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12.4.12

Falsa Equivalência III

O senador Lindbergh Farias nos brindou com um discurso no qual alerta para o preconceito sofrido pelos evangélicos, deixando implícita a falsa equivalência entre este e a homofobia. O discurso - já criticado à exaustão pelos próprios companheiros de partido de Lindbergh - tinha a intenção de defender o pastor, milionário, e homofóbico Silas Malafaia, aquele que há menos de dois anos atrás dizia a seus correligionários que o PT de Lindbergh era a representação do diabo na terra. Não é desprovido de lógica política - afinal, a principal base eleitoral de Lindbergh, a Baixada Fluminense, é das regiões mais evangélicas do Brasil. Mas, compreensível e tudo, é de uma desonestidade intelectual que dói o fígado.

Primeiro de mais nada, é bom ressaltar que (como boa parte das falsas equivalências) a afirmação "existe preconceito contra evangélicos* no Brasil" está inteiramente correta. Existe mesmo, e é associado intimamente ao preconceito de classe, já que as igrejas neopentecostais se espalharam primeiro nas periferias e favelas das metrópoles, pouco assistidas seja pelo Estado seja pela Igreja Católica. O estereótipo é a empregada crente, não (como nos EUA) uma família de classe média crente. Não se trata apenas da reação ao extremismo religioso, porque não existe o mesmo preconceito contra católicos. Políticos Brasil afora rezam alegres em Te Deums sem serem chamados à atenção, e capelas católicas se espalham pelos palácios. Nossa Senhora Aparecida é feriado nacional; quando falam em instituir o dia do evangélico,** chora-se a morte do estado laico.

A mentira de Lindbergh, construída sobre essa verdade, é dupla. Uma de que o preconceito contra evangélicos motivaria os ataques verbais contra Silas Malafaia. Ora, o que motiva alguém a ter raiva contra Malafaia não é nenhum preconceito, é o fato de ele se destacar primariamente como porta-voz da homofobia e do preconceito em geral. O (milionário) pastor não é discriminado porque é crente. É atacado porque ataca, porque quer manter e aprofundar a discriminação que nega cidadania a milhões de brasileiros. A fala de Lindbergh é como dizer que ataques contra Hitler se baseiam no preconceito contra bávaros.

Mais insidiosa, porém, é a falsa equivalência construída pelo senador - que, como não é central ao aparte, pode ter sido inadvertida. Querendo deixar claro que também é contra a homofobia, Lindbergh equiparou-a ao preconceito contra evangélicos. Deu margem, assim, a um discurso maior, ligeiramente diferente, aquele que fala de "cristofobia." Ora, se o preconceito contra evangélicos é real (embora nem de muito longe se compare à homofobia), falar de cristofobia, no Brasil (em alguns outros lugares - como a Arábia Saudita - tudo bem), parece piada.

Há gente que fala mal do cristianismo, ou da religião em geral? Há, e tem gente que conheço que a ser chata de tanto fazer isso. Moralmente, suponho que possa ser dito que o preconceito contra um e outro, sendo equivalentes, se equivalham (é um grande "se," esse "sendo equivalente). Mas politicamente - que é o que interessa quando se passa para o debate público - o preconceito ganha uma dimensão que está bem longe da moral. Mesmo ignorando-se os efeitos legais, coercivos do preconceito, é muito diferente você ter um sujeito ou outro que bradam contra você (qualquer que seja sua identidade) de você ter uma organização sistemática da sociedade nesse sentido. Um sujeito te discriminando é um maluco preconceituoso; a sociedade te discriminando te torna um pária.

Não é "apenas" uma questão dos danos psicológicos e morais envolvida com essa exclusão. Ao fora-da-sociedade, são retiradas as garantias e direitos que aqueles que estão dentro da sociedade detêm. Em tempos idos, isso era legalmente codificado - e era considerado o equivalente a uma sentença de morte, cuja execução o Estado delegava a quem se interessasse. Hoje em dia, não há lei que diga que um homossexual pode ser morto sem que seu atacante tenha cometido assassinato. Não explícita, pelo menos. Perto disso, o pior que se tem do preconceito contra evangélicos (de novo - não contra cristãos***) é "crente é chato," ou "crente é brega."

*Ou, antes, contra neopentecostais, que é o que a palavra "evangélico," ou "crente," veio a significar para a maioria das pessoas. As igrejas protestantes históricas, como a luterana ou a metodista, não se encaixam no mesmo grupo, nem sofrem o mesmo preconceito. Nem exibem, na maioria dos casos, o mesmo radicalismo no preconceito - aliás, estão atualmente bem melhores do que a Igreja Católica.


**Admita-se que o tal dia é bizarro - gente que bate no peito para se dizer temente a Deus, que se autodefine primariamente por essa condição "elevada" de absorção no Divino... e o feriado que quer comemorar é homenageando a eles mesmos, não a Deus.


***A não ser que se concorde com os próprios evangélicos, para quem não-evangélicos não são cristãos. Não é por acaso que a palavra que oximoronicamente os divide de outras religiões é "crente," ou em bom inglês "christian."

30.3.12

Falsa Equivalência II

Uma das coisas que mais costumam me irritar, e um dos recursos favoritos de quem defende (por ingenuidade ou interesse, ou os dois) uma situação opressora, é a falsa equivalência. Para deixar claro o que é a falsa equivalência, ela não é qualquer caso em que se apresenta como iguais coisas díspares: se alguém disser "maçãs são uma fruta pouco doce" e alguém disser "é, mas carne é vermelha," isso não será uma falsa equivalência. Será um non sequitur. Falsa equivalência é quando se reduz a diferença entre duas situações apresentando sua característica em comum. Para o exemplo absurdo, é algo como "Roubar uma maçã é crime, genocídio é um crime. Sou contra ambos porque são crimes." Pera, deixa eu melhorar a coisa: "Helmut roubou meia dúzia de maçãs. Adolf cometeu meia dúzia de genocídios. Me recuso a dizer que Adolf é pior do que Adolf, porque ambos cometeram crimes." É um truque de prestidigitação, como a maioria das falácias que fazem parte da maleta do retórico. Usa uma verdade (ambas as coisas são crimes) para escamotear uma diferença importante.

A falácia da falsa equivalência é, obviamente, sempre utilizada por quem toma o lado mais errado numa disputa. Sempre que as ações erradas desse lado são (por qualquer razão) indisfarçáveis, pode-se, ou bem lançar mão do contrafatual ("se pudesse, ele faria pior"), ou bem da falsa equivalência. Assim é com os defensores daquilo que eles chamam de Regime Militar, e da gloriosa revolução de 31 de Março de 1964. Também conhecida como golpe de 64, e ocorrida entre 31 de Março e 1º de Abril de 1964. Estranhamente, os generais não contaram o dia de sua vitória, 1º de Abril, como o marco inicial da revolução.

Nota: estou chamando este post de "Falsa Equivalência II" porque o I seria este aqui sobre Orgulho Branco.

Os defensores do golpe militar, e da ditadura que se lhe sucedeu, e durou mais de um quarto de século, praticam tanto a falsa equivalência quanto seu irmão-oposto, que fala que nada que não seja o tipo perfeito e platônico de uma categoria lhe pertence. A ditadura brasileira, parafraseando a Folha de São Paulo, não foi uma ditadura, mas uma "ditabranda" em comparação com as piores ditaduras do mundo. A frase é ofensiva a qualquer pessoa com o mínimo de neurônios, e não só a quem foi morto e torturado pela ditabranda, claro. Se assim fosse, nem Stalin e Mao foram tão ruins assim, porque não foram Hitler.

Há outras falsas equivalências, mais diretas. Por exemplo, a de que "a lei da anistia vale pra todos, se for revogá-la vão ter que prender também a Dilma e os outros esquerdistas." Ora, em sua imensa maioria aqueles esquerdistas envolvidos na luta armada contra a ditadura JÁ FORAM PUNIDOS. Foram mais do que punidos, já que nem sequer a legislação da própria ditadura previa eletrochoque, privação sensória, pau de arara, ácido na genitália, ou outras brandas gentilezas ensinadas aos torturadores brasileiros e latinoamericanos pelos legionários franceses. Os anistiados pela lei de anistia foram aquelas pessoas que não cometeram nenhum crime que não fosse político. Se é esse o problema, ótimo. Revoga-se a lei da anistia para todos aqueles culpados unicamente de crimes políticos. Tá feliz?

Outra: de que "tanto militares quando terroristas cometeram crimes, não há diferença entre eles." Essa é prima, na verdade, se mais encorpada e com mais mentira, da idéia contemporânea que contrapõe direitos humanos e "direitos dos humanos direitos," na frase de Serra e Alckmin. Prima porque iguala pessoas cometendo crimes e o Estado os cometendo; e é surreal que gente de direita, que reinvindica uma tradição liberal e defensora do particular frente ao Estado, não veja essa diferença. E maior e mais encorpada porque, ao contrário dos traficantes de drogas, os estudantes que participaram da luta armada contra a ditadura não mataram e torturaram às centenas. Claro, mataram algumas pessoas em suas ações. Era uma luta armada, afinal de contas. Mas qualquer conta simples vai ver que não são escalas nem remotamente comparáveis. Aliás, se houvesse algum tipo de equivalência, não apenas os generais não agiriam contra a abertura dos arquivos da ditadura como seriam os primeiros a mostrá-los em sua defesa.

Mais uma: "tal blog de esquerda age como agiriam os militares." Essa quase no nível da comparação entre Helmut e Adolf. Vamos lá, censurar um comentário não é a mesma coisa que fechar órgãos de imprensa e torturar jornalistas de baciada. A esquerda está na Presidência da República faz 10 anos; a oposição ao regime militar há 18. Sabe quantos órgãos de imprensa foram fechados por fazer oposição desde então? Zero. No caso do PT, nem judicialmente, o que é fácil no Brasil, foi feito algo contra a imprensa. Alguém imagina a Veja, em 1969, fazendo capas com o Costa e Silva de polvo satânico?

É claro que a falsa equivalência não é o único argumento dos granadeiros e de suas vivandeiras. Também há o contrafatual. Ele é assim: "não se sabe como seria a esquerda se tivesse ganho." Ora, é verdade, não se sabe. Mas, fora de alguns contos de ficção científica mais surrealistas, não se imputa a ninguém um crime que "poderia" ter cometido. Vai saber se dona Amélia do apartamento 5 não seria, em outra situação, uma terrível serial killer? Isso a torna certamente pior do que o sujeito que matou uma pessoa, não? Pois é, o contrafatual a favor da ditadura é exatamente esse. Não há como saber o que aconteceria se "a esquerda" (qual delas?) da época tomasse o poder, porque não tomou. Há como saber duas coisas:

A) quando a esquerda, lato sensu que inclui a oposição da época, via PSDB e depois o PT, chegou ao poder, não praticou censura, tortura e assassinato de seus opositores em massa, e

B) não havia muita chance de qualquer tipo de revolução comunista, razão alegada pelos militares para o golpe, acontecer no Brasil. As próprias rapidez e facilidade com que o golpe aconteceu confirma isso - não custa lembrar que os navios americanos da Operação Brother Sam nem tiveram que chegar ao Brasil, levando a que fossem considerados por muito tempo uma invenção paranóica da esquerda.

Falsa equivalência, contrafato, truculência, segredo. Não são exatamente o tipo de argumento usado por quem se acha inocente.

31.3.11

White Pride

Volta e meia alguém, mesmo sem ser particularmente racista (numa sociedade que é racista, não dá pra dizer que alguém seja inteiramente livre disso), repete aquela pergunta de white power, "se você pode ter orgulho negro, por que não orgulho branco, ein, ein?" A resposta que eu dou normalmente é a tradicional: porque orgulho negro se trata de orgulho de ter sobrevivido, e ainda sobreviver, a uma sociedade que lhe oprime, assim como o orgulho gay; nessa dicotomia, orgulho branco ou orgulho hétero ou bem são uma besteira sem sentido ou bem são orgulho de fazer parte dos opressores (ou, pelo menos, dos privilegiados). E sinceramente, a não ser que você seja uma dominatrix, acho que ninguém acha tão legal ou virtuoso oprimir os outros quanto manter a cabeça erguida diante da opressão. O orgulho negro, ou gay, explícito, se dá justamente para afirmar o valor frente a um orgulho implícito branco ou hetero fortíssimo. É como a piada do dia internacional da mulher; agora que acabou voltamos ao ano internacional do homem.

 Isso tudo, claro, se fôssemos apenas levar em consideração as palavras num vácuo sem história, porque "white pride" tem uma história específica de supremacismo branco, da Ku Klux Klan e dos whiteskins e boneheads. Ignorá-la para fazer retórica barata é como querer fundar um partido cujas bandeiras sejam o nacionalismo, o socialismo, e a defesa dos trabalhadores. Na Alemanha. O Thor até curte...

Racismo reverso não existe, ou melhor, não tem importância, porque não tem poder. Há doidos aqui e acolá como o Farrakhan, mas a Nação do Islã é um culto/gangue obscuro, não o sistema de poder da sociedade inteira. Num país, num planeta em que ser loiro é sinônimo de ser bonito e cabelo pixaim é "ruim," ser xingado de branquelo não tem como carregar o mesmo peso que ser xingado de crioulo. Aimeudeus, sofri preconceito por ser branco e rico porque não me tratavam como igual. Claro, porque o ressentimento de gente que não tem os mesmos privilégios que você é a mesma coisa que o desprezo de quem está acima de você. Falar em racismo de negros contra brancos é imaginar que se trata de tribos díspares em conflito, é entender errado o racismo como manifestação de xenofobia. Curiosamente, é uma visão que depende da existência a priori, e não como construção social, hierárquica e nada neutra, de raças humanas - e que é endossada por que gente que gosta de encher a boca pra dizer que não há raças humanas (então não deveria haver ação afirmativa, é a conclusão).

Hoje, vendo a wikipédia sobre os bairros do Rio, achei algo que atenta para uma das facetas desse orgulho, que se mistura com a noção dos EUA como modelo de civilização. É que o brasileiro - ou pelo menos, e principalmente, a classe média brasileira, que é afinal de contas principalmente branca e poderia concordar com a frase infeliz de Gilberto Freyre quando este diz que o brasileiro se misturou com o negro e com o índio - tem, muitas vezes, um orgulho desmesurado de suas raízes imigrantes. Você tem um único imigrante na família? Basta para se proclamar "italiano," "alemão," ou "espanhol." A importância da imigração é ensinada na escola, mesmo em livros radicais de esquerda, de forma epocal; no fim do século XIX, saem as lutas dos escravos, exceto por uma nota de rodapé dizendo que não foram devidamente apoiados após a abolição, e entram os imigrantes. O povo brasileiro do século XX, nessa visão, é imigrante.

E o Brasil não chega a ser exatamente um país de imigrantes, não na escala dos EUA ou da Argentina. A maior leva imigratória brasileira, de muito longe, foi mesmo a africana, forçada; 4,4 milhões de escravos, versus 3,3 de todos os imigrantes não-escravos juntos. E esses 3,3 milhões de imigrantes, ao longo da maior parte de um século, se somaram a um país que tinha, em 1872, quase dez milhões de habitantes, dos quais seis milhões de pretos e pardos. A imensa maioria do Brasil (e não da classe média) é mesmo descendente, não de imigrantes, mas de pretos, ibéricos da época da colônia, e índios; os imigrantes não chegam a ser um prato principal nessa mistura. Como foram trazidos justamente, em parte, por se acreditar na sua "superioridade racial," e se beneficiaram tanto de leis de imigração que em alguns momentos foram ridiculamente generosas quanto do racismo em geral, os imigrantes rapidamente viraram a nova classe média, expulsando dela a maior parte dos mulatos.

No caso dos bairros da wikipédia, chega a ser hilário. Alguém realmente acha que um componente importante da população de Botafogo é inglês? (No caso, como o modo de valorizar a imigração segundo o modelo americano já foi estabelecido, somaram ali uma igualmente enigmática Angola.)

Outro caso em que esse orgulho, essa ânsia de ser imigrante (e não-negro ou se mestiço só o bastante pra ter bunda, de preferência) fica engraçado é nos números anunciados da população "x" do Brasil. Fora os portugueses e os italianos, cujo número no Brasil é mesmo substancial (se bem menor, no caso dos segundos, que na Argentina), com efeito, os números propagandeados significariam que todo japonês, árabe, e alemão que veio pro Brasil teve mais filhos que o Genghis Khan. Assim, São Paulo sozinha teria mais de seis milhões de libaneses, apesar de haver, nos censos de 1920 e 1940, uns cinquenta mil imigrantes daquelas bandas. Os 250.000 alemães que chegaram até 1970 representariam a maior parte da população do Sul - uma multiplicação de 1 pra cada 50, pelo menos, o que significa que o Gobineau estaria certo e a fertilidade ariana era mesmo maior, já que se os pobres bugres brasileiros da mesma época tivessem se multiplicado do mesmo jeito, o Brasil seria mais ou menos do tamanho da Índia.