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30.9.05

EXPLETIVE!

Tony Blair - boldly going where only Bush's proctologist has ever gone before.

Wish list :

to have more stringent "anti-terrorist" legislation than US PATRIOT. Check. (90 dias sem acusação na cadeia; 5 anos de cadeia por falar bem de terrorista)

to kill more suspected terrorists at home. Check.

to practice Reaganomics. Check (evolução do Gini inglês positiva em quase 0.05)

to increase military spending. Check.

to make Greens angry. Check. (fresquin)

Recordar é viver

Em 1990, o país que estava em primeiro lugar no índice de competitividade do Fórum de Davos era o Japão.

29.9.05

Lógica

Não é só o Globo falando mal do Lula que tem dívida com Lewis Carroll, Lula falando bem do Lula também. Ao inaugurar uma fábrica de 3,6bn da Stora Enso, produtora de commodities para o mercado externo, o presidente disse que (parafraseando) "é de investimentos como esse que o Brasil precisa para deixar de ser um produtor de commodities para o mercado externo."

Em outros termos, A = -A.

Detalhe 1: O dito investimento tem financiamento do BNDES. Em troca do financiamento, a Stora Enso destinou 21 milhões a projetos sociais. Para efeito de comparação, os requerimentos sociais e ambientais em que teria incorrido se tivesse instalado a fábrica em seus países de origem, a Suécia ou a Finlândia, teriam custado no mínimo 8% do preço do projeto, ie uns 300 milhões. Lembrando: 1,45bn do dinheiro foi nosso. Se o BNDES comprasse dívida brasileira a baixo juro, como os correios japoneses fazem, saia mais rentável. A Agência Brasil fala em 10.000 empregos, o que dá 145.000 reais por emprego.

Detalhe 2: Procurar esse artigo no site da Folha deu numa notinha mínima. A falta que um Alckmin no palanque faz.


Companheira Marisa da Silva

28.9.05

Treplicando

Continuando um pouco a própria "carta aos reaças," e um pouco o comentário do André.

A idéia de que "é difícil definir quem é o quê no Brasil" é um lugar comum, com uma base real na comparação com os EUA,* em que o racismo é baseado na ascendência. Mesmo que não haja mais nos EUA leis, como havia antigamente**, definindo qual a proporção de sangue negro que faz de alguém negro, a definição ainda é simples, e um afro-descendente que queira dizer que é branco estará "passing," fingindo, ao contrário daqui, em que a mesma pessoa será branca de verdade. O problema dessa formulação é que ela tem uma meia-verdade embutida, e que é irrelevante mesmo quando é verdade.

A meia verdade: é difícil definir exatamente quem é o que no Brasil, dentro de uma fatia específica da população, que inclui parte dos "pardos" e parte dos "brancos. Não em geral. A Bené é preta, e ninguém duvida disso. A Rosinha Garotinho é branca. O Vicentinho e a Marina Silva já são mais complicados. E notem, ao contrário do que quer o movimento negro, que rejeita a classificação do IBGE em facor de uma dualidade branco/negro, a situação dos "pretos" é, em todo o Brasil, muito pior do que a dos "pardos." Mesmo tirando todas as variáveis exóticas. Pretos vivem mais separados dos brancos, têm menos valor no "mercado" matrimonial, ganham menos, são mais revistados pela polícia...ressalte-se, fazendo a eterna comparação com os EUA, que mesmo os pretos ainda sofrem de discriminação matrimonial umas vinte vezes menor do que nos EUA, com a pior região metropolitana brasileira, o Vale do Itajaí,**** tendo a mesma segregação matrimonial que a melhor americana, Washington.

A irrelevância: uma distinção clara entre grupos humanos não é condição necessária nem suficiente para o preconceito, ao contrário da teoria senso-comunista de que o racismo advém da observação das diferenças. Não só o racismo em suas diversas encarnações, da cordial à apartada, como até a xenofobia, que é muito mais radical e rejeita o contato, prescinde da possibilidade de distinção clara. A guerra da Bósnia é um exemplo: na Bósnia-Herzegovina pré-dissolução, a população falava serbo-croata. Não existe distinção física nem de sotaque. Dos 60% que responderam alguma coisa ao invés de simplesmente "iugoslavo" ao Censo, 36% se casavam com gente do "outro grupo." O sentimento religioso não era nem é particularmente pronunciado. A segregação residencial estava abaixo de 25iv* E conseguiram, mesmo assim, entrar em uma guerra étnica.

Do mesmo modo, o racismo no Brasil nunca precisou de uma distinção clara para se perpetuar. Nunca houve barreiras definidas, e nunca houve entraves ao contato que fosse iniciado pelo indivíduo que está acima na escala. O racismo brasileiro, se quiser assim, segue uma lógica individualista, "de mercado," que se opõe à lógica hierárquica do racismo americano ou sul-africano.v*Ao invés de ser enfiado pela sociedade numa casta específica, o indivíduo tem uma certa quantidade de "capital racial," que ele utiliza junto com "capital social," "capital educacional,' "capital mesmo' e afins. A questão é que esse capital racial não tem nenhuma tendência maior à equalização ao longo do tempo do que os outros capitais.

Claro que isso não impede que haja outras formas de preconceito no Brasil, e que elas infelizmente não disponham da mesma quantidade de inimigos que o racismo. Não só o preconceito social é aceito; preconceitos étnicos diversos também são, dos mais leves ("aquele turco safado finalmente foi preso", "japoneses foram mortos," "parece coisa de judeu") ao mais comum e, por ser exclusivamente brasileiro, não identificado como preconceito étnico, que é o preconceito contra nordestinos.vi* Mas aí é que está - com todas as minhas críticas à posição do movimento negro, foi graças a ele, e não a alguma evolução natural da sociedade, que o racismo deixou de ser escamoteado no Brasil. Até há pouquíssimo tempo atrás, o Brasil, oficialmente, era um país em que não havia racismo, como apregoado pelos relatórios brasileiros sobre racismo enviados à ONU. Essa mentira já foi denunciada no genérico, mas ainda não no particular, a ponto de se ter a situação em que racismo é crime inafiançável, mas os milhares de casos cotidianos - da pessoa preta que não pode usar o elevador social ao ministro do Supremo Tribunal Federal barrado pelos seguranças na própria possevii* - não geram condenações. É uma falácia falar de outros males brasileiros, ou mesmo de outros preconceitos, como argumento contra a luta anti-racista; uma coisa não exclui a outra - e, cinicamente, eliminar preconceitos de classe numa sociedade capitalista é um pouquinho difícil. O que gera um efeito interessante - a interação do racismo brasileiro com o preconceito de classe, ao mesmo tempo que minora a violência e radicalidade desse racismo, o torna mais difícil de eliminar.


E pra parar o texto abruptamente, apesar de não ter chegado a um final decente, lanço o Manifesto de um Homem Só Pelos Bugres nas Novelas de Época, do movimento pró-gobineau AMARACISTANOJENTO.


*A comparação é inevitável; no universo conceitual brasileiro, o etnocentrismo está mais centrado na metrópole do que cá na colônia.

**E ainda há para os índios.

***Sim, tanto pra uma quanto pra outra a quantidade de pretos (VdI) e negros (DC) na população geral já tendo sido levada em conta e eliminada.

IV* Para efeito de comparação, o mesmo índice, de dissimilaridade espacial, varia para negros (BR: pardos+pretos) entre 37(SP, RJ, PoA) e 48 (Salvador) no Brasil, e entre 75(NY) e 92(Chicago) nos EUA.

V* O racismo na Europa, apesar de se constituir basicamente em preconceito étnico, é ainda uma terceira história, embora tenha, na França desde as levas imigratórias da virada do século e na Grã-Bretanha desde a leva caribenha pós-descolonização, características que se assemelham mais na forma ao modelo americano, e no resultado ao modelo brasileiro.

VI* A força da associação entre preconceito étnico e socioeconômico no Brasil pode ser medida pela violência relativa do preconceito contra os grupos de imigrantes mencionados e os "paraíbas" e "baianos."

VII* Depondo contra a teoria da exclusividade do preconceito social; afinal de contas, é um juiz, velho e bem vestido tentando entrar no Supremo, não um sujeito em trapos. Ou, como disse uma tia-avó minha uma vez sobre o próprio filho, "ele entrou no aeroporto todo sujo e cheio de craca nas pernas. Ainda bem que ele é branquinho, senão tinham jogado ele no lixo."

Architeuthis Dux

Eu não disse que elas iam conquistar o mundo? Já nem se preocupam mais em se esconder, o que significa que nossa derrota é inevitável. Claro que, como sublinha o artigo da BBC, temos uma arma

Bottom-trawling by fisheries is destroying squid egg masses on the seabed, Dr O'Shea claimed. Evidence for this comes from an efficient squid predator - the sperm whale.



Mais fotos na National Geographic.


PS eu odeio ter que lembrar disso, mas o nosso querido amigo Architeuthis Dux não é tão grande quanto lhe pintam, e não é o maior prato no menu dos cachalotes. Mais informações na Giant squid and colossal squid fact sheet.

27.9.05

Teoria do desenvolvimento

A conclusão, para qualquer pessoa minimamente informada, é óbvia: o Brasil só não Deu Certo porque até hoje nunca teve um partido político que hasteasse a bandeira da moralidade, nem apoio do governo para o latifúndio exportador.

26.9.05

Carta aos reaças.

Caros amigos.

Reconheço que a tese da "democracia racial" brasileira tem um valor tradicional que não caberia bem descartar. Afinal, que seria do mundo sem a tradição? E boa parte da identidade brasileira foi construída a partir dessa ideologia. Mais do que isso - a própria denúncia da democracia racial parte da própria, já que o Florestan Fernandes, que foi o primeiro "acadêmico" a fazer essa denúncia (cinicamente, o primeiro branco, mas cinismo não é conservador, não é mesmo?), tinha sido contratado pela UNESCO para descobrir o segredo da falta de racismo, e engarrafar para distribuir mundo afora.

Só tem um probleminha. Quando vocês usam a democracia racial e a "falta" de racismo no Brasil pra acusar quem vê racismo de racista, isso pode até fazer vocês se sentirem bem, mas não engana ninguém. A declaração de que "não existe preconceito racial, existe preconceito social associado à cor preta" chega a ser ridícula. Se existe preconceito associado à cor, existe preconceito de cor. E sinto muito, mas há uma quantidade bastante razoável de dados indicando que existe, sim, preconceito racial que vai além da ligação com a classe socioeconômica. Menos do que em muitos outros países, é verdade, apesar de os dados serem distorcidos, nas metrópoles do Sudeste, pela falta de uma resposta "paraíba" à pergunta sobre cor/raça. E, por isso mesmo, tenho uma idéia pra vocês, se quiserem mesmo ser anti-racistas e se opor ao movimento negro ao mesmo tempo.

Vejam bem, muitos de nós (nós, a elite, quase toda branca a ponto de gente de países mais segregados ficar com a impressão do Brasil como especialmente racista) dizemos, até com certo orgulho, que temos ancestrais negros. Vide o pé na cozinha do Príncipe dos Sociólogos. O problema é que esse pé é uma afetação, mais do que um sentimento de identidade, e segue os passos do Gilberto Freyre, em que os brasileiros se misturaram "com" os negros e índigenas, ou seja "os brasileiros" são os brancos. Todas essas declarações de amor à democracia racial vêm de um povo que se vê branco, de um país branco com negros oprimidos. Toda a construção do "brasileiro' desde o Freyre e o Getúlio passa por isso. Por um lado, se hiperenfatiza o papel dos imigrantes, como se nós tivéssemos recebido mais deles do que a Argentina ou os EUA, por outro o "brasileiro" misturado é o peão, é um outro. Tudo bem, a posição desconfortável de petit bourgeois global que ocupamos não é só nossa, é de todas as elites subdesenvolvidas.

Vamos ser sinceros. Há racismo no Brasil, há uma desigualdade racial imensa, e isso tem que ser remediado. E não vai ser remediado através de políticas neutras, ou sequer de políticas dirigidas aos pobres, já que uma condição socioeconômica equivalente não elimina o racismo. Que o digam os judeus. Então, o que fazer, se você é um conservador e abomina o movimento negro, ações afirmativas e o escambau? Não estou dizendo que isso faz de você um racista, existem bons motivos nacionalistas para não gostar de algo que é uma forma de nacionalismo rival. E olhe só, a declaração de que status socioeconômico e educacional não acaba com o racismo, se você pensar bem, também serve contra as cotas.

Que tal uma idéia - fazer uma campanha nacionalista capitalizando em cima do fato de o Brasil ser um país mulato? Não um país "que se misturou com negros e com indígenas," um país negro mesmo, no sentido mais amplo? Que tal enfiar retratos do Machado de Assis, do Lima Barreto, do André Rebouças, do Abdias do Nascimento, do Luiz Gama, para competir com a imagem do Zumbi? Dizer que afro-brasileiro é pleonasmo, lembrando que a civilização brasileira foi feita por mulatos, que antes de trazerem os imigrantes para embranquecer o país até a elite era mulata, como observou o Gobineau (que, afinal, era um especialista...)? Mandar a Globo retratar isso nas novelas de época, ao invés daquele quadro que acaba parecendo mais o Antebellum na Geórgia do que um engenho de café no Vale do Paraíba? Desarianizar a história do Brasil? Incentivar a história da África e das relações desta com o Brasil nas escolas? Em suma, fazer um nacionalismo da democracia racial que não fosse mais baseado num ator central branco que não tem preconceitos?

Não sei se ia adiantar. Mas pelo menos vocês poderiam alegar estar fazendo alguma coisa contra o racismo, ao invés de só ficar dizendo que quem tenta enxotar o rinoceronte que está na sala é culpado pelo rinoceronte.


Alvíssaras.

24.9.05

No país do espelho

O Globo noticia "Governo Lula criou Banco Popular do Brasil, Empresa de Pesquisa Energética, e Hemobrás."

Na mesma matéria em que uma confusão entre definições diferentes de "criação de empresa" é usada para fazer manchete, com a operação cotidiana da Petrobrás e do Banco do Brasil virando criação de novas empresas, O Globo também redefine toda a teoria dos negócios, ao dizer que o Banco Popular do Brasil "já" está dando prejuízo.

Lugares estranhos do mundo I Redux

O Mar de Aral, em mapa e em satélite.


23.9.05

O verde das nossas matas

Empresa de celulose dobra produção e causa "boom" florestal

****
R-r-r-r-REVENGE!

Mamba negra

Enquanto isso, o Rita fez zigue ao invés de zague, e não será o quinto furacão a bater nos EUA com vento de categoria 5 no olho. Pela primeira vez em muito tempo, mas provavelmente por pouco tempo, emprego e produtividade crescem simultaneamente no Brasil. O Daniel Dantas repetiu a performance do Duda Mendonça,e a Heloísa Helena a do Bolsonaro.

E eu vi o cúmulo dos cúmulos do pidgin-Portuguese. No cartaz da HBO, Uma Thurman e o doce sabor da revanche.


Snake charmer