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19.7.12

Quase brancos

Todo mundo sabe que, conforme o aforisma Churchiliano, estatísticas não são necessariamente confiáveis. Em geral, se pensa nisso em termos simplistas, como "claro que a estatística vai ser feita para beneficiar quem a gera," o que é uma acusação enorme a um monte de gente, e que em geral não se justifica pela realidade. Há exceções, claro, como a inflação argentina, mas em geral as estatísticas não são simples mentiras, mesmo quando não refletem a realidade. Elas são - como qualquer outro recorte do real - algo problemático quando passa a ser usado como aquilo que podemos compreender da realidade, o que é talvez inevitável. Afinal, é um pouco difícil para aqueles de nós que não somos Mentes da Cultura apreender todo o real a cada instante. O que é realmente interessante, entretanto, é quando conseguimos corrigir essas estatísticas, torná-las mais próximas do real. Ou melhor: em que conseguimos ter uma visão mais precisa do que a estatística mostra.

Um desses casos, e das tentativas mais antigas do mundo de transformar algo subjetivo e referencial em estatística, é a divisão racial brasileira. Não é fácil contar cabeças de cada cor num país em que a atribuição de cor depende da aparência mais do que da ascendência, e pode inclusive variar de acordo com o grupo em que se encontra determinado indivíduo, ou sua posição socioeconômica, "eu já fui preto e sei o que é isso."  O método usado pelo Censo, o da autodeclaração, é o único possível por motivos tanto metodológicos quanto éticos; éticos, porque não se pode imputar a alguém uma realidade diferente daquela como se vê, e metodológicos, porque sendo essa realidade complexa e fluida, não funciona a alternativa de treinar todos os recenseadores numa Neue Rassenwissenschaft, para que suas próprias e diversas noções não contaminassem o trabalho.

Mas, todavia, porém, entretanto, esse método certo dá um resultado estatístico que, quando reificado, e mais ainda quando usado comparativamente com outros países, pode ser enganoso. Isso porque existe uma tendência sistemática - bem detalhada pelo Livio Sansone em estudos feitos na Bahia e no Rio - ao embranquecimento no censo. Como ser branco é considerado algo bom, as pessoas A) tendem a se ver como mais brancas do que os outros as vêem, e B) tendem a responder a um agente do governo que lhes inquire que são mais brancas do que se vêem. Em outras palavras, se você tem um grupo de 30 pessoas e 15 responderam que são brancas, o mais provável é que qualquer uma daquelas 30 pessoas, ao olhar para o grupo, só visse umas dez brancas, se tanto.

E daí? E daí que a estatística que diz que metade dos brasileiros são negros (pretos e pardos) não fica lá, sozinha. Ela interage com outras estatísticas. Em outras palavras: sabe essa abissal diferença entre as realidades socioeconômicas de negros e brancos no Brasil? Pois é, ela está subestimada, porque muitos dos "brancos" mais pobres, que puxam a média pra baixo, não são assim tão brancos. (Sem nem contar o lado estatisticamente ponderável disso, que é a subtração regional/ de origem regional, como fazem os americanos com os hispânicos e talvez fosse o caso de fazer aqui com os retirantes.)

Ah sim, e com essa correção passamos a Nigéria como maior país negro do mundo, assim justificando uma imagem como país negro que sugeri aos reaças deste Brasilzão, lá em 2005. :p


Caros amigos.

Reconheço que a tese da "democracia racial" brasileira tem um valor tradicional que não caberia bem descartar. Afinal, que seria do mundo sem a tradição? E boa parte da identidade brasileira foi construída a partir dessa ideologia. Mais do que isso - a própria denúncia da democracia racial parte da própria, já que o Florestan Fernandes, que foi o primeiro "acadêmico" a fazer essa denúncia (cinicamente, o primeiro branco, mas cinismo não é conservador, não é mesmo?), tinha sido contratado pela UNESCO para descobrir o segredo da falta de racismo, e engarrafar para distribuir mundo afora.

Só tem um probleminha. Quando vocês usam a democracia racial e a "falta" de racismo no Brasil pra acusar quem vê racismo de racista, isso pode até fazer vocês se sentirem bem, mas não engana ninguém. A declaração de que "não existe preconceito racial, existe preconceito social associado à cor preta" chega a ser ridícula. Se existe preconceito associado à cor, existe preconceito de cor. E sinto muito, mas há uma quantidade bastante razoável de dados indicando que existe, sim, preconceito racial que vai além da ligação com a classe socioeconômica. Menos do que em muitos outros países, é verdade, apesar de os dados serem distorcidos, nas metrópoles do Sudeste, pela falta de uma resposta "paraíba" à pergunta sobre cor/raça. E, por isso mesmo, tenho uma idéia pra vocês, se quiserem mesmo ser anti-racistas e se opor ao movimento negro ao mesmo tempo.

Vejam bem, muitos de nós (nós, a elite, quase toda branca a ponto de gente de países mais segregados ficar com a impressão do Brasil como especialmente racista) dizemos, até com certo orgulho, que temos ancestrais negros. Vide o pé na cozinha do Príncipe dos Sociólogos. O problema é que esse pé é uma afetação, mais do que um sentimento de identidade, e segue os passos do Gilberto Freyre, em que os brasileiros se misturaram "com" os negros e índigenas, ou seja "os brasileiros" são os brancos. Todas essas declarações de amor à democracia racial vêm de um povo que se vê branco, de um país branco com negros oprimidos. Toda a construção do "brasileiro' desde o Freyre e o Getúlio passa por isso. Por um lado, se hiperenfatiza o papel dos imigrantes, como se nós tivéssemos recebido mais deles do que a Argentina ou os EUA, por outro o "brasileiro" misturado é o peão, é um outro. Tudo bem, a posição desconfortável de petit bourgeois global que ocupamos não é só nossa, é de todas as elites subdesenvolvidas.

Vamos ser sinceros. Há racismo no Brasil, há uma desigualdade racial imensa, e isso tem que ser remediado. E não vai ser remediado através de políticas neutras, ou sequer de políticas dirigidas aos pobres, já que uma condição socioeconômica equivalente não elimina o racismo. Que o digam os judeus. Então, o que fazer, se você é um conservador e abomina o movimento negro, ações afirmativas e o escambau? Não estou dizendo que isso faz de você um racista, existem bons motivos nacionalistas para não gostar de algo que é uma forma de nacionalismo rival. E olhe só, a declaração de que status socioeconômico e educacional não acaba com o racismo, se você pensar bem, também serve contra as cotas.

Que tal uma idéia - fazer uma campanha nacionalista capitalizando em cima do fato de o Brasil ser um país mulato? Não um país "que se misturou com negros e com indígenas," um país negro mesmo, no sentido mais amplo? Que tal enfiar retratos do Machado de Assis, do Lima Barreto, do André Rebouças, do Abdias do Nascimento, do Luiz Gama, para competir com a imagem do Zumbi? Dizer que afro-brasileiro é pleonasmo, lembrando que a civilização brasileira foi feita por mulatos, que antes de trazerem os imigrantes para embranquecer o país até a elite era mulata, como observou o Gobineau (que, afinal, era um especialista...)? Mandar a Globo retratar isso nas novelas de época, ao invés daquele quadro que acaba parecendo mais o Antebellum na Geórgia do que um engenho de café no Vale do Paraíba? Desarianizar a história do Brasil? Incentivar a história da África e das relações desta com o Brasil nas escolas? Em suma, fazer um nacionalismo da democracia racial que não fosse mais baseado num ator central branco que não tem preconceitos?

Não sei se ia adiantar. Mas pelo menos vocês poderiam alegar estar fazendo alguma coisa contra o racismo, ao invés de só ficar dizendo que quem tenta enxotar o rinoceronte que está na sala é culpado pelo rinoceronte.




PS o título, evidentemente, é uma alusão à música "Haiti," de Gil e Caetano. E ironicamente, já que o que este post defende é justamente que, se para a PM o quase branco é quase preto de tão pobre, para o Censo ele é branco.

13.7.12

Uma outra ação afirmativa

Ou, por um novo modelo de ação afirmativa.

Dentre muitas críticas destrambelhadas à ação afirmativa, uma que é inteiramente procedente é que há outras clivagens de preconceito no Brasil além daquela dirigida aos negros. Não estou falando da afirmação do "preconceito social" (ie de classe socioeconômica), que é duplamente errada, como vocabulário porque o racismo também é um preconceito social e como crítica ao modelo presente de ação afirmativa porque a classe socioeconômica já é alvo de ação afirmativa, mais difundida do que a de base racial inclusive.

O que é verdade, entretanto, é que existe preconceito étnico no Brasil contra "brancos," entre aspas porque eles são justamente os antigos "brancos da Bahia": mestiços de europeu, índio e africano, oriundos principalmente do interior do Nordeste. Baianos, em bom paulistês ("baianada" é uma cagada), paraíbas em carioquês castiço (paraíba também quer dizer brega). Não é simplesmente preconceito contra nordestinos em geral o que ocorre; o preconceito contra nordestinos unicamente ligado à origem (ou contra cariocas, em São Paulo) até existe, mas ele é low-key, restrito. Ele é uma questão genérica da classe média, não algo que vá render uma porta na cara, ou um coturno policial nas canelas, ao Norberto Odebrecht ou ao Ciro Gomes. Vamos chamar, à falta de coisa melhor, de tabareofobia, o preconceito contra tabaréus.

Ora, mais ainda do que o status racial não-étnico, característico da sociedade brasileira, o status como "nordestino" testaria os limites da autodeclaração. Afinal de contas, a Ivete Sangalo e o Tasso Jereissati poderiam muito bem se autodeclarar nordestinos, e nem estariam, como os branquelos que se autodeclaram negros em "protesto" contra a ação afirmativa, mentindo. Por outro lado, existe uma variável que está fortemente o bastante correlacionada com o status socioeconômico, inclusive com a condição de "nordestino," que é o local de moradia da família. Pode ser usado para isso o setor censitário do IBGE, que é pequeno o bastante (entre 200 e 400 domicílios) para ser razoavelmente homogêneo. A pessoa responderia seu local de moradia ou CEP, e isso seria correlacionado a uma tabela de setores.

Por outro lado, adjudicar o que seria mais razoável como cota para cada um de centenas de milhares de setores não seria lá muito factível. É aí que entra a outra proposta quanto à ação afirmativa: a de que ela se dê, não por cotas como na maioria dos programas atuais, mas por pontos como em alguns deles. A calibragem possível numa idenização por pontos é bem mais fina, e mais previsível, do que num sistema por cotas. Além disso, todo o sistema fica mais transparente para beneficiários e prejudicados. (Sim, prejudicados. Quem não é beneficiado num sistema de alteração da vantagem relativa é prejudicado por ele, e negar não adianta nada: a questão é que esse prejuízo é uma forma de compensar o privilégio que se aufere por ser branco.)

A proposta não é, vejam bem, eliminar a ação afirmativa de cunho racial, até porque já ficou claro em diversas pesquisas que o racismo, dirigido especificamente à pessoa de traços negros, afeta as pessoas até dentro de uma mesma família (criando uma diferença estatisticamente perceptível até entre irmãos gêmeos). Ficaria, assim, o sistema proposto de pontuação:

x pontos por ser negro ou indígena
y a 4y pontos dependendo do setor censitário
z a 2z pontos por ter estudado a vida inteira ou parcialmente em escola pública comum

Com divulgação de vestibular, de preferência, não revelando esses bônus, que são assunto privado de cada um. Sim, isso resultaria em gente de favela ficando entre os primeiros no vestibular...imagino que faria mal aos anúncios de redes de cursinhos.

Atualização: A Playboy já se juntou à nossa campanha contra a tabareofobia!

25.4.12

Back to the Black Future

Neste momento, o STF julga a constitucionalidade dos diversos sistemas de ação afirmativa (coletivamente nomeados "cotas," apesar de parte deles usarem outros mecanismos) ora em vigor nas universidades públicas brasileiras. Os argumentos usados pela advogada da parte contrária, o partido "Democratas" - não dá pra deixar de pôr as aspas, num partido que foi base de sustentação da ditadura militar - são curiosos porque parecem um pouco deslocados no tempo. São exatamente os mesmos argumentos utilizados desde 2004. Não é apenas uma questão de falta de criatividade para criar uma agenda positiva ou novos argumentos contra as cotas - e olha que até eu tentei ajudar. É que muitos dos argumentos dos "Democratas" se baseiam na hipótese de cotas raciais serem implantadas, bouleversant nosso status quo.

Deixemos à parte a defesa desse status quo ser em si falha - nesse sentido, não consigo encontrar argumento melhor do que o tratamento estatístico dado ao racismo brasileiro por Edward Telles, em seu livro Racismo à Brasileira. E o DEM não poderia encontrar símbolo melhor da cegueira necessária para fazer essa defesa do que ao apanhar uma advogada loira para representá-lo - fosse nos EUA, até o partido nazista teria arrumado uma advogada negra. Negra, gorda, e com sotaque do sul.

A questão é que todas as hipóteses quanto à implantação de cotas se tornam um tantinho ultrapassadas quando as tais cotas já foram implantadas e estão sendo aplicadas por sete anos. É um pouco como dizer "se passares dessa linha morrerás" para alguém que já está pulando para um lado e outro da solheira do templo faz sete anos. As cotas não são uma hipótese, são uma realidade. Podemos estudar os efeitos que elas realmente tiveram, e não elocubrar sobre seus efeitos a partir de nossos fumos filosóficos, ou do que gostaríamos que fossem nossos fumos filosóficos e são um amontoado de senso comum míope e preconceituoso.

E adivinha quais são esses efeitos reais? Primeiro, que realmente as cotas raciais não são uma cura instantânea para o racismo, e geralmente nem são inteiramente preenchidas. Ponto para os Demos. Mas todos os outros resultados os desmentem. Não recrudesceu o racismo em geral (a não ser que você paute a existência de racismo apenas pelo número de pessoas que dele reclamam ao invés de resignar-se). Longe de os cotistas atrapalharem as aulas na universidade branca,  "segundo a Uerj, o índice de abandono entre os cotistas é menor que entre os não cotistas. O índice de reprovação entre os dois grupos é maior entre os não cotistas em todo o período." Nenhum profissional formado graças às cotas relata preconceito contra ele baseado nelas (até porque não tem escrito no diploma "admitido graças a cotas raciais"), e são poucos os profissionais negros que atribuem o preconceito que sofrem às cotas (como se "médico negão" não causasse suspeitas antes de 2004).

Quando você insiste num argumento ultrapassado pelos fatos, corre o risco de ser considerado ridículo. O Dem tem tão pouco medo disso que declara, em 2012 (e, diriam as más línguas, apesar das evidências) ser contra a escravidão.


PS Não é só sobre os efeitos de cotas nos próprios alunos e em seus desempenhos que já temos estudos. Tem sobre opinião de vestibulandos e de cidadãos em geral.

11.4.12

White America

Depois da negra Luzia, agora são os brancos de Clóvis que invadiram esta budega de continente americano antes do povo da Sibéria (ou, talvez, da Polinésia), ancestral pelo que se crê dos índios. Assim já virou bagunça.

Explicando: desde idos tempos* se crê que a colonização das Américas pelo ser humano se deu a partir da Sibéria, que durante a era glacial era ligada ao Alasca por terra (bem, por terra e gelo - como ainda hoje é, às vezes, no inverno). A tese alternativa era a de que teriam sido colonizadas por gente que veio da Polinésia pulando de ilha em ilha, esbarra na idade relativamente tenra das tecnologias de navegação e construção de barcos polinésias;** apesar do Thor Heyerdahl provar que é possível a chegada de meia dúzia desgarrada não importa com que embarcação, probabilidades tênues não são muito satisfatórias como hipóteses de colonização. Não que sejam sempre descartadas - a idéia da "Eva," única ancestral da humanidade, que teria sido a única sobrevivente de alguma catástrofe, está aí para provar, e nasceu do mesmo conjunto de técnicas genéticas que levou ao descarte (quase) definitivo da teoria polinésia.***

A teoria cada vez mais sólida da origem siberiana de todos os ameríndios esbarra, aí está o problema, na morfologia dos ossos encontrados nos mais antigos sítios de ocupação humana do continente. Primeiro os de Lagoa Santa no Brasil, da "Luzia" (apelidada em homenagem à "Lucy" queniana), pareciam africanos. Agora, há quem diga que a cultura Clovis, nos EUA, e também incrivelmente antiga, era branquela; as teorias de povoamento passam por barcos desgarrados e pelo gelo ártico para os Clovis, e só pelo primeiro para as Luzias. Não é uma questão tão relevante para a história posterior, até segunda ordem; tanto quanto se saiba, Clovis e Luzias não deixaram tanta influência nos povos que lhes suplantaram. Fica o quebra-cabeça, cada vez mais intrigante, de sua saga, mas é uma curiosidade específica da pré-história, quase compartimentalizada, assim como os nórdicos ("vikings") que chegaram às Américas muito antes de Colombo não têm muita importância porque nem sequer suas doenças deixaram deste lado da poça, ao contrário do impacto quase apocalíptico da chegada espanhola.


Ou melhor, não tem muita importância pra quem pensa de maneira razoável. Para muita gente, do Canadá ao Chile a questão da “primogenitura” é essencial; não é apenas importante mas o que mais importa. Seja por uma perpetuação da mentalidade da época colonial, em que o primeiro europeu a chegar em algum lugar tinha um direito sobre ele, seja por razões conexas - e menos confessáveis.**** Provar que, ou bem brancos, ou bem representantes de civilizações avançadas haviam chegado em seu território foi uma preocupação que gerou, desde o século XVIII, incontáveis "evidências" dessas civilizações. Lendo sobre o tema, a coleção de baboseiras é impressionante. Até já explicaram que a tribo apomadoc seria descendente de um príncipe galês (ap Madoc).

Então, não deixa de ser irônico que atualmente se avente a possibilidade de que realmente os "primeiros" colonizadores das Américas tenham sido primos dos antepassados dos europeus atuais. Bem, pelo menos os primeiros colonizadores dos EUA, a cultura Clovis. A descoberta, infelizmente para os racistas de plantão, se dá depois que os Clovis já perderam há muito a primogenitura das Américas - e os sítios mais antigos de todos, em Lagoa Santa e na Serra da Capivara, foram ocupados por uma população com traços fisionômicos negros.

Já posso fazer a cara de troll?


*Desde os anos 30, na verdade, apesar de o primeiro a ter formulado a hipótese ter sido um jesuíta em 1590. Sim, 1590.

** Uns 4.000 anos.

***A saber, a análise cromosomial e as teorias de taxa constante de evolução molecular. Esta já tendo sido até exportada para a linguística.

****OK, menos confessáveis uma vírgula. O episódio da morte de Trayvon Martin prova que ainda há muita gente disposta a bater no peito e proclamar seu racismo.

21.4.11

O bom (e sábio) selvagem

Há tempos atrás, comprei a edição especial da Revista de História da Biblioteca Nacional sobre história da ciência no Brasil. Lá, lia-se que (parafraseado) "os índios brasileiros (tupinambás) descobriram a influência da Lua nas marés antes de Galileu e Isaac Newton." No mesmo registro, num curso na USP ouvi que o conceito de axé da cultura africana (iorubá) é a mesma coisa, e antecede, a teoria da relatividade.

Ora, as duas afirmações, como muitas outras que você verá por aí se cavar um pouco, são uma muito bem intencionada e rematada bobagem. E uma bobagem que se baseia numa confusão absurda do que seja a história da ciência, ou a própria ciência. E uma bobagem que, no limite, tenta combater o racismo e o etnocentrismo e acaba por ser vulnerável, ela mesma, a acusações de racismo ou, pelo menos, estereotipização e etnocentrismo.

Pra ser claro: Isaac Newton e Albert Einstein não simplesmente disseram "a lua tem influência sobre as marés" ou "o universo é todo feito de energia." A observação de que a lua tem influência sobre as marés é comum a quase todos os povos de que se tem notícia, do Kalahari à terra de Arnhem, à Suméria e ao Egito antigos. Astrônomos persas situaram essa influência lunar dentro do contexto de um sistema heliocêntrico em 200 antes de Cristo. O que Newton fez de novo e importante foi explicar como essa influência se dá, através da gravidade. (Galileu tentou explicar pela rotação da Terra, erradamente.)

A idéia de axé, de que tudo é constituído por uma força vital mais ou menos concentrada, parece superficialmente com a noção relativística de que massa e energia são intercambiáveis, mas parece mais com as cascatas de luz originadas no Empíreo, do Abade Suger, no século XII ou o monismo do sopro de Adi Sankara no IX. Assim como Newton, a teoria de Einstein é notável, além de por sua explicação absolutamente materialista (e não mística), por ser uma explicação detalhada (e matemática) de processos, não uma declaração ontológica. e=mc^2 não é outro jeito de dizer que massa é relativa, é uma equação específica de conversão.

A confusão é, sem dúvida, bem intencionada. A idéia é mostrar que africanos e índios não são "primitivos," mas sim seres humanos capazes de realizações tão importantes quanto as do europeu. Os problema todo é que, por não entender bem o que é ciência, se acha que a ciência pode ser definida por declarações vagas, sendo o detalhamento e a matemática apenas minúcias teológicas; se trata ela como um sistema cosmológico, e não como o que é, algo até mais modesto - um sistema e uma atitude de apropriação e processamento de informação (existe uma disciplina científica chamada cosmologia, mas ela se refere ao universo observável para além das fronteiras de nosso planeta, e não a um Cosmos que a tudo açambarca). E quem acha que os (outros) deveriam ter feito a mesma coisa por outros caminhos não se dá conta de que as descobertas científicas de Newton e Einstein se deram, não graças à superioridade da cultura européia, mas graças a esse sistema empírico e científico, como acumulado através da escrita, que tem uma linhagem não apenas européia mas também árabe e se valeu de matemática desenvolvida na Índia e na Pérsia. Ou seja, um edifício multiétnico no qual os europeus foram apenas responsáveis pelos últimos andares.

Não é demérito aos iorubás (atemporais, ficou subentendido) não terem descoberto a teoria da relatividade (como tampouco o fizeram os europeus até 1905). Não é demérito dos tupinambás (ao se eliminar o "brasileiros," pode-se eliminar também o "índios") do século XVI não terem elaborado a teoria da gravitação universal, como tampouco o fizeram os europeus do século XVI (e os dos primeiros 87 anos do XVII). E a tentativa de mostrar como eles são fodas esbarra num duplo etnocentrismo: o primeiro ao achar que o valor do ser humano só pode se dar através da comparação vantajosa com o europeu, medida de todas as coisas; o segundo ao efetuar a metonímia pela qual tupinambás e iorubás viram "índios" e "africanos."

Os tupinambás tinham, realmente, uma astronomia lunar razoavelmente sofisticada, que incluía a previsão de marés e pelo visto era bem mais completa do que a grega do tempo de Péricles ou Alexandre o grande e ninguém acha que Aristóteles ou Platão eram selvagens uga-buga. Os iorubás (e não a África, continente mais diverso de todos) têm cosmologias e mitologias riquíssimas, comparáveis às de qualquer outro povo - e que não são as mesmas hoje que há quinhentos, ou mesmo cinquenta anos. Nem são uma só para todos os iorubás. Nenhum dos dois povos se sentiria muito lá lisonjeado, imagino, ao servir de mera metonímia para uma denominação geográfica, como se tupinambás e marajoaras, iorubás e etíopes, ao longo de séculos e milênios, fossem uma cultura só.

31.3.11

White Pride

Volta e meia alguém, mesmo sem ser particularmente racista (numa sociedade que é racista, não dá pra dizer que alguém seja inteiramente livre disso), repete aquela pergunta de white power, "se você pode ter orgulho negro, por que não orgulho branco, ein, ein?" A resposta que eu dou normalmente é a tradicional: porque orgulho negro se trata de orgulho de ter sobrevivido, e ainda sobreviver, a uma sociedade que lhe oprime, assim como o orgulho gay; nessa dicotomia, orgulho branco ou orgulho hétero ou bem são uma besteira sem sentido ou bem são orgulho de fazer parte dos opressores (ou, pelo menos, dos privilegiados). E sinceramente, a não ser que você seja uma dominatrix, acho que ninguém acha tão legal ou virtuoso oprimir os outros quanto manter a cabeça erguida diante da opressão. O orgulho negro, ou gay, explícito, se dá justamente para afirmar o valor frente a um orgulho implícito branco ou hetero fortíssimo. É como a piada do dia internacional da mulher; agora que acabou voltamos ao ano internacional do homem.

 Isso tudo, claro, se fôssemos apenas levar em consideração as palavras num vácuo sem história, porque "white pride" tem uma história específica de supremacismo branco, da Ku Klux Klan e dos whiteskins e boneheads. Ignorá-la para fazer retórica barata é como querer fundar um partido cujas bandeiras sejam o nacionalismo, o socialismo, e a defesa dos trabalhadores. Na Alemanha. O Thor até curte...

Racismo reverso não existe, ou melhor, não tem importância, porque não tem poder. Há doidos aqui e acolá como o Farrakhan, mas a Nação do Islã é um culto/gangue obscuro, não o sistema de poder da sociedade inteira. Num país, num planeta em que ser loiro é sinônimo de ser bonito e cabelo pixaim é "ruim," ser xingado de branquelo não tem como carregar o mesmo peso que ser xingado de crioulo. Aimeudeus, sofri preconceito por ser branco e rico porque não me tratavam como igual. Claro, porque o ressentimento de gente que não tem os mesmos privilégios que você é a mesma coisa que o desprezo de quem está acima de você. Falar em racismo de negros contra brancos é imaginar que se trata de tribos díspares em conflito, é entender errado o racismo como manifestação de xenofobia. Curiosamente, é uma visão que depende da existência a priori, e não como construção social, hierárquica e nada neutra, de raças humanas - e que é endossada por que gente que gosta de encher a boca pra dizer que não há raças humanas (então não deveria haver ação afirmativa, é a conclusão).

Hoje, vendo a wikipédia sobre os bairros do Rio, achei algo que atenta para uma das facetas desse orgulho, que se mistura com a noção dos EUA como modelo de civilização. É que o brasileiro - ou pelo menos, e principalmente, a classe média brasileira, que é afinal de contas principalmente branca e poderia concordar com a frase infeliz de Gilberto Freyre quando este diz que o brasileiro se misturou com o negro e com o índio - tem, muitas vezes, um orgulho desmesurado de suas raízes imigrantes. Você tem um único imigrante na família? Basta para se proclamar "italiano," "alemão," ou "espanhol." A importância da imigração é ensinada na escola, mesmo em livros radicais de esquerda, de forma epocal; no fim do século XIX, saem as lutas dos escravos, exceto por uma nota de rodapé dizendo que não foram devidamente apoiados após a abolição, e entram os imigrantes. O povo brasileiro do século XX, nessa visão, é imigrante.

E o Brasil não chega a ser exatamente um país de imigrantes, não na escala dos EUA ou da Argentina. A maior leva imigratória brasileira, de muito longe, foi mesmo a africana, forçada; 4,4 milhões de escravos, versus 3,3 de todos os imigrantes não-escravos juntos. E esses 3,3 milhões de imigrantes, ao longo da maior parte de um século, se somaram a um país que tinha, em 1872, quase dez milhões de habitantes, dos quais seis milhões de pretos e pardos. A imensa maioria do Brasil (e não da classe média) é mesmo descendente, não de imigrantes, mas de pretos, ibéricos da época da colônia, e índios; os imigrantes não chegam a ser um prato principal nessa mistura. Como foram trazidos justamente, em parte, por se acreditar na sua "superioridade racial," e se beneficiaram tanto de leis de imigração que em alguns momentos foram ridiculamente generosas quanto do racismo em geral, os imigrantes rapidamente viraram a nova classe média, expulsando dela a maior parte dos mulatos.

No caso dos bairros da wikipédia, chega a ser hilário. Alguém realmente acha que um componente importante da população de Botafogo é inglês? (No caso, como o modo de valorizar a imigração segundo o modelo americano já foi estabelecido, somaram ali uma igualmente enigmática Angola.)

Outro caso em que esse orgulho, essa ânsia de ser imigrante (e não-negro ou se mestiço só o bastante pra ter bunda, de preferência) fica engraçado é nos números anunciados da população "x" do Brasil. Fora os portugueses e os italianos, cujo número no Brasil é mesmo substancial (se bem menor, no caso dos segundos, que na Argentina), com efeito, os números propagandeados significariam que todo japonês, árabe, e alemão que veio pro Brasil teve mais filhos que o Genghis Khan. Assim, São Paulo sozinha teria mais de seis milhões de libaneses, apesar de haver, nos censos de 1920 e 1940, uns cinquenta mil imigrantes daquelas bandas. Os 250.000 alemães que chegaram até 1970 representariam a maior parte da população do Sul - uma multiplicação de 1 pra cada 50, pelo menos, o que significa que o Gobineau estaria certo e a fertilidade ariana era mesmo maior, já que se os pobres bugres brasileiros da mesma época tivessem se multiplicado do mesmo jeito, o Brasil seria mais ou menos do tamanho da Índia.

4.12.09

Núcleo duro

Matéria no Valor fala sobre o núcleo de pobreza que mais resiste tanto ao crescimento econômico quanto aos programas sociais existentes, formado pelas famílias chefiadas por mulheres pobres e jovens. Soa, quando você pensa no assunto, como uma constatação óbvia dentro das hierarquias e exigências da nossa sociedade; tanto que o fenômeno não é exclusivo do Brasil. Até na Suécia existe esse núcleo duro da pobreza. OK, lá a situação dele é diferente. Mas não deixa de ser marcada por carestia e violência. Aliás, um dos motivos pelos quais lá o problema é menor é exatamente algo que é pouco questionado hoje em dia: a condicionalidade dos benefícios sociais implantados, tão tarde, no Brasil.

Cue in o Suplicy e sua renda universal...


...A história de superação de Mislene, no entanto, ainda está no campo da ficção. Mãe de Mirela, de 2 anos, ela vive um drama bem real. A filha, cujo pai morreu no início do ano, tem problemas respiratórios crônicos, o que exige hospitalização frequente e atenção constante quando está em casa, na Vila Nhocuné, bairro da extremidade leste paulistana. "Ninguém quer contratar uma pessoa que é obrigada a faltar sempre. Estou desempregada e sem renda. Vivo dos mantimentos que minha mãe, que também está sem emprego e mora longe, me manda", desabafa.

Dramas como o de Mislene engrossam as estatísticas de um grave problema social no Brasil: cada vez mais a extrema pobreza se concentra em famílias chefiadas por mulheres com menos de 35 anos, responsáveis por crianças de menos de 6. São pessoas que permanecem em condições de indigência, apesar do crescimento econômico, da melhoria e expansão do mercado de trabalho e das políticas de transferência de renda. "São questões que os programas convencionais, como o Bolsa Família, não são capazes de resolver", diz o economista André Urani, sócio-fundador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets).

Urani pôs uma lupa sobre dados das dez principais regiões metropolitanas do Brasil e constatou que a pobreza urbana é feminina. Em 1993 havia 6,3 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza nessas regiões - 1,6 milhões delas viviam em famílias chefiadas por mulheres. Passados 15 anos, 3,5 milhões viviam em condições de extrema pobreza nessas mesmas áreas - 1,8 milhões em famílias chefiadas por mulheres. Ou seja, embora o total de pessoas com renda familiar per capita até R$ 104,00 tenha sido reduzido, essa diminuição não se verifica em famílias chefiadas por mulheres. Nesse período, apesar de o porcentual de pessoas que vivem na indigência ter caído 44% no Brasil metropolitano - Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio, Salvador, Distrito Federal, Recife, Fortaleza e Belém -, a queda não se refletiu nas condições de vida de quem vive em famílias chefiadas por mulheres.

O fenômeno registrado nas regiões metropolitanas, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (Pnad) de 2008, se repete no Brasil como um todo, ainda que com menos intensidade. Em 1993, havia 32,4 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza no país, das quais 5,5 milhões viviam em domicílios chefiados por mulheres. Passados 15 anos, havia 15,8 milhões de pessoas em condições de extrema pobreza, das quais 5,2 milhões viviam em famílias com mulheres no comando. Apenas 1,7% da redução da indigência no Brasil, portanto, se deu em famílias chefiadas por mulher. "Não somos capazes de enfrentar a extrema pobreza nessas famílias", afirma Urani.

Um dos problemas centrais para que a pobreza adquira o contorno feminino é que as mulheres chefes de família raramente são beneficiadas pelas melhorias no mercado de trabalho, uma consequência da combinação de fatores como falta de perspectiva de futuro, ausência de responsabilidade paterna para com os filhos, baixa escolaridade e falta de equipamentos públicos. "Há necessidade, por exemplo, de a creche ser universal e os serviços médicos serem acessíveis", diz Maria Salet Novellino, professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas e autora da pesquisa "Os Estudos sobre Feminilização da Pobreza e Políticas Públicas para Mulheres". "O trabalho da mulher está associado à família, e o Estado tem de apoiá-la para que ela deixe a criança num lugar público decente. A mulher falta ao trabalho, basicamente, porque o filho ficou doente."

Historicamente, famílias monoparentais - com apenas um adulto responsável -, em geral chefiadas por mulheres, são mais pobres por contar apenas com uma renda que, sendo de trabalho feminino, já é menor do que do trabalho masculino, avalia a economista Lena Lavinas, que realizou uma pesquisa sobre a ausência do público feminino entre os beneficiários do Bolsa Família. Ela identificou que mais da metade das pessoas que não recebem o benefício vivem em famílias chefiadas por mulheres, e 60% das pessoas que não recebem, mesmo sendo elegíveis, são mulheres chefes de família. Os dados foram coletados com 121 mil mulheres do Recife.

Mislene é elegível. Já havia solicitado os benefícios do Bolsa Família fazia seis anos, quando deu à luz Mailon Emanoel Esteves, que morreu ainda bebê. Não obteve o direito. Voltou a buscar informações quando Mirela nasceu. Foi à Regional da Penha, em São Paulo, onde a orientaram a esperar um profissional responsável pelo cadastramento do programa em sua casa. "Até hoje ele não veio. O que eu faço?", pergunta.

Lúcia Modesto, secretária nacional de Renda de Cidadania, área do Ministério do Desenvolvimento Social que coordena o Programa Bolsa Família, diz que trabalha com um novo objetivo para os dois próximos anos: alcançar 2 milhões de famílias, a maior parte nas áreas urbanas. Para isso, investe numa nova forma de fazer o cadastro, treinando profissionais que possam ir às ruas localizar e identificar possíveis beneficiários.

Para cadastrar 120 mil novas famílias, que serão mapeadas nas áreas mais precárias da cidade, a Prefeitura de São Paulo vai receber R$ 4 milhões. O mesmo esforço será feito no Rio e em todas as principais capitais do país, e a meta é identificar famílias que precisam de outros apoios além da transferência de renda.

A pobreza feminina, de fato, tem outros dilemas. A vizinha de Mislene, Rosely Lazzarini, de 32 anos, chegou a ter direito ao Bolsa Família, mas perdeu. Mãe de cinco filhos - Leonardo, 10, Lilian, 8, Luana, 6, Luiz Felipe, 4, e Leandro, 2 -, ela deixou de receber o benefício porque o filho mais velho não apresentou a frequência escolar exigida por duas vezes. "Sou separada e meu ex-marido não paga pensão. O Leonardo foi morar com ele e eu não tinha como vigiá-lo na escola", justifica. "Os que moram comigo raramente faltam."

Desempregada, Rosely diz que não tem condições de trabalhar por causa dos problemas de saúde da filha Lilian, que há um ano não se locomove e requer cuidado em tempo integral. "Ela tem problema nos ossos e está muito deprimida, por isso não tem vontade de estudar", conta.

Durante algum tempo Rosely vendeu batatas fritas na porta de sua casa, mas, para valer a pena, a matéria-prima tinha de ser adquirida a mais de 25 quilômetros de distância. O negócio ficou inviável. "Não tenho como abandonar tudo. Como batata pesa, e eu ia de ônibus ao parque D. Pedro [zona central de São Paulo] para comprar mais em conta, não dava para pegar mais do que um saco de 50 quilos por vez. Eram muitas viagens."

Adultos como Mislene e Rosely têm dificuldade de mobilidade porque, ao ser os únicos responsáveis por crianças tão novas, sem ter com quem deixar os filhos, acaba sendo impraticável até sair de casa, o que impede o atendimento pela rede social. "Falta um conjunto de políticas na rede de assistência social que resolva uma série de outros déficits, além da renda, que aparecem nas famílias monoparentais chefiadas por mulheres", observa Lena Lavinas, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Quanto mais a política focaliza em públicos específicos, menos alcança quem precisa. Por isso é preciso pensar em políticas universais", defende.

Ao impor mais exigências para o recebimento do benefício, diz Lena, menos o Estado garante benefício às pessoas que precisam dele. "Qualquer programa de inclusão da mulher no mercado deve ser bem equacionado. Não pode ser apenas um programa de renda. As regras do mercado não servem para mulheres com essas características", afirma Maria Salet Novellino.

4.8.08

Narigão é a solução

Para o racismo, pelo visto. Aparentemente, cada vez mais imigrantes estão recorrendo à cirurgia plástica para escapar do preconceito. O narigão europeu, que já fez com que a expressão para europeu na China fosse "bárbaros narigudos," atualmente é um marcador de status buscado intensamente pelos imigrantes na Europa.

Depois tem quem acredite que, em se encontrando técnicas de manipulação genética humanas confiáveis, pele clara não vai ser o hit número um. Como dá pra ver também na introdução de outra reportagem que não tem nada (diretamente) a ver com o assunto, a colonização européia conseguiu fazer com que a idéia da superioridade da estética européia no mundo - ou, pior ainda, da "normalidade" da estética européia, com o resto todo sendo inferior ao "normal" ou, quando particularmente atraente, exótico - não mostra nenhum sinal de que vai morrer no futuro previsível.

*********

Eu, por mim, só arranjaria narigão se fosse pra pegar a Carla Bruni. Por outro lado, pode ser que o segredo esteja no que se absorve através do nariz. Reza a lenda que o Sarkozy, como certo outro presidente neoliberal "modernizador," talvez aprecie certos estimulantes.

Faz sentido.



4.4.07

Descamisados del aire

Fico na dúvida se o artigo abaixo, sobre disparidade de renda e social, é um caso intencional de ironia ou se foi sem querer. Mas mesmo na comparação entre os que têm e os que têm mais, é bom porque deixa clara uma das facetas da disparidade de renda, que muita gente não entende: que a pobreza não é mensurável simplesmente no acesso a determinada quantidade de bens (materiais ou não), mas pela própria disparidade dentro da sociedade. Sem nem entrar na questão, proposta pelo Elias e desenvolvida na economia pelo Sen, de que essa disparidade deve ser medida mais em termos de oportunidades do que de estados presentes.

http://www.economist.com/blogs/freeexchange/2007/03/airlines_and_inequality.cfm

22.11.06

Fome zero é isso aí

Os EUA sempre se destacaram, entre os países desenvolvidos, por ter a maior proporção da população passando fome. Onze milhões de americanos passavam fome em 2005 (eram oito milhões em 2001), quase um terço dos 35 milhões de americanos abaixo da linha da pobreza e sofrendo de "insegurança alimentar."

Bem, isso acabou. De agora em diante, o Ministério da Agricultura vai dizer que essas mesmas pessoas têm "grau muito baixo de segurança alimentar." A nomenclatura anterior, em vigor há tempos, era "insegurança alimentar e fome."

5.9.06

Dove II

Tá, eu sei, além de não ser nem um pouco original, é um resmungo meu que já foi postado antes. Mas fazer o quê? A propaganda de sabonete de aveia Davene fala "descubra porque as melhores coisas vêm do campo" ou coisa que o valha, mostrando umas beldades louras pagando de camponesas. O que é legal na propaganda, pra mim, é que ela explicita o que todas essas modelos brasileiras loiras só deixam implícito. Quero dizer, são talvez uns 10% da população brasileira, sendo generoso, que têm fenótipo norte-europeu, mas essa proporção tá ao contrário no mercado de modelos. Isso tem mais de identificação da europeidade com o bom do que com uma preferência estética completamente eletivo; além da oposição preto/loiro cotidiana, a propaganda da Davene deixa isso claro ao situar as modelos gaúchas num campo europeu. Até porque a área plantada com aveia no Brasil, no Paraná e SC, é insignificante.

Tá, não é exatamente a mesma reclamação quanto às branquelas da Dove, porque esse mercado que quer as modelos brasileiras, mas branquelas, é mundial. A brasileira é exótica o bastante pra ser a terceiromundista, latina caliente, mas pode ser branquela, ergo bonita. O exótico, o não branco, é só sugerido, mas não precisa aparecer na revista. Sim, existem modelos internacionais não-brancas, mas são muito poucas, e mesmo essas no mais das vezes apresentadas com extremos de exotização de deixar um japoniste do fin de siècle envergonhado. O que torna de uma hipocrisia extrema as reações chocadas (e até imbuídas de um certo preconceito contra o "terceiro mundo preconceituoso") à miss Boliviana que, sentindo o racismo alheio, tentou exorcizá-lo se bandeando pro lado dos brancos ao invés de denunciando, quando declarou que na Bolívia também tem muita gente branca e bonita.

14.7.06

De marré de si

Uma das coisas que eu não cheguei a mencionar, falando das cotas universitárias, é porque tenho tão pouca simpatia pelas cotas censitárias que todo mundo apóia. Afinal, se o problema é acabar com a desigualdade, privilegiar os mais pobres deveria ser nosso primeiro, principal, e talvez último critério, certo?

A questão é que renda não é um bom indicador de classe social, ou de "pobreza" num sentido amplo. Pode parecer um absurdo, mas é algo que você vai reparar se um dia for entrevistado por qualquer pesquisa de opinião sobre algum produto; eles não te perguntam apenas tua classe de renda, mas tua propriedade (imóvel e móvel), tua escolaridade e hábitos de consumo. Duas pessoas com renda igual podem viver em mundos diferentes em termos de condições materiais e sociais; um músico freelancer de família tradicional, mesmo ganhando a mesma coisa que um metalúrgico, tem uma reserva de contatos sociais, possibilidades financeiras e entendimento da cultura dominante e escolar (que não é inteiramente transmitida pela escola) imensamente maior. A filha dele tem muito mais chances de passar no vestibular do que a do metalúrgico. Do mesmo modo, um filho de pais universitários que têm renda baixa ainda novos não é igual ao filho de uma família analfabeta que, já maduros, têm renda um pouco maior em seu minifúndio. Por outro lado, estes, com a posse da terra e alguma autoprodução, estarão melhores do que uma costureira solteira de renda equivalente... Ademais, que renda deveria ser considerada? A per capita familiar? Em que período antes do vestibular?

A declaração infeliz do Lula de que existiam métodos científicos para determinar a raça de alguém merece ser esquecida, ou mostrada como besteira. Mas a idéia de que pobreza seja "óbvia" é tão nebulosa, no fundo, quanto a de que "raça" seja óbvio.

10.7.06

Apêndice ao post anterior

Quando digo que "No Brasil, não é essa a situação dos negros, que estão misturados cultural e fisicamente aos brancos pobres," estou reconhecendo a dificuldade de se definir, em termos que possam ser usados pelo Estado burocrático e impessoal, o que é um negro no Brasil. O racismo brasileiro não é étnico (o que não reflete uma aversão brasileira ao preconceito étnico - que o digam paraíbas, japas, turcos e índios). Não há, sem forçassão de barra, um falar negro, setores negros das cidades (apesar da preponderância de negros entre os pobres), uma história negra. Quando se fala de "arte negra," esta é confundida com "arte popular" (até pela esmagadora preponderância dos negros entre os pobres, dependendo da cidade e da época). Não se pode definir quem é negro através da ascendência ou de outras características "objetivas" que caracterizam programas de ação afirmativa para outros grupos (mulheres ou deficientes). A substituição dos termos "preto" e "pardo" do IBGE por "negro" é uma falácia; isso não é necessariamente o que as pessoas indagadas responderiam em questionários que substituíssem uma palavra pela outra. Aliás, curiosamente, "pretos-IBGE," minoria relativamente pequena na população brasileira, são mais comuns quando aumenta a escolaridade, reflexo de um grau maior de politização, tanto quanto do encontro mais frequente com o preconceito especificamente racista.

A falácia de quem é contra os sistemas de ação afirmativa por cor é confundir essa dificuldade (real) com uma impossibilidade. É uma dificuldade da relação do Estado, com os princípios que se acredita que o Estado deve seguir, com a realidade brasileira, que não segue as mesmas regras. Não confrontar essa dificuldade leva à perpetuação de uma faceta da realidade brasileira que todos concordamos injusta; "não há racismo no Brasil, apenas preconceito social associado à cor," como diz o Ali Kamel, é só piada, já que é essa a definição de racismo, a não ser que ele esteja circunscrevendo este à variedade étnica, o que é etno(do outro, americano)centrismo demais. E a ação afirmativa por renda, como as políticas universalistas, não constituem uma forma de lidar com o racismo.

Por outro lado, como eu já mencionei, a ação afirmativa na admissão universitária por cor afeta basicamente uma classe média-baixa (note-se que isso é algo a anos luz da autoproclamada "classe média" que acha que passar dificuldade é comprar menos CDs de jazz ou viajar menos ao exterior) negra emergente. Salvo raras exceções, o pobre brasileiro não terminou o segundo grau, para se beneficiar da universidade. Embora eu ache que sim, fazer com que haja mais negros entre nossas elites é um bem-em-si, isso leva a outro problema, observado na ação afirmativa americana: a deterioração da situação de outros grupos discriminados, antes relativamente em melhor posição do que os negros, que inclusive se reflete no aumento do preconceito contra eles.

Por isso, a minha sugestão pessoal, sem desaprovar as ações afirmativas por cor, é seguir uma idéia do Bushinho (é, ele mesmo). Ação afirmativa por origem geográfica, de favelados e moradores de zonas rurais principalmente, mas possivelmente, escalonada, para incluir todos os setores do IBGE significativamente abaixo da média. Na sociedade brasileira, muito menos plástica e muito mais hierarquizada do que a americana, mesmo quando as pessoas se mudam, é pra lugares com perfis sociais semelhantes; há uma cultura de bairro ativa; e o critério de pertencimento atende aos critérios de objetividade e imparcialidade. Ainda por cima dada a segregação espacial, que sendo menor que em outros países ainda é significativa, a ação afirmativa geográfica também serviria para aumentar o número de negros nas universidades. Não havendo "cultura negra" diferente, o "capital cultural" de negros e brancos favelados - o que não é a mesma coisa que pobres - tende a não apresentar diferenças significativas. Como diz o Canibal, na favela japonês também é preto. (Tá, a afirmação é boa mas ignora o preconceito que o japonês vai sofrer muito menos.)

Por isso também minha indagação sobre outras formas de ação afirmativa, que afetem um contingente maior de brasileiros. Se eu não sigo a falácia do universalismo, de "melhorem as escolas," por outro lado eu me indago sobre políticas de apoio a escolas e alunos negros desde o primário; em programas de combate ao racismo em sala de aula; de ações afirmativas para negros (ou geográficas) em contratações no serviço público e em empresas que recebem dinheiro público, em funções de baixa escolaridade.

Afirmando o quê?

O problema da ação afirmativa, aka cotas, no Brasil ganhou nas últimas semanas uma visibilidade que não tinha desde que as universidades começaram a implantar programas nesse sentido, há uns três anos. O motivo: com a iminência da votação no Congresso dos projetos de lei versando sobre o tema, grupos de intelectuais fizeram manifestos opostos, contra e a favor das cotas.

Os dois manifestos, infelizmente, como peças políticas que são, repetem falácias que os próprios abaixo-assinantes já denunciaram. Mas deixa isso pra depois. Primeiro: o que é Ação Afirmativa? Ação afirmativa é uma política de governo prevendo uma discriminação positiva direcionada a determinados grupos, com o objetivo de contrabalançar a discriminação negativa que eles sofrem. É, portanto, o equivalente em termos de capital social do que é feito com a renda quando se tem impostos de renda progressivo e programas de transferência de renda. A acusação de que a ação afirmativa é "discriminatória" é, portanto, inteiramente procedente; o que não procede é a acusação de "racismo," já que ela procura compensar um racismo reconhecido como existente na sociedade. O racismo não começa na invenção de "raças" neutras (a idéia de que ver essas raças como diferentes seria "natural" é uma racionalização do racismo, não algo que anteceda ele), mas na criação delas como parte de uma hierarquia social.

A ação afirmativa ser entendida como uma política "redistributiva de capital" no que tange ao "capital social" dos indivíduos, determinado por sua cor e ascendência, rebate a alegação de que o certo seria "melhorar" o ensino público pra todos. Uma tal melhora, ainda que factível (e muitos proponentes da ação afirmativa no Brasil estão entre os que mais lutam por ela, não o contrário, como alegado), beneficiaria igualmente a todos, preservando a desigualdade.

O nome "ação afirmativa" vem dos programas de ação afirmativa americanos, dirigidos principalmente aos negros, começando com a Grande Sociedade do Lyndon Johnson. O princípio, porém, é bastante mais antigo, tendo sido aplicado em impérios multinacionais como o Raj britânico e a União Soviética, no começo do século XX. No Brasil, o intervalo entre o reconhecimento oficial do racismo e o programa de ação afirmativa foi minúsculo, porque, apesar de iniciativas meritórias como a Lei Afonso Arinos, o governo brasileiro, oficialmente, só foi reconhecer o racismo como um problema sério durante o mandato do FHC. Até a conferência internacional na África do Sul sobre o assunto, quando os movimentos negros aproveitaram a exposição mundial pra meter a boca no trombone, os relatórios enviados ao programa anti-racismo da ONU pelo Itamaraty diziam que não havia racismo no Brasil em qualquer escala significativa.

O maior programa de ação afirmativa do mundo, hoje, é o indiano. Desde antes da independência, as castas inferiores, incluindo os dalits (intocáveis), têm tido preferência no emprego público; no ano passado, o escopo e intensidade do programa foi aumentado, com quase metade das vagas em universidades destinadas às castas inferiores e também à classificação OBC - outras castas atrasadas, um termo que designa gonds, dacoits e outras populações não-hindus, não-muçulmanas, consideradas "selvagens." Não sem protestos indignados da classe média súria, que diz que "o preconceito de castas não existe mais na Índia..."

No Brasil, a ação afirmativa torna-se mais complicada do que a maioria, porque o objeto de discriminação não é um grupo claramente definido, mas pessoas, de acordo com relações complexas. A ação afirmativa na maior parte do mundo é "étnica." Ela ajuda pessoas que fazem parte do mesmo grupo ao qual seus pais, em geral, pertenciam, com uma cultura própria em algum nível, geralmente segregadas em algum grau. No Brasil, não é essa a situação dos negros, que estão misturados cultural e fisicamente aos brancos pobres. Isso não é um problema apenas para a definição de candidatos válidos à A.A., como falado tantas vezes (e rebatido com a sugestão de que se crie um comitê de avaliação de PMs e porteiros), mas também para a própria justificativa da política. Até que ponto as diferenças entre negros e brancos vindos da mesma origem (que na prática se resumem ao racismo sofrido) justificam uma política dirigida aos primeiros? Se não, qual seria o melhor critério? Quais os efeitos que essa política pode ter sobre o próprio racismo brasileiro?

É neste último ponto que se baseia a oposição de muitos antropólogos que assinaram o manifesto do anti-. Para eles, a introdução de categorias raciais na legislação significaria a alteração do racismo brasileiro, que sem deixar de ser violento é relacional e negociável, para um racismo de tipo americano, étnico e segregado. É pelo mesmo motivo que parte do movimento negro é a favor: para eles, esse tipo de racismo significa o reconhecimento de uma realidade, e apresenta maiores possibilidades de enfrentamento e ação. Por isso, inclusive, usam a expressão "negro," ao invés de "preto" e "pardo," o que é no mínimo problemático no estado atual. Bem, as expressões do IBGE também são; o ideal seria ou bem uma pergunta aberta, ou bem algo como Preto, Negro, Mulato, Moreno, Claro, Branco, Escuro.

Existem diversas formas de programas de ação afirmativa. Aquela que passou a dar nome a todas no Brasil, as cotas, foi considerada inconstitucional nos EUA, e consiste em reservar determinado número de vagas em um processo de seleção. Outras formas comuns são programas de apoio direcionado (eg os cursinhos para "afrodescendentes") e pontos de classificação (eg o candidato favorecido tem direito a 20 pontos a mais no vestibular), além de cotas informais ("recrutadores, tentem arrumar uns neguim aí no meio"). Cada sistema tem suas vantagens e desvantagens, about which more later. Apesar de distorcerem resultados pretensamente meritocráticos, nenhuma delas é, como alegado, uma abdicação da meritocracia. Isso porque é razoável supor que alguém que conseguiu tirar 70 numa prova, apesar de sofrer com o racismo da professora, com a falta de tempo pro estudo, de livros, de cultura familiar transmitindo valores culturais e até informação propriamente dita, e com uma escola mal equipada, seja pelo menos tão competente quanto alguém que tirou 95 com acesso a todas essas coisas mais cursinho de elite.

O exemplo é, admito, um pouco forçado. Isso porque o alvo principal da ação afirmativa não é o miserável, mas uma classe média-baixa negra emergente. No Brasil, quem chega ao final do segundo grau já chegou bem mais longe do que a maioria dos cidadãos, que dirá dos cidadãos pretos e pardos. E isso não é desculpa pra "Elite branca" (C)Cláudio Lembo ser contra a ação afirmativa. Se a idéia não é eliminar a elite, levelling o Brasil, fazer com que a elite seja, como a população em geral, "miscigenada e colorida" deveria ser exatamente o objetivo.

4.11.05

Nightsticks make the world turn around, the world...

A BBC comenta que os jovens beurs acusam a polícia francesa de ser "racista e truculenta." Bem, a polícia francesa, a brasileira, a espanhola, inglesa, americana, alemã, sueca, russa, japonesa, chinesa, australiana, paraguaia, sul-africana...deve existir algum lugar aonde racismo e truculência não estão associados à prática policial, mas eu não conheço. Tô postando isso aqui com tempo roubado, então não vou ficar procurando link, mas eu lembro de episódios específicos ou relatórios apontando racismo e truculência da parte de todas as polícias mencionadas.

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Por onde Bush passa a grama não cresce. Graças a Deus ele só corta árvores quando o país é um país africano pobre mesmo, mas barrar as pessoas de circular em suas próprias ruas é direito de todos, sejam franceses, argentinos ou ingleses.

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Seja o crime seja o terror, sempre haverá alguma desculpa pra te tirar um direito. O terror tá na moda.

28.9.05

Treplicando

Continuando um pouco a própria "carta aos reaças," e um pouco o comentário do André.

A idéia de que "é difícil definir quem é o quê no Brasil" é um lugar comum, com uma base real na comparação com os EUA,* em que o racismo é baseado na ascendência. Mesmo que não haja mais nos EUA leis, como havia antigamente**, definindo qual a proporção de sangue negro que faz de alguém negro, a definição ainda é simples, e um afro-descendente que queira dizer que é branco estará "passing," fingindo, ao contrário daqui, em que a mesma pessoa será branca de verdade. O problema dessa formulação é que ela tem uma meia-verdade embutida, e que é irrelevante mesmo quando é verdade.

A meia verdade: é difícil definir exatamente quem é o que no Brasil, dentro de uma fatia específica da população, que inclui parte dos "pardos" e parte dos "brancos. Não em geral. A Bené é preta, e ninguém duvida disso. A Rosinha Garotinho é branca. O Vicentinho e a Marina Silva já são mais complicados. E notem, ao contrário do que quer o movimento negro, que rejeita a classificação do IBGE em facor de uma dualidade branco/negro, a situação dos "pretos" é, em todo o Brasil, muito pior do que a dos "pardos." Mesmo tirando todas as variáveis exóticas. Pretos vivem mais separados dos brancos, têm menos valor no "mercado" matrimonial, ganham menos, são mais revistados pela polícia...ressalte-se, fazendo a eterna comparação com os EUA, que mesmo os pretos ainda sofrem de discriminação matrimonial umas vinte vezes menor do que nos EUA, com a pior região metropolitana brasileira, o Vale do Itajaí,**** tendo a mesma segregação matrimonial que a melhor americana, Washington.

A irrelevância: uma distinção clara entre grupos humanos não é condição necessária nem suficiente para o preconceito, ao contrário da teoria senso-comunista de que o racismo advém da observação das diferenças. Não só o racismo em suas diversas encarnações, da cordial à apartada, como até a xenofobia, que é muito mais radical e rejeita o contato, prescinde da possibilidade de distinção clara. A guerra da Bósnia é um exemplo: na Bósnia-Herzegovina pré-dissolução, a população falava serbo-croata. Não existe distinção física nem de sotaque. Dos 60% que responderam alguma coisa ao invés de simplesmente "iugoslavo" ao Censo, 36% se casavam com gente do "outro grupo." O sentimento religioso não era nem é particularmente pronunciado. A segregação residencial estava abaixo de 25iv* E conseguiram, mesmo assim, entrar em uma guerra étnica.

Do mesmo modo, o racismo no Brasil nunca precisou de uma distinção clara para se perpetuar. Nunca houve barreiras definidas, e nunca houve entraves ao contato que fosse iniciado pelo indivíduo que está acima na escala. O racismo brasileiro, se quiser assim, segue uma lógica individualista, "de mercado," que se opõe à lógica hierárquica do racismo americano ou sul-africano.v*Ao invés de ser enfiado pela sociedade numa casta específica, o indivíduo tem uma certa quantidade de "capital racial," que ele utiliza junto com "capital social," "capital educacional,' "capital mesmo' e afins. A questão é que esse capital racial não tem nenhuma tendência maior à equalização ao longo do tempo do que os outros capitais.

Claro que isso não impede que haja outras formas de preconceito no Brasil, e que elas infelizmente não disponham da mesma quantidade de inimigos que o racismo. Não só o preconceito social é aceito; preconceitos étnicos diversos também são, dos mais leves ("aquele turco safado finalmente foi preso", "japoneses foram mortos," "parece coisa de judeu") ao mais comum e, por ser exclusivamente brasileiro, não identificado como preconceito étnico, que é o preconceito contra nordestinos.vi* Mas aí é que está - com todas as minhas críticas à posição do movimento negro, foi graças a ele, e não a alguma evolução natural da sociedade, que o racismo deixou de ser escamoteado no Brasil. Até há pouquíssimo tempo atrás, o Brasil, oficialmente, era um país em que não havia racismo, como apregoado pelos relatórios brasileiros sobre racismo enviados à ONU. Essa mentira já foi denunciada no genérico, mas ainda não no particular, a ponto de se ter a situação em que racismo é crime inafiançável, mas os milhares de casos cotidianos - da pessoa preta que não pode usar o elevador social ao ministro do Supremo Tribunal Federal barrado pelos seguranças na própria possevii* - não geram condenações. É uma falácia falar de outros males brasileiros, ou mesmo de outros preconceitos, como argumento contra a luta anti-racista; uma coisa não exclui a outra - e, cinicamente, eliminar preconceitos de classe numa sociedade capitalista é um pouquinho difícil. O que gera um efeito interessante - a interação do racismo brasileiro com o preconceito de classe, ao mesmo tempo que minora a violência e radicalidade desse racismo, o torna mais difícil de eliminar.


E pra parar o texto abruptamente, apesar de não ter chegado a um final decente, lanço o Manifesto de um Homem Só Pelos Bugres nas Novelas de Época, do movimento pró-gobineau AMARACISTANOJENTO.


*A comparação é inevitável; no universo conceitual brasileiro, o etnocentrismo está mais centrado na metrópole do que cá na colônia.

**E ainda há para os índios.

***Sim, tanto pra uma quanto pra outra a quantidade de pretos (VdI) e negros (DC) na população geral já tendo sido levada em conta e eliminada.

IV* Para efeito de comparação, o mesmo índice, de dissimilaridade espacial, varia para negros (BR: pardos+pretos) entre 37(SP, RJ, PoA) e 48 (Salvador) no Brasil, e entre 75(NY) e 92(Chicago) nos EUA.

V* O racismo na Europa, apesar de se constituir basicamente em preconceito étnico, é ainda uma terceira história, embora tenha, na França desde as levas imigratórias da virada do século e na Grã-Bretanha desde a leva caribenha pós-descolonização, características que se assemelham mais na forma ao modelo americano, e no resultado ao modelo brasileiro.

VI* A força da associação entre preconceito étnico e socioeconômico no Brasil pode ser medida pela violência relativa do preconceito contra os grupos de imigrantes mencionados e os "paraíbas" e "baianos."

VII* Depondo contra a teoria da exclusividade do preconceito social; afinal de contas, é um juiz, velho e bem vestido tentando entrar no Supremo, não um sujeito em trapos. Ou, como disse uma tia-avó minha uma vez sobre o próprio filho, "ele entrou no aeroporto todo sujo e cheio de craca nas pernas. Ainda bem que ele é branquinho, senão tinham jogado ele no lixo."

26.9.05

Carta aos reaças.

Caros amigos.

Reconheço que a tese da "democracia racial" brasileira tem um valor tradicional que não caberia bem descartar. Afinal, que seria do mundo sem a tradição? E boa parte da identidade brasileira foi construída a partir dessa ideologia. Mais do que isso - a própria denúncia da democracia racial parte da própria, já que o Florestan Fernandes, que foi o primeiro "acadêmico" a fazer essa denúncia (cinicamente, o primeiro branco, mas cinismo não é conservador, não é mesmo?), tinha sido contratado pela UNESCO para descobrir o segredo da falta de racismo, e engarrafar para distribuir mundo afora.

Só tem um probleminha. Quando vocês usam a democracia racial e a "falta" de racismo no Brasil pra acusar quem vê racismo de racista, isso pode até fazer vocês se sentirem bem, mas não engana ninguém. A declaração de que "não existe preconceito racial, existe preconceito social associado à cor preta" chega a ser ridícula. Se existe preconceito associado à cor, existe preconceito de cor. E sinto muito, mas há uma quantidade bastante razoável de dados indicando que existe, sim, preconceito racial que vai além da ligação com a classe socioeconômica. Menos do que em muitos outros países, é verdade, apesar de os dados serem distorcidos, nas metrópoles do Sudeste, pela falta de uma resposta "paraíba" à pergunta sobre cor/raça. E, por isso mesmo, tenho uma idéia pra vocês, se quiserem mesmo ser anti-racistas e se opor ao movimento negro ao mesmo tempo.

Vejam bem, muitos de nós (nós, a elite, quase toda branca a ponto de gente de países mais segregados ficar com a impressão do Brasil como especialmente racista) dizemos, até com certo orgulho, que temos ancestrais negros. Vide o pé na cozinha do Príncipe dos Sociólogos. O problema é que esse pé é uma afetação, mais do que um sentimento de identidade, e segue os passos do Gilberto Freyre, em que os brasileiros se misturaram "com" os negros e índigenas, ou seja "os brasileiros" são os brancos. Todas essas declarações de amor à democracia racial vêm de um povo que se vê branco, de um país branco com negros oprimidos. Toda a construção do "brasileiro' desde o Freyre e o Getúlio passa por isso. Por um lado, se hiperenfatiza o papel dos imigrantes, como se nós tivéssemos recebido mais deles do que a Argentina ou os EUA, por outro o "brasileiro" misturado é o peão, é um outro. Tudo bem, a posição desconfortável de petit bourgeois global que ocupamos não é só nossa, é de todas as elites subdesenvolvidas.

Vamos ser sinceros. Há racismo no Brasil, há uma desigualdade racial imensa, e isso tem que ser remediado. E não vai ser remediado através de políticas neutras, ou sequer de políticas dirigidas aos pobres, já que uma condição socioeconômica equivalente não elimina o racismo. Que o digam os judeus. Então, o que fazer, se você é um conservador e abomina o movimento negro, ações afirmativas e o escambau? Não estou dizendo que isso faz de você um racista, existem bons motivos nacionalistas para não gostar de algo que é uma forma de nacionalismo rival. E olhe só, a declaração de que status socioeconômico e educacional não acaba com o racismo, se você pensar bem, também serve contra as cotas.

Que tal uma idéia - fazer uma campanha nacionalista capitalizando em cima do fato de o Brasil ser um país mulato? Não um país "que se misturou com negros e com indígenas," um país negro mesmo, no sentido mais amplo? Que tal enfiar retratos do Machado de Assis, do Lima Barreto, do André Rebouças, do Abdias do Nascimento, do Luiz Gama, para competir com a imagem do Zumbi? Dizer que afro-brasileiro é pleonasmo, lembrando que a civilização brasileira foi feita por mulatos, que antes de trazerem os imigrantes para embranquecer o país até a elite era mulata, como observou o Gobineau (que, afinal, era um especialista...)? Mandar a Globo retratar isso nas novelas de época, ao invés daquele quadro que acaba parecendo mais o Antebellum na Geórgia do que um engenho de café no Vale do Paraíba? Desarianizar a história do Brasil? Incentivar a história da África e das relações desta com o Brasil nas escolas? Em suma, fazer um nacionalismo da democracia racial que não fosse mais baseado num ator central branco que não tem preconceitos?

Não sei se ia adiantar. Mas pelo menos vocês poderiam alegar estar fazendo alguma coisa contra o racismo, ao invés de só ficar dizendo que quem tenta enxotar o rinoceronte que está na sala é culpado pelo rinoceronte.


Alvíssaras.

2.9.05

Katrina Aquecimentova

Katrina chegou, e muita gente aproveitou pra apontar o dedo pro Joãozinho Talibã. Tudo bem, a princípio qualquer coisa que se fale mal do Bush está certa, mas... o aquecimento globla aumenta a frequência e intensidade dos furacões, mas não é diretamente responsável pelo Katrina, que foi azar. Podia ter ido parar em qualquer outro lugar, podia não ter sido durante a maré alta...tudo bem, o aquecimento da água do Golfo do México aumenta as chances de vir outro, mas isso não é uma relação direta com este em particular. E o protocolo de Kyoto, ainda que tivesse sido implementado por todo mundo, não teria feito nenhum efeito ainda, teve muito pouco tempo - fora que ele é extremamente tímido, há quem diga que não teria efeito nem num prazo secular.

Apesar disso, é claro que "a culpa" é do Bush de várias maneiras. Listando:

1) A Guarda Nacional está no Iraque. Em número de soldados, a resposta ao Katrina está em um terço da resposta ao furacão Andrew, e a defasagem é maior em número de soldados treinados em enfermagem ou policiamento, ou de helicópteros, hospitais de campanha e e destacamentos de engenharia.
2) O programa de contenção de enchentes do Army Corps of Engineers teve verbas cortadas em 2001, e foi paralisado em 2003, com as verbas desviadas para a Homeland Security.
3) A FEMA, a defesa civil federal, foi sucateada desde o começo do governo Bush, perdendo sua capacidade de lidar com desastres.
4) A costa do Golfo do México, em seu estado natural, tem várias barreiras anti-furacão. A lama do Mississípi, que criou o pé-de-galo em que está situada Nova Orleáns, é abundante (o rio carrega mais lama do que o Amazonas, apesar de ser dez vezes menor), e ajuda a absorver a força dos furacões a quilômetros da costa; manguezais fazem o mesmo serviço; os canais auxiliares do delta se mudam, ajudando a escoar a água. Etc etc etc. É claro que a degradação da costa sul dos EUA antecede o Bush, mas ele conseguiu cortar muito da prevenção e recuperação que existia. No embalo, o programa de despoluição do Mississípi foi posto on hold, o que piora a situação de quem fica no meio das águas agora.
5) O "bolsa-família" americano foi cortado, começando com o Clinton, resultando em menos capacidade das próprias pessoas pobres de lidar com o furacão. Não custa lembrar que quase metade da população de N'awlins, e quase um terço da população dos três estados afetados, vive abaixo da linha da pobreza.
6) Tá que houvesse menos recursos, mas mesmo esses não foram mobilizados. O exército só foi mencionado ontem, a guarda nacional foi sendo mandada aos pouquinhos, até ontem a maior distribuição de água mineral era de um empresário que resolveu mandar o estoque dele, com a ajuda de voluntários. O Bush se orgulha de nunca dormir depois das oito, mas isso é exagero.
7) A antipatia pelo Bush não cortou a ajuda internacional aos EUA. Pelo contrário, as dificuldades fizeram com que o lucro político ficasse maior. Mas os canais de relacionamento pelos quais isso poderia ser organizado foram cortados, inclusive porque o Bush tem "trocado de mal" com o Departamento de Estado desde que este, ao contrário do Pentágono, se recusou a puxar o saco e concordar com Sua Majestade quanto ao Iraque.

Deve ter mais coisa. Em termos de catástrofe natural, o Bush tá quase no nível do Katrina.

22.9.04

O Pai dos Pobres no Orfanato

Lendo um artigo sobre a proposta, feita por Marcus Garvey, de uma emigração de afro-americanos para o Brasil, tido à época como "paraíso racial," e as reações no lado de cá. Soa até familiar:

Um deputado pernambucano propôs a criação de uma lei que controlasse a entrada de negros no país. (Controlar quer dizer barrar mesmo.)

As reações na própria Câmara não foram lá muito receptivas :

"O projeto é um atentado aos direitos do homem e do cidadão...é um atentado à dignidade da raça negra...O Brasil , pelos seus representantes, só pode repelir esse infeliz projeto, que seria o indício de um Código Negro, de uma política de preconceitos de raça indigna de uma República." (Deputado gaúcho positivista)

"verdadeiramente horrorizado...não compreender como o Sr. Andrade Bezerra...havia esquecido, ao redigir seu projeto proibindo a entrada de negros no Brasil, não apenas os mais belos artigos de nossa constituição federal, mas principalmente sua fé cristã" (Deputado pernambucano católico)

etc etc etc

Já boa parte da imprensa da Capital era a favor - "não que fosse racista," claro. Com umas poucas exceções, de um racismo hilário de tão histérico, e algumas outras exceções contra o projeto.

No final das contas? O projeto gorou, mas o Governo encarregou-se de criar dificuldades à imigração vinda dos EUA, extra-oficialmente. Quem iria instaurar o racismo e a eugenia na forma da lei? Ele mesmo, o titio Getúlio, rolha do poço agora cavado lá na Glória.

Outra coisa interessante do artigo é a parte do discurso do deputado gaúcho em que ele menciona que a Constituição permitia o livre trânsito inclusive sem passaporte. Vê se hoje em dia atravessar fronteira sem passaporte ia ser permitido. Os fascistas perderam a batalha mas ganharam a guerra. :/

Ns.E. -

Marcus Garvey - Líder negro jamaicano-americano. Doidão - é como se ele fosse uma mistura fin-de-siècle de Malcom X com Afrika Bambaata. Racismos à parte, o artigo na Estudos Afro-Asiáticos deixa de lado o fato de que a intenção dele era mesmo criar um estado nacional negro, no Mato Grosso ou na África. O site da TVE americana sobre ele : http://www.pbs.org/wgbh/amex/garvey/

Código Negro - Code Noir - Código regendo as relações raciais no Império colonial francês, editado pela primeira vez por Luís XIV. O racionalismo e clareza envolvidos fizeram dele um ícone da dureza em se tratando de racismo no século XIX, em que a referência ao Haiti de Toussaint L'Ouverture ainda era mais importante no discurso contra o racismo do que a historiomitologia da luta contra o racismo nos EUA. As prescrições dele não eram, apesar disso significativamente piores do que o tratamento dado aos escravos em outros lugares. (Quer dizer, eram horríveis.)
http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/amsudant/guyanefr1685.htm
http://www.historia.presse.fr/data/thematique/80/08003401.html