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26.2.06

Lugares estranhos do mundo V - clipping the matrix

Não dá pra deixar de lado a impressão de que o mundo está descambando pro cyberpunk. Houve um período, nos anos 90, em que ainda se falava em uma mudança no sentido contrário, com a reafirmação dos nacionalismos e do internacionalismo ao mesmo tempo (a tal "nova ordem mundial" de Bush I e Clinton tinha a ver com essa tentativa de operar o sistema-mundo através de instituições formais, ligadas ou não à ONU). Hoje, isso ficou meio de lado, mesmo se você for da opinião de que o neocons não vão conseguir cavalgar o tigre por muito mais tempo. Em poucos anos, as corporações, se não viraram as Hosakas e Van Nuyens da literatura cyberpunk, caminharam bastante pra chegar lá. Há uns cinco anos, a maior siderúrgica do mundo, a Nippon Steel (é, com o nome em inglês mesmo), produzia coisa de 3o e tantos milhões de toneladas de aço; hoje, uma empresa de 50 milhões de toneladas, a Mittal, quer comprar a outra, a Arcelor, pra ficar com uma produção total maior do que a do Japão, segundo produtor mundial. Dez fusões depois, a Pfizer tem um orçamento de pesquisa maior do que o total investido em pesquisa no país de três dos quatro BRICs e 19 dos 25 membros da UE. A opção de saída, junto com a vigilância da OMC, garantem que até empresas menores, enquanto não são compradas, podem se impor aos estados que, ao contrário delas, continuam locais. Como resumido na Economist, na tradução do Valor,

Se os lucros (e, portanto, a remuneração dos executivos) seguirem em sua alegre ciranda, enquanto os salários reais dos empregados comuns ficam inalterados e seus planos de saúde e aposentadorias vão sendo minados, seria razoável os trabalhadores esperarem que seus governos façam alguma coisa para reduzir a disparidade. Não é difícil pensar em idéias que seriam populares: impostos mais altos sobre lucros, restrições a investimentos no exterior, barreiras contra importações ou dificultar a demissão de trabalhadores. O problema é que, numa economia globalizada, essas medidas seriam também suicida. As empresas simplesmente transfeririam suas operações para países mais amistosos.


Ou melhor, cyberpunk sem uma razorgirl pra chamar de minha, e com LER ao invés de datajacks. No fun.

Em homenagem ao lado cúl do cyberpunk, juntei uma colagem de troços que apareceram nesta semana, traços na areia (cheia de lixo global) dessa volta a 1984 (não o do Orwell, o do lançamento de Neuromancer).

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Como proposta, é uma porcaria. Como capricho, ou talvez como provocação, é genial: o Homem Caranguejo de Santos. Pra se ler ouvindo Mangue Beat, evidentemente. Uma favela de contêineres numa grelha de concreto, junto ao porto. Como Deus é péssimo escritor, a proposta foi feita pra Santos, um porto secundário e afastado das redes de troca globais, em que o grosso do embarcado é a granel, ao invés de pra Cingapura, Roterdã ou Hong Kong. Et pourtant...no do meio, já houve propostas de habitação "social" em contêineres.

Cingapura, o maior dos três, aliás, foi o grande modelo pra idéia do "enclave" corporativo brilhando de limpo no meio do mundo fudido. Limpo e controlado: a cidade-estado-ilha, onde não há necessidade de se criar uma favela de contêineres (porque o Estado, dono de 90% da terra, fornece habitação a todos), tem mais câmeras de segurança do que qualquer outro país do mundo, fora a Grã-Bretanha, e mais do que qualquer um per capita. Vai ver é alguma coisa a ver com ilhas.

Se Cingapura encarna o lado de cromo brilhante da distopia, outro miniestado asiático, este não uma ilha mas uma quase-ilha, é mais complexo. Dubai, antevendo o fim próximo das próprias reservas de petróleo, pretende se reinventar como uma Cingapura do Golfo, only more so. Além de pólo de negócios e transportes, quer ser um hub aéreo, turístico e financeiro. Continuam em alta os negócios tradicionais, como a lavagem de dinheiro, o contrabando, e os trabalhadores indianos que constroem os prédios de 800 metros de altura e ilhas artificiais. Os ditos - cujos documentos são confiscados pelos empregadores - representam 80% da população dos emirados árabes unidos, e mais de 90% em Dubai, fazendo com que a diferença entre a renda média e a mediana lá seja de deixar o Brasil parecendo a Finlândia.

No porto de Dubai, o trabalho 24h por dia só é possível porque não é humano; em climas mais amenos, porém, a automação quase completa do porto também é uma realidade. Os grandes portêineres (guindastes em linha reta) são a única coisa diretamente controlada por seres humanos; depositam os contêineres tirados dos navios em "caminhões" elétricos robôs, que as levam até as empilhadoras robô, numa atividade apressada que lembra um balé - a figura de linguagem envolve mais do que achar interessante o espetáculo: é que a mistura de velocidade e precisão, com caminhões e guindastes tirando finos uns dos outros o tempo todo, só é atingida por seres humanos com música de fundo. O balllet mechanique dos contêineres, quase silencioso na vastidão dos pátios de concreto, é a versão contemporânea das toadas de estivadores que animavam as docas do auge do comércio internacional antes da Grande Guerra, das India Docks londrinas, onde o comércio (alguns diriam a pilhagem) do mundo chegava à sua capital até os mil pequenos portos inseridos num sistema de comércio que não era menos mundial do que o de hoje, apesar das decisões serem menos centralizadas.

E falando em centralização: um dos temas recorrentes cyberpunks é a degradação ecológica, da modelo de biquíni passando bloqueador solar azul em Robocop à caracterização da Ucrânia ou do meio-oeste americano como desertos radioativos. Pois bem, o país que virou uma espécie de símbolo da devastação ecológica industrial*, a China, decidiu virar o jogo, pelo menos num quesito. (A transposição das águas do Yangze pro Rio Amarelo e a série de represas em três gargantas continuam planejadas.) A idéia de controle do governo chinês que transparece aí é até meio assustadora, mas é melhor ir se acostumando. Afinal, se a China chegar à metade da renda per capita americana, vai ter um PIB duas vezes maior. Voltando ao posto que ocupou antes de o mundo ser um só, a China não vai ser uma superpotência como os EUA ou a Inglaterra, mas algo mais parecido com o conjunto da Europa ou da OCDE.

Pra encerrar a lista: um dos problemas que o mundo enfrenta na sua tentativa de se tornar um romance de William Gibson é a pobreza de imaginação do oabismo saudita, base dos movimentos de violência não-estatal mais conhecidos. Pra lembrar que existe coisa mais barroca e interessante por aí, é só pensar no Exército de Resistência do Senhor.


*A devastação ecológica direta é encarnada no Brasil. Curiosamente, os EUA, o Canadá, e a maioria dos países da Europa, detonam mais áreas ambientais ameaçadas todo ano que o Brasil, e emparedaram uma proporção muito maior de seus rios do que a China.

Um comentário:

tuninha disse...

nem sei por onde começar. ou sei. aqui não tem mato nenhum, a natureza é toda composta de vinhedos. e os chineses que vem visitar paris gastam, como budget inicial, 50mil euros por dia. que tal isso? tem uma matéria na tv5, deve dar pra encontrar lá.