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26.4.12

Contando as árvores na floresta

Proporção de votos "não" (ruralistas) por partido na votação do novo código florestal:
DEM: 24/26 (tem dois DEMos anti-ruralistas? Milagre!)
PCdoB: 6/12 (cadê a unidade partidária, centralismo democrático?)
PDT: 17/24
PHS: 1/1
PMDB: 71/74 (depois dizem que o partido é desunido)
PMN: 1/1
PP: 27/35 (uia, mais anti-ruralistas que o PDT)
PPS: 3/9
PR: 24/26, mais o Garotinho se abstendo
PRB: 0/10 (o centralismo democrático do Bispo Macedo funciona)
PRP: 1/1
PSB: 9/25
PSC: 12/14 (um sim e uma abstenção, igual o PR)
PSD: 36/43 (Kátia Abreu já avisou que vai mandar uns jagunços na casa desses 7)
PSDB: 26/48
PSL: 0/1
PSoL: 0/3
PT: 1/80 (quem é Vander Loubet?)
PTB: 14/15
PTC: 0/1
PTdoB: 2/3
PV: 0/9 (pelosmeno, né?)

Conclusão: de partido grande contra o desflorestamento, só o PT. Bispo 4Macedo teve quase tantos votos anti-desmatamento quanto a verdadeira esquerda e o movimento verde juntos (10 vs. 12). O PMDB "essencial à base do governo" votou em bloco contra o que supostamente seria a posição do governo. PSDB e PCdoB ficaram divididos, respectivamente quase e exatamente meio a meio. PDT foi latamente desmatador, PSB e PPS latamente conservacionistas.
E nóis sifu, porque isso aí é voto o bastante para derrubar um improvável veto presidencial sem suar. O veto é apreciado por uma sessão conjunta das duas casas (deputados e senadores valem a mesma coisa), em que metade mais um dos congressistas votem a favor da derrubada. Metade mais um são 513 deputados + 81 senadores =  594 / 2  = 297 - 274 = 23

São necessários 23 senadores votando pelos ruralistas para derrubar um veto presidencial. Mantendo-se as proporções da câmera por partido mesmo arrendondando pra baixo, teria-se

DEM: 3/4
PCdoB: 1/2
PDT: 3/5
PMDB: 18/19
PP: 4/5
PR: 5/6
PRB: 0/1
PSB: 1/4
PSC: 1/1
PSD: 1/2
PSDB: 5/10
PSol: 0/1
PT: 0/13
PTB: 4/5
PV: 0/1
Demóstenes Torres: 0/1 (não existe bancada Demóstenes Torres na Câmara)

Notem que quando eu disse "arredondando pra baixo," eu quis dizer que se a proporção na Câmara foi 71/74, como isso não dá 100%, vou tirar um senador. Ou seja, no caso de PMDB, PSD, DEM, e PTB, adicionei um senador em cada. OK, o do PMDB seja o Requião.
Conclusão: mesmo sendo otimista, são 46 senadores anti-mato. 23 a mais do que o necessário para derrubar um veto. #vetadilma só para que ainda se possa ter um tingo de respeito por ela, mas não vai adiantar de nada.

18.1.10

Vudu é pra jacu

As pessoas ficaram chocadas com o reverendo Pat Robertson, que num espetáculo de insensibilidade, logo após o terremoto disse que o Haiti mereceu o acontecido porque teria feito um pacto com o demo para expulsar os franceses. O âncora da NBC Keith Olberman inclusive soltou o verbo em cima do Pat Robertson e do comentarista Rush Limbaugh.

A besteira do reverendo tem sua origem no fato de (como já mencionado no post anterior) a revolução haitiana ter começado numa cerimônia vudu. Como vudu é coisa do demônio, logo... O que acho curioso, entretanto, é que muita gente concordaria instintivamente com o Pat Robertson sobre o vudu. No caso dele, qualquer religião que não seja o neopentecostalismo é coisa de Satã - ele já disse textualmente que Islã, Catolicismo, e Anglicanismo, pelo menos, o são. Mas a idéia do vudu como religião satânica é bem mais ampla do que entre os evangélicos.

Até o começo do século XX, essa visão do vudu como coisa do demo, ou então "selvagem" e terrível era estendida a todas as outras religiões afro-americanas. Mas nos anos 20, 30, as outras foram ganhando cartas de alforria, graças em parte ao trabalho de antropólogos e escritores que inclusive fizeram de algumas delas, como a Santería cubana e o Candomblé baiano, ícones da Kultur nacional e/ou regional.

Já o vudu, em parte por ser, graças à sua filial em Nova Orléans e à ocupação americana do Haiti em 1915-34, mais próximo dos EUA, teve a "sorte" de entrar para a mitologia americana como religião demoníaca. Parênteses: existe uma religião afro-americana nativa dos próprios EUA, o Obeah, mas no século XX ele já tinha se tornado algo vestigial, quase sem praticantes. O que faz sentido se você lembrar que o total de seres humanos embarcados para os EUA foi bem menor que o total do Haiti, para um país imensamente menor - o total do Caribe como um todo é de uns quatro milhões, número similar ao do Brasil, enquanto para os EUA foram uns 360.000 e só para o Haiti mais de 950.000.

Influenciados por essa representação mitológica, muita gente ainda tentou traçar as origens da diferença (fictícia) entre o Haiti e os cultos afro "bonzinhos." Nesse esforço, coopera o fato de os loas haitianos serem (como em algumas variantes da Umbanda) divididos em duas nações, Rada (oriundos da África) e Petro (nativos do Haiti). As nações podem ser vistas como loas separados ou como aspectos de cada loa (embora alguns, como a petro Marinette Bwa Sech não tenham correspondente na outra nação), e o fato de a nação terrível ser tida como crioula representaria, para os estudiosos que tentaram vestir a carapuça no vudu, como "evidência" de que o vudu teria se brutalizado no Haiti, devido à história de sangueiras do país (Leclerc, na tentativa napoleônica de debelar a revolução, matou um terço da população, e guerras civis foram uma constante desde então.)

Fechando com chave de ouro a má reputação do vudu, numa época em que começava-se a ter mais respeito por religiões pagãs até nos EUA, o pai-de-santo e médico François Duvalier, Papa Doc subiu ao poder no Haiti e se, por um lado, encampou o reconhecimento oficial do vudu como religião nacional, por outro lado abusou de sua reputação de pai-de-santo do mal, com direito a apelidar ele mesmo suas milícias políticas de tonton-macoutes, bichos papões. É em parte graças a ele que só hoje em dia o vudu finalmente começa a se livrar (fora dos círculos evangélicos) da reputação de coisa do capeta.

Pra fechar, sem nada a ver com o vudu, o vídeo do Arcade Fire falando do Haiti.