson, que num espetáculo de insensibilidade, logo após o terremoto disse que o Haiti mereceu o acontecido porque teria feito um pacto com o demo para expulsar os franceses. O âncora da NBC Keith Olberman inclusive soltou o verbo em cima do Pat Robertson e do comentarista Rush Limbaugh.
A besteira do reverendo tem sua origem no fato de (como já mencionado no post anterior) a revolução haitiana ter começado numa cerimônia vudu. Como vudu é coisa do demônio, logo... O que acho curioso, entretanto, é que muita gente concordaria instintivamente com o Pat Robertson sobre o vudu. No caso dele, qualquer religião que não seja o neopentecostalismo é coisa de Satã - ele já disse textualmente que Islã, Catolicismo, e Anglicanismo, pelo menos, o são. Mas a idéia do vudu como religião satânica é bem mais ampla do que entre os evangélicos.
Até o começo do século XX, essa visão do vudu como coisa do demo, ou então "selvagem" e terrível era estendida a todas as outras religiões afro-americanas. Mas nos anos 20, 30, as outras foram ganhando cartas de alforria, graças em parte ao trabalho de antropólogos e escritores que inclusive fizeram de algumas delas, como a Santería cubana e o Candomblé baiano, ícones da Kultur nacional e/ou regional.
Já o vudu, em parte por ser, graças à sua filial em Nova Orléans e à ocupação americana do Haiti em 1915-34, mais próximo dos EUA, teve a "sorte" de entrar para a mitologia americana como religião demoníaca. Parênteses: existe uma religião afro-americana nativa dos próprios EUA, o Obeah, mas no século XX ele já tinha se tornado algo vestigial, quase sem praticantes. O que faz sentido se você lembrar que o total de seres humanos embarcados para os EUA foi bem menor que o total do Haiti, para um país imensamente menor - o total do Caribe como um todo é de uns quatro milhões, número similar ao do Brasil, enquanto para os EUA foram uns 360.000 e só para o Haiti mais de 950.000.
Influenciados por essa representação mitológica, muita gente ainda tentou traçar as origens da diferença (fictícia) entre o Haiti e os cultos afro "bonzinhos." Nesse esforço, coopera o fato de os loas haitianos serem (como em algumas variantes da Umbanda) divididos em duas nações, Rada (oriundos da África) e Petro (nativos do Haiti). As nações podem ser vistas como loas separados ou como aspectos de cada loa (embora alguns, como a petro Marinette Bwa Sech não tenham correspondente na outra nação), e o fato de a nação terrível ser tida como crioula representaria, para os estudiosos que tentaram vestir a carapuça no vudu, como "evidência" de que o vudu teria se brutalizado no Haiti, devido à história de sangueiras do país (Leclerc, na tentativa napoleônica de debelar a revolução, matou um terço da população, e guerras civis foram uma constante desde então.)
Fechando com chave de ouro a má reputação do vudu, numa época em que começava-se a ter mais respeito por religiões pagãs até nos EUA, o pai-de-santo e médico François Duvalier, Papa Doc subiu ao poder no Haiti e se, por um lado, encampou o reconhecimento oficial do vudu como religião nacional, por outro lado abusou de sua reputação de pai-de-santo do mal, com direito a apelidar ele mesmo suas milícias políticas de tonton-macoutes, bichos papões. É em parte graças a ele que só hoje em dia o vudu finalmente começa a se livrar (fora dos círculos evangélicos) da reputação de coisa do capeta.
Pra fechar, sem nada a ver com o vudu, o vídeo do Arcade Fire falando do Haiti.
Auferre, trucidare, rapere, falsis nominibus imperium; atque, ubi solitudinem faciunt, pacem appellant.
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18.1.10
15.1.10
Braços secos
Muita gente tem comentado sobre como o Haiti tem "azar" na história. País mais pobre das Américas, etc etc. Eu mesmo comentei isso quando ouvi do terremoto pela primeira vez. Pois bem, só pra constar: o Haiti não é o país mais pobre das Américas por azar, por incúria dos nativos, ou por um acaso inexplicável. É o país mais pobre das Américas porque tem sido, sistematicamente, alvo das atenções das grandes potências européias e dos EUA, que roubaram tudo que não estava pregado no chão. E olhe lá.
A história do Haiti começa em 1804. Enquanto as revoluções burguesas da mesma época nos EUA e França tiveram participação popular mas foram dirigidas pela burguesia (e, nos EUA, a pequena aristocracia local), no Haiti a pequena burguesia foi a reboque, e a aristocracia foi pra fogueira. A revolução começou no Bois Caiman (capão dos jacarés), onde o houngan (pai de santo) Dutty Boukman organizou uma grande cerimônia vudu para selar o compromisso da revolta e pedir apoio espiritual; a filha de santo que, possuída pela loa Erzuli Dantor (o aspecto Petro, terrível, da loa Erzuli, cujo aspecto Rada, benévolo, é a deusa do amor) sacrificou um porco negro na cerimônia se transformou depois, segundo a lenda, na loa terrível Marinette Bwa Sech, padroeira das revoltas e dos lobisomens, cujos cavalos são marcados para a morte pela violência. O próprio Dutty foi morto pelas autoridades francesas; outros levaram a revolução adiante até que o Haiti se tornou o primeiro país livre das Américas, derrotando para isso o general Leclerc, cunhado de Napoleão Bonaparte, e 35.000 granadeiros daqueles que deixavam os exércitos da Europa tremendo que nem vara verde.
A revolução haitiana povoou as mentes das elites americanas por todo o século XIX. Debates nos parlamentos dos vários países que se separaram da Europa mas mantinham escravos faziam referências frequentes a elas; tal ou qual medida era sempre apoiada porque "evitaria um Haiti" ou atacada porque "levaria ao Haiti." O próprio Haiti, entretanto, veria, além das lutas internas entre negros e mulatos, uma derrama de seus cofres a pagar em idenizações à França pela própria independência; a contrapartida era o reconhecimento pela França e por outros países, sem o que a economia do país, baseada na agroexportação, não funcionaria. (OS EUA foram os únicos a não reconhecer a independência mesmo depois do pagamento à França.)
Além da imensa dívida à frança (21 bilhões de euros, em valores de hoje), o Haiti foi alvo de extorsões diversas ao longo do século XIX. Funcionava assim: alemão (ou americano, francês, britânico) era acusado de algum crime no Haiti e preso. Governo do cidadão se indignava com o fato de negros prenderem um homem de bem. Mandava uma ou duas canhoneiras bloquearem o porto de Port-au-Prince até que o cidadão fosse libertado e fosse paga uma bela "idenização." Nessas extorsões foram outros 9 bilhões, em valores de hoje.
Depois da segunda guerra mundial, as extorsões saíram de moda. As lutas entre negros e mulatos (estes compondo a maior parte da elite econômica) continuaram, entretanto. Além disso, em 1915, os EUA invadiram e ocuparam o país, a pedidos da HASCO, agrocorp açucareira que temia uma alta nos impostos. O banco central do Haiti, com suas reservas, foi entregue ao National City Bank of New York, que antes da ocupação já havia comprado uma participação no BC, mas depois dela anexou tudo e passou a se esquecer de pagar juros sobre os valores depositados. Foram instauradas no Haiti as leis raciais "jim crow" do sul dos EUA, parte de uma constituição (escrita pelo FDR) outorgada e aprovada por 98.75% dos eleitores haitianos. (Arrã.) Um dos marines no Haiti, Smedley Butler, depois descreveu suas próprias ações assim:
"I spent 33 years and four months in active military service and during that period I spent most of my time as a high class thug for Big Business, for Wall Street and the bankers. In short, I was a racketeer, a gangster for capitalism. I helped make Mexico and especially Tampico safe for American oil interests in 1914. I helped make Haiti and Cuba a decent place for the National City Bank boys to collect revenues in. I helped in the raping of half a dozen Central American republics for the benefit of Wall Street. I helped purify Nicaragua for the International Banking House of Brown Brothers in 1902-1912. I brought light to the Dominican Republic for the American sugar interests in 1916. I helped make Honduras right for the American fruit companies in 1903. In China in 1927 I helped see to it that Standard Oil went on its way unmolested. Looking back on it, I might have given Al Capone a few hints. The best he could do was to operate his racket in three districts. I operated on three continents."
Em 1934, os americanos pararam de administrar o país diretamente, e passaram a apenas patrocinar diversos ditadores, como no resto do hemisfério ocidental, entre eles o infame Papa Doc Duvalier, que apesar da reputação foi melhor do que a média, em parte porque conseguiu usar o reconhecimento oficial da religião vudu como fonte de legitimação popular própria, e assim resistir a parte das pressões americanas ("legitimação popular" que passava também pelo terror, tanto dos poderes vudu atribuídos ao ditador quanto pelos seus esbirros, os tontons macoutes, bem entendido). O padrão, com os EUA interferindo o tempo todo em políticas de camarilha, segue até hoje - sendo que a última deposição presidencial, na qual o presidente foi empacotado e levado por marines para a República Centro-Africana, continua mal explicada.
Azar o caramba. A história do Haiti é de opressão alheia, mesmo. Marinette dos braços secos merece mais rezas pelo país do que Ayida Wedo, loa da boa sorte e da riqueza.
Só pra lembrar:
site de doação do Médecins sans Frontières
site de doação do Programa Alimentar Mundial da ONU
A história do Haiti começa em 1804. Enquanto as revoluções burguesas da mesma época nos EUA e França tiveram participação popular mas foram dirigidas pela burguesia (e, nos EUA, a pequena aristocracia local), no Haiti a pequena burguesia foi a reboque, e a aristocracia foi pra fogueira. A revolução começou no Bois Caiman (capão dos jacarés), onde o houngan (pai de santo) Dutty Boukman organizou uma grande cerimônia vudu para selar o compromisso da revolta e pedir apoio espiritual; a filha de santo que, possuída pela loa Erzuli Dantor (o aspecto Petro, terrível, da loa Erzuli, cujo aspecto Rada, benévolo, é a deusa do amor) sacrificou um porco negro na cerimônia se transformou depois, segundo a lenda, na loa terrível Marinette Bwa Sech, padroeira das revoltas e dos lobisomens, cujos cavalos são marcados para a morte pela violência. O próprio Dutty foi morto pelas autoridades francesas; outros levaram a revolução adiante até que o Haiti se tornou o primeiro país livre das Américas, derrotando para isso o general Leclerc, cunhado de Napoleão Bonaparte, e 35.000 granadeiros daqueles que deixavam os exércitos da Europa tremendo que nem vara verde.
A revolução haitiana povoou as mentes das elites americanas por todo o século XIX. Debates nos parlamentos dos vários países que se separaram da Europa mas mantinham escravos faziam referências frequentes a elas; tal ou qual medida era sempre apoiada porque "evitaria um Haiti" ou atacada porque "levaria ao Haiti." O próprio Haiti, entretanto, veria, além das lutas internas entre negros e mulatos, uma derrama de seus cofres a pagar em idenizações à França pela própria independência; a contrapartida era o reconhecimento pela França e por outros países, sem o que a economia do país, baseada na agroexportação, não funcionaria. (OS EUA foram os únicos a não reconhecer a independência mesmo depois do pagamento à França.)
Além da imensa dívida à frança (21 bilhões de euros, em valores de hoje), o Haiti foi alvo de extorsões diversas ao longo do século XIX. Funcionava assim: alemão (ou americano, francês, britânico) era acusado de algum crime no Haiti e preso. Governo do cidadão se indignava com o fato de negros prenderem um homem de bem. Mandava uma ou duas canhoneiras bloquearem o porto de Port-au-Prince até que o cidadão fosse libertado e fosse paga uma bela "idenização." Nessas extorsões foram outros 9 bilhões, em valores de hoje.
Depois da segunda guerra mundial, as extorsões saíram de moda. As lutas entre negros e mulatos (estes compondo a maior parte da elite econômica) continuaram, entretanto. Além disso, em 1915, os EUA invadiram e ocuparam o país, a pedidos da HASCO, agrocorp açucareira que temia uma alta nos impostos. O banco central do Haiti, com suas reservas, foi entregue ao National City Bank of New York, que antes da ocupação já havia comprado uma participação no BC, mas depois dela anexou tudo e passou a se esquecer de pagar juros sobre os valores depositados. Foram instauradas no Haiti as leis raciais "jim crow" do sul dos EUA, parte de uma constituição (escrita pelo FDR) outorgada e aprovada por 98.75% dos eleitores haitianos. (Arrã.) Um dos marines no Haiti, Smedley Butler, depois descreveu suas próprias ações assim:
"I spent 33 years and four months in active military service and during that period I spent most of my time as a high class thug for Big Business, for Wall Street and the bankers. In short, I was a racketeer, a gangster for capitalism. I helped make Mexico and especially Tampico safe for American oil interests in 1914. I helped make Haiti and Cuba a decent place for the National City Bank boys to collect revenues in. I helped in the raping of half a dozen Central American republics for the benefit of Wall Street. I helped purify Nicaragua for the International Banking House of Brown Brothers in 1902-1912. I brought light to the Dominican Republic for the American sugar interests in 1916. I helped make Honduras right for the American fruit companies in 1903. In China in 1927 I helped see to it that Standard Oil went on its way unmolested. Looking back on it, I might have given Al Capone a few hints. The best he could do was to operate his racket in three districts. I operated on three continents."
Em 1934, os americanos pararam de administrar o país diretamente, e passaram a apenas patrocinar diversos ditadores, como no resto do hemisfério ocidental, entre eles o infame Papa Doc Duvalier, que apesar da reputação foi melhor do que a média, em parte porque conseguiu usar o reconhecimento oficial da religião vudu como fonte de legitimação popular própria, e assim resistir a parte das pressões americanas ("legitimação popular" que passava também pelo terror, tanto dos poderes vudu atribuídos ao ditador quanto pelos seus esbirros, os tontons macoutes, bem entendido). O padrão, com os EUA interferindo o tempo todo em políticas de camarilha, segue até hoje - sendo que a última deposição presidencial, na qual o presidente foi empacotado e levado por marines para a República Centro-Africana, continua mal explicada.
Azar o caramba. A história do Haiti é de opressão alheia, mesmo. Marinette dos braços secos merece mais rezas pelo país do que Ayida Wedo, loa da boa sorte e da riqueza.
Só pra lembrar:
site de doação do Médecins sans Frontières
site de doação do Programa Alimentar Mundial da ONU
14.1.10
Hood Robin
Rola uma briga, no momento, por conta da autorização dada pela prefeitura do Rio para que ergam, entre os Arcos da Lapa e a Catedral, um prédio de 44 andares. Da briga, estou fora; a idéia de que arranha-céus "descaracterizam" a Lapa é meio estranha, já que parte do charme do centro do Rio é justamente o contraste entre o moderno e o antigo. De qualquer ponto do largo da Lapa dá pra ver os espigões da Chile.
O que me choca, entretanto, é o Eduardo Paes falando que a autorização foi concedida porque ajudará a "revitalizar" a área. Defendi a revitalização da zona portuária porque, ao contrário da maioria das áreas "revitalizadas" mundo afora, ela está mesmo morta, com uma população pequena e decrescente, e menos ainda empregos. Mas a palavra revitalização, geralmente, quer dizer mesmo gentrificação, ou, em outras palavras, expulsar os pobres para dar lugar aos ricos, com ajuda do governo e muita especulação imobiliária. E é difícil imaginar um exemplo mais claro disso do que na declaração da Duda. Alguém consegue ir na Lapa numa noite de sexta e dizer que àquilo falta vida?
************************
Quando furacões assolaram o Haiti, foram prometidos 300 milhões em ajuda. Não pingou um centavo. A ver se dessa vez sai alguma coisa. Só pra constar - o valor pago pelo Haiti à França de 1804 a 1879, corrigido e sem juros, tá por volta de E21bn. O valor pago em diversas extorsões (é, extorsões na cara dura) feitas à França, Reino Unido, EUA e Alemanha dá uns outros E9bn. É só devolver parte do roubado, não precisa fazer caridade não.
O que me choca, entretanto, é o Eduardo Paes falando que a autorização foi concedida porque ajudará a "revitalizar" a área. Defendi a revitalização da zona portuária porque, ao contrário da maioria das áreas "revitalizadas" mundo afora, ela está mesmo morta, com uma população pequena e decrescente, e menos ainda empregos. Mas a palavra revitalização, geralmente, quer dizer mesmo gentrificação, ou, em outras palavras, expulsar os pobres para dar lugar aos ricos, com ajuda do governo e muita especulação imobiliária. E é difícil imaginar um exemplo mais claro disso do que na declaração da Duda. Alguém consegue ir na Lapa numa noite de sexta e dizer que àquilo falta vida?
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Quando furacões assolaram o Haiti, foram prometidos 300 milhões em ajuda. Não pingou um centavo. A ver se dessa vez sai alguma coisa. Só pra constar - o valor pago pelo Haiti à França de 1804 a 1879, corrigido e sem juros, tá por volta de E21bn. O valor pago em diversas extorsões (é, extorsões na cara dura) feitas à França, Reino Unido, EUA e Alemanha dá uns outros E9bn. É só devolver parte do roubado, não precisa fazer caridade não.
13.1.10
Encasquetamentos
Por que o TAV não é maglev? Não, sério. Explico: o maior problema do TAV Rio-SP é a Serra do Mar; o trem vai ter que fazer umas curvonas pra galgar a serra, em parte porque o gradiente máximo de descida dele é um metro a cada vinte. Ora, Maglevs não têm gradiente máximo, fora o do conforto dos passageiros. Se fizer cadeiras autocompensantes, ou enfiar a galera em arreios de montanha russa, você pode fazer um maglev subir reto pra cima sem problema. Além disso, a vibração é menor, então um túnel subterrâneo em área urbana sai muito mais barato, e túneis subterrâneos em áreas urbanas são o outro pedaço grande dos custo e prazo da obra. E, finalmente, com um maglev o percurso Carandiru-Leopoldina duraria 1h ao invés de 1h30. Mas a consultoria inglesa simplesmente ignorou a possibilidade de se usar maglev.
E aqui vai a opinião de um expert concordando comigo.
************************
O Haiti definitivamente tem uma caveira, não de burro mas de tiranossauro enterrada em algum lugar de Port-au-Prince. Agora seria uma excelente hora pro Brasil mostrar a que veio e, ao invés do esforço meia-bomba que são a MINUSTAH e ações conexas, se empenhar no lugar. O Serra e o Cabral não tão se jactando de que tão cheios da grana? Corta a grana federal do Rodoanel e do Arco Rodoviário, manda pra lá, já é igual ao PIB daquele país.
****************************
O editorialista da Veja tá puxando como fonte pra sua oposição o TERNUMA. Não li (nem daria pra ter lido, é um cartapácio sem tamanho) o PNDH, mas mesmo que não soubesse o que tem dentro, aprovaria só de ver quem é contra. (O que tem dentro é, basicamente, uns 2/3 da minha wish list política, aparentemente.)
E aqui vai a opinião de um expert concordando comigo.
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O Haiti definitivamente tem uma caveira, não de burro mas de tiranossauro enterrada em algum lugar de Port-au-Prince. Agora seria uma excelente hora pro Brasil mostrar a que veio e, ao invés do esforço meia-bomba que são a MINUSTAH e ações conexas, se empenhar no lugar. O Serra e o Cabral não tão se jactando de que tão cheios da grana? Corta a grana federal do Rodoanel e do Arco Rodoviário, manda pra lá, já é igual ao PIB daquele país.
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O editorialista da Veja tá puxando como fonte pra sua oposição o TERNUMA. Não li (nem daria pra ter lido, é um cartapácio sem tamanho) o PNDH, mas mesmo que não soubesse o que tem dentro, aprovaria só de ver quem é contra. (O que tem dentro é, basicamente, uns 2/3 da minha wish list política, aparentemente.)
12.7.06
Quanto tá a Ó-dê-á?
A inauguração de um escritório da Embrapa em Gana é mais um elemento de "ajuda externa" brasileira, como o foram antes os perdões das dívidas boliviana ou gabonense, e até parte do esforço de ocupação no Haiti. Ajuda externa não é necessariamente uma coisa boa, como o último elemento mencionado deixa claro; entre as grandes potências, boa parte da ajuda externa das grandes potências é de natureza bélica mesmo. Mas a ajuda tem, para as nações querendo chegar à burguesia, o mesmo significado que ir à ópera pruma família. Tá, ópera tá datado. Que comprar coleção de música pseudo-iconoclasta e som caro pro carro.
Quanto o Brasil gasta nesse bilhete de ópera? Ainda deve ser menos do que os 0,16% do PIB que os EUA gastam, que dirá dos quase 1% de alguns escandinavos, mas alguém tem alguma idéia de quanto é? Finalmente o MCT começou, ano passado, a mapear os dispêndios (públicos e privados) em ciência e tecnologia (sim, até ficar concluído esse estudo, o Brasil não tem nenhum relatório abrangente); não tava na hora do Itamaraty fazer o mesmo com a ajuda externa?
Quanto o Brasil gasta nesse bilhete de ópera? Ainda deve ser menos do que os 0,16% do PIB que os EUA gastam, que dirá dos quase 1% de alguns escandinavos, mas alguém tem alguma idéia de quanto é? Finalmente o MCT começou, ano passado, a mapear os dispêndios (públicos e privados) em ciência e tecnologia (sim, até ficar concluído esse estudo, o Brasil não tem nenhum relatório abrangente); não tava na hora do Itamaraty fazer o mesmo com a ajuda externa?
22.9.04
O Pai dos Pobres no Orfanato
Lendo um artigo sobre a proposta, feita por Marcus Garvey, de uma emigração de afro-americanos para o Brasil, tido à época como "paraíso racial," e as reações no lado de cá. Soa até familiar:
Um deputado pernambucano propôs a criação de uma lei que controlasse a entrada de negros no país. (Controlar quer dizer barrar mesmo.)
As reações na própria Câmara não foram lá muito receptivas :
"O projeto é um atentado aos direitos do homem e do cidadão...é um atentado à dignidade da raça negra...O Brasil , pelos seus representantes, só pode repelir esse infeliz projeto, que seria o indício de um Código Negro, de uma política de preconceitos de raça indigna de uma República." (Deputado gaúcho positivista)
"verdadeiramente horrorizado...não compreender como o Sr. Andrade Bezerra...havia esquecido, ao redigir seu projeto proibindo a entrada de negros no Brasil, não apenas os mais belos artigos de nossa constituição federal, mas principalmente sua fé cristã" (Deputado pernambucano católico)
etc etc etc
Já boa parte da imprensa da Capital era a favor - "não que fosse racista," claro. Com umas poucas exceções, de um racismo hilário de tão histérico, e algumas outras exceções contra o projeto.
No final das contas? O projeto gorou, mas o Governo encarregou-se de criar dificuldades à imigração vinda dos EUA, extra-oficialmente. Quem iria instaurar o racismo e a eugenia na forma da lei? Ele mesmo, o titio Getúlio, rolha do poço agora cavado lá na Glória.
Outra coisa interessante do artigo é a parte do discurso do deputado gaúcho em que ele menciona que a Constituição permitia o livre trânsito inclusive sem passaporte. Vê se hoje em dia atravessar fronteira sem passaporte ia ser permitido. Os fascistas perderam a batalha mas ganharam a guerra. :/
Ns.E. -
Marcus Garvey - Líder negro jamaicano-americano. Doidão - é como se ele fosse uma mistura fin-de-siècle de Malcom X com Afrika Bambaata. Racismos à parte, o artigo na Estudos Afro-Asiáticos deixa de lado o fato de que a intenção dele era mesmo criar um estado nacional negro, no Mato Grosso ou na África. O site da TVE americana sobre ele : http://www.pbs.org/wgbh/amex/garvey/
Código Negro - Code Noir - Código regendo as relações raciais no Império colonial francês, editado pela primeira vez por Luís XIV. O racionalismo e clareza envolvidos fizeram dele um ícone da dureza em se tratando de racismo no século XIX, em que a referência ao Haiti de Toussaint L'Ouverture ainda era mais importante no discurso contra o racismo do que a historiomitologia da luta contra o racismo nos EUA. As prescrições dele não eram, apesar disso significativamente piores do que o tratamento dado aos escravos em outros lugares. (Quer dizer, eram horríveis.)
http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/amsudant/guyanefr1685.htm
http://www.historia.presse.fr/data/thematique/80/08003401.html
Um deputado pernambucano propôs a criação de uma lei que controlasse a entrada de negros no país. (Controlar quer dizer barrar mesmo.)
As reações na própria Câmara não foram lá muito receptivas :
"O projeto é um atentado aos direitos do homem e do cidadão...é um atentado à dignidade da raça negra...O Brasil , pelos seus representantes, só pode repelir esse infeliz projeto, que seria o indício de um Código Negro, de uma política de preconceitos de raça indigna de uma República." (Deputado gaúcho positivista)
"verdadeiramente horrorizado...não compreender como o Sr. Andrade Bezerra...havia esquecido, ao redigir seu projeto proibindo a entrada de negros no Brasil, não apenas os mais belos artigos de nossa constituição federal, mas principalmente sua fé cristã" (Deputado pernambucano católico)
etc etc etc
Já boa parte da imprensa da Capital era a favor - "não que fosse racista," claro. Com umas poucas exceções, de um racismo hilário de tão histérico, e algumas outras exceções contra o projeto.
No final das contas? O projeto gorou, mas o Governo encarregou-se de criar dificuldades à imigração vinda dos EUA, extra-oficialmente. Quem iria instaurar o racismo e a eugenia na forma da lei? Ele mesmo, o titio Getúlio, rolha do poço agora cavado lá na Glória.
Outra coisa interessante do artigo é a parte do discurso do deputado gaúcho em que ele menciona que a Constituição permitia o livre trânsito inclusive sem passaporte. Vê se hoje em dia atravessar fronteira sem passaporte ia ser permitido. Os fascistas perderam a batalha mas ganharam a guerra. :/
Ns.E. -
Marcus Garvey - Líder negro jamaicano-americano. Doidão - é como se ele fosse uma mistura fin-de-siècle de Malcom X com Afrika Bambaata. Racismos à parte, o artigo na Estudos Afro-Asiáticos deixa de lado o fato de que a intenção dele era mesmo criar um estado nacional negro, no Mato Grosso ou na África. O site da TVE americana sobre ele : http://www.pbs.org/wgbh/amex/garvey/
Código Negro - Code Noir - Código regendo as relações raciais no Império colonial francês, editado pela primeira vez por Luís XIV. O racionalismo e clareza envolvidos fizeram dele um ícone da dureza em se tratando de racismo no século XIX, em que a referência ao Haiti de Toussaint L'Ouverture ainda era mais importante no discurso contra o racismo do que a historiomitologia da luta contra o racismo nos EUA. As prescrições dele não eram, apesar disso significativamente piores do que o tratamento dado aos escravos em outros lugares. (Quer dizer, eram horríveis.)
http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/amsudant/guyanefr1685.htm
http://www.historia.presse.fr/data/thematique/80/08003401.html
30.7.04
O mais-que-perfeitamente-ferrado
Agora o Nominimo faz uma enquete sobre o perdão da dívida dos africanos, depois que muita gente já criticou as forças de paz mandadas pro Haiti.
Até aí é normal, chauvinismo, etc. Não concordo, mas realmente, se você for um nacionalista, não tem porque ajudar os outros se tem gente passando fome no seu país. E no caso da ocupação do Haiti, a estória toda do golpe e desgolpe está meio mal contada, com todas as versões possíveis, da invasão à liberação passando pela rebelião e pela quartelada.
O que é estranho é que eu apostaria uma quantia razoavelmente alta (que eu não tenho, mas deixa pra lá) que nenhuma figura escrevente e tagarelante brasileira, exceção feita ao Olavo de Carvalho, deixa de achar o Bush o fim da picada. Et pourtant, os artigos criticando a ajuda externa são iguaizinhos aos que você vai encontrar no Cato Institute, na New Republic, e mesmo, às vezes, na Fox News e no Newsmax. Enfim, no país em que ACM é de esquerda, faz sentido. Vai ver só odeia-se o Bushinho ou a Rosinha porque eles são evangélicos e popularescos, não há o mesmo preconceito contra o Bushão ou o César Maia, apesar da semelhança.
Antes que alguém fale que a diferença é que os EUA são ricos, cabe lembrar que eles têm 40 milhões de pessoas no fome zero deles, e outros oito milhões passando fome. Não têm SUS, têm um déficit externo de 5% do PIB, e enfrentam crises de infraestrutura. Lugar pra gastar a ajuda externa que eles deixariam de gastar com pobre americano tem e sobra. Em certos estados, mais de 10% da população mora em trailers. St Louis é mais ou menos tão violenta quanto São Paulo. (O Rio, depois da escalada da estratégia de guerra da polícia, está chegando em Johannesburgo)
Até aí é normal, chauvinismo, etc. Não concordo, mas realmente, se você for um nacionalista, não tem porque ajudar os outros se tem gente passando fome no seu país. E no caso da ocupação do Haiti, a estória toda do golpe e desgolpe está meio mal contada, com todas as versões possíveis, da invasão à liberação passando pela rebelião e pela quartelada.
O que é estranho é que eu apostaria uma quantia razoavelmente alta (que eu não tenho, mas deixa pra lá) que nenhuma figura escrevente e tagarelante brasileira, exceção feita ao Olavo de Carvalho, deixa de achar o Bush o fim da picada. Et pourtant, os artigos criticando a ajuda externa são iguaizinhos aos que você vai encontrar no Cato Institute, na New Republic, e mesmo, às vezes, na Fox News e no Newsmax. Enfim, no país em que ACM é de esquerda, faz sentido. Vai ver só odeia-se o Bushinho ou a Rosinha porque eles são evangélicos e popularescos, não há o mesmo preconceito contra o Bushão ou o César Maia, apesar da semelhança.
Antes que alguém fale que a diferença é que os EUA são ricos, cabe lembrar que eles têm 40 milhões de pessoas no fome zero deles, e outros oito milhões passando fome. Não têm SUS, têm um déficit externo de 5% do PIB, e enfrentam crises de infraestrutura. Lugar pra gastar a ajuda externa que eles deixariam de gastar com pobre americano tem e sobra. Em certos estados, mais de 10% da população mora em trailers. St Louis é mais ou menos tão violenta quanto São Paulo. (O Rio, depois da escalada da estratégia de guerra da polícia, está chegando em Johannesburgo)
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