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11.4.07

300 - Gott mit Uns

Ai minha nossa senhora aquerupita, é pior do que eu pensava!
Tem quem reclame da violência do filme - bem, me incluam fora dessa. Sou fã de Kill Bill, assisti Ong Bak sem piscar um olho, e me amarro em violência como estética. Então não, não é a violência gratuita meu problema. Meu problema é com as horas em que ninguém tá levando porrada.

Como bom nerd, sempre fui tarado pelos quadrinhos do Frank Miller. Mas o homem tem certas tendências um...digamos, politicamente incorretas? Não muito simpáticas? Meio nazis? Fascistas. Fascistas parece bom. Isso é bem nítido em quase toda a obra dele, desde que o Übermensch Batman enfia porrada no Übermensch Super-homem pelo crime de ter se sujeitado aos Untermenschen, mas 300 sempre foi, pra mim, a única revistinha de que eu realmente gosto e que eu nunca entregaria pr'uma criança pra ler, de medo que ela gostasse demais.

Isso porque no discurso do Leônidas, falando sobre liberdade e lei e razão e justiça, tem uma sombrinha meio breu de discurso de fascista, já que essa liberdade e lei e razão e justiça não têm nada a ver com nenhuma ação, são característica inerente dos espartanos branquelos versus a tirania dos negões efeminados que são os persas. Afinal, o Rei Leônidas deixa bem claro, como se a própria realidade heavy metal espartana não bastasse, que aquilo não é uma democracia. E tem toda a glorificação dos "fortes" etc etc etc que me lembra só a frase do Chesterton sobre Quinta-Feira - "como qualquer outro, ele era covarde o bastante pra temer uma força desmesurada. Mas não era covarde o bastante pra admirá-la."

Parêntese - de onde o Miller tirou a idéia de representar os arianos originais como negões?
Pois bem, então pra que diabos fui ver um filme baseado numa revistinha meio nazi? Bem, porque ideologias à parte Frank Miller é muito bom. E Sin City, a outra adaptação cinematográfica de uma obra sua, é um puta filme. Achei que dava pra relevar esse fascismozinho subjacente e só me empolgar com os espartanos descendo a porrada geral e sendo mortos. Aí entra o diretor pra estragar a festa.

O filme é tecnicamente lindo, isso não dá pra negar. O pessoal da fotografia e dos SpFx tá de parabéns. Mas, bem, é um caso raro em que inequivocamente tudo que o roteirista adicionou ao material original serviu pra estragar. E no caso, estragar significa tanto "menos empolgante" quanto "mais fascista."

- A porradaria, que lembra joguinho de Playstation (aliás, o filme todo) deixa meio ridículo todo o papo das Termópilas serem um local estreito, onde o número dos persas não conta. Eles tão todos mandando ver no Kung Fu Prince of Persia, não aproveitando o terreno.
- Transformou um filme épico em um filme de fantasia, com os Imortais virando orcs, um ogre, um carrasco monstro, rinocerontes de guerra...coé? Uma regra básica de fantasia e ação é que você mede as coisas pelo universo onde tão; é menos impressionante mandar uma lança pelo ar uns quinze metros se o teu amigo matou um rinoceronte de primeira. Aliás, não´é nada impressionante. É que nem a diferença entre o D'Artagnan brigar com três de uma vez e alguém fazer o mesmo numa revistinha Marvel.
- Comentei dos Imortais terem virado orcs? Pois é, mas os persas todos viraram monstros degenerados. No Frank Miller, eles eram só boiolas e "tirânicos." No filme, eles matam criancinhas e fazem árvores de gente. Fora a cena de estupro gratuito pelo amigo deles espartano. E que o Xerxes, que na revistinha era arrogante e fdp mas olhava com desdém pra lança que arranca-lhe os piercings, no filme fica chorando que nem menina.

Aliás, toda a parte de Esparta do filme, que não tava na revistinha, é desnecessária. Só serve pra duas coisas: quebrar o ritmo do filme (que deveria estar focado na violência e no sentido de tragédia, do fim se aproximando), e, ao humanizar os espartanos, ficar ainda mais nazi. Bem, ao humanizar e arianizar, porque os espartanos da revistinha tinham cabelo tóim-óim-óim, os do filme podiam entrar no pôster de recrutamento do NSDAP. Isso porque, ao invés de você ter dois lados se pegando, desse jeito você tem os bonzinhos (espartanos) vs. os malvados. O filme força a barra diversas vezes pra deixar os espartanos parecendo gente; mostra o machismo persa como desculpa para a "blasfêmia, loucura" de jogar mensageiros no poço, mostra o capitão chorando pelo filho (achei nessa hora que ele ia matar o império persa inteiro), o Leônidas sendo marido e pai amoroso... Diga-se de passagem, com todo o respeito à Gorgo histórica e lendária (que devia ter uns 14 anos e teria dito a frase do "com seu escudo ou sobre ele"), o casamento em Esparta se parecia mais com o primeiro dia na cadeia de um moleque magrelo do que com uma relação amorosa coigual heterossexual na moderna sociedade ocidental.

Em resumo: o filme podia ter sido dirigido pelo Mel Gibson, com o sotaque escocês do Leônidas berrando FREEDOOOOOM.
Gostei mais dos créditos no final. Tá, a Oráculo é de babar.

2 comentários:

raph disse...

haha vc tá levando quadrinhos muito a sério, ou filme sobre quadrinhos, o que é ainda muito menos sério :0

Umino disse...

Ah, e aqueles trigais de computação gráfica pareciam feitos de plástico.