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23.2.12

Sherlock Holmes e o mistério da Pirâmide Truncada

A opinião de que a desigualdade no Brasil é um escândalo de alta é algo bem próximo da unanimidade. Pergunte, e concordarão com ela, não só pessoas de esquerda, como até empresários, deputados do PSDEMB e jornalistas da Folha ou da Veja. (OK, talvez não os jornalistas da Veja.) Mas às vezes, ou sempre, alguém pode ter a impressão de que não se sabe bem o que significa essa desigualdade de renda. Ou melhor, as pessoas têm a noção (inteiramente natural) de que só quem está ganhando "demais" é quem ganha mais do que elas. Por isso é que podemos ter matérias como a da Folha de ontem, que alerta, escandalizada e escandalizando (inclusive militantes de esquerda):

Curso superior não tem elevado renda, diz estudo do IBGE

A matéria, solicitamente, além de mostrar um gráfico com as evoluções de renda ( mostrando uma correlação linear e inversa entre nível educacional e evolução da renda), também mostra quais são as rendas médias por grupo. Infelizmente, ela não fala do tamanho de cada categoria, mas isso podemos achar no IBGE guglando um pouco.

A matéria, portanto, pode ser lida como "entre os trabalhadores formais, diferença salarial entre os 20% com menos estudos e os demais diminui."

Ora, a diferença entre um país "rico," pouco desigual, e um país pobre, ou muito desigual, nunca foi a abastança das suas classes abastadas. Pelo contrário, em termos relativos a classe média de países menos desenvolvidos tem acesso a luxos, como empregadas full-time, indisponíveis a seus congêneres em países mais desenvolvidos. Em outros termos: Eike Batistas há em qualquer canto do capitalismo - mesmo na Suécia tem o Ingvar Kamprad.

OK, estou exagerando - o número de bilionários no Brasil ser comparável ao do Japão também é, sim, um sinal de desigualdade. Mas não aparece no índice de desigualdade. Aquele índice de Gini, que figura nas tabelas da ONU. Isso porque o índice de Gini mede a desigualdade de renda, principalmente do trabalho, e esse povo não tem renda, tem propriedade. A desigualdade do índice de Gini é exatamente a desigualdade de renda entre o pequeno-burguês ou o profissional liberal e o gari. É a desigualdade, entre outras coisas, da escolaridade.

Em outras palavras, o escândalo do aumento da renda dos menos "cultos" é só o Brasil chegando menos longe (mais perto não dá pra dizer, mesmo com as reformas liberais ocorridas lá nos anos 90) da Suécia.

2 comentários:

raph disse...

Heh pois é, ainda temos uma enorme desigualdade, mas parece que somos um dos poucos países no mundo todo onde essa desigualdade está efetivamente sendo reduzida (eu acabei de ler isso na Superinteressante, não sei se é confiável, mas enfim).

Daí o pessoal vê os "ex-pobres" comprando carro e indo ao cinema e acham que estão ficando pobres também, haha, não deixa de ser engraçado.

Abs
raph

RC disse...

Resumindo: a Folha acha que prosperidade é um curso superior garantir, ad eternum e necessariamente, uma renda de no mínimo 15 vezes a de um empregado doméstico ou empacotador de supermercado.