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19.8.05

E agora, José?

A Petrobrax foi inventada com uma meta quase tautológica : a campanha "o petróleo é nosso" queria que o petróleo fosse nosso; a partir do momento em que ele o era, não havia mais meta. Então, o objetivo da empresa foi redefinido como o gerenciamento do déficit brasileiro de hidrocarbonetos. A auto-suficiência passa a ser um objetivo a partir das descobertas de supercampos no litoral fluminense, um objetivo que acabou de ser, ou está prestes a ser, dependendo do seu critério, atingido. Acabou de ser porque o que se extrai de petróleo do porão brasileiro é a mesma quantidade que o Brasil gasta. Prestes a ser, porque o petróleo brasileiro é pesado, com muito alcatrão e pouca gasolina, então nós exportamos parte desse petróleo ruim e compramos petróleo leve de fora - isso também acontece porque as refinarias brasileiras antecedem a Bacia de Campos, mas mesmo que todas elas pudessem processar óleo pesado, o déficit de gasolina continuaria. Daqui a um ou dois anos, o importante vai acontecer - a conta de petróleo brasileira, em dólares, vai ser superavitária.

E aí? O que fazer com a Petrobras quando ela conseguiu atingir seu objetivo? Mais especificamente, o que fazer com os 20 bilhões de lucro anual da empresa?

A alternativa D, de Dilma, parece ser a de converter a empresa em uma empresa de hidrocarbonetos em geral, ou seja, incentivar o negócio de gás natural. Como este é incipiente, ela inclui o incentivo a termelétricas aquecidas pelo gás natural, além do carro a gás. MAS essa política tem uma série de pontos contra. O principal é que as reservas de gás brasileiras, mesmo com as novas descobertas no litoral sul fluminense, não são o bastante para suprir um mercado de gás para transporte ou geração elétrica, muito menos os dois. A Petrobras parece contar, para esse suprimento, com as reservas dos vizinhos, mas isso só funciona em termos imperialistas. Ora, o Brasil não tem meios nem apoio popular para se depôr um presidente boliviano saidinho. Graças a Deus. O outro ponto contra é ecológico : usinas a gás contribuem para o efeito estufa, e aquecem em até 40º a água que sai de seus sistemas de resfriamento, o que pode ser mais danoso ao curso d'água do que seria uma hidrelétrica da mesma potência. E a infraestrutura de gás é dedicada e caríssima.

A alternativa PM, a dos dividendos, seria pôr a empresa em ponto morto. Investimentos, só os suficientes para manter a auto-suficiência em petróleo, e pagamento dos maiores dividendos possíveis, reforçando o caixa do governo. Não há, rigorosamente, nada contra esta alternativa, que poderia ainda incluir a manutenção do papel da empresa na regulação dos preços internos e no fomento à indústria.

A alternativa plus se trata de mudar o foco. Se uma empresa de hidrocarbonetos é problemática para o Brasil, uma empresa de energia é necessária, e a Eletrobrás não anda tão bem assim. Ora, se a Petrobrax absorvesse a Eletrobrás, os investimentos poderiam ir para usinas eólicas, que são mais baratas do que usinas a gás a partir do momento em que o barril de petróleo passa de 40 dólares (está em 65). Os maiores "campos" de vento do Brasil estão no vale do São Francisco e ao longo da costa do Nordeste, mais áreas marítimas ao longo do litoral. Com grandes usinas eólicas nessas áreas, linhões partindo delas para ambos os pólos consumidores seriam mais baratos do que a idéia de se construir hidrelétricas nos confins da Amazônia, e graças à posição intermediária integrariam o sistema elétrico nacional melhor; o moinho de vento é menos centralizado do que a hidrelétrica, e não implicaria a desapropriação da terra dos agricultores (o aluguel pago a estes melhorou muito a situação econômica de partes da Espanha, quando puseram os moinhos lá); e os problemas ambientais do moinho se resumem a uns pássaros mortos e poluição sonora.

A alternativa menos seria quase o contrário : ao invés de se fundir duas empresas gigantes, quebrar a petrobrás em pedacinhos, para deixar de ter uma única empresa pagando um quarto de todo o ICMS nacional. Exploração e produção ("upstream," no jargão, "que fura poço" em severinês), distribuição, e refino, e agora geração elétrica e petroquímica. Não necessariamente no sentido de privatizar - e vice-versa; a Vale deveria ter sido quebrada, mas foi privatizada em uma peça só, essa alternativa tem sub-alternativas, que podem ser usadas em cada um dos "pedaços" - privatizar, entregar aos governos estaduais, quebrar em pedacinhos fora o quebrar em pedacinhos necessário para a alternativa estadual - por exemplo, as refinarias poderiam virar uma empresa cada, e o upstream mesmo sozinho é grande demais para privatizar em um bloco só no Brasil, integrar a outras estatais, eg a Transpetro fazendo parte de um Lloyde Marítimo ressuscitado, ou a área de térmicas entrando na Eletrobrás, repartir as ações entre os funcionários.

A alternativa E, de Exxon, era a do governo anterior, e não deixa de fazer parte da atual direção - tratar a Petrobras como uma empresa de petróleo privada, de expansão indefinida, não só no Brasil mas onde quer que se possa ter lucro. O que bate de novo na questão do imperialista desdentado, mas não tanto quanto a opção D, já que não se está falando de interesses nacionais e suprimento, então (por exemplo) a empresa poderia investir em mercados estáveis, como os próprios EUA, onde acaba de comprar campos exploratórios.

2 comentários:

Anônimo disse...

usinas eolicas tambem mudam a força e a direçao do vento, mudando o clima das regioes, daqui a uns 30 anos ja estaremos vendo enormes desertos apenas com cataventos

Tiago disse...

Hein? Não conheço nenhum estudo nesse sentido. Se for verdade, é contraintuitivo, já que a densidade de um parque eólico é relativamente baixa, e a sua absorção de vento (a 50m de altura, e não ao nível do solo) bastante inferior à de árvores. E porque a direção, se elas não são planos defletores?

Pode me indicar a fonte? Fiquei curioso.