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9.9.04

Rednecks

Quem : O dicionário explica "às vezes pejorativo; diz-se dos habitantes rurais do Sul dos EUA."

Fora isso? Os novos pretos. Como assim? Bom, pra começar, agora são eles que morrem nas linhas de frente - os negros, que tinham essa tarefa no Vietnã, foram pra burocracia militar.

Bom, mais uma explicação preliminar, agora sobre o Exército americano. A burocracia do Pentágono é uma das maiores do mundo - os únicos exércitos maiores que eles, o ELRPC e o indiano, são de recrutas, e tem "núcleos" muito menores. Pra efeito de comparação, o Pentágono tem 10 vezes mais empregados que a GM e um orçamento 4 vezes maior que o faturamento da GE. E isso não leva em conta os reservistas, guardas nacionais, mercenários, nem terceirizados - e a estimativa por baixo é de que estes façam um contingente de uns 300 mil. Como eles conseguem fazer tanta gente se alistar, se o salário não é tão grande assim (pagando a renda per capita americana a todos eles, na média, o baque já é maior que o PIB de muito país), e o adicional de periculosidade é póstumo? Graças à linda desigualdade social americana, quase tão legal quanto a daqui. E ao GI Bill e a treinamento profissional grátis, que fazem da carreira militar uma opção de avanço na vida pra quem não tem futuro. Então quem entra pra linha de frente, quase por definição, é o estrato mais fudido da sociedade americana. No momento, "poor rural whites" (e o Pentágono não cruza os dados, mas eles são do vale do Mississippi e do Sul), e imigrantes (de novo, o Pentágono não repara oficialmente, mas eles são quase todos das "colônias", chicanos, filipinos e caribenhos). E sim, você pode se alistar agora e virar cidadão depois. Nesse sentido, o exército americano é uma imensa legião estrangeira.

Bom, isso tudo foi só pra dizer o ponto de partida - o novo andar do porão da escada social americana deixou de ser os pretos pra ser os rednecks. Isso não é inteiramente verdade em alguns sentidos - por exemplo, especificamente do ponto de vista da repressão policial, driving while black continua sendo um crime terrível, e negros continuam tendo chances bastante boas de ir parar no xilindró em algum momento da vida. Mas nesse segundo ponto, que tem tanto a ver com envolvimento real em crime quanto com o preconceito policial, os pescoços vermelhos já chegam perto. E, mais uma vez, quando um grupo "étnico" inteiro se envolve com crimes frequentemente, seja crime organizado ou crime de pé-rapado, isso é um belo sinal de exclusão.

É interessante que, entre as características negativas que são atribuídas aos rooinecks*, está o próprio racismo. Isso é, o preconceito imputa ao seu alvo como defeito ser preconceituoso. As outras características negativas são as de sempre, a degeneração física (tornando em defeitos pessoais os efeitos da pobreza, como ser desdentado ou ter marcas de doença), a imbecilidade (com direito ao dialeto/sotaque ridículo e analfabeto), e aquelas ligadas ao sexo - menos o caráter lúbrico que se imputa ao negro, mas uma imagem constante de proles extensas e incestos.

Admita-se que a imagem negativa do redneck, em termos mais gerais, é relativamente antiga. Ela não foi tão fortemente negativa no passado, porém, e, mais importante, ela se referia "ao seu primo da roça." Hoje, a estereotipização é exclusiva, "racial" nesse sentido. Trata-se de um grupo alienígena, (essa palavra inglesa, alien, que denota algo tão mais distante que o estrangeiro), um outro que deve ser mantido à distância, não um parente. Note-se aí que é exatamente esse o modo particular do racismo americano, em contraposição ao racismo hierárquico brasileiro. Falta o reforço "científico" que se agarrou ao racismo, falta a diferenciação clara através da cor da pele, mas o processo mental é similar. E ele se transferiu para os rednecks na história muito recente.

Claro que o preconceito racial não desapareceu. Pelo contrário, continua firme e forte, inclusive fazendo vítimas fatais. Mas a forma que ele toma para a maior parte da população mudou, e muito. Em parte, claro, devido às grandes migrações internas do século XX, que fizeram com que mudasse o campo desse preconceito, já que assim uma enorme população negra saía do arco "caribenho," a imensa área entre o Potomac e o Tietê na qual a escravidão africana sustentou a agroexportação. (Casos semelhantes são a migração caribenha para o Reino Unido e a adaptação dos ex-escravos e seus descendentes imediatos a uma São Paulo industrializante descrita por Florestan Fernandes em "A Inserção do Negro na Sociedade de Classes").

A mudança na imagem que os americanos têm do seu próprio Sul espelham, de certa forma, a mudança na imagem que o "Ocidente" como um todo - isto é, os EUA, Europa Ocidental, e os velhos Dominions do Império Britânico- tem do Sul global. O preconceito associado ao elitismo foi trocado por um preconceito em que, numa operação que demonstra o perigo dos rótulos e bom mocismo fáceis, a identificação se dá com os menos favorecidos. Isto é, as "elites" dos países subdesenvolvidos passam de vanguardas que levarão seus países a ser mais como a Europa ao papel de "velhos Europeus," daqueles vilões colonizadores com os quais o Europeu já não se identifica, culpados pelas mazelas do terceiro mundo. O deslocamento temporal da referência que permite essa identificação ao mesmo tempo ambígua e unívoca não é único, acontece também quando o Islã, por exemplo, é apresentado como uma fonte de razão e sabedoria confrontada com a Europa bárbara, e o Islã de hoje, que é, nesse imaginário, o mesmo Islã é ele mesmo bárbaro. Apenas o Eu coletivo ocidental evolui, como se se tratasse de um jogo de computador em que as coisas só se movem quando em contato com o protagonista. E o mal cometido pelo Ocidente está no passadom, é algo a se lamentar e não a mudar.

Então, juntando isso ao fato - real - da resistência maior nos estados do Sul à integração, que era mais ameaçadora a esses "white trash" do que aos nortistas, seguros na sua "superioridade," a pecha de racista se integra aos sulistas, enquanto o racismo vai lentamente se tornando uma característica negativa. Note-se que a visão do racismo como característica negativa não é uma visão de um problema com a sociedade, estrutural, mas uma qualidade intrínseca ao "racista," um indivíduo com essa mácula de caráter. Uma falha moral, bem ao estilo puritano, a ser denunciada e castigada, e não um erro a ser corrigido com ensino, com ação afirmativa, mudando a sociedade.

Ao mesmo tempo, os programas de ação afirmativa, ao longo de décadas, surtiram efeito o suficiente para que os negros deixassem de ser o grupo mais pobre e menos educado dentro da sociedade americana. A tocha passou para os brancos rurais, que antes dividiam características econômicas e de educação semelhantes, mas mantinham o status mais alto por ser brancos. Embora o valor de ser branco não tenha desaparecido, o fato de esse grupo ter sido "congelado," numa posição econômica e educacional inferior, fez com que o seu status total caísse. Ainda mais quando ligado aos preconceitos norte-sul.

O resultado é que, numa sociedade "multicultural," em que os indivíduos são antes parte de sua cultura do que indivíduos na sociedade, os rednecks como um grupo passaram a compartilhar boa parte do preconceito antes destinado aos negros. Dos preconceitos, e das funções sociais, como por exemplo a de servir de culpados pelo tráfico de drogas, e a de morrer pela pátria.

Um comentário:

Caito disse...

CAra, muito legal seu blog, entrei aqui fazendo uma pesquisa de curioso sobre o termo rednecks, após descobrir que existe uma banda bizarra chamada Racist Rednecks Rebels (e essa descoberta me deixou bem assustado!), enfim, acabei tendo uma aula de macropolítica, história e outras cositas más. Muito bem fundamentado seu texto, de uma intelectualiudade bem imparcial, achei muito massa. Parabéns cara!

Abraço !