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26.12.05

Sprawl

The sky was the colour of television tuned to a dead channel...


O Brasil é um país espaçoso. Fora algumas coisas pontuais, graças à megalomania hidrelétrica dos governantes e à informalidade empreendedora dos catadores, desperdiça muito de quase tudo. Uma dessas coisas é o espaço: As cidades brasileiras ainda têm densidades populacionais maiores do que as de países desenvolvidos em geral, mas isso se dá por falta de opção mais do que de vontade - jogando a renda na conta, o Brasil só perde para os campeoníssimos EUA, Austrália e Canadá, que abrigam 20 das 20 maiores cidades do mundo por área (a 21ª é Londres, depois tem mais norte-americanas e australianas, monstros em população como SP e Tóquio só aparecem lá pelos quarenta e tantos). Mas o país está no bom caminho para atingir a liderança.

A construtora MRV, especializada no segmento residencial, concluiu um programa de investimento de mais de R$ 20 milhões na compra de terrenos em 12 cidades nos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Ao todo, são 125 mil metros quadrados de áreas que serão transformadas em 25 condomínios residenciais. Dez do total de projetos serão condomínios fechados de casas, um nicho no qual a empresa está apostando.

"A tendência da classe média é querer morar em casa", diz o presidente da construtora, Rubens Menin. Hoje, as casas já correspondem por cerca de 35% das vendas da empresa, que ficou conhecida no mercado pela construção de prédios voltados para a classe média baixa.

"Não vamos deixar de construir prédios, mas, na medida do possível, porque encontrar bons terrenos para construção de casas não é tão fácil, vamos investir cada vez mais neste nicho." Os novos condomínios residenciais serão lançados pela MRV durante o primeiro semestre de 2006.


E não custa lembrar que a idéia de que tem espaço sobrando no Brasil é falsa. São Paulo tem dois terços da população da França em metade da área; o Rio tem uma vez e meia a população da Suíça na mesma área. O espaço sobrando no Brasil, onde a devastação ecológica de um condomínio residencial (os maiores responsáveis pela destruição, nos EUA, da orla marítima) seria relativamente pequena, é lá nos confins da Amazônia, onde o Maggi, a Cargill e a Bunge vão grilando e transformando a floresta de transição e o cerrado em pasto de boi e plantação de soja.

5 comentários:

Andr? Kenji disse...

O problema não é a população morar em casas, mas sim em casas distantes de tudo, dependendo do carro para qualquer coisa, com terrenos com MAIS de 800 metros quadros(As vezes com 2 mil metros quadrados). O que é desperdicio, em especial de gramado.

E sinto, mas acho que os efeitos disso podem ser muito piores que qualquer coisa feita na Amazônia. Somos afetados mesmo pelo ambiente em que a gente vive, infelizmente.

Guilherme Lessa disse...

"(...)São Paulo tem dois terços da população da França em metade da área(...)"

Numa conta bastante simplória (admito), se pegarmos a atual população do Brasil (185 milhões), agrupá-la em hipotéticas famílias de quatro pessoas, teremos 46.250.000 lares. Se dividirmos a área total do país (8,5 milhões de quilômetros quadrados, cada quilômetro quadrado tem um milhão de metros quadrados, logo o país tem 8,5 quatrilhões de metros quadrados) pelo número total de lares, cada família poderia dispor de um sítio de 183 mil metros quadrados.

É claro que a conta acima não leva em consideração a necessidade de áreas para cultivo de alimentos, reservas ambientais/florestais, rios, lagos, hidrelétricas, indústrias, comércio e nem espaços públicos (em forma de ruas, estradas, hospitais, escolas, etc). Mas ainda assim, dá para ter uma idéia - creio - do tamanho de nosso país e suas possibilidades.

Guilherme Lessa disse...

Decerto, nem todos vão querer morar em casas. Há muita gente que gosta de morar em apartamentos - uma opção a qual respeito muito quem a faz, e que tem o benefício adicional de gerar menor pressão sobre a ocupação do espaço (menos metros quadrados para agrupar uma maior quantidade de pessoas).

Porém, quero também ser respeitado no meu direito de querer morar numa casa, sem ser considerado criminoso ou pecador por isso.

Moro e semprei morei em apartamentos por pura falta de opção. Tomando-se por base a realidade do Rio de Janeiro, morar em casa significa (quase sempre) morar num subúrbio, longe de qualquer assistência de serviço público. As pouquíssimas casas existentes na zona sul têm preços proibitivos.

Nascido e criado na zona sul, não me importaria em morar em bairros da zona da Leopoldina ou da Central. O problema é que esses bairros há muito tempo foram esquecidos pela prefeitura. Na zona sul, um buraco numa rua de grande movimento leva uns três ou quatro dias para ser tapado. Num subúrbio, pode levar meses. O transporte público simplesmente não existe, é uma piada de mau gosto. Minha empregada saiu ontem de minha casa às 16:45 e chegou às 22:00 em Mesquita (35 km de Botafogo), porque dois trens do ramal de Japeri enguiçaram.

Junte-se a isso a crescente violência nos últimos anos (em particular nos bairros da zona da Leopoldina). Meu pai, nascido em Brás de Pina, ainda tem contatos com amigos de infância. Volta e meia sempre aparece uma história (comum) de alguém que foi rendido na frente de casa e teve seu carro levado por bandidos. Um amigo de meu pai perdeu o filho, baleado num desses assaltos. Não foi à toa que aquele ato em que tacaram fogo num ônibus com os passageiros dentro, foi num bairro vizinho (Vila da Penha).

Guilherme Lessa disse...

Ainda dou graças à Deus em ter padrão de vida para morar num apartamento na Zona Sul (Botafogo). Mas como já disse, o faço mais por obrigação que por opção.

Como se não bastasse a histórica displicência da prefeitura com vários bairros de subúrbio - fator de estímulo à fuga desses bairros, o Rio de Janeiro de longa data convive com essa baboseira de marketing que a "cidade tem vocação para o mar". Pois bem, após tantos anos em que dez entre dez suburbanos teve incutida na cabeça a idéia de morar na beira da praia quando ficasse "rico", o resultado aí está: Do Leblon à Glória, numa faixa de dez quilômetros, o que se vê é um verdadeiro apiário humano, com centenas de apartamentos que ficam o dia inteiro sem receber a luz do sol na janela, dado o sombreamento de vários prédios relativamente altos colados uns nos outros.

E aí eu me pergunto: será que as cidadades dos países desenvolvidos (mesmo os grandes centros), apresentam uma densidade tão impressionante de habitantes por tantos bairros contíguos? Nunca viajei ao exterior (exceto Argentina), mas na minha lembrança vem apenas Nova York e Tóquio como exemplo de cidades com essas características.

No caso de Tóquio, compreende-se a realidade japonesa. No caso de Nova York, é praticamente uma exceção nos EUA. Se até nesses países tem que se "rebolar" para por ordem nessas cidades gigantescas, imagine-se aqui em Pindorama.

Na Europa, não me lembro de nenhuma capital que tenha mais que 2,5 milhões (exceto Londres). Nos EUA, nenhuma que exceda esse número, exceto NY. Aqui Brasil tem São Paulo, com quase dez milhões, e Rio de Janeiro com quase seis, com o agravante de que o poder público daqui parece estimular o abandono de áreas inteiras da cidade e o inchaço populacional em outras. Tudo isso leva a uma absurda especulação imobiliária (não é à toa que chamo o Rio de "Manhattan brasileira"). Pelo preço de uma casa de quatro quartos em Juiz de Fora, não se compra nem um apartamento porcaria de dois quartos em Copacabana. E quem se beneficia disso? Os originais proprietários de terras da zona sul que faturam alto, sem falar nas famílias donas de áreas foreiras e a prefeitura, que preguiçosamente pode desempenhar (mal) suas obrigações numa área mais restrita de metros quadrados.

Guilherme Lessa disse...

Costumo também brincar que aqui na zona sul as crianças estão se transformando em "crianças-bonsai", dado o absurdo adensamento urbano, com falta de espaço para brincar - exceto nos eternamente sombreados play-grounds dos prédios ou nas praças cheias de cocôs de cachorro das madames depressivas e seus estressados cães ou dos pit-boys, ou então na badaladíssima orla.

Na minha realidade cotidiana em Botafogo, lembro-me que se quisesse passear na rua com minha filha - então recém-nascida - para pegar sol, ela só conseguiria pegá-lo depois das nove e meia da manhã (entro no trabalho às dez), mesmo assim só em algumas nesguinhas de calçada. Se quisesse tomar sol mais cedo e curtir minha filha, só se eu me dirigisse à orla marítima ou ao Aterro do Flamengo, ou então ficasse com ela junto ao parapeito da janela de meu apartamento (graças a Deus, claro e arejado - corri um bocado atrás para conseguir um assim).

No caso específico de minha filha, como eu e minha esposa trabalhamos fora, deixamos ela na creche durante a semana - uma casa cercada por dois prédios, que não são tão altos assim (cinco pavimentos-tipo, mais play e garagem). O problema é que tais prédios foram erguidos numa rua com largura (das calçadas, inclusive) e tamanho de terrenos adequados a casas de dois andares. Resultado: A insolação no quintal da referida casa fica prejudicada. Mas o pior é que deve ter urbanista que acha isso uma coisa linda, poética, um intrigante e envolvente fenômeno antropológico.

Enquanto isso, a pediatra falou que ela estava muito branquinha (e realmente estava) e isso poderia interferir no crescimento. Sol para valer, só nos finais de semana, ou se acordarmos bem cedo para praticamente ver o sol nascer na orla. Se essas dificuldades acontecessem na Finlândia, vá lá. Mas numa cidade tropical, é ridículo.

Para quem, como eu, é de um tempo em que ainda se podia jogar futebol em algumas transversais da zona sul (tenho 36 anos), e que morou ao lado de uma chácara em que pulava o muro para pegar manga em pleno bairro do Flamengo nos anos 70 (no terreno dessa chácara foram construídos quatro prédios), não consigo ver mais essa cidade com os mesmos olhos. Até as praias, um trufo turístico-marqueteiro-ufanista-eleitoreiro da cidade, não tem mais a coloração que vi até o começo de minha adolescência. Nunca mais vi o verde-água que se via no mar de Ipanema, agora é só azul escuro - apesar da Feema dizer que a balneabilidade se encontra dentro dos padrões.

Apenas moro no Rio de Janeiro porque minha família é daqui e acho difícil encontrar um emprego igual em outra cidade. Não fosse isso, me mudaria, já que não me é dada a opção (eu disse OPÇÃO) digna de morar numa casa, só se for em bairros degradados ou condomínios em áreas supervalorizadas pela especulação.

Não me admira que a classe média tenha começado a fugir dos centros urbanos na última década. Concordo com alguém que falou (não me lembro o nome) que numa cidade entre 300.000 e 500.000 habitantes é possível conciliar qualidade de vida com opções de lazer/cultura e oportunidades de trabalho. Na cidade de meus sonhos, seriam prédios de três ou quatro andares (para não fazer muita sombra, nem afetar a ventilação) alternados com alguns quarteirões de casas. E que não precisavam ter o terreno com o tamanho de 800 metros quadrados não (como bem lembrou o André Kenji). Entre 300 e 450 metros estavam de bom tamanho. Os dois lados, creio, seriam bem atendidos: Quem gosta de apartamento e quem gosta de casa.

Como bem disse um advogado (e com o qual concordo): O condomínio é uma coisa anti-natural, vai contra o instinto do ser humano de ter sua propriedade. Sem entrar no mérito se propriedade é instinto ou não, concordo que há um imenso paradoxo no final do séc XX e início do XXI: Ao mesmo tempo em que o homem reclama maior liberdade individual, ele se tranca em condomínios (o que significa dizer que se é dono de algo e ao mesmo tempo não é). Em tempo, sou síndico de prédio e fico pasmo com os custos crescentes dessa modalidade de moradia.

Desculpe-me o texto longo, mas foi um desabafo de um carioca da gema.

Um abraço,
Guilherme