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15.11.05

Mudando o foco do debate

Stiglitz parece incapaz de evitar a tentação de transformar uma resenha em libelo. Tudo bem pra mim, que gosto do libelo...e, afinal de contas, ele ainda faz uma boa resenha. Passando ao meu próprio Leitmotif cito o trecho abaixo:


In short, the debate should not be centered on whether one is in favor of growth or against it. The question should be, are there policies that can promote what might be called moral growth -- growth that is sustainable, that increases living standards not just today but for future generations as well, and that leads to a more tolerant, open society? Also, what can be done to ensure that the benefits of growth are shared equitably, creating a society with more social justice and solidarity rather than one with deep rifts and cleavages of the kind that became so apparent in New Orleans in the aftermath of Hurricane Katrina?

3 comentários:

Roberto Imbuzeiro Moraes Felinto de Oliveira disse...

A resenha é interessante e discordar dela é mais questão de grau do que de idéias-em-si (como o são, aliás, todos os problemas mais cabeludos). Mas me chamou a atenção este trecho aqui.

To be sure, the American dream still attracts millions from around the world. But some of that attraction may be based on a lingering myth of upward mobility in the United States and an underappreciation of the difficulties that confront the poor.

Sei que ele está falando só de gente pobre ou que vem para cá como tal (tipo a farmacêutica brasileira que vem ser doméstica), mas há de se notar duas coisas, de acordo com a minha Central Cerebral de Dados Que Não Valem Porra Nenhuma.

1. Sei (aliás, li aqui) que várias estimativas sobre mobilidade social nos EUA estão sendo revistas. Apesar disso, parece-me ser verdade que ela é enorme dentre os imigrantes brasileiros, que tipicamente chegam aqui com uma mão na frente e outra atrás e conseguem em 7 a 10 anos comprar uma casa, pagar um college razoável para os filhos e abrir um negócio próprio ou subir no emprego. É também aparente que mexicanos e alguns outros não costumam ter o mesmo sucesso.

2. Saido dosque chegam aqui com uma mão na frente e outra atrás, algo que se nota é a quantidade de engenheiros, arquitetos e outros que vem para cá "bem-empregados". Não sei quantos destes milhões se encaixariam neste perfil, mas para eles o "Sonho Americano" existe na medida em que eles têm aqui uma carreira melhor e muito mais dinâmica. E além disso, a quem faz falta um welfare state e podem muito comprar um welfare feud?

A imigração européia e especialmente francesa pros EUA me parece (pa-re-ce) ter crescido bastante nos últimos cinco anos. Todas as vantagens de outros países de que o Stiglitz fala podem não ser suficientes para segurar um contingente essencial da população da UE.

(Ah, obrigado por adicionar um link pro meu humirde brogue.)

Tiago disse...

A imigração brasileira nos EUA é um caso que, como a árabe no Brasil, eu gosto de mencionar como objeção ao culturalismo, à idéia rala da cultura como um "caráter" antropomórfico. Bem, brasileira talvez não seja o termo, ela é primariamente mineira e goiana. Mas, de qualquer jeito, imigrantes - esse tipo de imigrante, não a força de trabalho semiescrava que constitui boa parte dos chicanos nos EUA, ou dos afro-asiáticos na Europa - sempre tiveram mobilidade social acima da média.

Já os "imigrantes" de classe média-alta, profissionais, esses muitas vezes nem aparecem em estatísticas nacionais de imigrantes, porque a flexibilidade deles de voltar a seus países ou seguir adiante para um terceiro é muito alta. E os EUA concentram muitos deles, o brain drain não afeta só países pobres - o Canadá, em particular, tem problemas com isso.

Então, você tem toda a razão nas tuas colocações, mas a primeira só atinge parcialmente a declaração do Stiglitz (uma mobilidade ainda alta não significa que a mobilidade não diminuiu; a mobilidade nativa declinou mais do que a dos imigrantes, relativizando a opinião dele sobre "expectativas ilusórias"), e a segunda, acho, é um assunto paralelo. (Quase - a interação entre as duas ou três imigrações, no caso dos países subdesenvolvidos, é um assunto interessante e ainda pouco estudado.)

Ainda no segundo assunto, muita gente se preocupava com os efeitos da Homeland Security no brain drain, mas parece que essa preocupação era infundada: o número de engenheiros e cientistas procurando os EUA, tanto de países sub quanto desenvolvidos, continua a aumentar. Concordo que é um problema sério para a UE, ainda mais que os governos dela têm mostrado menos disposição para dar dinheiro à pesquisa (direta e indiretamente) do que o americano. É até um caso de burocracia salvadora: a tortuosidade do financiamento à pesquisa americano preserva ele dos cortes thatcherianos.


E eu achava que tinha te escrito pra falar do link. Ooooops. Desculpas.

Roberto Imbuzeiro Moraes Felinto de Oliveira disse...

Não há motivos para desculpas suas. Eu é tenho que pedir perdão: perdi a capacidade de escrever "de uma vez só" sem deixar trechos estranhos como o final do primeiro parágrafo do item 2. acima.