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29.8.06

Crescer o bolo pra depois dividir

Depois de vinte anos de estagnação econômica, no Brasil parece ter se cristalizado a idéia de que ser desenvolvimentista é ser de esquerda. Em outras palavras, tem gente dando razão aos neoliberais doidos que acusam a esquerda de estatólatra, ou dizendo, se preferir, que a ditadura era (economicamente) de esquerda. Ao mesmo tempo, a candidata que se identifica no pólo esquerdo da disputa presidencial denuncia a assistência social.

Eu acho isso meio esquisito. Os anos do "milagre" econômico brasileiro foram anos em que cresceu radicalmente a desigualdade, e a proporção de miséria ficou estagnada. O desenvolvimentismo no Brasil, como em boa parte do mundo, sempre significou por dinheiro público na mão de endinheirados, mas aqui é pior porque o dinheiro público foi tirado equanimemente de todo mundo. O IR é comparativamente pequeno e pouco progressivo, o grosso dos impostos são sobre o consumo e pagos igualmente por todos.

Não é que eu seja a favor de laisser faire, veja bem. Muito menos da forma grotesca que o liberalismo assumiu no Brasil (com mais dinheiro público, de impostos menos progressivos ainda, sendo entregues aos ricos, e com menos controle do estado em troca). Mas que acho muito esquisito que Cingapura se torne o modelo da esquerda enquanto Cuba é assistencialista, acho.

Enfim. Só pensei nisso porque saiu matéria no Valor falando sobre a situação do trabalho no Milagre Asiático.

O aumento impressionante da produtividade do trabalho na Ásia entre 1995 e 2000 não foi seguido nem de perto pelos salários. Na China, o ganho de produtividade foi de 6,3% ao ano em média, mas o dinheiro no bolso dos assalariados cresceu bem menos. Na Índia, houve baixa de salários, apesar da alta produtividade, significando deterioração do poder de compra dos trabalhadores justo quando sua eficácia no emprego aumenta.

Os ganhos de produtividade tambem não reduziram o tempo de trabalho. Os seis países campeões do mundo em horas anuais trabalhadas estão todos na Ásia: Bangladesh, Hong Kong (território chinês), Malásia, Coréia do Sul, Sri Lanka e Tailândia, onde boa parte da população trabalha mais de 50 horas por semana.

O trabalho infantil declinou, mas a região ainda conta 122 milhões de criancas em atividades produtivas, representando 64% do total mundial. Tambem a segurança e saúde dos trabalhadores não melhoraram: cerca de 1 milhão de empregados morrem anualmente na Ásia por causa de acidentes de trabalho ou doenças profissionais. A Aids avança, inclusive na China.

A Ásia é também a região com a menor ratificação de convenções internacionais do trabalho, incluindo direito de associação. A OIT diz que os próximos dez anos serão críticos, quando 250 milhões de novos trabalhadores estarão em busca de emprego na Ásia.

Um comentário:

Elis disse...

parabéns, hj é dia do blog!
bjos