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5.1.12

Do Valongo à Luz

Poderia ser o nome de uma linha férrea - era, aliás, o trajeto da primeira estrada de ferro paulista, a São Paulo Railway, entre o cais de Santos e os arrabaldes de São Paulo. Mas também são dois pontos da repetitiva história do higienismo brasileira, um o mais recente (mas não creio que seja o último), outro o mais antigo de que me lembro (mas não creio que seja o primeiro), e que é no momento o maior sítio arqueológico do Brasil - graças, curiosamente, a outro, terceiro, ponto dessa história.

Pondo os is nesses pontos: São o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, desenterrado pelas obras da revitalização da Zona Portuária, e o projeto Nova Luz, em São Paulo. O Cais do Valongo pode parecer que remete a um mercado colonial, mas foi justamente causado pela ânsia de apagar a realidade colonial de um país que já era independente e se sonhava europeu. À medida que o Brasil ia se tornando o maior importador de escravos do mundo, e a escravidão era vista com olhos cada vez mais severos pela Europa (e em particular pela Inglaterra), o espetáculo dos navios tumbeiros descarregando sua mercadoria humana Rio de Janeiro afora, andrajosa e doente da viagem, foi se tornando intolerável para as autoridades do agora Reino Unido. Assim é que, em 1811 (no mesmo ano em que a Grã-Bretanha aboliu o tráfico), foi construído o cais do Valongo, nas bordas da cidade de então (e a alguma distância de onde hoje fica a linha do mar, graças ao aterro de 1910). Nesse cais, o que se via como uma operação moderna e higiênica no começo do século XIX foi instalado; as instalações, com lazaretos e covas coletivas anexos ao cais e às "casas de carne," prefiguram um pouco os os Vernichtungundkonzentrationslager alemães de século e meio mais tarde, mas em registro comercial ao invés de industrial. O cemitério abrigaria 20.000 dos 570.000 africanos que ali desembarcaram.

O cais do Valongo falhou em sua tentativa de criar uma metrópole européia. Pereira Passos tentaria de novo, um século mais tarde, e ainda se queixando da cidade africana que podia ser vista nas fotos e fotografias feitas no Rio ao longo do século XIX. O motivo não é muito difícil de discernir: as elites luso-brasileiras, que tanto ansiavam pelas aparências européias e pelo respeito europeu, não tinham nenhuma intenção de abdicar de seus poderes e privilégios, que dependiam por sua vez justamente do povo que queriam esconder. Os prefeitos do Distrito Federal ainda se preocupavam em proibir atabaques e capoeiras durante o Estado Novo, ao mesmo tempo que o Samba começava a ser enaltecido oficialmente como ritmo nacional.

Exatamente duzentos anos depois de o Marquês do Lavradio ordenar a criação do cais do Valongo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, prometeu "limpar" a cracolândia em um mês. "Limpar" de seus ocupantes humanos indesejáveis, como admite, algo envergonhado, o Tenente Rafael Kato. A idéia é, por um lado, redutível ao mais crasso interesse material: a operação urbana Nova Luz, da prefeitura de São Paulo, se admite abertamente uma operação de valorização imobiliária, em que um consórcio privado tem o direito inclusive à desapropriação de imóveis para seus privados fins. E a classe média e alta não vai querer comprar um apartamento ou frequentar um shopping se tiver que chegar lá passando pelo meio de viciados em crack. (Não que os craqueiros sejam os únicos pobres a serem expulsos - a antiga rodoviária, demolida para dar lugar ao Centro de Dança, era um centro de comércio de roupas popular com movimentação diária várias vezes maior do que a prevista para o Centro de Dança. Sim, perfeitamente legalizado.) Por outro lado, a popularidade mais ampla que leva essa idéia a ser não só aceitável como aplaudida tem a mesma origem do cais do Valongo. Como diz a Susanita à Mafalda, aos pobres basta escondê-los.


PS Que isso ocorra logo na Luz é interessante. Afinal, foi a Luz que recebeu "your huddled masses, yearning to be free." Por outro lado, ao contrário dos EUA onde eram vítimas de racismo, no Brasil essas huddled masses européias foram trazidas em ainda mais um esforço de europeizar o Brasil, no caso pelo embranquecimento da população.


PPS É curioso que, guglando para este post, descobri que em 2008 a cracolândia já não existia.

PPPS Como diabos alguém consegue dizer que vai infligir dor e sofrimento em massa sem usar um quepe das SS Totenkopferbanden?

3 comentários:

nenhum disse...

A História dos imigrantes do Brasil é na verdade mais complicada. Eles seriam assentados em locais aonde basicamente não havia gente(Ou seja, seria preciso importar gente de algum lugar) e muitos desses imigrantes(Em especial os turcoárabes e japoneses, os não brancos) foram vítimas de discriminação.

Nos casos citados a coisa não devia muito ao tratamento cedido aos irlandeses nos EUA.

Tiago Thuin disse...

Sim, é mais complicada, sem dúvida. O que falei foi só do contraste em linhas gerais - em linhas gerais, os imigrantes brancos eram vistos como algo que melhorava "a raça" no Brasil, e em linhas gerais havia racismo contra não-anglos nos EUA.

Que não era só uma questão de "importar gente de algum lugar" pode ser visto não só nos debates parlamentares da época, em que a importação de brancos era precognizada inclusive contra a utilização dos ex-escravos, como em várias leis proibindo imigração de africanos e ameríndios.

Tiago Thuin disse...

(Sem, em momento algum, negar o preconceito que muitos, principalmente judeus, japoneses, e árabes, sofreram.)