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20.2.06

Castor Valley Authority

O Lula, que sempre quis ser um FDR com menos dedos e mais pernas, resolveu que o biodiesel será sua Tennessee Valley Authority. Eu não tenho nada contra biocombustíveis a princípio, e ao contrário do proálcool o modelo econômico bolado pro biodiesel parece bem razoável. Mas falta avisar ao presidente uma coisa: o preço de uma garrafa de óleo de soja no supermercado é R$2,20/l. O diesel fóssil, no Rio, custa 1,83/l. O óleo de mamona custa 3R$ o litro. Se a idéia é estimular a fazenda familiar nordestina, faz mais sentido simplesmente possibilitar que ela venda a mamona como óleo pra perfumes e lubrificantes do que comprar essa matéria prima cara pra fazer diesel.

Não adianta dizer que isso vai ser resolvido pelas economias de escala, porque as esmagadoras de soja da Bunge não são exatamente uma operação de fundo de quintal. O balanço energético* de oleaginosas não-perenes ** para biodiesel, segundo o próprio governo brasileiro, dá 1,4 vezes a energia investida - algo parecido com o 1,3 vezes do álcool de milho americano, abaixo das 2 vezes consideradas razoáveis, e muito abaixo das 8,3 vezes do álcool de cana brasileiro.

Existe uma alternativa razoável de produção de biodiesel, fora as algas ainda experimentais, que é a partir de palmeiras. Palmeiras (cultivando as quais, aliás, minifúndios são bem mais competitivos do que com forrageiras), rendem quase dez vezes mais frutos por área do que forrageiras. No balanço geral (o óleo é pior do que o de mamona pra fazer diesel), a cultura de carnaúba, dendê ou babaçú pra biodiesel ainda não é tão eficiente quanto a cana pra álcool (que com a fermentação por novas cepas de fungos da celulose, mais a utilização de sistemas mais avançados de geração de vapor, pode chegar a 15x, talvez 20x), mas passa de 5 vezes com tecnologia corrente e barata. Aí entra um problemitcho menos técnico: pro Lula poder usar de TVA um grande programa de plantação de dendê, só se ele ficar no poder tanto tempo quanto o FDR. De babaçú, só se a direita anaeróbica estivesse certa e ele pretendesse virar ditador stalinista, já que demoraria dez anos, pelo menos, além dos três já completos.


*Gasta-se x unidades de energia (fóssil ou reinvestida), ganha-se y na forma de biodiesel ou etanol. y/x = o "balanço."

**Soja, mamona, algodão, canola, etc.



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Voltando à questão do óleo de mamona, é por isso que das poucas estatais brasileiras que eu defendo seria uma reativação do Lloyde, mas com logística de terra também. Incluindo a possibilidade de se revogar a privatização roubada da Vale, privatizar de novo a mineradora (dessa vez por um preço no mínimo maior que os investimentos feitos por ela no último plano), e ficar o governo com as ferrovias. O problema logístico brasileiro, como tantos outros, afeta os nanicos de forma desproporcional.

Um comentário:

Andr? Kenji disse...

Mão vejo a razão para o governo manter ferrovias de carga.