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15.1.06

Da raridade de jabuticabas

Elio Gaspari, em sua coluna de hoje, termina uma boa descrição do "relatório" anual feito pelo Itamaraty com uma nota infeliz dizendo que os EUA não fazem isso. Ora, fazem, e muito - cada secretaria (ministério) americana lança mais relatórios impressos do que alguns países, e boa parte deles no mesmo tom. Fora órgãos inteiros dedicados ao imbecilismo de propaganda. Assim como o capitalismo virtuoso que ele compara com o capitalismo vicioso brasileiro não anda lá muito bem há décadas (a renda mediana real americana tem caído desde que Nixon estava na casa branca). No segundo caso, a jabuticaba ainda está mais próxima de existir - o capitalismo brasileiro e latino-americano em geral é, realmente, particularmente iníquo, como o demonstram os índices de Gini da região. Mesmo assim, a generalização disso pra "os ricos malvados brasileiros" já entra no campo da jabuticaba - afinal, os ricos e estado brasileiros, com toda a sua violência, permitem a existência de favelas em áreas hipervalorizadas - vai ver se isso é possível na África do Sul ou mesmo na Europa.

Elio Gaspari é especialista em inventar jabuticabas, mas o sentido da jabuticaba, a alegação de que "essas coisas só acontecem no Brasil" podia ser mais raro. Ainda mais porque, com uma ou duas exceções, ele se foca nas coisas ruins, o que, mais do que um insulto ao Brasil, é um insulto aos cidadãos de outros países que têm que conviver com os mesmos problemas. Coisas em que o Brasil é mesmo único, ou quase único, são raríssimas, tanto pra bem quanto pra mal. Aliás, são dificilmente coisas que dê pra chamar de boas ou ruins - por definição, se é único não é comparável.

Um comentário:

Marcus Pessoa disse...

Essa história de inventar jabuticabas é um saco mesmo. Não apenas Gaspari, todo mundo faz isso.

Quando leio alguém dizendo que "o Brasil é o único país do mundo que...", já desqualifico automaticamente o que é dito...