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30.11.12

Casando comidas

Não, não estou falando do feijão com arroz, muito menos do steak tartare com batata frita, mas de casar a produção dos alimentos, usando uma mesma área para todos. Um dos grandes problemas das monoculturas, em geral, é o quão suscetíveis elas são a pragas e doenças. Não existe uma única razão pela qual um mato vive feliz sem nenhuma aplicação de nada (bem, pelo menos até que uma espécie invasiva apareça), enquanto uma monocultura precisa de aplicações industriais de pesticidas para controlar pragas. Parte é por conta da homogeneidade genética; assim como o ser humano, as plantas e animais por ele domesticados são geneticamente pobres, principalmente os industriais. Parte, entretanto, é uma questão, digamos, semântica.

Assim, o problema da aplicação de pesticida não é que as pragas matariam necessariamente a cultura desejada, mas que não se quer que nada interfira com ela, proporcionando o máximo rendimento. Acima de tudo, controla-se o aparecimento de qualquer coisa que não seja o organismo sendo criado, porque "qualquer coisa" pode ser daninha, e é mais fácil eliminar qualquer coisa antes que ela cresça. O problema com isso é óbvio: como cada cultura, vegetal ou animal, ocupa um único nicho no ecossistema; com a monocultura mantém todos os outros nichos em aberto. Como a natureza, ao contrário da política brasileira, abomina o vácuo, a energia, e os poluentes, despendidos para manter esse monte de vácuos abertos é imenso - e sempre aparecem novas pragas para escapar da vigilância do agricultor.

A solução para o problema parece relativamente simples, mas é abominada pela agricultura industrial, até por significar, em geral, mais trabalho e menos possibilidade de mecanização: trata-se de preencher o máximo razoável de nichos ecológicos com espécies produtivas. Assim, desde priscas eras - OK, desde o século VIII, mais ou menos carpas são criadas em arrozais da China (e olhe que o arroz de campo molhado desenvolvido no sul da China é justamente o primeiro exemplo de monocultura, e talvez tenha sido o primeiro ou segundo grande vilão do aquecimento global, muito antes dos combustíveis fósseis); nas ésias, de Madagáscar ao Havaí, se cultiva coqueiro, bananeira, e abacaxi no mesmo espaço; o café é cultivado à sombra de árvores frutíferas; e por aí em diante. Para o sistema de grandes empresas, significa menor produtividade por hectare (às vezes, mas nem sempre), mas se você pensar do ponto de vista de produtividade líquida, contando a energia e o dinheiro despendidos pelo agricultor, invariavelmente é um sistema muito mais racional.

Assim, o projeto de consorciar tilápia e camarão mencionado na reportagem da Ciência Hoje não é particularmente revolucionário. O potencial de se utilizá-lo em larga escala, no entanto, é. Isso porque o Brasil tem, sabe-se lá por que motivo, uma Secretaria Especial da Pesca, visando a estimular a pesca e a aquicultura, apesar de nossos mares (que não são lá muito piscosos, com a exceção mal e mal de Santa Catarina e Pará) já sofrerem com a sobrepesca desde os anos 60. É como se tivéssemos uma Secretaria das Madeireiras, estimulando o desmatamento, já que a pesca não é senão caça de recursos naturais, como se ainda estivéssemos no paleolítico só que com navios fábrica, aviões batedores, redes literalmente quilométricas, e dinamite. Se se concentrasse unicamente na ainda incipiente aquicultura brasileira, e estimulasse projetos como esse, que além de economicamente práticos resultam em menos resíduos e poluição, a Secretaria da Pesca seria menos absurda.

OK, desde que não estimulasse a implantação, que já ocorre, de viveiros de camarão em áreas de mangue...

27.11.12

Fear of small numbers II - oclo, demo, eudaimonio

O historiador e panfletista americano Mike Davis, em sua coletânea "Elogio dos Bárbaros," narra o confronto entre um militante do Partido Democrata e um mineiro dos apalaches - isto é, um representante de uma classe (trabalhadora) e uma região (pobre e beneficiária do New Deal) que tradicionalmente representava a base sólida do partido - na qual o primeiro pergunta ao segundo "por que vocês nos abandonaram?" A resposta, algo óbvia, é "não fomos nós que abandonamos vocês, mas o contrário." O Partido Democrata se afastou das posições sociais-democratas rooseveltianas, baseando sua oposição aos republicanos (que por sua vez se mantém com todo o cabedal conservador unificado, desde a Southern Strategy) em questões morais-culturais e abraçando o neoliberalismo reaganita. Seus maiores esteios não são mais sindicatos e a classe trabalhadora, mas indústrias criativas e advogados, de um lado, e não-brancos, do outro; suas bandeiras principais são da guerra moral - direitos de minorias, acesso universal, meio ambiente - e não a representação dos trabalhadores contra o capital. Clinton, afinal, promoveu um processo de achatamento dos impostos

A estória, claro, é bem mais complicada do que o resuminho acima, e já o era mesmo antes de Obama resgatar, no mundo pós-Goldman Sachs, bandeiras como aumento de impostos e saúde universal. E, ao contrário do que Davis conclui em seu artigo, a distribuição de votos para Obama implica que os democratas não estão tão errados assim, em termos puramente pragmático-eleitorais. Mas ela reflete uma realidade problemática para a esquerda global, que não é óbvia, muito menos automática, mas é marcante: a disputa entre a defesa do bem-estar material do maior número de pessoas e a defesa daqueles particularmente oprimidos pelo sistema. As duas, que podem ser vistas como partes de um todo de resistência contra uma quiriarquia opressora, na prática são vistas, ao contrário, como afinididades eletivas e mesmo concorrentes.

É isso, e não algum pacto com o demônio, que faz com que seja possível a Dilma, seguindo os passos dos governos do socialismo real, planejar a destruição dos ambientes naturais e povos tradicionais da Amazônia, em nome do desenvolvimento. É uma falácia múltipla, sem dúvida, já que a conta que ela pressupõe é a de que não é possível promover desenvolvimento rápido sem comoção social de outra forma, e comoção social é (alguns poderíamos argumentar) exatamente do que precisamos; na conta de Dilma & Co o modo de vida da classe média, com consumo regular de duráveis*, incluindo carro, com casa própria, com viagens frequentes, não pode ser ameaçado e deve, ao contrário se expandir eventualmente a todos os cidadãos.

Não dá pra dizer simplesmente que essa não é uma visão de esquerda; ela é, afinal, o sonho stalinista, que se irmanava com seus irmãos do outro lado da cortina de ferro, discordando apenas nos meios pelos quais chegaríamos lá, e nem tanto assim, em muitos casos.** Se trata da adição de "prosperidade" à lista da revolução francesa de liberté egalité fraternité. Bem entendido, no caso do Stalin, com supressão da "liberdade." E a questão da prosperidade não pode ser respondida, numa situação brasileira, com a simples renúncia ao aumento da prosperidade coletiva, como nos países ricos. Uma igualdade universal nos EUA, com uma renda de 4.000R$ por mês de renda disponível pra cada um, talvez fosse razoável, mas uma igualdade universal a menos de 800R$ por mês per capita? Não significa não apenas não viajar, mas não ter acesso a serviços que consideramos básicos; e uma vindicação aparente da "esquerda tradicional proletária anti-mudernidades de minorias" dilmista estaria no fato de o Brasil ter sido o país com o maior ganho de bem-estar do mundo entre 2006 e 2011. 

Da igualdade de todos como seres humanos resulta que os anseios coletivos, no seu agregado numérico, sejam legítimos, mesmo que para tal os anseios de poucos tenham que ser sacrificados, sejam estes poucos atuais opressores ou atuais oprimidos, e nesta última alternativa está a falácia presente quando o modelo dilmista e daqueles que, na situação corrente, falam em "muita terra pra pouco índio" e congêneres.*** Admitindo uma soma-zero entre índios e não-índios, está ausente o reconhecimento de que grandes fazendeiros, sejam eles latifundiários clássicos ou o novo e reluzente (de agrotóxico) agronegócio, concentram muito mais terra arável do que os índios, mesmo tomado o conjunto do Brasil, que inclui a mais remota Amazônia. Os pretensos anseios por equidade contidos na reclamação de "muita terra" pros índios só se sustentam se você ignorar, ou tomar por absolutamente legítima, qualquer desigualdade dentro do campo "não-índios." Em outras palavras, só faz sentido se você julgar as coisas em termos nacionais-chauvinistas-caindo-pro-racismo, e decretar que índios não são brasileiros. É o que faz Katia Abreu, em seus exercícios de antropologia. Se é brasileiro, se não é um bom selvagem isolado,  então não é índio. O exercício é mais sutil do que à primeira vista parece, porque ele não deixa saída para os índios. Se não é índio, mas brasileiro, não merece ter sua terra isolada da ação do "mercado" (com grilagem e fuzil). Se é índio, não é brasileiro, e aí os índios têm terra demais.

A estratégia de Kátia Sahlins, de invocar a comunidade nacional para justificar as desigualdades no meio desta, é denunciada, claro está, pela esquerda desde sempre. Ela, Katia, tem mais terra em seu nome do que os Guarani-Caiová, e são (digamos, incluindo a família Sahlins inteira) umas 30 pessoas, contra 45.000 guaranis-caiová. Mil vezes mais terra do que os "índios que têm muita terra." Se o problema é a distribuição equânime da terra entre todos os brasileiros, faria mais sentido começar por eliminar os casos de desigualdade mais forte; no Mato Grosso do Sul dos Guarani-Caiová, por exemplo, o índice de Gini da distribuição de terra (sem contar os índios, que têm menos de dois hectares cada) é de mais de 0,8 - pra comparar, o índice de desigualdade de renda brasileiro, altíssimo, é 0,51. Nem se trata apenas de brasileiros e pessoas físicas: as fazendinhas de Katia são muito menores do que aquelas possuídas por grupos estrangeiros como Carrefour, Archer Daniels Midland, Bunge, Cargill, Nestlé, Louis Dreyfus, e companhia. O capital já atingiu desde antes de ser capital o internacionalismo com que os proletários sonham, e suas balas são antes de tudo para os próprios soldados.

Contra o hipócrita nacionalismo das multinacionais, urgem duas posições, uma imediata e outra definitiva. A imediata é simples: apontar a falácia, perguntar se a CNA que fala em muita terra para pouco índio não é, também, a favor da reforma agrária, ou pelo menos de um simples aumento no ITR para valores próximos aos pagos por proprietários de terrenos urbanos. A mais definitiva requer, entretanto, uma resposta para a pergunta - "por que alguns merecem ter terras que outros não merecem" - que se sustente mesmo após um hipotético e utópico fim das desigualdades. Ela não é necessária apenas para esse feliz fim da história, mas como resposta presente, já que a reforma agrária tira o argumento da CNA, mas não é em si um argumento positivo para afirmar os direitos dos povos tradicionais. Não é uma questão desimportante: afinal, se todos são iguais numa democracia, por que uma exceção a essa regra se justifica?

Uma resposta comum entre aqueles que defendem as causas indígenas, aquela para o romantismo, ao falar, por exemplo, dos índios "cidadãos de um universo harmonioso," em contraposição a nós, os desarmoniosos, de quem deveríamos aprender a harmonia.  Não é, aí, o bom selvagem, mas uma construção mais complexa, que fala de modos de relação com a natureza, mas peca por assumir que a relação destrutiva "ocidental" com a natureza é uma queda do paraíso (apesar da crítica à noção ocidental de paraíso no texto referenciado de E. Viveiros de Castro), uma questão de virtude que teríamos a aprender. Utilitariamente, a visão não funciona. O modo de vida dos índios na Amazônia (e de outras populações florestais, seja na Papua Nova Guiné de hoje ou no Japão Jõmon) é tão "harmônico com a natureza" (categoria ela mesma ocidental, pelo menos em seu modo comparativo) quanto outras populações tradicionais não-florestais, como, por exemplo, um camponês medieval (nem são, camponês ou índio, apenas avatares ou epígonos de seus respectivos ecossistemas antroponaturais. Sem trocadilho com James Cameron). Se tudo que os índios tivessem para nos ensinar,  fosse uma diferença assim, resumível em meia dúzia de palavras ou incomunicável senão pelo lento aprendizado, não seria uma diferença tão interessante assim. E não teria tanta utilidade prática - ausente um suicídio em massa, as taxas de ocupação da terra ideais de um sistema econômico florestal-agricultura de coivara precisariam de ainda mais terra do que o atual sistema.

Os índios não têm direito a suas terras, eu diria, porque encerrariam em si algum recurso aproveitável, incorporável à nossa riqueza (no caso, espiritual), mas simplesmente pelo direito à diferença, que implica na manutenção da diversidade. A diversidade do planeta está caindo em ritmo assustador, em todas as frentes. Espécies na natureza, sim, todos sabem disso, mas também a diversidade humana cai rapidamente, e aquela que é um pouco humana e um pouco natural. Línguas são extintas, como seus povos, como variedades de plantas e animais domésticos (e epidomésticos). A mortandade em curso desde a Revolução Industrial é, já, das maiores de todos os tempos no planeta, em qualquer registro. E isso deixa o planeta mais pobre. O ser humano, que durante seus primeiros milhares de anos causou menos extinções do que criou coisas novas, agora vê isso deixar de ser verdade, mesmo com o fantástico incremento na novidade científica-técnica; os milhares de culturas e manifestações são incorporados em meia dúzia de campos, todos eles ordenáveis através de cadeias globais de dinheiro e prestígio (com direito a Taj Mahal em Dubai). A criação de uma cultura global é, dessa forma, um empobrecimento. E um empobrecimento que não se dá em bases igualitárias, lembremo-nos novamente: não são nós versus os outros, de outra cultura. Culturas são hierárquicas, e quanto maior mais hierárquica. Não que a cultura global seja assim tão totalitária; nascem subculturas dentro dela o tempo todo, e algumas até se recusam à posterior reincorporação. Mas dentro desse cenário de mortandade, é necessário, é o mínimo, reconhecer o direito de alguém, de um povo, a se recusar à incorporação, e essa recusa não significa o isolamento total, mas pautar o grau e o ritmo de ligação com a cultura totalizante.****

Não é uma questão de noblesse oblige, mas de direito humano, nos termos mais pragmáticos, porque a incorporação forçada, e por baixo (sempre por baixo) a uma sociedade desigual resulta, quase que fatalmente, em uma taxa altíssima de sofrimento . Negar aos índios o direito às suas terras tradicionais é matá-los, cotidianamente. Não é uma questão abstrata, é uma necessidade direta; quantos cadáveres vale uma tonelada de soja? Um farnel de algodão? Uma meda de milho? Em nome da integração de territórios à nação produtiva, quantos mortos serão válidos, quantos genocídios? Não deixa de ser historicamente coerente: afinal, se todos os impérios têm enorme conta de mortos, não lembro de outros monumentos como o das Bandeiras no Ibirapuera, em que o caçador de escravos heróico é representado no momento da captura de seres humanos, ao invés de ter esse lado de suas atividades escamoteado.

 E, mais pragmaticamente ainda, ignorando até os direitos humanos (afinal, diria o Grande Irmão, os direitos de poucos podem ser ignorados em prol do interesse de todos), a manutenção da diversidade, da alteridade, é uma preservação de informação e, portanto, de segurança no sistema. Existe a possibilidade do apocalipse monocultural, versão em qualquer outra esfera do ocorrido na Grande Fome da Irlanda, em que a monocultura da batata não revelou-se uma boa idéia quando apareceu uma doença da batata. (Não que tenha sido essa a única causa da fome - o capitalismo deu uma ajudinha.) Culturas diferentes, assim como seres vivos diferentes, são um reservatório de possibilidades, reservatórios de alteridades que significam a resposta para perguntas que ainda nem fizemos (ou, talvez, nem possamos fazer antes da observação). Não porque são mais sábios e nobres que nós, apesar de não terem ar condicionado nem iPad, mas simplesmente porque são diferentes. Os interesses da multidão também são servidos pela preservação dos que preferem continuar outros. Nos seus próprios termos.

E, evidentemente, porque um planeta mais diverso é muito mais interessante. O que, para explicar as coisas em termos que até os engenheiros gernsbackianos como Dilma e Co podem entender, será muito importante na economia do turismo e do entretenimento do século XXI. Mucho money. Mooooney.



*com obsolescência programada, evidentemente.

**a ditadura militar brasileira, enquanto torturava e matava comunistas e índios, estatizava setores inteiros da economia. Em 85, eram estatais a produção de aço, petróleo, produtos químicos, aviões, armas e eletricidade; os serviços de telefonia, operação portuária, operação aeroportuária, transporte aéreo, e transporte regional ferroviário; eram fortemente controlados pelo estado a produção de biocombustíveis, a produção naval, e a distribuição de alimentos. A presença estatal na economia brasileira se assemelhava à finlandesa. A diferença estava na distribuição da riqueza, mais do que no modelo econômico; a ditadura brasileira, por supuesto, não acreditava nem em liberdade, nem em fraternidade, nem em igualdade.

***trata-se de um vasto e bizarro campo de insatisfação com privilégios percebidos como auferidos por índios, pobres, prisioneiros, mulheres, gays e outrem - sem, entretanto, em momento algum pular para a crítica aos privilégios auferidos pelo Thor Batista.

****Claro que o direito à escolha do isolamento total também deve ser respeitado. Há diversos povos que optaram por ele, na Amazônia e alhures.

13.11.12

Frei Muad'dib

Graças à greve de fome de um bispo, a transposição do São Francisco conseguiu virar tema de debate nacional. Até agora, estava só no rol de obras bilionárias daquelas "necessárias para o crescimento," pelo menos fora do Nordeste. Neste exato momento, o governo tenta mentir para o bispo falando de uma revitalização que custaria 6bn ao longo de 20 anos. Ora, 6bn ao longo de vinte anos, ainda mais com um aumento da irrigação ao longo das margens, mais a transposição, mais a continuada degradação das cabeceiras do rio...pode ajudar, claro, mas "revitalizar" é que não vai. E outra coisa: pra proteger o São Francisco, ações em Minas são mais importantes do que no Nordeste, já que só 25% das águas do rio, que é quase um Nilo, entram nele depois da fronteira MG-BA.

Curiosamente, o governo está sendo vítima da própria boca. Isso porque a "transposição" não é um projeto tão grandioso quanto parece. É muito menos do que os 740m3/s que, sem tanto alarde, os californianos tiram do Colorado (que hoje em dia, como o Hwang Ho, às vezes não chega no mar), ou do que é tirado dos rios no Sudeste brasileiro para abastecimento de água. Afetaria menos o rio do que as barragens que fazem do seu curso inferior uma sucessão de lagos - não custa lembrar que Sobradinho é o maior lago do Brasil, e a perda por evaporação adicional nesse lago imenso é de 132m3/s, mais do que o quíntuplo da "transposição."

O projeto também tem falhas conceituais - por exemplo, quando falam em aumentar a vazão dele "só quando o São Francisco estiver vertendo água em Sobradinho," estão querendo dizer que vamos pagar por bombas e túneis de 127m3/s que vão funcionar a 21% a maior parte do tempo? E como essa irrigação sazonal vai entrar numa agricultura regular, já que o S. Francisco tem ciclos plurianuais de cheia e seca? E porque estimular a fixação humana num ambiente precário, ainda mais baseando-se na agricultura, ao invés de tentar reduzir o uso de água nesse ambiente, que não chega a ser desértico, e onde, portanto, uma cultura menos hidrointensiva poderia sobreviver sem problemas?

Agora, fora isso tudo, a grande piada, a ironia realmente deliciosa da coisa é que o maior dano ecológico da transposição não seria no São Francisco, mas na área "beneficiada" pelas obras. Transformar uma área de rios sazonais em área de rios perenes é alterar o ecossistema tanto quanto tirar a água de uma parte onde ela é abundante. Só que, infelizmente, a caatinga não tem o carisma da Amazônia, e desertos em geral continuam sendo vistos como áreas a ser colonizadas, não preservadas. O que não é um problema tão grande para os desertos propriamente ditos, já que a humanidade ainda não consegue atacá-los com facilidade, mas está transformando em desertos os semiáridos.

Faz falta um Liet Kynes.

7.11.12

Proposta metrô pro Rio de Janeiro II

Agora incluídos a Supervia, os BRTs do Paes, e uma linha de BRTrólebus (pra baratear os túneis imensos) usando a ponte e indo da Gávea à região oceânica de Niterói

Centro expandido:



Grande Rio:




29.10.12

Pope Satan e os minhocões

O viaduto Perimetral é um monstrengo de concreto que liga o Aterro do Flamengo ao seu primo-irmão viaduto do Gasômetro, e por ele aos acessos de saída do Rio de Janeiro, na Avenida Brasil e na Ponte Marechal Ditador Costa e Silva (nome compartilhado pelo outro primo da Perimetral, o Minhocão de São Paulo). Faz parte de um projeto do auge do planejamento rodoviarista, de se criar a "perna litorânea" de um anel viário de grande capacidade no Rio. Por isso, e por criar um túnel escuro e sujo numa área que após sua construção se esvaziou tanto de população quanto de atividade econômica, ficou por muito tempo no ideário progressista como ao mesmo tempo culpado por essa decadência e ´símbolo máximo (no Rio) do pensamento rodoviarista, em que se dá ao carro a primazia, não apenas dos deslocamentos, mas da própria forma da cidade. (Bem entendido, o carro vai de mão em mão com a especulação imobiliária, pela extensão que dá à forma urbana.)

Esta noção é mais razoável do que a primeira, porque a decadência da região portuária do Rio tem mais a ver com a decadência do próprio porto, e com a migração (por conta da revolução no transporte) de sua atividade dos cais de 1910, cortados pela Perimetral, à ponta do Caju; ao contrário do que ocorre em São Paulo, aonde o Minhocão cortou áreas residenciais e comerciais, a Perimetral cortou uma área já dedicada à atividade industrial e de movimentação de carga pesada. O barulho e poluição do tráfego expresso não afastariam atividades elas próprias geradoras intensas de barulho e poluição; em Santos, as zonas próximas ao porto são em sua maioria zonas degradadas justamente pelo barulho e poluição.

Pois bem, a mesma perimetral rodoviária, hoje, é defendida por gente progressista, incluindo o candidato Marcelo Freixo, agora que o prefeito planeja sua demolição como parte de um projeto de "revitalização" do Porto, trocando a vocação da área para moradia, turismo, e escritórios. Argumenta-se que sem a rodoviária terá-se um "nó no trânsito." Ora, este é o supra-sumo do argumento rodoviarista,  a contraparte lógica do que pautou sua construção. E - logicamente, já que Eduardo Paes é um tecnocrata de direita, pouco inclinado a questionar a lógica rodoviarista* - tecnicamente errado. A Perimetral, hoje, é uma parte de uma das duas alternativas de deslocamento entre o Centro do Rio e o conjunto de viadutos e vias expressas de saída da cidade: pela orla ou pela Avenida Ditador-Presidente Vargas.

A orla consiste da Perimetral, uma via expressa tipo zero, sem cruzamentos nem sinais com duas faixas por sentido, conectando-se ao Aterro do Flamengo ao sudoeste, e abaixo dela a Rodrigues Alves, uma avenida de três faixas por sentido, com sinais e cruzamentos, conectando-se à Praça Mauá ao sudoeste; ambas conectam-se a leste ao viaduto do Gasômetro. Ora, no novo modelo a ser implantado pela Prefeitura, uma Rodrigues Alves expressa, tipo zero, sem sinais nem cruzamentos, substituirá a Perimetral, enquanto uma nova avenida, ainda sem nome, substituirá a atual Rodrigues Alves; graças a um conjunto de túneis, ambas terão exatamente os mesmos acessos do conjunto viário atual, mas com uma faixa expressa por sentido a mais.Fazendo a conta: hoje temos 2+2 linhas expressas e 3+3 locais; em 2016, teremos 3+3 exp, 3+3 locais, e o mesmo traçado em termos de acessos. 

Em outras palavras: o encampamento do argumento rodoviarista pela esquerda está tecnicamente, faticamente errado, além de representar uma contradição do discurso passado, sem passar pela autocrítica (eu, pessoalmente, mantenho o velho discurso e seria a favor da derrubada da Perimetral SEM alternativa viária expressa - a região já é próxima ao metrô e à supervia, e terá sistema de VLT para os deslocamentos internos a partir da Central).

Não que não haja muito o que criticar nas circunstâncias nas quais se dá a derrubada da Perimetral, numa operação urbana que, como suas equivalentes havidas em outras cidades, de Barcelona a Buenos Aires, tem como objetivo a inserção da cidade num modelo em que os turistas e os executivos globais prosperam e os outros, quando não pitorescos, permanecem excluídos. A operação é transparente como uma folha de granito, e transfere atribuições públicas a uma companhia privada. A gentrificação que é parte integrante dela expulsa moradores da área.** A perimetral poderia ser, com custo equivalente ao de sua demolição, reaproveitada como viaduto metroviário. Os largos terrenos vazios e próximos ao centro também seriam ótimos para fazer moradia social de alta densidade, ignorada pelo projeto. E por aí em diante.

Até por essa abundância de motivos para criticar o projeto, não dá para deixar de perceber a grita contra o fim da Perimetral, em que a esquerda irmana-se ao Otavio Leite, como um antinomismo, uma redefinição de hay gobierno soy contra em que se a direita faz algo, sou contra. Não importa o quê. Do mesmo modo, as remoções de casas de áreas de risco são criticadas não apenas pela truculência e falta de transparência, mas pela própria remoção, pondo em aspas "área de risco," como se a existência de moradias em áreas de risco, e até sua prevalência, não fosse reconhecida e criticada, principalmente no período das chuvas. Afinal,  um dos grandes fatores que levam à criação de uma favela em determinada área é justamente a indesejabilidade daquela área para quem pode morar em lugar melhor, entre outros fatores pelo risco climático-geológico.

De novo: não se trata, aqui, de defender o tecnocrata reacionário, com seus "choques de ordem" e sua cidade global para os cidadãos globais, que muito flexivelmente se alçou à prefeitura como mosqueteiro da CPI do Mensalão, junto com ACM Neto e Heloísa Helena, para em seguida governar unha-e-carne com o governo federal. Mas o antinomismo, em que tudo que ele faz é errado por definição, é uma renúncia à crítica, e não uma crítica. É, como os satanismos da vida, tanto os ingênuos de metaleiros e medievos quanto o satírico de Anton LaVey, uma condição subordinada, em que se é tão-somente espelho invertido do que se opõe; é se deixar pautar, ainda que negativamente, pela direita. Se Otavio Leite vencesse, a Perimetral voltaria ao seu status anterior de chaga urbana?

Pior: o antinomismo faz com que seja tanto mais fácil ignorar completamente a esquerda. Afinal, em termos de poder real, não há comparação entre as forças envolvidas. A direita pode abdicar do convencimento e se dedicar tão-somente à demonização do adversário porque é o lado da quiriarquia, o lado do poder por definição - e aí está o problema da minha própria crítica ao antinomismo, o de que a crítica ponderada não pode nunca se confundir com o apoio ou composição. Ponderada não quer dizer menos radical, apenas mais complexa. Não é fácil, nem um pouco. Nem poderia ser.


*Aliás, muito pelo contrário: habilmente usou a construção de corredores de BRT para integrar à malha de transporte público da cidade a Zona Oeste - em si acertada e necessária - como boi de piranha para erigir túneis rodoviários que servissem também a automóveis particulares, em especial o da Grota Funda, ambição antiga de todos os prefeitos cariocas, abrindo novas áreas à especulação imobiliária.

**Esclareça-se: o problema da gentrificação não ocorre quando um morador ou comerciante vende a própria casa ou comércio e vai para o subúrbio morar num lugar melhor. Se assim fosse, quem o põe em pauta seria, como querem os liberais, um apologista da pobreza. O problema é quando os aluguéis aumentam de maneira desmesurada, expulsando gente sem propriedade nenhuma. E na maioria das favelas brasileiras, bem como em boa parte dos bairros da zona portuária do Rio, a casa própria não é exatamente comum...



PS para reconhecer algum mérito até no modelo rodoviarista, foi graças a ele, sob o udenista Lacerda, que o Rio ganhou seu maior parque público, numa cidade carente de parques: o Aterro do Flamengo, que por sua vez foi complemento de uma via expressa que prolonga a Perimetral até as portas de Copacabana.

PPS se o choro pela Perimetral é ridículo, outros marcos do Rio de Janeiro estão sendo postos abaixo na maior desfaçatez, ante a omissão ou participação ativa dos governos estadual e municipal. Há o museu do Índio do Maracanã, que foi sede do Rondon e antes disso do Ministério da Agricultura e tem 154 anos, a antiga embaixada da Áustria que foi a primeira casa modernista da cidade, a fábrica da Brahma ao lado do Sambódromo que foi a primeira fábrica de cerveja de grande escala do Brasil...

A morada do poder

Em meio a toda a profusão de mapas de votação mostrando uma distância bem nítida entre as preferências eleitorais da periferia pobre (esquerda, menos no Rio) e do centro rico (direita, menos no Rio) das capitais brasileiras, achei curiosa a falta de distância entre os endereços dos candidatos propriamente ditos. Pensei nisso, ontem, ao ver a dúzia de carros de satélite próximos ao apartamento do Haddad (que vota na frente da minha casa). O Paraíso, aonde eu e Haddad moramos, é quase na ponta leste do setor sudoeste paulistano, em que se concentra a burguesia tradicional (há bolsões burgueses em cada região da cidade, que nesse sentido é bem descentralizada, bem como na sua região metropolitana, com direito a subúrbio à americana em Cotia e Mairiporã). Quase na ponta oeste está o Alto de Pinheiros, bairro onde fica a mansão de José Serra. Nem São Paulo é excepcional nesse quesito; pelo contrário, ainda está "bem distribuída." No Rio, Freixo e Paes moram em bairros vizinhos, Leblon e São Conrado. Em Salvador, Pelegrino e ACMinho moram no mesmo bairro, e uma velhinha artrítica não teria problemas em percorrer a distância que lhes separa.

Resolvi, então, conferir a distância (as the crow flies) entre os principais candidatos em algumas cidades, bem como o metro quadrado de seus bairros:



São Paulo: Haddad: 11.806. Serra: 8.278
Rio de Janeiro: Paes 11.514. Freixo: 18.332
Salvador: Pelegrino e ACMini: 3.377
Belo Horizonte: Marcio Lacerda: 7.812. Patrus Ananias: 4.998.


E daí isso tudo? E daí nada. A maioria  dos candidatos a prefeito de capital já são políticos, e políticos ganham muito bem; no caso são todos de classe média, e de origem classe média, mas nesse sentido a política brasileira está bem mais democrática do que a americana, por exemplo (Obama, de família classe média-alta, é uma exceção pra baixo; Clinton gostava de dizer que nasceu num trailer park, a favela deles, mas se mudou pruma mansão antes de aprender a falar).  É só curiosidade mesmo. A informação mais relevante desses números é o abismo entre os valores de cada cidade.

26.10.12

Homens invisíveis

Um excelente artigo do Leonard Pitts desce o malho no vice-governador da Carolina do Sul, que num acesso de honestidade comparou os pobres a vira-latas, e fala de como falta voz e consciência de si aos pobres nos EUA. E estava lendo sobre a história ambiental da China, especificamente sobre a história do uso da água por lá, e descobri que até hoje o governo chinês resiste a se utilizar dos recursos hídricos tibetanos, apesar do Tibete sozinho ter um potencial hidrelétrico mais ou menos equivalente ao do Brasil inteiro, e um quase-nada de gente.

As duas coisas juntas me pensaram nas vantagens de se ser colônia de verdade sobre ser colônia de fato. Afinal, numa colônia de verdade, a dominação, e portanto a responsabilidade - chame de noblesse oblige, se quiser - ficam evidentes, enquanto no caso de locais em situação de exploração mas sem laços oficiais, abundam as declarações compungidas de que "esquecemos" a região. A China não quer enfiar as garras no Tibete porque sabe que, com o enorme movimento Free Tibet (principalmente derivado do carisma do Dalai Lama, e da atração que uma versão pasteurizada do budismo exerce em Hollywood), se fizesse isso seria atacada por fazê-lo no mundo inteiro, sem contar a resistência local. Pelo contrário, as transferências de riqueza se dão no sentido China-Tibete. Enquanto isso, no coração histórico da própria China, na região das Três Gargantas, faz uma megausina que inclusive é maior do que precisaria ser por razões de prestígio nacional. (Na área do lago, poderiam ser feitas, ao invés de uma usina de 18Gw, três de 7Gw, a custos ambientais, humanos e financeiros menores, mas aí nenhuma delas seria a maior do mundo.)

Enquanto isso, no Brasil não se tem nenhum problema em explorar regiões remotas no interesse das regiões dominantes. Pelo contrário, principalmente em São Paulo mas também no resto do Sul-Sudeste, pessoas têm a noção bizarra de que "sustentam" o Norte-Nordeste. E tome-lhe Belo Montes e Jiraus e Carajás, num esquema de exploração de recursos minerais bem colonial. Assim como, nos EUA, famosamente as pessoas superestimam em 4.000% o valor da ajuda externa doada pelo país, e acham que eles que transferem riqueza aos países subdesenvolvidos.

No ocaso do colonialismo, quando começou-se a desenvolver algum tipo de consciência, a transferência de riqueza ainda ia no sentido colônia-metrópole, mas em grau menor do que atualmente; do mesmo jeito, os estados de bem-estar derivaram, todos, de uma consciência de classe forte e da vontade da elite de apaziguar as massas famélicas. (Nesse sentido, o Brasil, com um estado de bem-estar aparecendo neste momento histórico, talvez seja uma exceção.)

Não é que der esmola atrapalhe a revolução, nem que se os franceses jogassem críquete com seus servos como nós não teria havido esse problema. Mas é que, sim, uma igualdade oficial e uma comunidade imaginária podem ser obstáculos para igualdade e comunidades reais. Talvez os governadores de Rondônia e do Pará não fossem tão amigáveis à construção de hidrelétricas se estas se destinassem a alimentar um país estrangeiro. (As subestações recebedoras de Belo Monte ficarão em Nova Iguaçu-RJ e Estreito-MG; as de Jirau e Santo Antônio em Araraquara-SP, e a de Itaipu em Mogi das Cruzes-SP.)

24.10.12

Os muitos genocídios guaranis-kaiowá

Os índios brasileiros vêm sendo vítimas de genocídio há - pelo menos - 400 anos. Digo 400, não 500, porque o primeiro grande ato de genocídio europeu nas américas, através da transmissão das doenças euro-afro-asiáticas, foi involuntário. O segundo, longe das terras tupiniquins, foi bem voluntário, a extinção dos taínos pela família Colombo. No século XIX, o romantismo levou a que muitas famílias da aristocracia brasileira ganhassem nomes aludindo a índios - é o caso de um certo ex-candidato a vice-presidente - mas essa simpatia era por índios mantidos num passado mítico, equivalentes nativos dos teutônicos que povoavam, na mesma época, as fantasias de Wagner. Os índios de verdade, vivos, continuaram a ser mortos em profusão; ainda havia matas e índios em boa parte da superfície dos estados do Sul e Sudeste até os anos 1930.

Essa ligação entre matas e índios ajudou, na crista da onda do ecologismo dos anos 80, a solidificar a noção dos direitos à terra dos índios e outras populações tradicionais, no Brasil e no mundo. Não diminuiu a pressão contra em nenhum momento, mas houve passos importantes, como a homologação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol, face a uma quase rebelião do governo do estado de Roraima, no Brasil, ou a conquista do imenso e gélido território de Nunavut pelos inuit. Foram ganhos em face de um genocídio cotidiano. Sim, cotidiano: o aumento das populações índigenas como um todo no Brasil na última década esconde em si um sem-número de grupos que foram sendo extintos, à custa de requintes de violência física e social. É um genocídio cotidiano, que gera bem pouca atenção e atende interesses de fazendeiros, mineradoras, empreiteiras, e governos. Em parte para testar essa visibilidade, está aí a hidrelétrica de Belo Monte, próxima da reserva indígena mais famosa do Brasil, que não me deixa mentir. Se o resultado tivesse sido protesto em massa, o resto do projeto de aménagement da Amazônia teria sido congelado; como foi a indiferença maciça, vai avançando. E o projeto amazônico, em que conluiam governo e agronegócio, é parte de uma contrainvestida maior, em que herdeiros da guerra fria de ambos os lados se unem contra o inimigo maior que é a natureza e os povos tradicionais, que não cabem nas utopias totalizantes. Depois podem discutir se a utopia de toga branca será capitalista ou socialista; urge que antes ela seja de engenheiros.

Neste momento, felizmente, uma instância específica desse genocídio - a morte dos guarani-kaiowá, cujas terras são invadidas por fazendeiros, assim como o são as terras de grupos próximos - ganhou bem mais visibilidade, basicamente graças a um feliz mal-entendido vagamente racista. Explico-me: o manifesto dos guaranis-kaiowás alertando para sua breve extinção, resultado natural de resistir até o fim, foi confundido, nas redes virtuais, principalmente a partir do artigo de Eliane Brum na Época que falava em "declaração de morte," como uma disposição para o suicídio coletivo como ato de protesto. O inaudito de um tal protesto chamou a atenção, e foi explicado pela diferença da "cultura índia" e reforçado pela realidade dos altos índices de suicídio na reserva (e em reservas tradicionais oprimidas mundo afora). Com uma pequena ajuda de quem viu no caso uma cause cèlebre antipetista, apesar da reserva ter sido homologada por Lula e proibida por Gilmar Mendes, com o processo parado, ou antes andando a passo de jabuti, no STF desde então.

Sim, felizmente. Se é verdade que Dilma não é atriz principal, como se lhe quer atribuir, deste drama específico, o é dos muitos dramas no entorno da Volta Grande do Xingu, e pretende ser de muitos outros ainda Amazônia afora. E muita gente de poder bem mais sólido que o dela também. Os muitos xingamentos no twitter, desta vez, podem não dar em nada, mas talvez sejam o embrião de alguma coisa.

17.10.12

Carta aos reaças II

Sou - creio - meio chato na tecla de se reduzir a desigualdade através do aumento dos impostos de renda e patrimônio. Isso porque acredito que a igualdade é um bem-em-si; o golfo social entre eu e outros privilegiados, de um lado, e a massa maior do outro me incomoda mais até do que o golfo entre eu e os "1%" do movimento Occupy wall street. Mas existe um motivo bom, liberal-ortodoxo em economia, para reduzir a desigualdade, e que não tem nada a ver com socialismo, fraternidade, ou outras questões de bichinha coração de banana. É que a desigualdade aumenta os custos do Estado. E, afinal de contas, reduzir custos, especialmente os do Estado, é uma das bandeiras mais velhas do liberalismo. Foi a bandeira da criação do semanário inglês The Economist, cujo nome antedata a profissão de economista, e se refere à frugalidade.

Não é um processo muito complicado. A expectativa de renda de uma pessoa não é ilimitada (como proposto por algumas escolas econômico-filosóficas) mas, empiricamente, ancorada numa noção de renda justa que tem muito a ver com a renda observada do mesmo estrato social. As consequencias disso para o gasto do Estado se devem ao número de profissionais altamente qualificados que são necessários para a manutenção dos serviços públicos, desde a implantação de princípios ostensivamente meritocráticos para a burocracia de Estado na Prússia e na França (ok, e bem antes disso na China). Esses profissionais, parte de uma elite social por um zilhão de motivos (inclusive a reprodução intergeneracional de seu capital social ostensivamente meritocrático), e tem suas expectativas de renda balizadas pelo seu entorno. O Estado, portanto, (como qualquer empregador) a longo prazo terá o salário médio de seus profissionais qualificados puxado para a média dos salários de elite, ou bem terá que conviver com a insatisfação crônica desses profissionais e, no limite, o abandono por parte deles das carreiras públicas.

Vamos fazer uma simplificação tosca pra exemplificar a conta: Falemos de duas nações, Laputa e Houyhnhn. Em ambas, os funcionários públicos qualificados - médicos, professores universitários, promotores, auditores, e quejandos - representam 5% da população. Em ambos, os governos têm como prioridade o bom funcionamento dos serviços públicos, então o salário médio de seus funcionários está em linha com suas expectativas, isso é, em linha com os rendimentos do quintil (20%) mais rico da população. A diferença é que em Laputa, o quintil mais rico ganha 3,6x mais que o PIB per capita, enquanto em Houyhnhn, mais igualitária, o quintil mais rico ganha apenas 1,7x o PIB per capita.* Pois bem, para fazer funcionar a contento sua máquina pública, Laputa gastará 18% do PIB só em salários de funcionários qualificados, enquanto Houyhnhn gastará 8,5% do PIB com os mesmos funcionários.

Vamos lá: o simples fato de a desigualdade ser menor em Houyhnhn faz com que seu governo, para prover os mesmos serviços aos cidadãos, possa ter uma carga tributária 10% menor. O equivalente a desonerar o tal "setor produtivo" de toda a arrecadação estadual brasileira. Não é uma discussão pequena, em tempos em que hospitais erguidos não funcionam por falta de médicos, e universidades novas não conseguem achar professores. Na mesma tradição da direita que, previdente, pretende reformar a previdência pensando no longo prazo, os efeitos de uma redução de 10% na carga tributária no longo prazo não podem er subestimados. Sem coração de banana.


*Sâo as razões brasileira e japonesa, respectivamente.

5.10.12

O Xingu é aqui

Bem, aqui não, no Rio.

Em meio ao recrudescimento da conquista pela FIFA do Brasil, nesta semana vimos a mafiosa entidade suíça proibir o tabuleiro da baiana num raio de 2km do estádio Fonte Nova, em Salvador. O absurdo tem vários níveis. Proibir o produto local em prol do patrocinador massificado dentro do estádio já é absurdo, e desmente toda a parolagem piedosa de "sustentabilidade" e "legado social" que a FIFA roubou ao (um pouco menos mafioso) Comitê Olímpico Internacional. Na Alemanha, quando imposição semelhante foi feita em relação à cerveja, algumas das cidades conseguiram rebelar-se contra a possibilidade de ter que beber Heineken. Mas a FIFA foi além do estádio: proíbe que uma atividade tradicional e (até aqui) lícita aconteça nas ruas da cidade. Impõe sua lei a espaços que nada têm a ver com a copa (perdão, com a Copa do Mundo da FIFAtm), a gente que não se interessa por futebol. E - num momento em que a burrice, ao invés de servir de alternativa à malícia como explicação, se alia a esta - propõe um raio que só faz sentido num subúrbio americano para sua imposição. 2km da Fonte Nova inclui quase todo o Centro de Salvador, e todo o centro histórico, além de Comércio, Tororó, Lapinha... enfim, toda a região central da cidade. Quem estabeleceu o tamanho do raio de controle da FIFA das duas uma; ou mora num subúrbio de baixíssima densidade (não é só nos EUA que isso existe), ou não faz idéia do significado de 2km. Enfim, resumindo: não é tão hipérbole assim dizer que a FIFA quer, em 2014, proibir o tabuleiro da baiana.

Em Porto Alegre, o ataque à democracia foi menos radical, mas mais sangrento, e a FIFA pode até lavar as mãos do sangue literalmente derramado. Para defender o boneco representando o mascote da Copa 2014 – que chegou a ser derrubado -, foram deslocados cerca de 60 policiais militares do Pelotão de Operações Especiais (POE) do 9º Batalhão de Polícia Militar, além de tropas da Guarda Municipal. Os policiais jogaram bombas de gás lacrimogêneo, dispararam tiros com munição não-letal e partiram para cima dos manifestantes com seus cassetetes. Os relatos informam que sequer os jornalistas presentes foram poupados. Pelo menos três, que estavam devidamente identificados com seus crachás, foram agredidos: um fotógrafo do jornal Zero Hora, um repórter do Correio do Povo e um repórter da Rádio Guaíba.  A lavagem de mãos é óbvia, afinal não foi ninguém da FIFA que mandou a polícia bater no povo para defender um boneco inflável. Et pourtant, se alguém usa de força desmesurada para defender os seus interesses, você é culpado sim. A mesma FIFA que se arroga o poder de proibir a venda de comida na rua em todo o centro de Salvador poderia usar da mesma arrogância para passar um pito no governo que a defendeu com sangue, no mínimo. 

Não que tudo que os governos brasileiros façam com a desculpa da Copa do Mundo da FIFAtm seja realmente culpa dela. No Rio de Janeiro, Sérgio Cabral alega que a derrubada do antigo museu do índio, ao lado do Maracanã, é exigência da entidade, que nega. O edifício de 150 anos, que já foi sede do Serviço de Proteção ao Índio, do Rondon, e deixou de ser museu em 1978 quando o museu do índio foi transferido para Botafogo, foi ocupado por um grupo de índios de verdade, de todo o Brasil, que procuram fazer ali um centro cultural indígena.  A idéia não foi considerada lucrativa pelo governo do estado, que prefere a área como estacionamento para o Maracanã - que o mesmo governo do estado já anunciou pretender privatizar, com um certo empresário dono de peruca como principal candidato a concessionário. Com shopping center associado, claro. 

Não deixa de ser irônico: a FIFA, useira e vezeira em sacrificar a democracia ao lucro, está sendo usada como desculpa para que Sérgio Cabral venda um shopping center a Eike Batista, acobertando uma demolição e uma expulsão que, de outro modo, seriam impalatáveis politicamente. E é uma amostra da integração nacional, nos moldes desenvolvimentistas: índios no remoto Xingu são expulsos para gerar a energia necessária para iluminar o shopping center a ser criado aonde índios costumavam viver, na antiga capital federal. 

(Sim, porque a energia de Belo Monte descerá por linhas DC para Furnas (MG) ou Tijuco (SP) diretamente. Não será gerada para a região Norte.)

Atualização: Assustado com a repercussão do causo, o governador da Bahia Jacques Wagner promete que não permitirá a proibição do Acarajé. A ver.