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2.2.06

Of mice and porcupines

Em Israel e nos EUA, muita gente vem boicotanto o filme do Spielberg por ser propaganda palestina. Enquanto isso, a maioria das pessoas que eu conheci (incluindo ieu) achou que tava mais do que óbvio que os mocinhos da história eram os judeus. E, claro, aparece quem diga que o filme não toma partido.

Sinceramente, acho que todos os três estamos errados. (Olha a arrogância aí geeeeente). O filme toma partido sim, e com a "sutileza" que é própria do Spielberg; é só porque o conflito envolve emocionalmente todo mundo que a gente não percebe. A sutileza é tanta que os personagens fazem discursos sobre o "lar" o tempo todo - o Xexéo chama de síndrome de Dorothy. Mas o que o Avner, o assassino-bonzinho, descobre no final, é que, ao contrário do que pensam os movimentos elencados pelo seu colega Ali no esconderijo em Atenas, ETA IRA OLP e os próprios israelenses, "lar" não é um pedaço de chão no qual você pode mandar, é a sua família. No final do filme (à parte a cena atroz em que o Avner trepa com a mulher jorrando suor enquanto imagina o setembro negro indo pelos ares), o protagonista confirma o que dizeram dele no começo, e que havia rejeitado: ele não é um sabra, é um yekke, um judeu da diáspora. O lar dele é o Brooklyn, onde não há necessidade de matar ninguém, longe do Mossad e do Setembro Negro, que seguem presos um ao outro na Totentanz. Os camundongos e porcos-espinhos do título são os judeus, que são representados como camundongos na revistinha Maus; quando alguém pergunta ao Spiegelman como ele representaria os sabras, ele responde "porcos-espinhos?" (sabra é um tipo de mamona). Posso (devo) estar muito enganado, mas o filme, com direito ao barbudinho simpático falando sobre a Justiça, é uma apologia aos camundongos e um libelo contra os animais de espinho de todas as variedades.

É claro que essa posição, mais do que plausível, me é simpática. É a do Singer contra o Eli Wiesel - e com todo o respeito ao Wiesel, que é um puta escritor, o Singer é um gênio.

Pode até dizer que é propaganda americana (na América, a terra prometida, todos podem ter seu lar), mas é interessante contrastada com o livro original, que era uma apologia franca às ações do Mossad - era o ponto de vista, não do Avner (ou do simpático relojoeiro com cara de italiano que erra as bombas - o que não faz NENHUM sentido se ele era engenheiro do exército), mas da mãe dele, que diz que tudo vale a pena, que a diáspora é uma sub-vida. E o livro ser uma estória de espionagem sem duplo sentido significa que deve ser uma porcaria, porque à parte a tentativa meio tosca de fazer do filme uma crise de consciência (e a competência do Spielberg com tensão e imagens), a estória é uma merda. Vou ligar pro Louis e seu Papa, pra perguntar onde estão os livros que perdi quando tinha 12 anos de idade, já que eles tudo sabem e tudo vêem.

Aliás, isso é algo a se perguntar: dada a tradicional antipatia dos ingleses e conservadores americanos pelos franceses, e o fato de o gênero de espionagem ser basicamente um gênero escrito por esses dois grupos, por que será que o francês de estória de espião é, geralmente, de uma competência quase ou efetivamente sobre-humana? Ou é o Jean Reno, que como é sabido põe medo em rinocerontes hidrófobos, leões feridos e no Samuel L Jackson, ou é um sujeitinho de lenço no pescoço, como o Louis, que sabe "a história minuciosa do porvir, as autobiografias dos arcanjos, o relato verdadeiro da tua morte."

3 comentários:

Marcus Pessoa disse...

Interessantíssima a relação que você fez entre o filme e a distinção entre sabras e yekkes. Não conhecia esses termos, valeu pela explicação.

Tiago disse...

Ops. Yekke não é qualquer judeu da diáspora, é especificamente um judeu alemão.

Tiago disse...

Aliás, não dá pra saber, no filme pelo menos, se o sujeito está sacaneando o Avner como yekke porque ele, contador, é sabra ou um ashkenaze da europa oriental. Yekke, além de se referir aos alemães propriamente ditos, também se referia a alguns judeus urbanos "alemanizados" na área toda, em contraste com a cultura judia mais segregada do Singer ou do Violinista no Telhado. Além das conotações comuns aos alemães, de certinho, sério, também é um pouco um cara metido a besta, um "burguesinho."