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27.10.14

Pirro no Capão

O PT ganhou - por pouco - a eleição presidencial. Mas, além de perder cadeiras no Congresso, além de ficar cada vez mais claro que perde no imenso e crescente Brasil do agronegócio, que vai do Rio Grande do Sul ao Acre, perdeu - é verdade, também por pouco - no Capão Redondo. É difícil enfatizar o bastante o quanto esse é um resultado horrível em termos simbólicos, para o PT e para o Brasil. O Capão Redondo é um distrito da periferia de São Paulo que virou sinônimo de lugar barra-pesada, graças em parte às estatísticas criminais, mas mais ainda à produção de rappers, musical e em outras linguagens artísticas. Foi do Capão Redondo que saíram Ferréz, Mano Brown, Fuzzil, com obras que descrevem e contestam uma realidade opressora, de discriminação social e racial, de violência estatal e internecina. É um bairro cinza, apesar do nome inspirado num capão de pinheiros (os solos ácidos do rio de mesmo nome afugentam outras árvores); dos mais cinzas, abafados, e quentes de São Paulo. É, também, dos mais pobres, ocupando o 79º lugar no IDH entre os 96 distritos do município de São Paulo, e violentos, sendo o 4º distrito com mais homicídios neste ano. (Um homicídio para cada 10.000 habitantes, facilmente batendo, ainda em setembro, a média da cidade.) Se o PT perde para o partido da polícia no cenário de Negro Drama, vai mal.

Resumindo: é um lugar que é ao mesmo tempo pobre e com uma produção nativa de um discurso contestatário. É o tipo de lugar em que o PT deveria ter ganho de lavada, mas perdeu. Perdeu, também, ainda dentro da metrópole paulistana, em São Bernardo do Campo, berço do partido, cidade ainda marcada pela forte presença de operários, muitos ainda filiados a sindicatos e com tradições e identidades proletárias marcantes. De novo, por pouco, mas a questão é que o PT não poderia perder nesses lugares. Que perca acachapantemente nos Jardins, Nada mais natural (Dilma teve, no 1º turno, 8,6% de votos contra 2,8 de Luciana Genro). Mais do que a derrota do PT, o impressionante é a vitória de Aécio, com um discurso francamente de direita, por mais que preservasse nele o bolsa-família, em duas áreas que seriam consideradas por qualquer um bastiões naturais da esquerda. A pobreza politizada pelo rap, o proletariado industrial, votaram maciçamente na direita, depois de 12 anos do PT na presidência. Algo está errado.

Calma, tem mais más notícias. Dilma perdeu para Aécio entre os jovens, os eleitores com 16 a 24 anos. De novo, foi por pouco - 52 a 48%. Mas de novo, é aonde não podia perder. Afinal, como dizia (?) Churchill, quem não é de esquerda aos 20 é um insenssível, quem não é de direita aos 40 é um idiota. E isso, pra lembrar, num contexto em que os "fundamentos" econômicos e sociais deveriam dar uma vitória folgada ao PT. Desemprego baixíssimo, no ou perto do vale histórico mesmo depois de corrigido pela PEA. Aumento do número de vagas nas faculdades, diminuição da mortalidade. As contas nacionais estão cagadas, sem dúvida, mas com certeza contas nacionais não são preocupação prioritária da grande massa da população. O crescimento de renda dos 20% mais pobres foi mais que chinês na última década. Que a classe média que votava na UDN de macacão tenha abandonado o PT após as denúncias de corrupção faz sentido, mas e os pobres e trabalhadores? Será que é só o canto da sereia dos Olavos de Carvalho e outras cepas do Instituto Millenium que seduz os jovens?

Petistas gostam de invocar o poderio da mídia, ou dizer que os jovens não se lembram de como era ruim antes. As duas desculpas não deixam de ter seu quinhão de verdade. A mídia é um oligopólio, abertamente antipetista (se não assumidamente, fora o Estadão), como é amplamente reconhecido; os Repórteres Sem Fronteira, ONG internacional que advoga pela liberdade de imprensa, recomendam a sua regulamentação e quebra de monopólios; os lugares em que o PT perdeu são aqueles com maior alfabetização, o que é diferente de uma ilustração Goetheana e expõe mais as pessoas à influência de órgãos de mídia. Os tempos tucanos eram mesmo mais bicudos, e a maioria petista no Nordeste se justifica inclusive pela diferença de evolução relativa da região, como dá pra ver nessa tabelinha do crescimento da renda domiciliar per capita:

2003-2012                                                       1995-2002

Nordeste: +74,45%                                           Centro-Oeste +2,44%
Centro-Oeste: +67,09%                                     Sul +0,14%
Sul: +47,91%                                                    Nordeste -3,57%
Sudeste: +44,69%                                             Sudeste -9,79%
Norte: +44,28%                                                 Norte -18,49%


Mas quinhões de verdade não adiantam de nada quando desprovidos de ação, são apenas choro de (futuro) perdedor a gritar "ingratos! Súcia de ingratos!." De UDN de macacão a FHC de macacão... E pior: enganam quando são apresentados como a verdade inteira, tornam complacentes aqueles que neles crêem. Não explicam as situações do Capão e de São Bernardo. Pelo contrário, se houve aumento espetacular da renda das classes mais baixas, elas deveriam votar em peso no PT. O estereótipo petista de que playboys coxinhas e dentistas leitores da Veja são os únicos que votam contra o partido não funciona, a não ser que haja muito mais ricos e dentistas do que se imagina. 150.000 playboys num bairro pobre de São Paulo. Tamos bem, então. Aliás, no Centro-Oeste, que também teve aumento muito acima da média nacional na renda, o PT sofreu derrotas inequívocas; é a região mais antipetista depois de SP. 

Parte da resposta talvez seja que, ocupado na tarefa administrativa-burocrática de construir um estado de bem-estar social à européia, o PT largou mão dos fundamentos políticos que permitiram essa construção do estado de bem-estar. Sem nem tocar aqui nos fundamentos econômicos, largamente fora do controle de qualquer partido ou governo, que permitiram que ele fosse feito nos Trinta Gloriosos anos de crescimento do pós-guerra. O aumento da renda da classe trabalhadora, por exemplo, é propalado pelo PT como "ascensão à classe média." Ora, classe média não vota em partido de esquerda. Ao contrário do que muita gente pensa, o conceito de classe média em questão não é do PT, mas da ONU, foi adotado apenas por aquele. Mas é um enorme tiro no pé. Acelerou a guinada conservadora que ocorreu nos países em que foram criados estados de bem-estar em trinta, quarenta anos, para muito antes desse estado ficar pronto.  O PT deixou de ser identificado como partido dos trabalhadores pela enorme maioria dos trabalhadores. Mais pernicioso ainda do que se recusar a regulamentar a mídia, talvez, seja a recusa ou incapacidade em reforçar os movimentos de trabalhadores, preferindo antes usá-los para reforçar o governo. O "T" no nome precisa fazer mais sentido do que o "SD" que curiosamente orna nosso maior partido liberal.

Outra observação, mais palpite que qualquer outra coisa: no início do ano, fui dos muitos que viram um potencial transformador enorme nos rolezinhos dos jovens de subúrbio, que ao frequentar shoppings em massa foram vistos com pânico pelos administradores. O movimento, como se sabe, não deu em nada; antes mesmo que a esquerda tentasse cooptá-lo, com o rolezinho marcado no shopping Leblon, já tinha perdido força. O jovem de subúrbio, o jovem de classe trabalhadora e pobre, não sonha com o avanço coletivo de sua classe, ou sequer pela melhoria de suas condições materiais (que aliás são cada vez mais razoáveis). Ele sonha, numa sociedade altamente marcada pela hierarquia e pelo status, em avançar naquela grande rat race imaginária. Sonha em estar do lado de dentro, não em que não haja um muro dividindo os lados. Será? É, como disse, um palpite, sem nada que lhe respalde.

Haverá outras razões, que não consigo nem imaginar, mas uma coisa é clara: o PT tem que ganhar o Capão e São Bernardo.  Por sorte, por um triz, por uma diferença do tamanho do eleitorado da Luciana Genro, ainda tem quatro anos para tentar. Se não fizer nada de diferente, daqui a quatro anos acaba a breve experiência de esquerda no país. (E, quiçá, sonha o Department of State, na América do Sul.)







3 comentários:

Patrick disse...

Ver apenas o resultado final, total, embaça o julgamento das peculariedades locais. Em Natal/RN, na última eleição, Serra ganhou. Agora, Dilma venceu com quase 16 pontos de vantagem. De um modo geral, essa situação se repetiu em toda região, inclusive revertendo o único estado tucano de 2010, Alagoas.

Tiago de Thuin disse...

Claro que houve avanços. Mas perdendo São Paulo, perdendo as grandes metrópoles, o PT perde o protagonismo nacional. No Rio de Janeiro, aliás, o partido vem se esvaziando, e o PSoL logo será a maior força à esquerda.

Anônimo disse...

acho q vc tá subestimando o poder da mídia nessa análise. as pessoas acreditam na mídia. a gente tem certa dificuldade de entender isso - eu tenho - mas é a realidade. Os paulistas, sobretudo, parecem estar reféns da mídia, eles leem veja na escola desde o ensino fundamental...o q a veja publica é multiplicado pelas outras mídias e vice versa. colaram no pt o rótulo de partido corrupto em grande nível (mensalão, petrobras, etc) e, ainda por cima, que compra votos (bolsa família). o pt pode ter um monte de defeito, mas não é nem uma coisa nem outra. portanto, de tudo o q vc falou o q eu acho mais urgente é a lei de meios, depois a reforma tributária e a reforma política.

aiaiai
(to publicando como anonima p preguiça de logar)