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14.11.06

Angband

Uma das grandes idéias brilhantes partilhadas por neo-desenvolvimentistas e neoliberais brasileiros é a anulação da idéia* de que trustes são uma coisa ruim. Assim, os neoliberais tucanos forçaram a barra para que a AmBev fosse criada, e o Lessa propôs textualmente o apoio público à consolidação e "cooperação" no mercado brasileiro, para formar kereitsus e chaebols**. Pois bem, a AmBev, que seria a Grande Multinacional Brasileira, agora é o braço sul-americano da Interbrew belga, fazendo do Lemann um dos homens mais ricos da Suíça. E do mesmo modo é na Suíça, através de vários níveis de anti-transparência e evasão fiscal,*** que os altos executivos da Vale do Rio Doce querem centrar os negócios de minerais não-ferrosos da empresa, tanto os internacionais (adquiridos com a Inco) quanto os nacionais, preexistentes. A estrutura proposta tira poder do conselho de acionistas (o governo, via BNDES e fundos de pensão, ainda poderia ser o acionista controlador, se quisesse, agora que o Steinbruch saiu) e entrega na mão dos executivos. Vamos lá: o "orgulho do Brasil," além de estar ameaçando o governo brasileiro tanto com a opção de saída quanto com processos internacionais, está se mudando parcialmente pra Suíça, numa manobra expressamente calculada para diminuir sua sujeição ao Estado brasileiro (e aos acionistas controladores em geral). E vai continuar a receber babações de ovo de políticos e jornalistas.

Cabe dizer aqui, só pra que ninguém me confunda, que eu não defendo a reestatização da Vale. Cronologicamente, minha opinião sobre cada momento da vida da empresa:

1: Não devia ter sido criada. Empresas estatais para serviços públicos, OK. Empresas estatais para setores básicos, estruturantes, da economia, além da capacidade de investimento do setor privado, ótimo. Mas uma mega-empresa estatal que funciona como operação de exportação auto-contida, nos mesmos moldes das grandes empresas primárias dos EUA-Europa, aí incluídas a influência indevida sobre o governo e o atropelo das comunidades locais? Eu hein.

2: Na privatização, devia ter sido quebrada em pedacinhos. Qualquer pessoa com um mínimo de cérebro poderia prever os problemas relacionados à privatização do maior complexo mineiro e melhor rede logística do país em um bloco só. Começando com a falta de capital privado disponível para comprá-la, o que fez com que fosse comprada com dinheiro público, e passando pela posição de força da CVRD contra outras mineradoras, suas concorrentes e clientes de suas estradas e portos. Não custa lembrar: o porto de Santos, maior porto público do país, é só o terceiro porto em tonelagem, se você incluir na lista os terminais da Vale em São Luís e Vitória. E a vale, especialmente quando seu controlador ainda era o Steinbruch, detinha as vias de escoamento de minério das Gerais.

3: É óbvio que houve maracutaia na privatização. Steinbruch, Armínio Fraga, e provavelmente o Eliezer Batista, talvez devam fazer companhia ao Marcola. Mas se isso for provado, não quer dizer necessariamente que devamos reestatizar a empresa. Inclusive porque imagino que alguém devesse ser idenizado por isso, até porque esses três não são mais acionistas da CVRD, nem o é o grupo Soros.

4: Depois de privatizar a Vale num bloco só, o governo não fez nada para impedir que ela passasse de maior mineradora a quase-monopolista. Pelo contrário, até ajudou. No máximo a SDE manda umas compensações meia-bomba. Qualquer ação antitruste decente pelo menos mandaria cindir o negócio de logística do de mineração, se não fragmentar mais ainda a empresa. Ao contrário, a Vale pôde, sem ser incomodada, pressionar e adquirir suas concorrentes. Assim, o prédio da Caemi em Botafogo agora é o "centro empresarial botafogo," e a Samarco, segunda maior empresa de Minas, não existe mais. Nem a MBR, detentora de um quinto do capital da outra via férrea de Minas, que não era da Vale. A ferrovia Centro-Atlântica também foi pro papo. Resultado: a empresa estatal que tinha concorrentes virou uma empresa privada praticamente monopolista.

5: Mesmo sem ação antitruste, mesmo sem revisão da privatização, cabe lembrar que o governo poderia, se quisesse, influenciar a empresa. Os fundos de pensão estatais mais o BNDES detém mais de 50% das ações da Valepar, que por sua vez controla a Vale (o BNDES também tem uns 10% das ações da própria Vale). Não o faz para não ameaçar os rendimentos dos fundos de pensão, e porque a ideologia do "crescimento," a qualquer custo e como se fosse um dado simples, está firmemente associada à mineradora, que conseguiu vender a imagem de orgulho nacional a tal ponto que o CEO é cotado pra ministro da Fazenda. Imagine se a Vale, como a Petrobras, estivesse aproveitando o aumento nos preços de seu produto pra conseguir ao mesmo tempo lucrar horrores e incentivar a indústria nacional? Poderia fazer na indústria ferroviária uma renovação similar à que a Petrobrás fomentou entre os estaleiros (esta também poderia ser potencializada pela Vale, que é um dos maiores armadores do Brasil). Imagine, aliás, se a Vale pagasse impostos "como deve," ao invés de se valer de todo artifício legal disponível. Ou se tivesse um orçamento cultural digno de nota? Ou se tivesse uma cooperação real, ao invés de uns trocados pra calar a boca, com as comunidades vizinhas? Pô, até a dívida externa total brasileira, que inclui a das empresas privadas, mudou com esse empréstimo de 18bn pra comprar a Inco à vista.


* de socialistas como Teddy Roosevelt.
** são duas figuras administrativas-proprietárias diferentes, mas ele queria dizer grandes trustes e fazer a associação com crescimento acelerado.
*** perdão, "planejamento tributário."

4 comentários:

Andr? Kenji disse...

E um monopólio formado por eficiência é diferente de um formado pelo Estado, certo?

Tiago disse...

Certíssimo. Só não sei o que tem a ver com um monopólio formado pela coerção de outros agentes econômicos, se aproveitando de uma condição de controlador dos acessos ao mercado.

E monopólios privados são ruins para mais ou menos 105% dos economistas liberais. Independente da tua opinião sobre monopólios estatais (coisa que a Vale nunca foi).

raph disse...

A Vale cresceu bastante depois de ter sido privatizada, e hoje é um das maiores do mundo na sua área, coisa que a Petrobrás talvez pudesse ser.

Mas, se esse crescimento não se traduz em ajuda para o Brasil, em forma de empregos, incentivos a cultura ou ecologia, de nada adianta.

Aí está a armadilha, e nesse sentido talvez seja melhor sim, ter uma estatal na mão do que duas privadas "voando" e investindo mais fora do Brasil do que dentro.

Mas existe outra complicação, num país muito corrupto o "investimento" das estatais acaba indo parar no lugar errado... Enfim, é porisso que é tão polêmica essa questão.

Ainda prefiro ver uma discussão séria do que o terrorismo eleitoral que foi "bolado" pelo marketing petista, ou a idiotice do Alckimin de colocar jaqueta da Petrobrás e Banco do Brasil... Enfim o que mata o Brasil é o nível político.

Tiago disse...

O crescimento orgânico (não através de aquisições) da Vale não sofreu nenhuma inflexão apreciável depois da privatização. O último grande ciclo de investimentos foi completado logo antes dela. E a Petrobrás tem crescido mais rápido. O valor de mercado da Vale cresceu mais rápido, mas até aí o valor de mercado de outras grandes empresas brasileiras (públicas e privadas) cresceu mais ainda no mesmo intervalo. Finalmente, a Petrobras está melhor colocada em relação à indústria do que a Vale nos quesitos de produtividade e lucratividade, apesar de não ser tão importante em termos de reservas.

Quanto ao investimento e corru~pção - bem, empresas privadas de grande porte são os maiores corruptores ativos. E, com a rede de segurança do BNDES, estão longe de alocar de maneira inteligente seus investimentos, ou ser punidas quando não o fazem, salvo casos excepcionalmente zoados (EG Varig), que também afetam uma empresa pública.

No Brasil de hoje, a empresa mais aberta ao escrutínio é uma empresa pública nos dois sentidos - controlada pelo governo e com ações na bolsa de valores.