Um excelente artigo do Leonard Pitts desce o malho no vice-governador da Carolina do Sul, que num acesso de honestidade comparou os pobres a vira-latas, e fala de como falta voz e consciência de si aos pobres nos EUA. E estava lendo sobre a história ambiental da China, especificamente sobre a história do uso da água por lá, e descobri que até hoje o governo chinês resiste a se utilizar dos recursos hídricos tibetanos, apesar do Tibete sozinho ter um potencial hidrelétrico mais ou menos equivalente ao do Brasil inteiro, e um quase-nada de gente.
As duas coisas juntas me pensaram nas vantagens de se ser colônia de verdade sobre ser colônia de fato. Afinal, numa colônia de verdade, a dominação, e portanto a responsabilidade - chame de noblesse oblige, se quiser - ficam evidentes, enquanto no caso de locais em situação de exploração mas sem laços oficiais, abundam as declarações compungidas de que "esquecemos" a região. A China não quer enfiar as garras no Tibete porque sabe que, com o enorme movimento Free Tibet (principalmente derivado do carisma do Dalai Lama, e da atração que uma versão pasteurizada do budismo exerce em Hollywood), se fizesse isso seria atacada por fazê-lo no mundo inteiro, sem contar a resistência local. Pelo contrário, as transferências de riqueza se dão no sentido China-Tibete. Enquanto isso, no coração histórico da própria China, na região das Três Gargantas, faz uma megausina que inclusive é maior do que precisaria ser por razões de prestígio nacional. (Na área do lago, poderiam ser feitas, ao invés de uma usina de 18Gw, três de 7Gw, a custos ambientais, humanos e financeiros menores, mas aí nenhuma delas seria a maior do mundo.)
Enquanto isso, no Brasil não se tem nenhum problema em explorar regiões remotas no interesse das regiões dominantes. Pelo contrário, principalmente em São Paulo mas também no resto do Sul-Sudeste, pessoas têm a noção bizarra de que "sustentam" o Norte-Nordeste. E tome-lhe Belo Montes e Jiraus e Carajás, num esquema de exploração de recursos minerais bem colonial. Assim como, nos EUA, famosamente as pessoas superestimam em 4.000% o valor da ajuda externa doada pelo país, e acham que eles que transferem riqueza aos países subdesenvolvidos.
No ocaso do colonialismo, quando começou-se a desenvolver algum tipo de consciência, a transferência de riqueza ainda ia no sentido colônia-metrópole, mas em grau menor do que atualmente; do mesmo jeito, os estados de bem-estar derivaram, todos, de uma consciência de classe forte e da vontade da elite de apaziguar as massas famélicas. (Nesse sentido, o Brasil, com um estado de bem-estar aparecendo neste momento histórico, talvez seja uma exceção.)
Não é que der esmola atrapalhe a revolução, nem que se os franceses jogassem críquete com seus servos como nós não teria havido esse problema. Mas é que, sim, uma igualdade oficial e uma comunidade imaginária podem ser obstáculos para igualdade e comunidades reais. Talvez os governadores de Rondônia e do Pará não fossem tão amigáveis à construção de hidrelétricas se estas se destinassem a alimentar um país estrangeiro. (As subestações recebedoras de Belo Monte ficarão em Nova Iguaçu-RJ e Estreito-MG; as de Jirau e Santo Antônio em Araraquara-SP, e a de Itaipu em Mogi das Cruzes-SP.)
Auferre, trucidare, rapere, falsis nominibus imperium; atque, ubi solitudinem faciunt, pacem appellant.
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26.10.12
19.1.12
Prioridades do governo brasileiro na virada do século
É curioso ver as prioridades do governo. Por exemplo:
Para geração de energia através de imensas usinas hidrelétricas em locais remotos, ecoando Nikita Kruschev, que dizia* que iria afogar o capitalismo em rios de eletricidade, tem dinheiro - a engenharia econômica de Belo Monte, mais ainda que a das usinas do Madeira, não é a de uma usina elétrica comum, com retorno pela própria atividade, mas a de um enorme enterro de dinheiro público. Para investimento em eficiência energética, que será necessário no século XXI e pode gerar novas tecnologias, não tem. Apesar do custo ser menor. Mas eficiência energética não é grandioso. Não tem graça posar de capacete ao lado dum sujeito com aquecimento solar no chuveiro.
Para uma ponte rodoviária da escala da Rio-Niterói ligando Manaus ao subúrbio de Iranduba (pop. 40.000) e ao município de Manacapuru (pop. 85.000, a 68km de distância), tem dinheiro. Afinal, Washington Luís já dizia que governar é abrir estradas. Para pesquisar o maglev-cobra, tecnologia que permitiria, se desenvolvida, cortar os custos de implantação de transporte de massa em cidades enormemente (o maglev-cobra pesa metade do peso de um monotrilho por passageiro transportado, é 3x mais eficiente em gasto de luz, e não faz barulho), não tem. Cientista é tudo maluco e pouco confiável, ao contrário de empreiteiro.
Trezentos e vinte e oito mil portugueses virem morar no Brasil, somando-se ao milhão que já estava aqui, pode, assim como 100.000 cada de italianos e espanhóis. Quatro mil haitianos no Brasil é uma invasão contra a qual o governo deve fechar as porteiras. Não que eu ache que essa diferença tenha sequer alguma possibilidade de se dever a um tipo de preconceito que o Ali Kamel, da Globo, já demonstrou em livro não existir no Brasil.
Para pesquisa agrícola aplicada (e fornecida de graça ao agronegócio), tem 5 bilhões por ano, dois só na Embrapa. Para pesquisa científica de ponta, incluindo o ESO e o ITER, que podem revolucionar a ciência (e, se der certo, no caso do último, a economia), e mesmo ganhando desconto na fatura, o Brasil não paga o que devia. 170 milhões por ano para o conjunto dos projetos internacionais. Menos de um décimo do que se gasta melhorando a eficiência da soja na terra pela qual os fazendeiros não pagam imposto vai para tentar descobrir fusão nuclear. Ou melhor, iria, se fosse pago.
Brasil, bravamente caminhando rumo ao século XX.
*Non è vero. Ma va, è bene trovatto.
Para geração de energia através de imensas usinas hidrelétricas em locais remotos, ecoando Nikita Kruschev, que dizia* que iria afogar o capitalismo em rios de eletricidade, tem dinheiro - a engenharia econômica de Belo Monte, mais ainda que a das usinas do Madeira, não é a de uma usina elétrica comum, com retorno pela própria atividade, mas a de um enorme enterro de dinheiro público. Para investimento em eficiência energética, que será necessário no século XXI e pode gerar novas tecnologias, não tem. Apesar do custo ser menor. Mas eficiência energética não é grandioso. Não tem graça posar de capacete ao lado dum sujeito com aquecimento solar no chuveiro.
Para uma ponte rodoviária da escala da Rio-Niterói ligando Manaus ao subúrbio de Iranduba (pop. 40.000) e ao município de Manacapuru (pop. 85.000, a 68km de distância), tem dinheiro. Afinal, Washington Luís já dizia que governar é abrir estradas. Para pesquisar o maglev-cobra, tecnologia que permitiria, se desenvolvida, cortar os custos de implantação de transporte de massa em cidades enormemente (o maglev-cobra pesa metade do peso de um monotrilho por passageiro transportado, é 3x mais eficiente em gasto de luz, e não faz barulho), não tem. Cientista é tudo maluco e pouco confiável, ao contrário de empreiteiro.
Trezentos e vinte e oito mil portugueses virem morar no Brasil, somando-se ao milhão que já estava aqui, pode, assim como 100.000 cada de italianos e espanhóis. Quatro mil haitianos no Brasil é uma invasão contra a qual o governo deve fechar as porteiras. Não que eu ache que essa diferença tenha sequer alguma possibilidade de se dever a um tipo de preconceito que o Ali Kamel, da Globo, já demonstrou em livro não existir no Brasil.
Para pesquisa agrícola aplicada (e fornecida de graça ao agronegócio), tem 5 bilhões por ano, dois só na Embrapa. Para pesquisa científica de ponta, incluindo o ESO e o ITER, que podem revolucionar a ciência (e, se der certo, no caso do último, a economia), e mesmo ganhando desconto na fatura, o Brasil não paga o que devia. 170 milhões por ano para o conjunto dos projetos internacionais. Menos de um décimo do que se gasta melhorando a eficiência da soja na terra pela qual os fazendeiros não pagam imposto vai para tentar descobrir fusão nuclear. Ou melhor, iria, se fosse pago.
Brasil, bravamente caminhando rumo ao século XX.
*Non è vero. Ma va, è bene trovatto.
21.11.11
Bela Cordilheira
A força que ganhou o tema "Belo Monte" depois da adesão de estrelas da Globo à campanha contra a construção da usina comprova, talvez, que a era dos virais da internet ainda não suplantou a dos velhos mídias. Belo Monte, de problema de ecochato e gringo, virou cause cèlebre nacional. E eu, que sou do contra e falava mal da represa desde muito antes, e em especial do silêncio dos candidatos presidenciais, Marina incluída sobre a questão, vou ser do contra de novo: agora a Inês é morta, os cavalos escaparam pela porteira, o leite derramou. Os maiores problemas socioambientais derivados de hidrelétricas na Amazônia não são os causados pelo lago*, mas aqueles derivados do fluxo habitacional temporário e da interrupção do curso do rio, partindo em dois um ecossistema integrado (muitos peixes, eg, se reproduzem nas cabeceiras de um rio, mas vivem sua vida adulta no curso principal, ou mesmo no mar).
O segundo fator continua sendo preocupante em Belo Monte, sem dúvida, mas escadinhas de peixe, como a que existirá, amenizam ele bastante. Não é fácil quantificar se Belo Monte vai ser mais danosa aos peixes do Xingu do que um parque eólico equivalente seria às aves marítimas do Nordeste. O primeiro, que é o pior deles, é que essa imensa massa humana (em Belo Monte, fala-se de 100.000 pessoas - mais do que a população atual de Altamira - ou de Corumbá, ou de outros cinco mil municípios brasileiros - é transiente e desocupada. A usina não precisa durante sua construção de todos aqueles que são atraídos pela notícia dela, e depois da construção, de quase ninguém. E aí você tem dezenas de milhares de pessoas sem ocupação nem como voltar pra casa, cuja única alternativa é a agricultura de subsistência no que um dia foi floresta. O que, é claro, gera poluição e desmatamento, e conflitos com os índios e ribeirinhos.
Ora pois, a essas alturas o povo já se mudou pra Altamira. Cancelar a obra não faria tanta diferença assim. Belo Monte não será um problema ambiental, já foi um problema ambiental. Por isso é que eu não me importo mais tanto assim com ela. Por outro lado, e infelizmente sem nenhuma atenção global (será que vão fazer vídeo depois de feito o estrago?), o novo, e retrógrado, código florestal caminha para ser aprovado no Congresso. O novo código, não custa lembrar, causaria o desmatamento de uma área literalmente 500 vezes maior que a do lago de Belo Monte, na projeção mais otimista. Centenas de vezes maior, mesmo incluindo o desmatamento induzido. Sem vídeo da Globo avisando que a parolagem ambientalista de que a legislação ambiental brasileira é rigorosa é uma mentira deslavada, e que o contrário é verdade - na maioria dos países, o desmatamento permitido é zero, não 20 a 80% de uma propriedade.
*a não ser que se cometa a burrice de deixar a floresta lá para ser alagada, caso em que a usina emite metano em proporção pior, para o efeito estufa, do que se fosse uma usina de carvão do mesmo tamanho.
O segundo fator continua sendo preocupante em Belo Monte, sem dúvida, mas escadinhas de peixe, como a que existirá, amenizam ele bastante. Não é fácil quantificar se Belo Monte vai ser mais danosa aos peixes do Xingu do que um parque eólico equivalente seria às aves marítimas do Nordeste. O primeiro, que é o pior deles, é que essa imensa massa humana (em Belo Monte, fala-se de 100.000 pessoas - mais do que a população atual de Altamira - ou de Corumbá, ou de outros cinco mil municípios brasileiros - é transiente e desocupada. A usina não precisa durante sua construção de todos aqueles que são atraídos pela notícia dela, e depois da construção, de quase ninguém. E aí você tem dezenas de milhares de pessoas sem ocupação nem como voltar pra casa, cuja única alternativa é a agricultura de subsistência no que um dia foi floresta. O que, é claro, gera poluição e desmatamento, e conflitos com os índios e ribeirinhos.
Ora pois, a essas alturas o povo já se mudou pra Altamira. Cancelar a obra não faria tanta diferença assim. Belo Monte não será um problema ambiental, já foi um problema ambiental. Por isso é que eu não me importo mais tanto assim com ela. Por outro lado, e infelizmente sem nenhuma atenção global (será que vão fazer vídeo depois de feito o estrago?), o novo, e retrógrado, código florestal caminha para ser aprovado no Congresso. O novo código, não custa lembrar, causaria o desmatamento de uma área literalmente 500 vezes maior que a do lago de Belo Monte, na projeção mais otimista. Centenas de vezes maior, mesmo incluindo o desmatamento induzido. Sem vídeo da Globo avisando que a parolagem ambientalista de que a legislação ambiental brasileira é rigorosa é uma mentira deslavada, e que o contrário é verdade - na maioria dos países, o desmatamento permitido é zero, não 20 a 80% de uma propriedade.
*a não ser que se cometa a burrice de deixar a floresta lá para ser alagada, caso em que a usina emite metano em proporção pior, para o efeito estufa, do que se fosse uma usina de carvão do mesmo tamanho.
17.2.11
Balada do antigo marinheiro
A usina de Belo Monte, cuja viabilidade econômica é questionável pela combinação de localização remota e disponibilidade de energia irregular, é um problemão ambiental que já derrubou ministra e chefe do Ibama. A atração dos 11.000 MW de energia elétrica, prometendo resolver de uma vez o problema de dez usinas menores, parece ser muito forte sobre o governo - fico pensando se ficaria menor caso se usasse o conceito de energia comprável na ponta Araraquara, de 2.400 a 7.000. A inviabilidade de Belo Monte seguindo as regras normais para a construção de usinas, ao invés de constadada fazer com que se desista da idéia, tem alterado as regras, fazendo da usina uma exceção gigante e mal explicada. Ou melhor, cuja explicação é sempre o terceiro excluído do "você quer ficar sem energia elétrica"?
Pelo menos, até agora, as exceções haviam sido pontuais, feitas através da desconsideração das regras para este empreendimento específico. Dilma, legalista, pelo visto prefere fazer as coisas da maneira certa. E é assim que, para viabilizar os megalinhões ligando Belo Monte e outras usinas amazônicas a São Paulo, vão mudar as regras para licenciamento ambiental de linhas de transmissão.
A idéia veio num momento infeliz em que o ministério do meio ambiente tenta barrar a malfadada proposta de código ambiental do Aldo Rebelo, que tem apoiadores tanto na base do governo quanto na oposição, e contempla absurdos como liberar o desmatamento em cumes de morro e a cinco metros de nascentes, ou anistiar todo o desmatamento ocorrido até sua promulgação, mais uma "moratória sem punição" de cinco anos, durante os quais os ruralistas bonzinhos se comprometeriam a não desmatar, mas não seriam punidos se desmatassem. Cada vez mais, Belo Monte vai se mostrando mais albatroz no pescoço do que solução técnica.
Outro caso de flagrante contradição entre intenções verdes e desenvolvimentos na economia é o do estado do Rio de Janeiro. Conhecido inclusive fora do Brasil pelas belezas naturais, o estado acaba de anunciar a criação de uma secretaria da economia verde. Pensando-se no turismo que ocupa a orla do estado da fronteira sul até Cabo Frio, mais a região serrana, e na posição ocupada pelo Rio na geração de conhecimento no Brasil, faz todo o sentido, certo? A questão é que o Rio de Janeiro é também o estado no qual a indústria pesada, extremamente poluente, está em expansão mais acelerada. O total de investimentos em indústria pesada no estado confirmados é mais do que o dobro de São Paulo, Maranhão ou Ceará, (estes graças às grandes refinarias anunciadas pela Petrobrás), sendo que o território fluminense é uma fração da área dos outros três estados, e ao contrário do Maranhão e Ceará o Rio já tem uma indústria pesada bastante densa.
A frase "entre um cerradinho e a soja, Lula é a soja" proferida por um ruralista (portanto insuspeito), ficou infame. E entre a indústria pesada e a mata atlântica, a restinga, cerrado, ou amazônia, o que será que Dilma e Cabral preferem? Pior que acho que sei a resposta.
Pelo menos, até agora, as exceções haviam sido pontuais, feitas através da desconsideração das regras para este empreendimento específico. Dilma, legalista, pelo visto prefere fazer as coisas da maneira certa. E é assim que, para viabilizar os megalinhões ligando Belo Monte e outras usinas amazônicas a São Paulo, vão mudar as regras para licenciamento ambiental de linhas de transmissão.
A idéia veio num momento infeliz em que o ministério do meio ambiente tenta barrar a malfadada proposta de código ambiental do Aldo Rebelo, que tem apoiadores tanto na base do governo quanto na oposição, e contempla absurdos como liberar o desmatamento em cumes de morro e a cinco metros de nascentes, ou anistiar todo o desmatamento ocorrido até sua promulgação, mais uma "moratória sem punição" de cinco anos, durante os quais os ruralistas bonzinhos se comprometeriam a não desmatar, mas não seriam punidos se desmatassem. Cada vez mais, Belo Monte vai se mostrando mais albatroz no pescoço do que solução técnica.
Outro caso de flagrante contradição entre intenções verdes e desenvolvimentos na economia é o do estado do Rio de Janeiro. Conhecido inclusive fora do Brasil pelas belezas naturais, o estado acaba de anunciar a criação de uma secretaria da economia verde. Pensando-se no turismo que ocupa a orla do estado da fronteira sul até Cabo Frio, mais a região serrana, e na posição ocupada pelo Rio na geração de conhecimento no Brasil, faz todo o sentido, certo? A questão é que o Rio de Janeiro é também o estado no qual a indústria pesada, extremamente poluente, está em expansão mais acelerada. O total de investimentos em indústria pesada no estado confirmados é mais do que o dobro de São Paulo, Maranhão ou Ceará, (estes graças às grandes refinarias anunciadas pela Petrobrás), sendo que o território fluminense é uma fração da área dos outros três estados, e ao contrário do Maranhão e Ceará o Rio já tem uma indústria pesada bastante densa.
A frase "entre um cerradinho e a soja, Lula é a soja" proferida por um ruralista (portanto insuspeito), ficou infame. E entre a indústria pesada e a mata atlântica, a restinga, cerrado, ou amazônia, o que será que Dilma e Cabral preferem? Pior que acho que sei a resposta.
18.1.11
Belo Monte
Já que Belo Monte está por aí na blogosfera, eu, que sou preguiçoso, simplesmente ponho links aqui pra meia dúzia das muitas vezes que falei sobre ela.
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/10/da-unanimidade-burra.html
http://sambadoaviao.blogspot.com/2009/07/descascando-o-pac-iii-energia.html
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/02/homens-invisiveis.html
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/04/minas-e-energia.html
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/05/there-is-no-alternative.html
Resumindo:
1) Belo Monte não vai gerar 11GW, mas entre 2,4 e 6,6GW, dependendo da estação, porque 40% da energia vai se perder pelo caminho até São Paulo.
2) Belo Monte só pode vender essa energia ao preço que venderá porque o governo, e não o consórcio, vai erguer essas linhas de transmissão enormes. E mesmo assim, ninguém quis investir sem a Eletrobrás de sócio arcando com os riscos.
3) O desmatamento a ser causado não é apenas o dos 500Km2 em volta, mas o induzido, pelo mundaréu de gente que se muda pra lá durante a construção. E aquela área tem parques nacionais e reservas indígenas em volta.
4) Os danos ambientais com a destruição da volta grande e a interrupção do rio não se restringem ao desmatamento; perguntem aos felahim do Egito como anda a lavoura cantada desde Menés desde a barragem de Nasser. (Dica: muitos fertilizantes importados.)
5) O peso do modelo institucional brasileiro e da experiência e visão profissional vigentes nos ministérios e empresas geradoras, estatais ou não, significa que Belo Monte está longe de ser a última barragem na margem direita do Amazonas. E quiçá na esquerda. E as consequências disso pro ecossistema e até para o clima são difíceis de se prever.
6) O Pará não vai "se desenvolver" com a usina. Vai aumentar o PIB, nas contas, sem que isso reverta em renda para a população. Para ter uma idéia do que isso significa, enquanto o Rio de Janeiro cresceu mais rápido que o Brasil no período 1990-2010 em PIB, em renda mediana ele declinou.
7) A diferença é que pelo menos o governo fluminense auferiu alguma renda através de royalties; como os royalties da eletricidade são pífios e o ICMS, como no caso do petróleo, cobrado no estado consumidor, nem impostos o Pará vai ganhar com a usina.
8) Admitindo-se que precisamos de mais geração de energia, e de preferência que não emita gases de efeito estufa, precisaremos de mais usinas nucleares, se se quiser evitar os problemas acima, além de muito mais geração de resíduos de biomassa e eólica.
9) Usinas nucleares seriam necessárias até porque usinas hidrelétricas a fio d'água, ao contrário das com reservatórios grandes, não servem de geração básica. Afinal, a vazão do rio varia, às vezes imprevisivelmente.
10) Além de Belo Monte, outro absurdo ambiental que está recebendo menos ibope são os 10GW de geração térmica com carvão de combustível, em Maranhão e no Norte Fluminense, sendo construídos pelo Eike Batista.
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/10/da-unanimidade-burra.html
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http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/02/homens-invisiveis.html
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/04/minas-e-energia.html
http://sambadoaviao.blogspot.com/2010/05/there-is-no-alternative.html
Resumindo:
1) Belo Monte não vai gerar 11GW, mas entre 2,4 e 6,6GW, dependendo da estação, porque 40% da energia vai se perder pelo caminho até São Paulo.
2) Belo Monte só pode vender essa energia ao preço que venderá porque o governo, e não o consórcio, vai erguer essas linhas de transmissão enormes. E mesmo assim, ninguém quis investir sem a Eletrobrás de sócio arcando com os riscos.
3) O desmatamento a ser causado não é apenas o dos 500Km2 em volta, mas o induzido, pelo mundaréu de gente que se muda pra lá durante a construção. E aquela área tem parques nacionais e reservas indígenas em volta.
4) Os danos ambientais com a destruição da volta grande e a interrupção do rio não se restringem ao desmatamento; perguntem aos felahim do Egito como anda a lavoura cantada desde Menés desde a barragem de Nasser. (Dica: muitos fertilizantes importados.)
5) O peso do modelo institucional brasileiro e da experiência e visão profissional vigentes nos ministérios e empresas geradoras, estatais ou não, significa que Belo Monte está longe de ser a última barragem na margem direita do Amazonas. E quiçá na esquerda. E as consequências disso pro ecossistema e até para o clima são difíceis de se prever.
6) O Pará não vai "se desenvolver" com a usina. Vai aumentar o PIB, nas contas, sem que isso reverta em renda para a população. Para ter uma idéia do que isso significa, enquanto o Rio de Janeiro cresceu mais rápido que o Brasil no período 1990-2010 em PIB, em renda mediana ele declinou.
7) A diferença é que pelo menos o governo fluminense auferiu alguma renda através de royalties; como os royalties da eletricidade são pífios e o ICMS, como no caso do petróleo, cobrado no estado consumidor, nem impostos o Pará vai ganhar com a usina.
8) Admitindo-se que precisamos de mais geração de energia, e de preferência que não emita gases de efeito estufa, precisaremos de mais usinas nucleares, se se quiser evitar os problemas acima, além de muito mais geração de resíduos de biomassa e eólica.
9) Usinas nucleares seriam necessárias até porque usinas hidrelétricas a fio d'água, ao contrário das com reservatórios grandes, não servem de geração básica. Afinal, a vazão do rio varia, às vezes imprevisivelmente.
10) Além de Belo Monte, outro absurdo ambiental que está recebendo menos ibope são os 10GW de geração térmica com carvão de combustível, em Maranhão e no Norte Fluminense, sendo construídos pelo Eike Batista.
15.10.10
Da unanimidade
Uma coisa que me chamou a atenção no "manifesto" pós-primeiro turno da Marina Silva é que ele fala em congelamento da construção de usinas nucleares, mas não de usinas hidrelétricas na Amazônia. Até desmente um pouco a minha crítica a ela como ministra do meio ambiente, que era de que ela focava demais na Amazônia e de menos no resto do país. Nenhum dos três candidatos principais falou mal da usina de Belo Monte em si - Serra até tentou se aproveitar das críticas ao projeto, mas para falar que manteria ele "só que faria direito," na sua tentativa de ser all things to all men, mas dizer que cancelaria mesmo, nem Serra nem Marina disseram. Dilma, por supuesto, é quem levou até o edital o projeto, que vem da Eletronorte da Nova República, e foi alterado para se transformar numa usina a fio d'água no apagar das luzes do governo FH. Belo Monte é apenas uma das 15 usinas hidrelétricas de grande porte que a Eletronorte pretende construir na margem direita do Amazonas.
Nenhum candidato ser contra me deixa encafifado porque esse plano é, em termos ambientais, bem problemático. As comparações com Balbina não se sustentam; todas as hidrelétricas propostas são, do ponto de vista da engenharia, bem boladas, com índices de eficiência razoáveis a ótimos, em alguns casos passando os 10 watts gerados por metro inundado de Itaipu. (É o caso da própria Belo Monte, mesmo assumindo os 4,000GW de energia garantida e não os 11.000 sazonais.) Mas essas hidrelétricas todas constituem, num momento em que o governo comemora a redução em 90% no desmatamento, um risco de desmatamento enorme na Amazônia. Pior do que isso, afetam significativamente as populações tradicionais, índigenas e ribeirinhas, em nome da exportação de energia elétrica pro Sudeste (que, lembremos, graças ao Serra fica com o ICMS).
É particularmente assustador que nem a Marina tenha mencionado isso porque as tais populações tradicionais são de onde ela vem. Em mais de um sentido, já que, mais do que uma política nascida de seringueiros, ela nasceu como política nesse movimento de seringueiros, que se apropriou e aliou ao discurso dos índios como mantenedores da terra, conseguindo fazer com que a relação especial entre índios e Estado - que permite aos índios terem controle de suas terras tradicionais - deixasse de ser a da tutela de inferiores. Se nem a pessoa que construiu sua carreira política a partir desse movimento, importantíssimo, se importa tanto com ele quanto com uma agenda secundária, em termos brasileiros, como impedir a eventual construção de novas usinas nucleares, tamulascados. Não é o Gabeira, que só se importa com parecer com os verdes dos países "superiores," fazendo essa inversão, é a Marina Silva, pô.
E essa ótica é ainda mais estranha porque aquele elogio à engenharia ali em cima não é um elogio à economia. Essas usinas, repita-se sempre, envolvem perdas gigantes na transmissão e custos "escondidos" enormes. E têm o condão de puxar população para perto de si. Estamos ainda pretendendo colonizar a Amazônia? Porque com essas usinas, é isso que acontece.
Nenhum candidato ser contra me deixa encafifado porque esse plano é, em termos ambientais, bem problemático. As comparações com Balbina não se sustentam; todas as hidrelétricas propostas são, do ponto de vista da engenharia, bem boladas, com índices de eficiência razoáveis a ótimos, em alguns casos passando os 10 watts gerados por metro inundado de Itaipu. (É o caso da própria Belo Monte, mesmo assumindo os 4,000GW de energia garantida e não os 11.000 sazonais.) Mas essas hidrelétricas todas constituem, num momento em que o governo comemora a redução em 90% no desmatamento, um risco de desmatamento enorme na Amazônia. Pior do que isso, afetam significativamente as populações tradicionais, índigenas e ribeirinhas, em nome da exportação de energia elétrica pro Sudeste (que, lembremos, graças ao Serra fica com o ICMS).
É particularmente assustador que nem a Marina tenha mencionado isso porque as tais populações tradicionais são de onde ela vem. Em mais de um sentido, já que, mais do que uma política nascida de seringueiros, ela nasceu como política nesse movimento de seringueiros, que se apropriou e aliou ao discurso dos índios como mantenedores da terra, conseguindo fazer com que a relação especial entre índios e Estado - que permite aos índios terem controle de suas terras tradicionais - deixasse de ser a da tutela de inferiores. Se nem a pessoa que construiu sua carreira política a partir desse movimento, importantíssimo, se importa tanto com ele quanto com uma agenda secundária, em termos brasileiros, como impedir a eventual construção de novas usinas nucleares, tamulascados. Não é o Gabeira, que só se importa com parecer com os verdes dos países "superiores," fazendo essa inversão, é a Marina Silva, pô.
E essa ótica é ainda mais estranha porque aquele elogio à engenharia ali em cima não é um elogio à economia. Essas usinas, repita-se sempre, envolvem perdas gigantes na transmissão e custos "escondidos" enormes. E têm o condão de puxar população para perto de si. Estamos ainda pretendendo colonizar a Amazônia? Porque com essas usinas, é isso que acontece.
5.5.10
There is no alternative
A frase acima é de Margareth Thatcher e condensa bem o argumento dos que defendiam o que se lhe seguiria, em termos de política econômica, nos próximos trinta anos até a crise econômica de 2008. Disse até a crise econômica? O pacote imposto à Grécia ainda partilha dessa visão, e com a mesma declaração arrogante.
Entretanto, em terras da Índia Jaci, a posição do governo federal e de outros proponentes da construção da barragem de Belo Monte - que, como já disse aqui, não é só um problemão ambiental, mas também de economicidade duvidosa - segue o mesmo argumento. Alternativas são descartadas como obviamente impraticáveis. Ora, isso é curioso, porque alternativas, inclusive mais econômicas, foram detalhadas num relatório da UNICAMP e do WWF em 2004, já atualizado. Ponho o link em inglês porque o link em português tá quebrado.
Enquanto isso, o Plano Decenal de Energia, da Empresa de Pesquisa Energética, órgão do governo responsável pelo nosso planejamento energético, é tão transparentemente uma peça de lobby pró-hidrelétricas que A) ignora solenemente o custo, de investimento e manutenção, envolvido nas hidrelétricas amazônicas propostas, e faz a conta delas pela capacidade máxima, ignorando a sazonalidade, e B) alega que "não está prevista a construção de novas termelétricas fósseis, mas se não permitirem as hidrelétricas na Amazônia..." Capisce? Bela loja a sua, signore, bela loja.
Duas curiosidades saindo de nossos domínios paroquiais, e tendo a ver com hidrelétricas gigantes e perdas na transmissão:
A) As grandes planícies americanas são chamadas pelos ativistas ambientais gringos (e pelos empresários do setor) de "Arábia Saudita do vento." Isso é meia verdade, justamente por conta das perdas na transmissão. Com a exceção das franjas(especialmente no Texas), a área dessa Arábia é um semiárido frio e esparsamente povoado, e a combinação da baixa capacidade* e confiabilidade de usinas eólicas com a necessidade de enormes linhas de transmissão dedicadas não é muito atraente. Nesse aspecto, o Brasil, apesar do potencial eólico econômico ser relativamente menor (uns 39GW, ou quase três Itaipús), está mais bem situado, já que as áreas de bons ventos se constituem de núcleos pequenos próximos aos centros de demanda no Sul-Sudeste, uma franja marítima próxima de centros de demanda e distante de outras fontes no Nordeste, e o Vale do São Francisco acompanhando o linhão que liga NE e SE; ou seja, praticamente não há necessidade de construção de linhas de transmissão, e muito pouca perda de energia.
B) Acha que Belo Monte é grande? Com características semelhantes (turbinas fora da barragem principal, aproveitamento em curva, barragem a fio d'água) à represa amazônica, querem represar o Congo. Pra situar as coisas, o Congo é o segundo maior rio do mundo (OK, terceiro, se você contar o Rio Negro), umas três ou quatro vezes maior do que o Paraná, onde se encontra Itaipú. A barragem geraria uns 40GW de energia elétrica, ou se preferir oito vezes o consumo atual de energia do Congo, sem contar os 12GW adicionais das barragens subsidiárias. Como a maioria das megaobras de infraestrutura, Grand Inga busca uma raison d'etre que justifique investir 80bn de dólares (subsidiados pelo Banco Mundial, chamados de ajuda externa, e provavelmente com grana arrancada ao periclitante governo congolês, além dos governos dos investidores, claro). Uma das mais alucinadas envolve a implantação de linhas de transmissão entre o Congo e a Europa.
Entretanto, em terras da Índia Jaci, a posição do governo federal e de outros proponentes da construção da barragem de Belo Monte - que, como já disse aqui, não é só um problemão ambiental, mas também de economicidade duvidosa - segue o mesmo argumento. Alternativas são descartadas como obviamente impraticáveis. Ora, isso é curioso, porque alternativas, inclusive mais econômicas, foram detalhadas num relatório da UNICAMP e do WWF em 2004, já atualizado. Ponho o link em inglês porque o link em português tá quebrado.
Enquanto isso, o Plano Decenal de Energia, da Empresa de Pesquisa Energética, órgão do governo responsável pelo nosso planejamento energético, é tão transparentemente uma peça de lobby pró-hidrelétricas que A) ignora solenemente o custo, de investimento e manutenção, envolvido nas hidrelétricas amazônicas propostas, e faz a conta delas pela capacidade máxima, ignorando a sazonalidade, e B) alega que "não está prevista a construção de novas termelétricas fósseis, mas se não permitirem as hidrelétricas na Amazônia..." Capisce? Bela loja a sua, signore, bela loja.
Duas curiosidades saindo de nossos domínios paroquiais, e tendo a ver com hidrelétricas gigantes e perdas na transmissão:
A) As grandes planícies americanas são chamadas pelos ativistas ambientais gringos (e pelos empresários do setor) de "Arábia Saudita do vento." Isso é meia verdade, justamente por conta das perdas na transmissão. Com a exceção das franjas(especialmente no Texas), a área dessa Arábia é um semiárido frio e esparsamente povoado, e a combinação da baixa capacidade* e confiabilidade de usinas eólicas com a necessidade de enormes linhas de transmissão dedicadas não é muito atraente. Nesse aspecto, o Brasil, apesar do potencial eólico econômico ser relativamente menor (uns 39GW, ou quase três Itaipús), está mais bem situado, já que as áreas de bons ventos se constituem de núcleos pequenos próximos aos centros de demanda no Sul-Sudeste, uma franja marítima próxima de centros de demanda e distante de outras fontes no Nordeste, e o Vale do São Francisco acompanhando o linhão que liga NE e SE; ou seja, praticamente não há necessidade de construção de linhas de transmissão, e muito pouca perda de energia.
B) Acha que Belo Monte é grande? Com características semelhantes (turbinas fora da barragem principal, aproveitamento em curva, barragem a fio d'água) à represa amazônica, querem represar o Congo. Pra situar as coisas, o Congo é o segundo maior rio do mundo (OK, terceiro, se você contar o Rio Negro), umas três ou quatro vezes maior do que o Paraná, onde se encontra Itaipú. A barragem geraria uns 40GW de energia elétrica, ou se preferir oito vezes o consumo atual de energia do Congo, sem contar os 12GW adicionais das barragens subsidiárias. Como a maioria das megaobras de infraestrutura, Grand Inga busca uma raison d'etre que justifique investir 80bn de dólares (subsidiados pelo Banco Mundial, chamados de ajuda externa, e provavelmente com grana arrancada ao periclitante governo congolês, além dos governos dos investidores, claro). Uma das mais alucinadas envolve a implantação de linhas de transmissão entre o Congo e a Europa.
15.4.10
Minas e energia
Em geral, a se julgar pela necessidade de cavar escândalos de cinco anos atrás evidenciada pela imprensa, o governo Lula parece ser menos corrupto stricto sensu do que seu antecessor. Lato sensu, também parece ser menos obediente aos grupos privados, apesar das agências reguladoras (todas, praticamente, inteiramente capturadas pelos interesses de seus regulados). A grande exceção a isso é no caso das grandes obras de infraestrutura.
Dois exemplos flagrantes, ambos na pauta esta semana por conta do ministério público de de protestos de ambientalistas, são a hidrelétrica de Belo Monte e o porto de Ilhéus (com ferrovia correspondente). Não que haja corrupção propriamente dita em nenhum dos dois (que se saiba), mas que ambos são projetos que só se justificam em nomes de interesses de grandes corporações, na melhor linha de pensamento "o que é bom para a GM é bom para os EUA."
Belo Monte, por exemplo, não é econômica. Vai gerar de energia firme, pouco mais de 4Gw - 30% mais do que uma das usinas do Madeira, a um custo 200% maior. E com o mesmo problema daquelas, que é a perda de quase metade da energia ao longo dos milhares de quilômetros separando elas do consumidor - ou seja, pode dobrar de novo esse custo, comparando com uma usina eólica no Ceará ou em Minas, ou uma termelétrica. Para que alguém ainda se interesse por construí-la, o governo teve que armar um pacote de bondades enorme que, na prática, significa que nós vamos pagar por essa energia, e a fundo perdido, e o consórcio construtor entra só com o lucro. Em termos ambientais, além da destruição de um ambiente único que é a Volta Grande do Xingu, tem que se levar em consideração, novamente, os linhões, e a migração que a mera notícia da usina já tem causado. Isso tudo sem nem levar em conta o caráter boi-de-piranha de Belo Monte, projetada para ser a última de uma cascata de hidrelétricas no Xingu.
Em Ilhéus, por outro lado, está se falando de construir um porto offshore enorme e caro, com ferrovia acompanhando, basicamente para atender aos interesses da Brasil Mineração. Que empresários privados façam isso, como o Eike Batista no seu porto de Açu, tudo bem (desde que não o façam, como no caso do Eike, desrespeitando a legislação ambiental e de portos, com vista grossa do INEA-RJ e da ANTAQ). E, como mostra o Eike, é um negócio que pode perfeitamente ter lucro com eles mesmos investindo. Por que diabos ao invés disso será o governo a arcar com os investimentos?
Isso tudo é o que me leva a pensar até em votar, no primeiro turno, na Marina Silva, apesar dela aparentar ter ficado maluca ("PV apóia Obama"??), ser criacionista e homofóbica. Só porque a tecla única em que ela bate parece ser justamente o lado em que mais seria necessário segurar a Dilma. Votar contra a Dilma no segundo turno, no Serra aliado da Kátia Abreu, sinceramente, ninguém que tenha o mínimo de preocupação com meio ambiente, índios, quilombolas, sem-terra, ou trabalhadores escravos pode fazer. Kátia Abreu é explicitamente contra a lista toda. Mesmo. Sério
Dois exemplos flagrantes, ambos na pauta esta semana por conta do ministério público de de protestos de ambientalistas, são a hidrelétrica de Belo Monte e o porto de Ilhéus (com ferrovia correspondente). Não que haja corrupção propriamente dita em nenhum dos dois (que se saiba), mas que ambos são projetos que só se justificam em nomes de interesses de grandes corporações, na melhor linha de pensamento "o que é bom para a GM é bom para os EUA."
Belo Monte, por exemplo, não é econômica. Vai gerar de energia firme, pouco mais de 4Gw - 30% mais do que uma das usinas do Madeira, a um custo 200% maior. E com o mesmo problema daquelas, que é a perda de quase metade da energia ao longo dos milhares de quilômetros separando elas do consumidor - ou seja, pode dobrar de novo esse custo, comparando com uma usina eólica no Ceará ou em Minas, ou uma termelétrica. Para que alguém ainda se interesse por construí-la, o governo teve que armar um pacote de bondades enorme que, na prática, significa que nós vamos pagar por essa energia, e a fundo perdido, e o consórcio construtor entra só com o lucro. Em termos ambientais, além da destruição de um ambiente único que é a Volta Grande do Xingu, tem que se levar em consideração, novamente, os linhões, e a migração que a mera notícia da usina já tem causado. Isso tudo sem nem levar em conta o caráter boi-de-piranha de Belo Monte, projetada para ser a última de uma cascata de hidrelétricas no Xingu.
Em Ilhéus, por outro lado, está se falando de construir um porto offshore enorme e caro, com ferrovia acompanhando, basicamente para atender aos interesses da Brasil Mineração. Que empresários privados façam isso, como o Eike Batista no seu porto de Açu, tudo bem (desde que não o façam, como no caso do Eike, desrespeitando a legislação ambiental e de portos, com vista grossa do INEA-RJ e da ANTAQ). E, como mostra o Eike, é um negócio que pode perfeitamente ter lucro com eles mesmos investindo. Por que diabos ao invés disso será o governo a arcar com os investimentos?
Isso tudo é o que me leva a pensar até em votar, no primeiro turno, na Marina Silva, apesar dela aparentar ter ficado maluca ("PV apóia Obama"??), ser criacionista e homofóbica. Só porque a tecla única em que ela bate parece ser justamente o lado em que mais seria necessário segurar a Dilma. Votar contra a Dilma no segundo turno, no Serra aliado da Kátia Abreu, sinceramente, ninguém que tenha o mínimo de preocupação com meio ambiente, índios, quilombolas, sem-terra, ou trabalhadores escravos pode fazer. Kátia Abreu é explicitamente contra a lista toda. Mesmo. Sério
2.2.10
Santa Maria Madalena, rogai por nós
...porque tem uns imbecis que, em nome de Cristo, querem enfiar prostitutas menores de idade na cadeia.
Comentar o quê? Tipo, eles acabam de conseguir superar os primos deles que inventam que o buraco da agulha era um portão estreito em Jerusalém, no campeonato de "subverter completamente a mensagem da Bíblia."
******************
Belo Monte, mencionada no artigo anterior, recebeu a permissão ambiental e vai ser licitada em Abril. Lembrando sempre: noves fora a questão ambiental e social, o custo da energia, considerando o custo da e as perdas na transmissão, vai ser comparável ao de uma usina nuclear feita próxima dos centros de consumo. (Digamos na Praia Grande.)
******************
Enquanto a Dilma encosta no Serra na pesquisa geral, nas pesquisas voluntárias pela internet Serra ganha no primeiro turno, e com folga. Será que tá havendo finalmente uma política pautada por classes no Brasil? Não vi muita discussão sobre isso por aí, mas pode ter sido só falta de atenção minha.
******************
Entro de férias hoje; o blógue entra junto.
Comentar o quê? Tipo, eles acabam de conseguir superar os primos deles que inventam que o buraco da agulha era um portão estreito em Jerusalém, no campeonato de "subverter completamente a mensagem da Bíblia."
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Belo Monte, mencionada no artigo anterior, recebeu a permissão ambiental e vai ser licitada em Abril. Lembrando sempre: noves fora a questão ambiental e social, o custo da energia, considerando o custo da e as perdas na transmissão, vai ser comparável ao de uma usina nuclear feita próxima dos centros de consumo. (Digamos na Praia Grande.)
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Enquanto a Dilma encosta no Serra na pesquisa geral, nas pesquisas voluntárias pela internet Serra ganha no primeiro turno, e com folga. Será que tá havendo finalmente uma política pautada por classes no Brasil? Não vi muita discussão sobre isso por aí, mas pode ter sido só falta de atenção minha.
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Entro de férias hoje; o blógue entra junto.
15.7.09
Descascando o PAC III - Energia
Se tem um ponto em que o establishment da mídia e dos negócios elogia o governo Lula, é a política energética. O que por si só já deveria soar o alarme, e não é só pra ser do contra que eu digo que a política energética Lula é uma tragédia. Conseguiu combinar os problemas dos dois modelos anteriores, o tucano e o desenvolvimentista (milicos e Sarney), tanto pelo lado econômico quanto pelo ambiental. O modelo milico era baseado em grandes obras hidrelétricas, necessariamente cada vez mais distantes à medida que iam acabando os rios próximos dos pólos de consumo, enquanto o tucano era baseado em usinas termelétricas.
O modelo milico era problemático porque, com as obras financiadas pelo governo, o custo real era uma caixa-preta digna de um witticism do Churchill sobre a União Soviética. Somas enormes de dinheiro e incontáveis vidas humanas (literalmente) foram gastas em grandes barragens em regiões remotas. Pra fingir que continuava saindo barato, se omitia ou subfaturava os custos de capital e oportunidade, e esquecia-se inteiramente da transmissão - tanto do preço das linhas quanto da quantidade de energia desperdiçada pelo caminho, já que estas não são supercondutoras. E, enquanto milhares de pessoas se mudavam para o local por conta dos rumores de "desenvolvimento," na prática o investimento, intensivo em capital e precisando de pouca gente, se convertia num enclave de extração de recursos naturais digno da África.
Nem estou falando tanto assim das famosas usinas do Rio Madeira. Estas são menos problemáticas do que a maioria das grandes usinas da Amazônia; estão rio acima e nem tão distantes de Porto Velho, numa área já bastante degradada e povoada. Mas acaba de sair o EIA-RIMA das linhas de transmissão ligando Manaus e Macapá ao resto do país, e elas convenientemente passam pelo Xingu, pra conectar Belo Monte, uma usina gigante e pouco eficiente a ser construída no meio de um parque nacional. E tanto Belo Monte quanto Jirau e Santo Antônio são reflexos da mesma atitude: a salvação está nas grandes obras públicas, em conjunto com o incentivo a obras médias privadas. E são piores do que as dos milicos porque num ambiente em que empresas privadas lucram com a energia "barata" cedida pelo governo, enquanto os consumidores pagam tarifas européias.
As termelétricas (o lado tucano do modelo) são piores do que o original, também. Isso porque se mantém um incentivo à produção fóssil maior até do que o concedido à energia limpa (a subutilização de energia eólica e solar no Brasil é simplesmente criminosa, e contrasta não apenas com os países ricos mas até com nossos companheiros BRICs), com um agravante: o custo previsto pelo modelo de leilão feito finge que a usina ficará funcionando ao longo do contrato. Ora, no modelo brasileiro, em que as hidrelétricas fornecem a carga-base do sistema, as térmicas só são ligadas pelo Operador Nacional do Sistema quando necessário, para atender a demanda de pico ou quando os reservatórios estão vazios, então essa premissa é falsa. E a diferença entre a premissa e a realidade incentiva que se faça uma térmica com o combustível mais barato possível - motivo pelo qual o Brasil é o único importador de carvão do mundo que está construindo uma grande quantidade de térmicas a carvão, que sói ser o pior combustível possível em termos de impacto ambiental.
O modelo milico era problemático porque, com as obras financiadas pelo governo, o custo real era uma caixa-preta digna de um witticism do Churchill sobre a União Soviética. Somas enormes de dinheiro e incontáveis vidas humanas (literalmente) foram gastas em grandes barragens em regiões remotas. Pra fingir que continuava saindo barato, se omitia ou subfaturava os custos de capital e oportunidade, e esquecia-se inteiramente da transmissão - tanto do preço das linhas quanto da quantidade de energia desperdiçada pelo caminho, já que estas não são supercondutoras. E, enquanto milhares de pessoas se mudavam para o local por conta dos rumores de "desenvolvimento," na prática o investimento, intensivo em capital e precisando de pouca gente, se convertia num enclave de extração de recursos naturais digno da África.
Nem estou falando tanto assim das famosas usinas do Rio Madeira. Estas são menos problemáticas do que a maioria das grandes usinas da Amazônia; estão rio acima e nem tão distantes de Porto Velho, numa área já bastante degradada e povoada. Mas acaba de sair o EIA-RIMA das linhas de transmissão ligando Manaus e Macapá ao resto do país, e elas convenientemente passam pelo Xingu, pra conectar Belo Monte, uma usina gigante e pouco eficiente a ser construída no meio de um parque nacional. E tanto Belo Monte quanto Jirau e Santo Antônio são reflexos da mesma atitude: a salvação está nas grandes obras públicas, em conjunto com o incentivo a obras médias privadas. E são piores do que as dos milicos porque num ambiente em que empresas privadas lucram com a energia "barata" cedida pelo governo, enquanto os consumidores pagam tarifas européias.
As termelétricas (o lado tucano do modelo) são piores do que o original, também. Isso porque se mantém um incentivo à produção fóssil maior até do que o concedido à energia limpa (a subutilização de energia eólica e solar no Brasil é simplesmente criminosa, e contrasta não apenas com os países ricos mas até com nossos companheiros BRICs), com um agravante: o custo previsto pelo modelo de leilão feito finge que a usina ficará funcionando ao longo do contrato. Ora, no modelo brasileiro, em que as hidrelétricas fornecem a carga-base do sistema, as térmicas só são ligadas pelo Operador Nacional do Sistema quando necessário, para atender a demanda de pico ou quando os reservatórios estão vazios, então essa premissa é falsa. E a diferença entre a premissa e a realidade incentiva que se faça uma térmica com o combustível mais barato possível - motivo pelo qual o Brasil é o único importador de carvão do mundo que está construindo uma grande quantidade de térmicas a carvão, que sói ser o pior combustível possível em termos de impacto ambiental.
6.7.05
Ministros e elos
Três novos ministros de estado. Todos os três, aparentemente, com alguma relação com as respectivas pastas. Isso pode não ser tão bom quanto parece - quem quiser clicar no link para a discussão sobre a usina elétrica de Belo Monte, aí do lado, talvez concorde. No link, Silas Rondeau é "Eletronorte."
Fora o Hélio Costa, que na rubrica "comunicações" entra na subpasta gorda de "problemas."
Fora o Hélio Costa, que na rubrica "comunicações" entra na subpasta gorda de "problemas."
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