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15.10.10

Da unanimidade

Uma coisa que me chamou a atenção no "manifesto" pós-primeiro turno da Marina Silva é que ele fala em congelamento da construção de usinas nucleares, mas não de usinas hidrelétricas na Amazônia. Até desmente um pouco a minha crítica a ela como ministra do meio ambiente, que era de que ela focava demais na Amazônia e de menos no resto do país. Nenhum dos três candidatos principais falou mal da usina de Belo Monte em si - Serra até tentou se aproveitar das críticas ao projeto, mas para falar que manteria ele "só que faria direito," na sua tentativa de ser all things to all men, mas dizer que cancelaria mesmo, nem Serra nem Marina disseram. Dilma, por supuesto, é quem levou até o edital o projeto, que vem da Eletronorte da Nova República, e foi alterado para se transformar numa usina a fio d'água no apagar das luzes do governo FH. Belo Monte é apenas uma das 15 usinas hidrelétricas de grande porte que a Eletronorte pretende construir na margem direita do Amazonas.

Nenhum candidato ser contra me deixa encafifado porque esse plano é, em termos ambientais, bem problemático. As comparações com Balbina não se sustentam; todas as hidrelétricas propostas são, do ponto de vista da engenharia, bem boladas, com índices de eficiência razoáveis a ótimos, em alguns casos passando os 10 watts gerados por metro inundado de Itaipu. (É o caso da própria Belo Monte, mesmo assumindo os 4,000GW de energia garantida e não os 11.000 sazonais.) Mas essas hidrelétricas todas constituem, num momento em que o governo comemora a redução em 90% no desmatamento, um risco de desmatamento enorme na Amazônia. Pior do que isso, afetam significativamente as populações tradicionais, índigenas e ribeirinhas, em nome da exportação de energia elétrica pro Sudeste (que, lembremos, graças ao Serra fica com o ICMS).

É particularmente assustador que nem a Marina tenha mencionado isso porque as tais populações tradicionais são de onde ela vem. Em mais de um sentido, já que, mais do que uma política nascida de seringueiros, ela nasceu como política nesse movimento de seringueiros, que se apropriou e aliou ao discurso dos índios como mantenedores da terra, conseguindo fazer com que a relação especial entre índios e Estado - que permite aos índios terem controle de suas terras tradicionais - deixasse de ser a da tutela de inferiores. Se nem a pessoa que construiu sua carreira política a partir desse movimento, importantíssimo, se importa tanto com ele quanto com uma agenda secundária, em termos brasileiros, como impedir a eventual construção de novas usinas nucleares, tamulascados. Não é o Gabeira, que só se importa com parecer com os verdes dos países "superiores," fazendo essa inversão, é a Marina Silva, pô.

E essa ótica é ainda mais estranha porque aquele elogio à engenharia ali em cima não é um elogio à economia. Essas usinas, repita-se sempre, envolvem perdas gigantes na transmissão e custos "escondidos" enormes. E têm o condão de puxar população para perto de si. Estamos ainda pretendendo colonizar a Amazônia? Porque com essas usinas, é isso que acontece.

2 comentários:

Marcus Pessoa disse...

É uma pena que ninguém do governo encampou a proposta de repotenciação das usinas hidroelétricas antigas. Segundo seus defensores, ela pode gerar até 8.000 megawatts a mais de energia, dois terços do que prevê o PAC 2.

Li que a proposta foi "folclorizada" dentro do governo, sem se explicar direito por quê. É provável que tenha a ver com o lobby das empreiteiras.

Mas, convenhamos, é difícil para os ambientalistas falar em congelar hidroelétricas, se a alternativa que há é a energia nuclear. É uma questão cultural pra eles, por mais que hoje a geração de energia nuclear seja muito mais segura do que antigamente e menos poluente que as demais alternativas.

Tiago Thuin disse...

Marcus, o problema maior é que a "otoridade" de pesquisa energética no governo é a gangue do Tolmaschin. E eles são perfeitamente capturados pela visão (não sei se rola corrupção nem creio que faça diferença) geradora-hidreletricista da coisa.

Mas 8Gw é exagero otimista. 4 ou cinco tá de bom tamanho (e é coisa pra cacete - uma Belo Monte, e mais barata.)