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14.7.06

De marré de si

Uma das coisas que eu não cheguei a mencionar, falando das cotas universitárias, é porque tenho tão pouca simpatia pelas cotas censitárias que todo mundo apóia. Afinal, se o problema é acabar com a desigualdade, privilegiar os mais pobres deveria ser nosso primeiro, principal, e talvez último critério, certo?

A questão é que renda não é um bom indicador de classe social, ou de "pobreza" num sentido amplo. Pode parecer um absurdo, mas é algo que você vai reparar se um dia for entrevistado por qualquer pesquisa de opinião sobre algum produto; eles não te perguntam apenas tua classe de renda, mas tua propriedade (imóvel e móvel), tua escolaridade e hábitos de consumo. Duas pessoas com renda igual podem viver em mundos diferentes em termos de condições materiais e sociais; um músico freelancer de família tradicional, mesmo ganhando a mesma coisa que um metalúrgico, tem uma reserva de contatos sociais, possibilidades financeiras e entendimento da cultura dominante e escolar (que não é inteiramente transmitida pela escola) imensamente maior. A filha dele tem muito mais chances de passar no vestibular do que a do metalúrgico. Do mesmo modo, um filho de pais universitários que têm renda baixa ainda novos não é igual ao filho de uma família analfabeta que, já maduros, têm renda um pouco maior em seu minifúndio. Por outro lado, estes, com a posse da terra e alguma autoprodução, estarão melhores do que uma costureira solteira de renda equivalente... Ademais, que renda deveria ser considerada? A per capita familiar? Em que período antes do vestibular?

A declaração infeliz do Lula de que existiam métodos científicos para determinar a raça de alguém merece ser esquecida, ou mostrada como besteira. Mas a idéia de que pobreza seja "óbvia" é tão nebulosa, no fundo, quanto a de que "raça" seja óbvio.

2 comentários:

Marcus disse...

Mas o critério a ser considerado não seria a renda familiar, mas o fato do aluno estudar em escola pública.

Esse é um indicador concreto de nível de vida. Quem é de classe média vai para a escola particular.

Tiago disse...

O critério censitário é outro critério proposto, menos comum do que o de cor (que, no Brasil, não deveria ser chamado de étnico) ou do que o de escola pública. A discussão das cotas foi mais um gancho pra falar sobre como a pobreza não é simples do que qualquer outra coisa, inclusive porque senão vira "blog das cotas."

Mas sim, mesmo depois de você tirar da definição de escola pública as escolas públicas de excelência (Pedro II, Caps, etc), ainda tem boa parte da classe média estudando em escola pública, cuja qualidade muda de acordo com as posses (no sentido mais amplo) dos pais. E tem muito aluno conseguindo bolsa em colégios religiosos; e a medida penaliza alguém que se matou pra pôr os filhos numa escola melhor. Então o critério pode ser simples (apesar de ainda faltar definir quantos anos de escola particular são permitidos), mas não é tão obviamente justo assim.