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16.10.05

Santas falácias, Batman!

O Batman nasceu armado. Na versão original do Bob Kane, ele era um milionário vigilante que matava criminosos. Eventualmente, foi transformado numa coisa esquisita afrescalhada, como todo super-herói americano, pelo comics code, que proibia até cachorro mijando. Nos anos 80, graças ao Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller (o mesmo do Sin City), renasceu como herói "sério," com direito a uma série de excelentes revistinhas se concentrando no lado psicopata do orelhudo. Apesar disso, em todas elas*, o Batman se recusa a usar uma arma, explicitamente. Por quê? Porque, segundo os autores, no fundo no fundo o Batman é alguém que, tendo visto os pais serem assassinados, não quer que ninguém mais morra. (Nada contra as pessoas ficarem tetraplégicas ou banguelas...)

E assim, ligando ao subtítulo, começa a lista das falácias do desarmamento. Ela não inclui os absurdos inventados pela Veja, que não são falácias, são mentiras tiradas de blogs reaças americanos e cartas-corrente, só falácias de gente razoável. A primeira, que é a que tem a ver com o Batman, é "a arma é uma ferramenta como outra qualquer, quem mata é a pessoa." O único erro aí está no "como outra qualquer." A arma é uma ferramenta, sim, só que um martelo é usado para pregar, e pregar é considerado uma atividade razoável. O verbo associado à arma é "matar," o que a sociedade condena. Mais, até onde eu saiba, do que condena "fabricar drogas," e os produtos químicos usados para fabricar drogas são proibidos. Pode dizer que a arma também é usada para outras coisas, mas o verbo primário dela é matar - até a autodefesa envolvendo uma arma parte do princípio de que aumentam as suas chances de matar o agressor.

"Quem quer matar alguém ou a si mesmo vai fazer isso de qualquer jeito." Olha, eu posso estar enganado, mas a última batalha de verdade perdida por gente usando armas de fogo, contra gente que não as portava, foi a batalha de Isandlwana, entre as tropas da rainha Vitória da Grã-Bretanha e as do rei Cetswayo da Zululândia. Isso em 1879. Armas de fogo modernas são muuuuito melhores do que as de 1879. E os impi zulus são considerados alguns dos melhores regimentos de lanceiros da história da humanidade. E estavam em vantagem numérica. O Borges comenta sobre algo semelhante, sobre como com as armas de fogo acabam os "valentes" da juventude dele, os grandes duelistas de faca - com revólver, os que se metiam a valente demais acabavam mortos antes de construir uma reputação. Até os suicidas entram nessa conta - a maioria se arrepende depois de uma tentativa fracassada; muitos tem vidas felizes e produtivas depois. Suicídios com armas de fogo têm mais chances de dar certo.

"Desarmam os cidadãos de bem ao invés dos bandidos" Cidadão de bem é a BEEEEEEP BEEEEEP BEEEEEEP. Essa diferença maniqueísta e essencial entre cidadão de bem e bandido é uma bobagem com tintas de preconceito de classe e de cor.

Passando de lado:

"A situação de violência brasileira faz com que o desarmamento seja urgente e necessário." A situação de violência brasileira é estrutural, e afeta relativamente pouco os mais histéricos com ela. Vem do fato de, para boa parte da nossa população, o estado ser um tirano, um Caveirão ou Antônio das Mortes, responsável diretamente por um número de execuções comparável ao de uma pequena guerra, enquanto à sua sombra (e em parte graças à sua cooperação ativa) reizinhos, sejam eles os coronés, as mineiras ou os traficantes, prosperam. O desarmamento afeta principalmente um tipo de violência que não é, no Brasil, particularmente intenso.

"Vote pelo desarmamento" O Estatuto do Desarmaento já está em vigor, e ajudou a cortar em 90% a venda de armas. E, justamente em troca do plebiscito sobre a proibição da venda de armas a civis, abre uma exceção justamente para os responsáveis pela maior parcela das mortes, dentre os que compram arma com nota fiscal, os policiais e seguranças. E se pensar no mercado negro, se está cortando um quarto do suprimento (armas internacionais, brasileiras trianguladas no paraguai, brasileiras vendidas a guardas, brasileiras vendidas a particulares). Existe, inclusive, uma possibilidade real de que, como no caso de outros itens, a probição radical estimule o contrabando. Essa possibilidade só se torna por sua vez uma falácia quando é feita a analogia direta com a droga - se é por aí, vamos proibir, porque a evidência é de que mais gente fica viciada em drogas ilegais, mas menos gente tem acesso em geral. E não existe "vício" em dar tiros.

"Sou da paz" A paz é que nem a democracia, é de todos. Desde a morte do Mussolini e do Marinetti que ninguém fala mal delas. Acho que o Fernandinho Beira-mar é da paz, tenho certeza de que o Bush é da paz. Saddam Hussein devia ser da paz, creio que o Jonas Savimbi já se disse da paz, e se Volodya Putinho não for da paz eu quero ser um mico de circo.


*Frank Miller: Cavaleiro das Trevas. Miller e Mazzucheli: Ano Um. Grant Morrison e Dave McKean: Arkham Asylum. Mark Waid e Alex Ross: Kingdom Come.

Vote sim, ou ele quebra a sua espinha.

PS - Opiniões mais bem escritas e pensadas do que as minhas disponíveis no Nós na Rede

2 comentários:

Anônimo disse...

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Rod

Andr? Kenji disse...

Na verdade, o mercado negro se explicaria pelo fato de que uma demanda não-atendida tende a gerar uma oferta. Se a o Estado tende a reprimir esta oferta, surge o mercado negro.

E como nunca se viu tanta propaganda por arma na televisão, essa demanda tende a aumentar.