Duas coisas reafirmaram minha fé na humanidade nas últimas horas. Uma delas é, provavelmente, mais patética do que inspiradora, e só prejudica as pessoas envolvidas sem nenhuma vantagem: foi constatar, numa madrugada fria, a quantidade de mendigos dormindo ao lado de estátuas que abriam mão de um cobertor para jogá-lo sobre os ombros da estátua. A fraternidade, pelo visto, é mais básica do que querem os darwinistas sociais. O que poderia ser mais desinteressado do que agasalhar uma estátua?
A outra é mais prática, e mostra que, mal e mal, alguma resistência ao estado de controle ainda é possível: trata-se da quantidade de notícias como essa aqui, sobre como os vizinhos de asilados na Europa têm se mobilizado para impedir que o Estado, uma vez processados e negados os pedidos de asilo, mande os pobres coitados de volta para de onde quer que eles tenham fugido.
Auferre, trucidare, rapere, falsis nominibus imperium; atque, ubi solitudinem faciunt, pacem appellant.
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15.6.08
12.6.08
Curtas
A Folha noticia que 14 de 80 estações de medição de poluição atmosférica em SP registram grau "severo" (o máximo) de poluição. Mais relevante, olhando a tabela que acompanha a reportagem, e não mencionado no texto, é outro dado: a maioria das estações não mede a maioria dos poluentes. Só o ozônio é acompanhado em quase todas elas. Detalhes: 80 é um número ridiculamente baixo, e pra prover todas as estações de todos os medidores, não custaria mais de 200.000 - pro orçamento paulista, dinheiro que se acha no fundo do sofá.
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O Valor noticia que os estados do Nordeste, embora ainda abaixo da média nacional, evoluíram mais rápido na melhoria do Índice de Educação Básica, que aufere o estado do ensino fundamental público no país. Mais vergonhoso, se se ler o gráfico anexo, é que o Rio de Janeiro, com a segunda renda per capita (depois do DF), tenha uma nota quase igual à média nacional, e atrás do Mato Grosso.
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Falando do Mato Grosso, e mostrando por que foi bom a Marina Silva ter voltado ao Congresso, enquanto o Minc faz o ótimo anúncio da redução nos limites de emissão de poluentes, a bancada ruralista pratica o que até o Valor chamou de "política de terra arrasada," apresentando projetos de leis e alterações em leis que simplesmente acabam com toda e qualquer política ambiental ou de regularização fundiária no Brasil, e em particular na Amazônia Legal. E enquanto isso se discute uma merreca como a CSS na primeira página.
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O Valor noticia que os estados do Nordeste, embora ainda abaixo da média nacional, evoluíram mais rápido na melhoria do Índice de Educação Básica, que aufere o estado do ensino fundamental público no país. Mais vergonhoso, se se ler o gráfico anexo, é que o Rio de Janeiro, com a segunda renda per capita (depois do DF), tenha uma nota quase igual à média nacional, e atrás do Mato Grosso.
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Falando do Mato Grosso, e mostrando por que foi bom a Marina Silva ter voltado ao Congresso, enquanto o Minc faz o ótimo anúncio da redução nos limites de emissão de poluentes, a bancada ruralista pratica o que até o Valor chamou de "política de terra arrasada," apresentando projetos de leis e alterações em leis que simplesmente acabam com toda e qualquer política ambiental ou de regularização fundiária no Brasil, e em particular na Amazônia Legal. E enquanto isso se discute uma merreca como a CSS na primeira página.
10.6.08
O homem branco é um Sísifo
Os bananais em chamas em Camarões permitem aos pentelhos como eu desconfiar do novo fardo do homem branco que cada vez mais é disseminado de mil maneiras primeiro mundo afora. A idéia de que a África esteja na pindaíba porque é "ignorada" pelo mundo, e que esse mundo deveria dar mais atenção a ela para se redimir do colonialismo, esbarra na constatação de que o colonialismo - inclusive armado, afinal pra que diabos serve a Legião Estrangeira? - continua vivo, atuante, e assassino.
Aliás, é exatamente esse probleminha que me faz não gostar da idéia da internacionalização da Amazônia. Não sou nacionalista o bastante pra achar que a posse brasileira sobre aquela área seja mais importante do que o bem-estar dos seus moradores ou a preservação da sua natureza, e sei muito bem que na prática o Brasil trata a Amazônia como uma colônia, também. O diacho é que é muito difícil acreditar na intenção ou capacidade das potências mundiais de tratar a Amazônia de outra forma. Ainda mais sabendo que as ditas-cujas nem preservar o pouco que restou de seus próprios biomas conseguem - as florestas inglesas e alemãs diminuíram mais de 50% no pós-guerra, e a floresta úmida temperada do noroeste americano mais de 80%.
Por outro lado, a real cobiça estrangeira sobre a Amazônia é utilizada da forma mais cara de pau possível por grupos reacionários aqui no Brasil. Porque é necessária muita cara de pau - além de algum racismo - pra dizer que a reserva indígena, sob controle da União, é um corpo estranho, enquanto a terra grilada em associação com conglomerados multinacionais é um baluarte da nação.
E além de cara de pau, a maluquice - achar que o interesse na Amazônia envolveria carregar água pra fora. Mais fácil gastar esse óleo diesel em dessalinizadoras. Se a água da Amazônia for exportada, vai ser como é exportada a água do cerrado brasileiro, ou do semiárido australiano, ou ainda a das pradarias americanas: sob a forma de produtos agrícolas. A produção de óleo de dendê, como na Malásia, nem afetaria o clima, provavelmente caindo na definição Mangabeira Unger de sustentável...
Aliás, é exatamente esse probleminha que me faz não gostar da idéia da internacionalização da Amazônia. Não sou nacionalista o bastante pra achar que a posse brasileira sobre aquela área seja mais importante do que o bem-estar dos seus moradores ou a preservação da sua natureza, e sei muito bem que na prática o Brasil trata a Amazônia como uma colônia, também. O diacho é que é muito difícil acreditar na intenção ou capacidade das potências mundiais de tratar a Amazônia de outra forma. Ainda mais sabendo que as ditas-cujas nem preservar o pouco que restou de seus próprios biomas conseguem - as florestas inglesas e alemãs diminuíram mais de 50% no pós-guerra, e a floresta úmida temperada do noroeste americano mais de 80%.
Por outro lado, a real cobiça estrangeira sobre a Amazônia é utilizada da forma mais cara de pau possível por grupos reacionários aqui no Brasil. Porque é necessária muita cara de pau - além de algum racismo - pra dizer que a reserva indígena, sob controle da União, é um corpo estranho, enquanto a terra grilada em associação com conglomerados multinacionais é um baluarte da nação.
E além de cara de pau, a maluquice - achar que o interesse na Amazônia envolveria carregar água pra fora. Mais fácil gastar esse óleo diesel em dessalinizadoras. Se a água da Amazônia for exportada, vai ser como é exportada a água do cerrado brasileiro, ou do semiárido australiano, ou ainda a das pradarias americanas: sob a forma de produtos agrícolas. A produção de óleo de dendê, como na Malásia, nem afetaria o clima, provavelmente caindo na definição Mangabeira Unger de sustentável...
7.6.08
Inventário
Se o Brasil é uma nação "megadiversa" em termos biológicos, em termos etnolinguísticos, é relativamente medíocre. Apesar da enorme área, a densidade de diferenciação étnica, comparada com o Velho Mundo ou mesmo a América Andina e Central, é relativamente baixa.
Bem, mas a área É enorme. E apesar de tudo, nem só o português se fala por aqui, e ele não é tão homogêneo assim. Por isso é uma boa a iniciativa do IPHAN de, finalmente, conduzir um inventário da diversidade linguística brasileira.
Bem, mas a área É enorme. E apesar de tudo, nem só o português se fala por aqui, e ele não é tão homogêneo assim. Por isso é uma boa a iniciativa do IPHAN de, finalmente, conduzir um inventário da diversidade linguística brasileira.
5.6.08
Notícias da Maggilândia
O governador Blairo Maggi autorizou a construção, pela empresa Maggi Energia, de uma série de hidrelétricas em Mato Grosso. A empresa foi apenas instada, em atendimento a solicitação da Hermasa (grupo Maggi) a prover as usinas de eclusas.
Não, não é piada. E demonstra o poder que o Maggi tem no estado; por mais que se chamasse Sarney ou ACM de "donos" de seus estados, eles no máximo tinham uma ou outra empresa menor, além do governo. Blairo Maggi tem quase o processo produtivo completo do Mato Grosso, além de uma quantidade incognoscível de terras e do poder político.
Com esse poder todo, o ódio dele pelo ministério do meio ambiente é compreensível. Imagino que tenha ficado pior ainda quando ele começou a soltar os rojões pela saída da Marina Silva, e o Minc não só continuou na mesma linha como ainda por cima sugeriu que a restrição de crédito deixe de se aplicar somente ao desmatamento da Amazônia, mas se extendesse ao Cerrado e Pantanal. Que, afinal de contas, têm sofrido mais com o desmatamento do que a Amazônia.
É um paradoxo: o bioma ameaçado mais famoso do mundo, a Amazônia brasileira, é dos menos ameaçados. Tanto em comparação com outras florestas equatoriais mundo afora (ainda mais agora que as guerras civis da África equatorial estão amainando) quanto com outros biomas brasileiros. Até com outras Amazônias: a situação anda tão braba no Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, que cada vez mais o Brasil, sem que isso se note na Metrópole*, está começando a ter um problema de refugiados, principalmente índios expulsos por petroleiras e madeireiras.
Ah sim - falando em Amazônia, o Globo publicou uma matéria sobre o assunto que é quase uma aula de mau jornalismo. Segundo a matéria, o Ministério do Meio Ambiente teria alterado uma resolução do CMN (o que é impossível), a Confederação Nacional da Agricultura é uma entidade sindical - o que talvez seja tecnicamente correto, mas falar de "cumplicidade entre parlamentares e entidades sindicais" deixa parecer que ela é parecida com uma CUT ou Força Sindical - e alega que "especialistas" anônimos dizem que um zoneamento ambiental bem-feito "desagradaria a todo mundo" (bem feito pra quem?).
*Porque a relação entre o Brasil do Sul-Sudeste+Brasília com a Amazônia é de potência colonial.
Não, não é piada. E demonstra o poder que o Maggi tem no estado; por mais que se chamasse Sarney ou ACM de "donos" de seus estados, eles no máximo tinham uma ou outra empresa menor, além do governo. Blairo Maggi tem quase o processo produtivo completo do Mato Grosso, além de uma quantidade incognoscível de terras e do poder político.
Com esse poder todo, o ódio dele pelo ministério do meio ambiente é compreensível. Imagino que tenha ficado pior ainda quando ele começou a soltar os rojões pela saída da Marina Silva, e o Minc não só continuou na mesma linha como ainda por cima sugeriu que a restrição de crédito deixe de se aplicar somente ao desmatamento da Amazônia, mas se extendesse ao Cerrado e Pantanal. Que, afinal de contas, têm sofrido mais com o desmatamento do que a Amazônia.
É um paradoxo: o bioma ameaçado mais famoso do mundo, a Amazônia brasileira, é dos menos ameaçados. Tanto em comparação com outras florestas equatoriais mundo afora (ainda mais agora que as guerras civis da África equatorial estão amainando) quanto com outros biomas brasileiros. Até com outras Amazônias: a situação anda tão braba no Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, que cada vez mais o Brasil, sem que isso se note na Metrópole*, está começando a ter um problema de refugiados, principalmente índios expulsos por petroleiras e madeireiras.
Ah sim - falando em Amazônia, o Globo publicou uma matéria sobre o assunto que é quase uma aula de mau jornalismo. Segundo a matéria, o Ministério do Meio Ambiente teria alterado uma resolução do CMN (o que é impossível), a Confederação Nacional da Agricultura é uma entidade sindical - o que talvez seja tecnicamente correto, mas falar de "cumplicidade entre parlamentares e entidades sindicais" deixa parecer que ela é parecida com uma CUT ou Força Sindical - e alega que "especialistas" anônimos dizem que um zoneamento ambiental bem-feito "desagradaria a todo mundo" (bem feito pra quem?).
*Porque a relação entre o Brasil do Sul-Sudeste+Brasília com a Amazônia é de potência colonial.
4.6.08
Pedindo ajuda aos universitários
Na sua tentativa de, a qualquer preço, constituir capital político para uma campanha presidencial em cima de um dos ministérios mais ricos e menos relevantes do Brasil pós-ditadura, Nelsom Jobim dá a entender que pretende fazer uma ampla reforma das instituições militares brasileiras, do alto-comando (que passaria a existir) ao recrutamento (que passaria a existir, de certa forma).
Quanto ao recrutamento, uma das mudanças aventadas é a que instituiria a opção pelo serviço social obrigatório. Não quer servir no exército, pegar em armas, dormir em dormitório, levar esporro de sargento? Ótimo, você vai trabalhar por um ano e meio, uma média de 16 horas por semana, em algum serviço público, recebendo salário mínimo por isso.
Além de achar a idéia ótima (sim, mesmo se for retroativa :P), acho que pode ser uma boa solução pra universidade pública. Veja bem, a universidade pública significa, de certa forma, um subsídio pra quem poderia pagar. Acaba sendo a classe média ascendente que paga por faculdades particulares, enquanto a elite da elite vai para as universidades federais ou pras estaduais paulistas (quando muito, pras PUCs). Mas tornar a faculdade pública paga esbarra em problemas políticos e práticos - estes, relacionados ao custo de um sistema misto, já que obviamente a idéia não é cobrar de todo mundo.
Então, talvez o serviço social obrigatório fosse a solução. Além dos 18 meses a que todo mundo é obrigado, quem se formar em faculdade pública poderia ter mais 18 meses obrigatórios, que podem ser reduzidos em até 2/3 se se aceitar um emprego de tempo integral em local remoto.
Quanto ao recrutamento, uma das mudanças aventadas é a que instituiria a opção pelo serviço social obrigatório. Não quer servir no exército, pegar em armas, dormir em dormitório, levar esporro de sargento? Ótimo, você vai trabalhar por um ano e meio, uma média de 16 horas por semana, em algum serviço público, recebendo salário mínimo por isso.
Além de achar a idéia ótima (sim, mesmo se for retroativa :P), acho que pode ser uma boa solução pra universidade pública. Veja bem, a universidade pública significa, de certa forma, um subsídio pra quem poderia pagar. Acaba sendo a classe média ascendente que paga por faculdades particulares, enquanto a elite da elite vai para as universidades federais ou pras estaduais paulistas (quando muito, pras PUCs). Mas tornar a faculdade pública paga esbarra em problemas políticos e práticos - estes, relacionados ao custo de um sistema misto, já que obviamente a idéia não é cobrar de todo mundo.
Então, talvez o serviço social obrigatório fosse a solução. Além dos 18 meses a que todo mundo é obrigado, quem se formar em faculdade pública poderia ter mais 18 meses obrigatórios, que podem ser reduzidos em até 2/3 se se aceitar um emprego de tempo integral em local remoto.
26.4.08
17.4.08
Caridade com sofrimento alheio
Um artigo do LA Times, já um pouco datado, fala dos investimentos da fundação Bill e Melinda Gates, que contrastam só um pouquinho com as metas humanitárias da fundação.
Não acho que a idéia do "investimento ético" é a panacéia que tentam vender. Pelo contrário, mesmo que fosse inteiramente focado em empresas realmente éticas - e os índices tanto da Bovespa quanto da NYSE incluem a Aracruz Celulose - ele seria incapaz, por definição, de alterar substancialmente a dinâmica de preços, e portanto a atitude do sistema como um todo, dentro de um livre mercado capitalista. Mas as centenas de bilhões de dólares das fundações filantrópicas americanas poderiam muito bem fazer uma diferença, não decisiva mas pelo menos substancial, se fossem aplicadas em empresas com um padrão mínimo de responsabilidade. Digamos, não "boas," mas pelo menos "não tão horríveis assim."
O problema pra que isso acontecesse é que, por definição, uma fundação deve manter seu dinheiro em aplicações "fortes," para não arriscar a interrupção de suas atiuvidades-fim. Por outro lado, procuram um mínimo de rentabilidade, para conseguir expandir suas operações. E o único jeito de reconciliar esses dois objetivos é a aplicação nas blue chips, as companhias grandes e fortes - que geralmente são justamente as que têm prontuários globais dignos do Lex Luthor.
Não acho que a idéia do "investimento ético" é a panacéia que tentam vender. Pelo contrário, mesmo que fosse inteiramente focado em empresas realmente éticas - e os índices tanto da Bovespa quanto da NYSE incluem a Aracruz Celulose - ele seria incapaz, por definição, de alterar substancialmente a dinâmica de preços, e portanto a atitude do sistema como um todo, dentro de um livre mercado capitalista. Mas as centenas de bilhões de dólares das fundações filantrópicas americanas poderiam muito bem fazer uma diferença, não decisiva mas pelo menos substancial, se fossem aplicadas em empresas com um padrão mínimo de responsabilidade. Digamos, não "boas," mas pelo menos "não tão horríveis assim."
O problema pra que isso acontecesse é que, por definição, uma fundação deve manter seu dinheiro em aplicações "fortes," para não arriscar a interrupção de suas atiuvidades-fim. Por outro lado, procuram um mínimo de rentabilidade, para conseguir expandir suas operações. E o único jeito de reconciliar esses dois objetivos é a aplicação nas blue chips, as companhias grandes e fortes - que geralmente são justamente as que têm prontuários globais dignos do Lex Luthor.
8.4.08
Dark angelic mills
Desde o final dos anos 70, é comum a noção de que o mundo, e especialmente suas regiões mais ricas, estaria entrando em uma era "pós-industrial." A noção não é de modo algum incontroversa, mas reflete uma realidade: os processos produtivos atualmente se caracterizam por uma produtividade extrema que faz com que menos de 20% da população de um país, trabalhando na indústria, possa suprir todas as suas necessidades materiais. Assim, o trabalhador na indústria começa a trilhar o mesmo caminho que seu avô camponês um dia trilhou, e junto com ele o "capitão da indústria," que ruma ao baú onde o senhor feudal está guardado.
Disse "reflete uma realidade," mas a realidade em questão é uma realidade nocional; pertence ao campo das percepções e imaginários mais do que ao campo da atividade física. Afinal de contas, ainda há gente - e muita - trabalhando no agronegócio, mesmo em países desenvolvidos. A questão é que essa gente passa a trabalhar de acordo com uma concepção e estrutura de produção industriais, ao invés da estrutura camponesa ou feitorial de antes; e com a especialização, muitas tarefas que eram dos próprios produtores de alimentos passaram a se tornar tarefas industriais. Numa sociedade camponesa, apesar de haver artesãos especializados, boa parte da produção eg de pano, ou panelas e potes ou o que seja é feita pelos próprios agricultores. Do mesmo modo, com a "economia do conhecimento," continuam havendo indústrias, mas o proletário passa a se tornar um prestador de serviço em firmas fragmentárias.
Isso não é uma "necessidade" infraestrutural ou tecnológica, mas um resultado em parte de teorias, em parte sim de uma evolução tecnológica, em parte de estratégias deliberadas contra regulamentação governamental e associação dos empregados. Mas por não ser "necessário," não deixa de moldar o mundo em que vivemos. Nesse mundo, muita gente que é filha de proletários ou industrialistas não conhece aquele ambiente no qual os pais viveram; a cultura urbana que surge se percebe como desconectada de uma "realidade" que é o ambiente de produção antigo, do mesmo modo como a formação de uma vida inteiramente urbana isolava os citadinos do século XVIII do contato com a natureza. Ou pelo menos essa é a minha explicação provisória.
Ops. Esqueci de apresentar o que deveria ser explicado.
Se virmos os abundantes projetos de "requalificação urbana" existentes mundo afora, a linguagem e as intenções deles são extremamente parecidos com os dos construtores de parques durante o período 1740-1860. Fala-se de preservar uma herança que faz parte da nossa própria identidade - como seres humanos e como membros de comunidades específicas. São feitos comentários sobre a rápida erosão das oportunidades de conviver de modo adequado, em espaços públicos e comunitários. Até a o contraste com as atitudes passadas (e presentes ainda em círculos menos "avançados") que viam na natureza ou no parque industrial uma selva horrenda é similar.
Então, a preservação do passado industrial faz parte de uma iteração moderna do parque. Jardins e parques, desde que a noção começou, representam uma tentativa de recriação de um ambiente ideal, de certa forma edênico. No limite, como o chahr-bagh persa, representam uma tentativa literal de recriação do paraíso, com as árvores, rios e alinhamento que se acreditava serem característicos deste. Outros, como os jardins italianos da renascença tardia, representavam uma "lição" espiritual e intelectual, um processo de internalização da iluminação; é o caso, também, do tipo de jardim chinês que ficou conhecido no Ocidente pós-nova era como jardim zen.
O que separa o parque moderno de outros jardins, e que ele tem em comum com a tentativa de preservar o ambiente industrial, é que A) o paraíso perdido em questão não faz parte de uma realidade remota e de outra qualidade, inumana, B) o parque não está associado a uma construção ou uso específico (se houver museus, instalações esportivas, ou outras construções dentro do parque, elas que fazem parte do parque, e não o contrário, e C) faz parte da ideologia por trás de sua construção a apresentação deles como essenciais para a preservação/recriação de uma vida comunitária perdida/em degeneração.
1.4.08
Porrada fofa
Uma decisão recente da Suprema Corte japonesa negando o julgamento do recurso impetrado contra a condenação, há 42 anos atrás, de um acusado de assassinato, serve pra lembrar que nem tudo muda tanto quanto parece. O Japão obcecado por coisas fofas, desenhos animados e uma realidade cuidadosamente sem conflitos e asséptica de hoje em dia continua sendo, como no passado, um país em que a autoridade e a hierarquia esperam ser obedecidas inquestionavelmente - e têm métodos para garantir isso bastante, ahnn... radicais. Afinal, é uma das poucas democracias do mundo que conservam a pena de morte em tempos de paz.
Não é de se surpreender, quando se lembra que logo depois da administração do doido do McArthur, que democratizou o país e fez uma reforma agrária maciça (sem ligar pra essas besteiras de se o latifúndio era improdutivo ou não), os americanos decidiram que o Japão tinha que ser uma barreira aos soviéticos, tiraram todos os criminosos de guerra do período fascista da cadeia e instalaram no governo. Bem, quase todos - alguns já tinham sido enforcados, então ao invés do governo foram só virar santos na capela onde todo primeiro-ministro vai rezar. (Admita-se : com os crisântemos da família imperial bordados na enorme bandeira branca, é mais bonita do que a média dos monumentos fascistas ou ur-fascistas
Não é de se surpreender, quando se lembra que logo depois da administração do doido do McArthur, que democratizou o país e fez uma reforma agrária maciça (sem ligar pra essas besteiras de se o latifúndio era improdutivo ou não), os americanos decidiram que o Japão tinha que ser uma barreira aos soviéticos, tiraram todos os criminosos de guerra do período fascista da cadeia e instalaram no governo. Bem, quase todos - alguns já tinham sido enforcados, então ao invés do governo foram só virar santos na capela onde todo primeiro-ministro vai rezar. (Admita-se : com os crisântemos da família imperial bordados na enorme bandeira branca, é mais bonita do que a média dos monumentos fascistas ou ur-fascistas
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