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19.8.05

Lugares estranhos do mundo IV

Alang, Estado de Gujarat, Índia




Estaleiros são a indústria mais antiga do mundo. Instalações físicas e relações de trabalho similares às fábricas da era industrial já eram necessárias para a montagem de navios há milhares de anos, e o Arsenal de Veneza chegou a montar mais de 70 navios em oito semanas, durante os preparativos para a batalha de Lepanto. Apesar disso, são também das indústrias mais high-tech do mundo, já que a concorrência é estritamente global, o que não deixa de ser apropriado, considerando-se a função do que é construído neles. Apesar do perigo continuar presente quando se monta um treco do tamanho de uma cidade, um estaleiro como o Hyundai ou a Ishikawajima-Harima usa mão de obra altamente qualificada e ferramentas sofisticadas - fora o status, o nível de capital humano e tecnológico se sai bem na comparação com qualquer universidade. Até em estaleiros de segunda, como o da Brasfels, ex-Verolme, aqui em Angra, ou o Sermetal, ex-Ishibrás, na ponta do Caju, você vê uma indústria razoavelmente sofisticada, mas e pra onde vão os produtos deles quando acabam? Navios duram. Se um carro de cinco anos é velho há trens e navios de cinquenta ainda firmes e fortes (não é o caso do São Paulo, né Foch). Mas eles eventualmente acabam; a idade média deles irem pro ferro-velho é de uns vinte e cinco a trinta e cinco anos, e quando acabam são uns tranbolhos sem tamanho. Além das milhares de toneladas de metal enferrujando, você tem lixo tóxico acumulado pelos cantos; tem os resíduos das gerações de marujos filipinos que dormiram ali; tem os óleos do motor e os restos da carga. Por conta disso tudo, a maioria dos países baniu ou regulou pra cacete a construção de ferros-velhos navais em suas praias. E é difícil desmontar algo que foi feito pra resistir ao Mar Oceano.

A solução está em Alang, que até o começo dos anos 80 (quando as operações de desmonte de navios ao redor do mundo foram ficando inviáveis), era uma praiazinha pacata, lugar de veraneio de classe média-baixa das cidades mais próximas. Então começaram a chegar os navios, todos meio caindo aos pedaços. O primeiro era um cargueiro de fosfato, um navio de carga média, mas ainda assim maior do que um encouraçado da segunda guerra mundial. Morreram dois homens no desmonte, artesanal, feito com os navios embicados na areia, por homens de pés descalços no meio da ferrugem e maçarico na mão. Depois a quantidade foi crescendo, a praia praticamente desapareceu debaixo das montanhas de metal. Navios militares, com chapas de aço de 20cm de grossura caindo dos flancos; superpetroleiros com o convés da altura de um arranha-céu; navios refrigerados, com rolos quilométricos de cobre esverdeado sendo pacientemente arrancados dos porões. Hoje, a areia da praia de Alang é cor de pedacinhos de navio, e sempre há mais navios para serem puxados (parecem os trabalhadores do Volga, do Repin) durante a maré alta. A produção de sucata de aço de Alang, 30 milhões de toneladas, já passou a produção anual de aço da maioria dos países.

Cemitério de elefantes que nada. Alang é onde o maior animal que existe vai para morrer, com vinte mil formiguinhas humanas limpando os ossos.





OBS - post corrigido após comentários.

4 comentários:

Andr? Kenji disse...

Só um detalhe: a vida média de um locomotiva ou vagão é bem maior que vinte anos. Vinte anos está praticamente novo. ;)

Por exemplo, as elétricas compradas pela Cia Paulista nos anos quarenta duraram até 1997, quando a eletrificação das linhas acabou... Isso porque a eletrificação acabou, senão teria sido usado por mais tempo.

Tiago disse...

Eu até pensei que a minha conta devia estar errada, mas me empolguei na progressão relacionada ao tamanho. A vida útil de um navio e a de uma locomotiva devem ser parecidas. O navio mais antigo ainda em funcionamento e em bom estado, sem ser um tramp da vida, é um couraçado americano de 1930 e muitos, que chegou a ser usado pra bombardear o Iraque.

E não me lembra do sucateamento da ferrovia brasileira, que é muito triste.:(

Andr? Kenji disse...

O que costuma ter vida útil curta são caminhões e carros. Geralmente, o que leva uma locomotiva ou vagão à aposentadoria é que ela fica obsoleta.

Aliás, tem locomotiva de 1977 que as operadoras brasileiras estão comprando usadas no exterior...

Anônimo disse...

Eu trabalhei faz uns 6 meses atras em dois navios cargueiros que foram para o corte em Alang. Um tinha 28 anos e outro tinha 30. Estavam mt bons em termos de acomodação, porém seus cascos estavam castigados, e além disso, lá na parte da máquina onde tinha tubulaçao q passava água do mar, as mesmas só faltavam estourar e encher o navio de água levando ele p fundo...
Esclarecendo os fatos, um navio com mais de 25 anos jah esta considerado bem velho... O que varia seu tempo de vida são os cuidados e as docagens (reparos feitos no casco e em seus equipamentos num estaleiro).