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4.1.12

A tale of two waters

Durante o governo Lula, um dos maiores exemplos de que, se não existe almoço grátis, existe almoço melhor e mais barato foi o programa de construção de cisternas do governo federal. O programa, muito mais barato do que a transposição do Rio São Francisco, beneficiava muito mais famílias no semiárido nordestino. Consistia na construção, com materiais e mão de obra locais e treinamento da própria família usuária na sua construção, de cisternas capazes de armazenar a água da chuva por até dois anos, para uso residencial ou agropecuário dependendo da cisterna. É que no semiárido nordestino, ao contrário do que acontece em desertos verdadeiros, chove até bastante. Em Teresina, chove tanto quanto em São Paulo, e mais do que o dobro de Londres, anualmente. No semiárido propriamente dito, o "polígono das secas," a precipitação é parecida com a de Londres, uns 600mm por ano. Em Cabaceiras, município mais seco do Brasil, chove 300mm por ano - em Madri, são 430. O sertão é seco, apesar disso, porque as chuvas são rápidas e fortes, concentradas em poucos meses, o solo é pobre e raso, e as pedras debaixo dele são impermeáveis, o que impede que a água seja armazenada. As cisternas armazenam essa água e voilá: o semiárido deixou de sê-lo, sem nenhuma transposição necessária. (OK, deixou de ser semiárido é exagero. Mas passa a haver água para consumo humano e agricultura.)

Outro programa que evidencia o quanto o barato pode sair barato é a instalação de equipamentos, treinamentos, e protocolos de defesa civil no estado do Rio de Janeiro. Alarmes de chuva, pra resumir. Neste começo de ano (ou seja, em 62 h, já que a notícia é de ontem às 2 da tarde) choveu quase 200mm na região serrana do estado; se você olhar pros índices pluviométricos anuais aí em cima, vai ver que choveu em menos de três dias o que na chuvosa Londres não chove em cem. Apesar desse aguacéu todo, numa região de montanhas íngremes, o número de mortes na região, em contraste com as mais de mil do ano passado, não passou de três infortunados. Isso se deve a barreiras de contenção e planos habitacionais, as soluções caras exigidas à época da tragédia do ano passado? Não, esses não avançaram quase nada. O que foi feito, infinitamente mais barato e eficaz, foi instalar uma rede de alarmes meteorológicos e pontos seguros, aos quais as pessoas que moram e/ou trabalham em pontos de risco deveriam se dirigir quando ouvissem os alarmes.

As diferenças operacionais e de relações de poder entre os dois baratos que saem barato permitiriam prever seu futuro, se o do primeiro já não tivesse sido selado. As cisternas no semiárido transferem uma independência e poder sobre o próprio destino para as populações locais; os alarmes dependem do poder político constituído. Assim, as cisternas foram recentemente canceladas pelo governo federal, em troca de um programa que fornecerá, sem envolvimento da população local a não ser pelo recebimento da benesse, mas com envolvimento de prefeituras locais (o que não ocorria até agora), cisternas prontas, de PVC, menos duráveis e com o dobro do custo. E cuja manutenção não pode ser feita pela própria família. Já os alarmes provavelmente serão instalados Brasil afora, a partir do plano nacional de defesa civil (SUD?).

2 comentários:

José Knust disse...

Eu moro em Friburgo e posso te dizer uma coisa: é possível que um sistema de alarmes eficiente tivesse minimizado a tragédia do ano passado, mas isso não é a explicação para a diferença do ano passado pra esse ano (a diferença é bem mais simples: choveu menos, muito menos).

E o sistema de alarmes instalado em Friburgo atualmente tá longe de ser capaz de evitar qualquer tragédia, tudo ainda está muito confuso.

Tiago Thuin disse...

A tragédia do ano passado foi resultado de um cataclisma natural, verdade. Mas este ano, há milhares de desabrigados. Sem os alarmes, é razoável supor que, no mínimo do mínimo, teríamos dúzias de mortos.