Em "Ascensão e queda das vanguardas novecentistas," Hobsbawm conclui, afinal, que todo aquele som e fúria produzido pelas vanguardas que pretendiam reinventar a arte havia significado nada. A verdadeira arte do século XX, se desenvolvendo em estúdios poeirentos mundo afora, passava longe dos artistas, era o cinema. Sempre é bom lembrar, o que o Hobsbawm não faz muito bem, que, paradoxalmente, a época de ouro de Hollywood também foi uma época em que (relativamente) sua importância no cinema mundial era restrita; países como o México, o Japão, a Alemanha e a França ainda produziam muito cinema comercial naquela época.
Hoje, se a declaração de irrelevância de Duchamps e Rothkos ainda soa chocante pra quem lida com arte, ninguém discute se o cinema é arte. Et pourtant, quando se fala em novos desenvolvimentos pra arte, de arte interativa, de novas possibilidades, ainda há quem pense num Bill Viola, no recém-defunto Nam June Paik, em alguma espécie de novo parangolé. Enquanto isso, em estúdios poeirentos mundo afora, os joguinhos de computador já passaram a marca dos 30 milhões de dólares na produção, e trezentas pessoas nos créditos.* Tudo quanto é crítico de cinema babou, à época, pela animação do longa "Final Fantasy: the Spirits Within" - pois bem, a animação dos joguinhos de mesmo nome é muito melhor que a do filme. (Os roteiros são a mesma bosta.)
Assim como os filmes no começo do século XX, os joguinhos do XXI já se dividiram em "comerciais" e "não comerciais." Há muitos joguinhos feitos por aí que pretendem explicitamente romper com a lógica dos gêneros estabelecidos de joguinho, especialmente com a obsessão porradística de muitos deles. Também há, já, produtos comerciais bastante sofisticados como obras narrativas, apesar de se ater a esses gêneros. Alguns deles até vendem! O RPG "Torment," em que apesar de entrar em brigas você tem a importância delas diminuída por simplesmente não poder morrer, com alusões filosóficas e a linguagem dos personagens baseada no rhyming cant dos malandros londrinos sob o rei Jorge, vendeu tanto quanto os outros da mesma "linha," baseada no D&D e dirigida a um mercado de massa de adolescentes (algo como 406º lugar na lista da Amazon hoje, sete anos depois).
O desgarramento da simples possibilidade técnica, claro, contrasta com a necessidade das grandes empresas que combinam produção de conteúdo e de meios, de imprimir um ritmo de crescimento ele mesmo crescente ao mercado. É mais fácil lidar com um relatório que diz que novos sistemas nos quais se investiu têm mais pixels, ciclos ou o que for do que com avaliações subjetivas; é mais fácil integrar o que não tem conteúdo com conteúdos estabelecidos; organizações de grande porte são, afinal, quase inerentemente conservadoras.
Mas tudo isso não quer dizer que os joguinhos como arte não evoluam, claro. O cinema também teve seus cinemascopes e companhia. Uma barreira maior é que, em contraste com o entusiasmo pelo cinema das vanguardas do começo do XX, a classe artística contemporânea é bem mais academicista e calcificada, o que faz com que não tenha incentivos (com exceções) a abraçar o meio; além disso, os joguinhos amadureceram muito rápido como diversão de crianças. Mesmo que hoje a maioria dos que os jogam sejam adultos, a impressão permanece. A maior respeitabilidade dedicada ao meio interativo parece ser na forma de websites, principalmente os relacionados a alguma outra forma de arte.
Talvez a distinção esteja no caráter privado do joguinho? A videoarte e a animação para vídeo nunca conseguiram status comparável ao cinema. A arte, para ser levada a sério, tem de ser coletiva? (O livro, no começo, também era. :p)
*Parte do aumento nos custos é culpa de, num caminho contrário ao trilhado pelo cinema com as câmeras, e agora os cinemas, digitais, os custos "técnicos" de joguinhos novos estarem aumentando; assim, para ser compatível com um Sony Playstation 3 um jogo gastará dez vezes mais do que gastava pra funcionar com o PS2, com um retorno incremental, se tanto, em qualidade.
Auferre, trucidare, rapere, falsis nominibus imperium; atque, ubi solitudinem faciunt, pacem appellant.
Pesquisar este blog
6.7.06
5.7.06
RIP Lavoisier
Às vezes, só às vezes, eu acho que tecnocratas, sejam eles de governos ou corporações privadas, realmente cometem alguns dos abusos que cometem, não por descaso ou má-fé, mas simplesmente por acreditar que, como no preto-no-branco das tabelas, território e espaço não existem, e todas as coisas são fungíveis como o dinheiro.
Exemplo disso é que o Governo Federal, ao mesmo tempo que diz que quer "revitalizar" o porto do Rio (não confundir com a "revitalização" da área portuária, que é outra coisa) está tirando, essa semana, vários pedaços dele.
Na ponta do Caju, parte do que hoje é pátio de contêineres do porto vai acabar, com a reativação do estaleiro pra fabricar os navios da Petrobrás. E ambos estão ameaçados pelo decreto que cria, ali, um "terminal pesqueiro." O hospital a ser feito no antigo prédio do JB (ô tristeza, tá, hospital é uma coisa legal, mas eu queria era que o JB ainda tivesse lá) comeu outro pátio, que vai virar estacionamento. O pedaço do cais mais antigo, entre a Praça Mauá e a Rodoviária, já está designado pra revitalização da área portuária, então também será subtraído...vão revitalizar que porto, sobrando disso tudo? As traineiras vão estacionar por cima ou por baixo dos cargueiros?
Bem, vai ver o negócio é matar de vez, pra justificar o SUPERPORTO (assim, com maiúsculas) de Sepetiba. Esse é tão importante que aposto que, como a vizinha siderúrgica da Krupp-Thyessen, não vai precisar nem de relatório ambiental pra receber a licença prévia da Feema e do Ibama.
Exemplo disso é que o Governo Federal, ao mesmo tempo que diz que quer "revitalizar" o porto do Rio (não confundir com a "revitalização" da área portuária, que é outra coisa) está tirando, essa semana, vários pedaços dele.
Na ponta do Caju, parte do que hoje é pátio de contêineres do porto vai acabar, com a reativação do estaleiro pra fabricar os navios da Petrobrás. E ambos estão ameaçados pelo decreto que cria, ali, um "terminal pesqueiro." O hospital a ser feito no antigo prédio do JB (ô tristeza, tá, hospital é uma coisa legal, mas eu queria era que o JB ainda tivesse lá) comeu outro pátio, que vai virar estacionamento. O pedaço do cais mais antigo, entre a Praça Mauá e a Rodoviária, já está designado pra revitalização da área portuária, então também será subtraído...vão revitalizar que porto, sobrando disso tudo? As traineiras vão estacionar por cima ou por baixo dos cargueiros?
Bem, vai ver o negócio é matar de vez, pra justificar o SUPERPORTO (assim, com maiúsculas) de Sepetiba. Esse é tão importante que aposto que, como a vizinha siderúrgica da Krupp-Thyessen, não vai precisar nem de relatório ambiental pra receber a licença prévia da Feema e do Ibama.
4.7.06
Pão de tapioca
Aparentemente, tem mais chances de aprovação do que se pensava o projeto do Aldo Rebelo, de acrescentar fécula de mandioca à farinha de trigo (à usada na panificação). Isso é, toda a farinha de trigo comercializada para padarias e fábricas de pão (são mais de 50.000 padarias, responsáveis por mais de dois terços do consumo brasileiro de farinha de trigo), terá, obrigatoriamente, 10% de fécula de mandioca, por peso, misturada. Depois de passar por uma comissão especial (sic), a lei, claro, adicionou outras farinhas, como arroz, caju e milho. Vai conceder subsídios e incentivos fiscais aos moinhos por conta da adição, claro.
O presidente do congresso defende o projeto, que teria a intenção de baratear o pão e, de forma mais imediata, ajudar os plantadores de mandioca de seu estado, dizendo que é "que nem a mistura de álcool na gasolina." Ahem.
1) Se o nobilíssimo deputado consome combustível, sinto muito. Eu como, o que é algo bem diferente. Mas munido dessa informação, peço desde já que seu mordomo passe a alimentar o nobilíssimo com papa de nenê todo dia.
2) Mesmo no caso do álcool e gasolina, os carros tiveram de ser adaptados para que a gasolina brasileira, conhecida lá fora como E20 ou E25 (etanol a tantos por cento), fosse introduzida em seus tanques. O Aldo pretende adaptar a gente?
3) Trigo e féculas não são a mesma coisa. Quer dizer, não é simplesmente o gosto que muda, é que o trigo serve pra fazer pão porque ele tem glútem; tem uma proteína elástica que é alterada pelo fermento e quando é batido, o que faz com que ele forme aquela massa com as bolhinhas mais firme do que um bolo. Ainda dá pra fazer pão com proporções de amido (féculas, farinha de milho, etc) bem maiores do que 10%; um pão saloio tem 16% de farinha de milho, um pão de milho pode ter até 2o e poucos por cento. Mas não é o mesmo pão. Muda a textura, muda o sabor, muda tudo. Vamos ter pãezinhos de mandioca ao invés de pãezinhos franceses. E esses outros pães vão, em alguns casos, se tornar impossíveis. Se você já tem 10% de mandioca na farinha de trigo, adicionar um quinto de fubá pra fazer um pãozinho de milho num babá borocoxoxo, não num pão, com menos de três quartos de farinha de trigo na mistura.
4) Vai baratear p... nenhuma. Não há produção de mandioca o bastante; o preço dela vai aumentar. E, no Brasil, se aumentar bastante os minifúndios de mandioca de Alagoas, que o Aldo quer beneficiar, vão é ser atropelados pelos latifúndios do agronegócio, auxiliados pelos subsídios e incentivos previstos na lei.
O presidente do congresso defende o projeto, que teria a intenção de baratear o pão e, de forma mais imediata, ajudar os plantadores de mandioca de seu estado, dizendo que é "que nem a mistura de álcool na gasolina." Ahem.
1) Se o nobilíssimo deputado consome combustível, sinto muito. Eu como, o que é algo bem diferente. Mas munido dessa informação, peço desde já que seu mordomo passe a alimentar o nobilíssimo com papa de nenê todo dia.
2) Mesmo no caso do álcool e gasolina, os carros tiveram de ser adaptados para que a gasolina brasileira, conhecida lá fora como E20 ou E25 (etanol a tantos por cento), fosse introduzida em seus tanques. O Aldo pretende adaptar a gente?
3) Trigo e féculas não são a mesma coisa. Quer dizer, não é simplesmente o gosto que muda, é que o trigo serve pra fazer pão porque ele tem glútem; tem uma proteína elástica que é alterada pelo fermento e quando é batido, o que faz com que ele forme aquela massa com as bolhinhas mais firme do que um bolo. Ainda dá pra fazer pão com proporções de amido (féculas, farinha de milho, etc) bem maiores do que 10%; um pão saloio tem 16% de farinha de milho, um pão de milho pode ter até 2o e poucos por cento. Mas não é o mesmo pão. Muda a textura, muda o sabor, muda tudo. Vamos ter pãezinhos de mandioca ao invés de pãezinhos franceses. E esses outros pães vão, em alguns casos, se tornar impossíveis. Se você já tem 10% de mandioca na farinha de trigo, adicionar um quinto de fubá pra fazer um pãozinho de milho num babá borocoxoxo, não num pão, com menos de três quartos de farinha de trigo na mistura.
4) Vai baratear p... nenhuma. Não há produção de mandioca o bastante; o preço dela vai aumentar. E, no Brasil, se aumentar bastante os minifúndios de mandioca de Alagoas, que o Aldo quer beneficiar, vão é ser atropelados pelos latifúndios do agronegócio, auxiliados pelos subsídios e incentivos previstos na lei.
30.6.06
Questão de perspectiva
O Globo noticia "Club Med em praia entre Cabo Frio e Búzios será o mais luxuoso do mundo" Há dois problemas reais, o título de duas linhas e que nenhuma das fontes citadas fala em "mais luxuoso do mundo," uma alegação bastante exótica e que ocupa metade do título. Mas não é isso que me chamou a atenção. É que, sabe, eu acho que noticiaria como "Dinheiro público para construir em reserva ecológica."
A Área de Proteção Ambiental, que será cortada pelo Club Med e pela infraestrutura que atende ao resort, a ser criada pelos diferentes níveis de governo, apesar do pequeno tamanho, é das mais diversas do estado, incluindo lagoas, dunas, uma pequena serra e planície costeira. Ela foi criada especificamente para ser um corredor ecológico preservando a sucessão de biomas entre mar e morro, função que será eliminada com a estrada pavimentada e o resort.
Numa área de proteção ambiental, ausentes Resorts Mais Luxuosos do Mundo, são proibidos desmatamentos, abates de árvores, extração de madeiras, retiradas de espécies vegetais, promoção de queimadas, caça, perseguição de animais, funcionamento de indústrias poluidoras e desmatamento ou ocupação nas faixas marginais de mananciais e lagoas. mas a estrada a ser pavimentada e duplicada , de sete quilômetros por 7 metros, ocupará uma área adicional, contando a infra lindeira, de 10ha, o que não é tanto assim comparado aos 9.900 da área total, mas é desmatamento, e pode ser considerado "indústria poluidora." Vai gastar quatro milhões. O resort, a um custo de 70 milhões, vai ocupar, alegadamente, outros 70ha, e é justificado por gerar "3000 empregos." - entre a estrada e incentivos diversos, sem contar o custo da reserva ecológica depredada, nem a ampliação do aeroporto de Cabo Frio, dá mais ou menos 5.000R$ de investimento público por emprego, o que é, admita-se, uma produtividade bem maior do que a média dos investimentos e incentivos governamentais em indústria pesada. (120.000 por emprego). Como no caso da refinaria que o governo federal resolveu pôr em Itaboraí, ninguém explicou direito ainda de onde vai sair a água para abastecer o empreendimento.
Não que o Club Med seja em nada excepcional. Os grandes resorts, pouco integrados na economia e muito menos na sociedade local (como no caso, até com aeroporto quase particular) ocupam áreas de grande beleza cênica, e portanto frequentemente de proteção ambiental, em todo o mundo. Não poluem tanto quanto uma siderúrgica da vida, mas compensam se situando em pontos críticos. Volta e meia, como emblemas da divisão mundial de riqueza que são, têm que encarar o ataque de um grupo terrorista ou de bandidos da vida, principalmente na Ásia onde são mais comuns. (O último ataque terrorista foi no Egito, em Abril deste ano)
A Área de Proteção Ambiental, que será cortada pelo Club Med e pela infraestrutura que atende ao resort, a ser criada pelos diferentes níveis de governo, apesar do pequeno tamanho, é das mais diversas do estado, incluindo lagoas, dunas, uma pequena serra e planície costeira. Ela foi criada especificamente para ser um corredor ecológico preservando a sucessão de biomas entre mar e morro, função que será eliminada com a estrada pavimentada e o resort.
Numa área de proteção ambiental, ausentes Resorts Mais Luxuosos do Mundo, são proibidos desmatamentos, abates de árvores, extração de madeiras, retiradas de espécies vegetais, promoção de queimadas, caça, perseguição de animais, funcionamento de indústrias poluidoras e desmatamento ou ocupação nas faixas marginais de mananciais e lagoas. mas a estrada a ser pavimentada e duplicada , de sete quilômetros por 7 metros, ocupará uma área adicional, contando a infra lindeira, de 10ha, o que não é tanto assim comparado aos 9.900 da área total, mas é desmatamento, e pode ser considerado "indústria poluidora." Vai gastar quatro milhões. O resort, a um custo de 70 milhões, vai ocupar, alegadamente, outros 70ha, e é justificado por gerar "3000 empregos." - entre a estrada e incentivos diversos, sem contar o custo da reserva ecológica depredada, nem a ampliação do aeroporto de Cabo Frio, dá mais ou menos 5.000R$ de investimento público por emprego, o que é, admita-se, uma produtividade bem maior do que a média dos investimentos e incentivos governamentais em indústria pesada. (120.000 por emprego). Como no caso da refinaria que o governo federal resolveu pôr em Itaboraí, ninguém explicou direito ainda de onde vai sair a água para abastecer o empreendimento.
Não que o Club Med seja em nada excepcional. Os grandes resorts, pouco integrados na economia e muito menos na sociedade local (como no caso, até com aeroporto quase particular) ocupam áreas de grande beleza cênica, e portanto frequentemente de proteção ambiental, em todo o mundo. Não poluem tanto quanto uma siderúrgica da vida, mas compensam se situando em pontos críticos. Volta e meia, como emblemas da divisão mundial de riqueza que são, têm que encarar o ataque de um grupo terrorista ou de bandidos da vida, principalmente na Ásia onde são mais comuns. (O último ataque terrorista foi no Egito, em Abril deste ano)
28.6.06
Você sabe que está ficando velho
Quando tem saudades do tempo em que chacinas eram um acontecimento anual, que recebia atenção generalizada da imprensa brasileira e estrangeira. Desde que Saulo Ramos instituiu o comunicado oficial sobre emboscadas na polícia de São Paulo, isso parece ser coisa do passado. A chacina do mês (13 "bandidos") mal apareceu no miolo dos jornais; por pouco ia ser nota de pé de página. Teve 69 fontes no google news, contra 276 de "Justiça adia decisão sobre Varig."
Tudo bem, a última grande chacina ainda mal acabou, mas mesmo assim...
E sabe o que mais me estranha? Um partido tão preocupado com a imagem internacional quanto o PSDB, que fez tanto barbadas fenomenais quanto boas ações* com a quase exclusiva intenção de aparecer bem na fita, ter admitido que quadros seus efetuassem a institucionalização do caráter assassino da polícia brasileira, que antes funcionava "por fora," em esquadrões da morte e escuderias LeCoq. Vejamos pelo lado bom essa institucionalização: não dá mais pra empregar a defesa Rumsfeld, das maçãs podres, quando a violência é uma estratégia oficial da polícia, resultado de táticas coordenadas empregando tanto o setor de "inteligência" quanto o de repressão. Fica mais claro que o problema não é algum defeito de fabricação nos nossos policiais, que seriam piores que os dos ingleses, mas uma estratégia deliberada, uma "política de governo," contando com apoio de pelo menos grande parte da população.
Depois reclamam quando um tablóide australiano de quinta fala mal dessa bodega.
*Eg 1: os tratados desiguais de proteção de investimentos. Eg 2: o reconhecimento da existência de racismo no Brasil.
Tudo bem, a última grande chacina ainda mal acabou, mas mesmo assim...
E sabe o que mais me estranha? Um partido tão preocupado com a imagem internacional quanto o PSDB, que fez tanto barbadas fenomenais quanto boas ações* com a quase exclusiva intenção de aparecer bem na fita, ter admitido que quadros seus efetuassem a institucionalização do caráter assassino da polícia brasileira, que antes funcionava "por fora," em esquadrões da morte e escuderias LeCoq. Vejamos pelo lado bom essa institucionalização: não dá mais pra empregar a defesa Rumsfeld, das maçãs podres, quando a violência é uma estratégia oficial da polícia, resultado de táticas coordenadas empregando tanto o setor de "inteligência" quanto o de repressão. Fica mais claro que o problema não é algum defeito de fabricação nos nossos policiais, que seriam piores que os dos ingleses, mas uma estratégia deliberada, uma "política de governo," contando com apoio de pelo menos grande parte da população.
Depois reclamam quando um tablóide australiano de quinta fala mal dessa bodega.
*Eg 1: os tratados desiguais de proteção de investimentos. Eg 2: o reconhecimento da existência de racismo no Brasil.
27.6.06
Répi burfdei chu iú...
Agora que eu reparei. Essa porcaria aqui tá fazendo dois anos e 11 dias. Então, de resolução de ano novo, vou atualizar os links do lado, e voltar a postar quase todo dia.
Em comemoração, alguns posts de que eu mesmo gostei olhando os primeiros meses, numa vergonhosa demonstração de egolatria:
Pirando
Falando mal das olimpíadas
Malhando meu Judas predileto
Falando besteira
Outro Leitmotif
E um mês, mais recente, em que as notícias foram interessantes, em geral.
Em comemoração, alguns posts de que eu mesmo gostei olhando os primeiros meses, numa vergonhosa demonstração de egolatria:
Pirando
Falando mal das olimpíadas
Malhando meu Judas predileto
Falando besteira
Outro Leitmotif
E um mês, mais recente, em que as notícias foram interessantes, em geral.
25.6.06
Tudo pelo social
No Brasil e no mundo, cada vez mais fica a impressão de que, se a ação política em alguns temas cada vez mais segue um consenso "responsável" à direita (não que o resto dos temas, em que há discussão, não seja importante), o discurso por sua vez se divide entre temas controversos e um consenso "responsável" à esquerda. Coisas como Cláudio Lembo falando da elite branca. O mais bizarro é quando, como no presente momento em Westminster, se usa um consenso pra avançar o outro...
http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/politics/5115912.stm
Os tories estão propondo introduzir legislação sobre direitos humanos no Reino Unido, se inspirando na Bill of Rights americana pra isso. Conservadores a favor dos direitos humanos? Mais ou menos - a tal da Carta substituiria o atual decreto de direitos humanos, que codifica a legislação européia nesse sentido e, segundo os conservadores,
"any fair audit of the Human Rights Act would come to the conclusion that change is needed in order to protect both our security and freedom more effectively".
("qualquer avaliação imparcial do Decreto de Direitos Humanos chegará à conclusão de que mudanças são necessárias para proteger de forma mais eficaz tanto nossa segurança quanto nossa liberdade")
Por que será que eu tô lembrando da Iniciativa Céus Puros do Bush, que basicamente substituía leis exigindo controles de poluição por incentivos à indústria poluidora, independentes de controles?
http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/politics/5115912.stm
Os tories estão propondo introduzir legislação sobre direitos humanos no Reino Unido, se inspirando na Bill of Rights americana pra isso. Conservadores a favor dos direitos humanos? Mais ou menos - a tal da Carta substituiria o atual decreto de direitos humanos, que codifica a legislação européia nesse sentido e, segundo os conservadores,
"any fair audit of the Human Rights Act would come to the conclusion that change is needed in order to protect both our security and freedom more effectively".
("qualquer avaliação imparcial do Decreto de Direitos Humanos chegará à conclusão de que mudanças são necessárias para proteger de forma mais eficaz tanto nossa segurança quanto nossa liberdade")
Por que será que eu tô lembrando da Iniciativa Céus Puros do Bush, que basicamente substituía leis exigindo controles de poluição por incentivos à indústria poluidora, independentes de controles?
22.6.06
Pai Tomás Moreno e a Grande Coalizão
No mesmo blog em que dá o possível (se for verdade) furo de que o PT e o PSDB podem estar preparando uma versão brasileira da coalizão CDU-Socialistas alemã, sem indicar se o "FL" do PSDBFL estaria sendo rifado ou não, o Moreno, do Globo, solta esta pérola:
Em matéria de negritude, não aceito lição de moral de ninguém! Já fui convidado a me retirar de palácios, já fui impedido de entrar pela porta da frente deles. Nunca denunciei, nunca me incomodei. Eu sou um crioulo de bem com a vida e com a cor.
Em matéria de negritude, não aceito lição de moral de ninguém! Já fui convidado a me retirar de palácios, já fui impedido de entrar pela porta da frente deles. Nunca denunciei, nunca me incomodei. Eu sou um crioulo de bem com a vida e com a cor.
20.6.06
Culatra
Uma das promessas de campanha do candidato Lula foi "construir no Brasil as plataformas de petróleo da Petrobras." Em termos reais, isso quis dizer aumentar o índice de nacionalização das encomendas da empresa, até porque literalmente não tinha como ser feito, já que não existe no Brasil estaleiro com um dique ou carreira capaz de construir um casco de plataforma.*
A medida, que parecia secundária, teve resultados de gente grande. A metalurgia fluminense (segunda do país) já havia começado a se recuperar com o aumento da demanda da Petrobras por embarcações de apoio, que apesar das regras de funcionamento "de múlti" anteriores já tinha resultado num reaquecimento parcial da indústria naval. Com o aumento da nacionalização, pela primeira vez em muito tempo o Rio de Janeiro teve crescimento na indústria de transformação (o resultado de declínio decenal tem sido maquiado pela apresentação de dados da "indústria" que incluem as atividades de extração mineral). Empresas de tudo que é porte, filiais de múltis ou domésticas, de baixa ou alta tecnologia, se instalaram ou reativaram, a um custo relativamente baixo quando comparado ao orçamento da Petrobras.
Expandindo o mesmo princípio, o governo decidiu se voltar para a indústria nacional para a renovaçã da frota da Transpetro, subsidiária de transportes da petroleira. Se antes se falava de umas poucas, apesar de caras, obras, dessa vez estavam sendo anunciadas em licitação as encomends de 22 navios de grande porte, com mais 20 a vir depois (a renovação integral e adequação às regras internacionais de toda a frota ainda exigiria mais uns 40 outros). Apesar de um navio custar um quinto de uma plataforma, fazendo com que o investimento total não fosse tão maior, mais desse investimento estaria concentrado no Brasil, incluindo o casco e talvez os motores (um motor de petroleiro é grande o bastante pra que transportá-lo, mesmo de navio, seja um custo enorme), as peças mais caras. Além disso, a natureza quase seriada das encomendas permitiria aos estaleiros mais economia de escala; e permitiria, também, que eles adquirissem meios materiais e conhecimento para produzir navios para terceiros.
Pois bem, a licitação (cujo resultado será anunciado mais ou menos agora, enquanto eu escrevo) não contava com a astúcia do Chapolim, digo, dos donos de estaleiros. A maioria dos estaleiros brasileiros (fora a indústria do Norte do Brasil, no Amazonas, que não tem tamanho pra fazer petroleiro) ou pertence a grandes grupos internacionais, ou é sobrevivente da "fase áurea" da construção naval, no fim dos anos 70. E essa "fase áurea" se baseou na distribuição à farta de recursos do governo brasileiro, fazendo com que navios caros e ruins fossem baratos para o comprador, o bastante para tornar o Brasil o segundo maior produtor do mundo por tonelagem. Os estaleiros, ao ver a promessa de uma encomenda do governo, se atiçaram no sentido de conquistá-la, por quaisquer meios legais e políticos que pudessem se impor ao governo e à Transpetro, e não fazendo uma boa oferta.
Desse modo, o tiro saiu pela culatra. O estímulo à construção naval pode até vir quando a licitação for concluída, mas durante esses três anos, com a demanda nacional e mundial de navios em alta e os grandes estaleiros asiáticos sobrecarregados de encomendas, os estaleiros nacionais deixaram passar encomendas privadas, às vezes ostensivamente, de olho na Transpetro, ou então seus donos impediram que as empresas fossem passadas adiante para voltar a funcionar, de novo de olho nos contratos bilionários.
*Diques e carreiras são os lugares onde se monta um navio. No primeiro caso, é uma grande forma, com portas que se abrem para que entre a água quando o navio fica pronto; no segundo, um plano inclinado, para que ele possa escorregar até a água. No momento, o governo planeja construir um dique seco para a construção de plataformas (que não precisa ser tão comprido quanto um pra navios, mas muito mais largo) em Pernambuco ou no Rio Grande do Sul.
'
Empreendedor brasileiro decepcionado com o fim da Primeira Leitura
A medida, que parecia secundária, teve resultados de gente grande. A metalurgia fluminense (segunda do país) já havia começado a se recuperar com o aumento da demanda da Petrobras por embarcações de apoio, que apesar das regras de funcionamento "de múlti" anteriores já tinha resultado num reaquecimento parcial da indústria naval. Com o aumento da nacionalização, pela primeira vez em muito tempo o Rio de Janeiro teve crescimento na indústria de transformação (o resultado de declínio decenal tem sido maquiado pela apresentação de dados da "indústria" que incluem as atividades de extração mineral). Empresas de tudo que é porte, filiais de múltis ou domésticas, de baixa ou alta tecnologia, se instalaram ou reativaram, a um custo relativamente baixo quando comparado ao orçamento da Petrobras.
Expandindo o mesmo princípio, o governo decidiu se voltar para a indústria nacional para a renovaçã da frota da Transpetro, subsidiária de transportes da petroleira. Se antes se falava de umas poucas, apesar de caras, obras, dessa vez estavam sendo anunciadas em licitação as encomends de 22 navios de grande porte, com mais 20 a vir depois (a renovação integral e adequação às regras internacionais de toda a frota ainda exigiria mais uns 40 outros). Apesar de um navio custar um quinto de uma plataforma, fazendo com que o investimento total não fosse tão maior, mais desse investimento estaria concentrado no Brasil, incluindo o casco e talvez os motores (um motor de petroleiro é grande o bastante pra que transportá-lo, mesmo de navio, seja um custo enorme), as peças mais caras. Além disso, a natureza quase seriada das encomendas permitiria aos estaleiros mais economia de escala; e permitiria, também, que eles adquirissem meios materiais e conhecimento para produzir navios para terceiros.
Pois bem, a licitação (cujo resultado será anunciado mais ou menos agora, enquanto eu escrevo) não contava com a astúcia do Chapolim, digo, dos donos de estaleiros. A maioria dos estaleiros brasileiros (fora a indústria do Norte do Brasil, no Amazonas, que não tem tamanho pra fazer petroleiro) ou pertence a grandes grupos internacionais, ou é sobrevivente da "fase áurea" da construção naval, no fim dos anos 70. E essa "fase áurea" se baseou na distribuição à farta de recursos do governo brasileiro, fazendo com que navios caros e ruins fossem baratos para o comprador, o bastante para tornar o Brasil o segundo maior produtor do mundo por tonelagem. Os estaleiros, ao ver a promessa de uma encomenda do governo, se atiçaram no sentido de conquistá-la, por quaisquer meios legais e políticos que pudessem se impor ao governo e à Transpetro, e não fazendo uma boa oferta.
Desse modo, o tiro saiu pela culatra. O estímulo à construção naval pode até vir quando a licitação for concluída, mas durante esses três anos, com a demanda nacional e mundial de navios em alta e os grandes estaleiros asiáticos sobrecarregados de encomendas, os estaleiros nacionais deixaram passar encomendas privadas, às vezes ostensivamente, de olho na Transpetro, ou então seus donos impediram que as empresas fossem passadas adiante para voltar a funcionar, de novo de olho nos contratos bilionários.
*Diques e carreiras são os lugares onde se monta um navio. No primeiro caso, é uma grande forma, com portas que se abrem para que entre a água quando o navio fica pronto; no segundo, um plano inclinado, para que ele possa escorregar até a água. No momento, o governo planeja construir um dique seco para a construção de plataformas (que não precisa ser tão comprido quanto um pra navios, mas muito mais largo) em Pernambuco ou no Rio Grande do Sul.
'Empreendedor brasileiro decepcionado com o fim da Primeira Leitura
14.6.06
Ovo e galinha, com receita
Os gastos militares no mundo cresceram 3,4%, e a fatia dos EUA subiu pra 48% disso.
A opinião alheia sobre o país da Pecan Fudge Chocolate Pie continua no poço.
(Pra fazer a pâte brisée mencionada (pie shell), misture 125g de margarina com 50g de açúcar e 250g de farinha, e opcionalmente um ovo, até conseguir abrir com o rolo. Ajuda misturar antes com um garfo, pra quebrar a margarina.)
A opinião alheia sobre o país da Pecan Fudge Chocolate Pie continua no poço.
(Pra fazer a pâte brisée mencionada (pie shell), misture 125g de margarina com 50g de açúcar e 250g de farinha, e opcionalmente um ovo, até conseguir abrir com o rolo. Ajuda misturar antes com um garfo, pra quebrar a margarina.)
Assinar:
Postagens (Atom)