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4.4.13

Ao mestre a morte



O descaso do governo do Rio de Janeiro para com a universidade não é novidade para ninguém. Notícias sobre marquises caindo na UERJ são quase recorrentes (aqui mesmo já reclamei), assim como de sucateamento de toda a (minúscula) rede estadual de ensino superior. Mesmo em notícias da própria assessoria de imprensa do governo ele pode ser visto, como nesta matéria sobre a mudança do QG da Polícia Militar para um prédio pertencente à universidade, que diz que com a mudança irá "melhorar o aspecto do prédio, que apresenta má conservação: a pintura das paredes está descascando e há janelas quebradas." A idéia de que o aspecto do prédio possa melhorar com o uso pela própria universidade nem sequer passa pela cabeça do governo estadual.

Não é um descaso de hoje (conta, pelo contrário, décadas), mas contrasta com outras iniciativas pioneiras dos governos do Rio de Janeiro, Distrito Federal, e Guanabara no campo do ensino e pesquisa. Assim, a Universidade do Distrito Federal foi a primeira universidade concebida como tal no Brasil (um pouco antes da USP; a UFRJ foi criada só pra dar diploma ao rei da Bélgica). A UENF, criada por Darcy Ribeiro no norte do estado e que hoje lhe leva o nome, mudou a forma de se estruturar a universidade. E, no governo Lacerda, mais modestamente, sem o nome de universidade, foi criada a ESDI - Escola Superior de Desenho Industrial, inspirada na Bauhaus e na Escola de Ulm, primeira escola de design do Brasil.

A modéstia no nome saiu caro a alguns professores e técnicos da ESDI, uma vez esta incorporada à UERJ em 1975.  Os fundadores Bergmiller, Goebel, Wolner, e Zuenir Ventura,  os professores da segunda geração Leonardo Visconti, Roberto Verschleisser, Arisio Rabin, Uwe Peter Kohnen, além dos mestres de oficina: Walter, Neoci, e Ripper, e Cenira 
Foram incorporados, com o descaso renitente aliado à uma sonsice deliberada, à rede de professores estaduais das escolas, e não à de professores universitários, recebendo, em troca de fazer da sua a melhor faculdade de desenho industrial da América Latina, salário mínimo. Entraram com uma ação na justiça em 1994; a sentença correu em 1996 o Estado valeu-se de sua infinita capacidade de adiar, assegurada pelo Judiciário brasileiro, desde então para adiar seu cumprimento e, especialmente, não pagar os atrasados. A sanha em não pagar aos professores é tanto mais curiosa porque não faz sentido sequer econômico - o valor da manutenção da ação por vinte anos em muito supera o dos atrasados que deveriam ter sido pagos em 96. 

Como os seres humanos são mais frágeis e menos duradouros do que os Estados e as injustiças, já morreram cinco dos professores e técnicos que deram entrada no processo contra o Estado. Entre eles Goebel Weyne (responsável pela programação visual da Novacap, empresa que construiu Brasília), Ulwe Kohnen formado na ESDI e que nela lecionou por 35 anos até sua morte em 2008, e o último, Leonardo Visconti, que morreu este ano, em 17 de março e foi responsável pela identidade visual de empresas como a CSN, a CEG, e o Hemo-Rio, além dos metrôs de Rio e São Paulo.

 
Aparentemente, o governo de Cabral (como antes dele o fizeram os Garotinhos, Marcello Alencar, e Brizola) conta com a morte como sua aliada; parafraseando Keynes, no longo prazo da justiça, estarão mortos todos. 

O INSS e Krypton

Normalmente não ponho experiências pessoais aqui porque elas são, bem, pessoais. Mas o encontro com a junta médica do INSS foi tão bizarro e, ao mesmo tempo, provavelmente tão corriqueiro que achei que merecia ser narrado.


Estou de licença médica, incapaz de ficar em pé ou sentado por mais de duas horas de uma vez (Por isso, também, a falta de posts novos por aqui ultimamente), andar de carro por muito tempo, ou carregar peso; a causa é algum problema na coluna cervical que comprime a medula, provocando dor forte nas pontas dos dedos se descumpro algum dos preceitos listados; pra complicar, também tenho uma coisa chamada condromalácia patelar de tipo III nos joelhos, que significa que, como a do Batman, minha cartilagem do joelho disse tchau. Não é divertido, especialmente quando vou no supermercado e minha namorada com metade do meu peso carrega as compras sozinha. Felizmente não houve, ainda, dano neurológico permanente; saíram hoje os resultados da eletroneuromiografia, que é uma espécie de tortura com agulhões e eletrochoque para medir o estado dos nervos.


Como a licença médica foi renovada, e assim teria mais de 120 dias até seu fim, fui encaminhado a uma junta médica do INSS para a perícia. Ou melhor, teoricamente para a perícia. Ao invés disso, a médica que começou a me entrevistar exigiu os exames de imagem, ignorando o fato de que estes já haviam sido apresentados antes ao INSS e que os exames nos quais se baseava a renovação eram os clínicos. Depois, tirou minha pressão (estava alta - insônia, gripe, e pressão alta basal) e olhou para minhas costas, sem pedir que eu tirasse a camisa. Apertou com os dedos dois pontos na altura do peito (o problema, lembrando, é no pescoço, com reflexos no lombo). Não fez nenhum outro exame clínico (há dúzias de exames clínicos para as condições em que estou). 


Foram chamados os outros dois membros da junta. Me disseram, exaltados, que os exames de imagem "não provavam o que os médicos disseram nos atestados." Quando tentei explicar, fui interrompido duas vezes por um deles, enquanto a outra dizia "não, deixe ele falar." Ao final, disseram que o que eu tinha devia ser "psiquiátrico," por conta da pressão alta.  Uma conclusão, pelo menos, original. Apesar disso, confirmaram a licença, mas reduzindo-a de 4 para 2 meses; explicaram que "se for necessário você pega outro atestado." OK, não discuti para além disso.


Mas fica a indagação: uma perícia médica não deveria envolver, bem, um exame médico? Ao que parece, se meu caso não for excepcional (e não há motivo pra supor que seja), os "peritos" do INSS estão lá para procurar as exatas palavras do atestado num exame de imagem e, não as encontrando, para fazer um arremedo de interrogatório, com direito a good cop - bad cop. Se a idéia não é fazer exame médico de verdade - e não creio que dê pra fazer exame ortopédico olhando-se para as costas vestidas de um paciente e sem nenhum teste de manipulação, a não ser que a médica tenha visão de raios X - o INSS deveria contratar policiais treinados em métodos de interrogatório do que gente que os aprendeu assistindo seriados policiais. 

19.12.12

O menino que gritava lobo

Se aproxima (na verdade era pra já ter chegado há um mês, atraso que deixa desesperada nossa presidenta elétrica) a estação das chuvas na Serra do Mar. Com ela, mais uma vez ficará patente a balela que é a declaração de que "o Brasil não tem desastres naturais." Choverá mais do que no Furacão Sandy que arrasou os EUA, sobre solos finos cobrindo a pedra gneiss íngreme, e isso resultará na - quase inevitável - morte de dezenas. Talvez centenas. Possivelmente milhares. É uma tragédia recorrente: em 2010 foram S. Luiz do Paraitinga e Angra, além do Rio de Janeiro,  em 2011 foi a Serra dos Órgãos e em Santa Catarina. E esses são os grandes, os que ganham notícia; mortes em menor escala, nas periferias e ocupações, não ganham os jornais. As mortes recorrentes são recorrentemente atribuídas, como explicação universal, à "moradia em situação de risco," com tal força que apenas recentemente começou a se cogitar coisas como alarmes, evacuações, e alertas de desastre nessa serra propensa a desastres e com 80 milhões de pessoas em cima. Assim, parece à primeira vista paradoxal que quando se fala em remover pessoas de situações de alto risco, as próprias pessoas resistam, e ainda sejam apoiadas por muitos.

Os boatos que "explicam a verdadeira razão" das remoções parecem coisa de paranóico. Especulação imobiliária, no fundo de uma favela? Hotel do Eike Batista, a ser alcançado só pelo plano inclinado da mesma favela? As soluções alternativas, pouco razoáveis, propugnando uma contenção de encostas sem remoção dos atuais barracos (pode até ser feita, provavelmente a preço de ouro, uma contenção ali, mas durante a obra os barracos teriam que pular fora). Mas por que as pessoas, se sabem da tragédia recorrente das chuvas, se inclinam a esse tipo de explicação? Bem, talvez seja porque a prefeitura, que pode até ter razão nesse caso, mente como um tapete, no feliz trocadilho inglês, sobre remoções. Depois de gritar lobo falsamente por duas vezes, o menino foi devorado na terceira; Dudinha (e todos os prefeitos antes dele) gritou o lobo da remoção essencial muito mais de duas vezes, e quem pode ser devorado não é ele.

Assim, as pessoas removidas para a obra da Transoeste, justificada como instalação de um transporte de massa ligando o eixo oeste da cidade, realmente extremamente necessária (junto foram umas pistinhas de carro, que ninguém é de ferro), continuam sem lar até hoje, e os terrenos foram usados para outros fins. Assim, a Vila Autódromo, já parcialmente urbanizada, sem nenhum risco ambiental, e que o plano do parque olímpico aprovado em concurso preservava, vai pro saco com justificativas nebulosas (ora é a olimpíada, ora BRT, ora meio ambiente). E por aí em diante.  Como confiar numa prefeitura dessas? Como não acreditar que quer remover algo precioso para dar ao Eike, se é exatamente o que o aliado Cabral quer fazer no Maracanã?

E como não dar razão a quem não quer ser removido, se as remoções, até hoje, são para depósitos de gente - talvez menos longínquos e carentes de infraestrutura do que foi Cidade de Deus, mas igualmente desprovidos de qualquer planejamento urbano? Um imenso conjunto-bairro sem espaço para o comércio ou outras atividades além da moradia não apenas é um lugar desagradável de morar: para quem não tem carro nem tempo, é inviável mesmo. Sem cabelereiro (e vá conseguir um emprego sem cabelo arrumado, especialmente se o cabelo for "ruim"), sem igreja, sem bar, sem mercadinho que deixa comprar fiado... (a imprensa, ao invés de reconhecer a carência urbanística, denuncia os que tentam preenchê-la). Isso tudo, claro, supondo que há um conjunto habitacional habitável esperando os removidos, o que está longe de ser sempre verdade, como mostra esta reportagem d'O Globo:

Depois de quase três anos vivendo em situação precária no 3º Batalhão de Infantaria (BI), em São Gonçalo, parte das 89 famílias sobreviventes da tragédia do Morro do Bumba, em Niterói, vê a possibilidade de enfim se mudar para uma casa própria se distanciar. A entrega de apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida prometida para julho deste ano deve ser adiada pela construtora, após dois dos 11 prédios erguidos no bairro do Fonseca apresentarem rachaduras, como mostrou ontem o “RJ-TV”, da TV Globo. Pelo menos um deles terá que ser inteiramente demolido e reerguido. Em relação ao outro, ainda está sendo analisado se será posto abaixo ou se há possibilidade de ser recuperado. Cada edifício custou R$ 2 milhões da verba total de R$ 27 milhões liberada pela Caixa Econômica Federal para a construtora Imperial Serviços Limitada


Favelas são, realmente, muitas vezes construídas em áreas de risco, por motivos óbvios: são as áreas que a cidade formal não quis ocupar. São áreas ruins, por algum motivo (favelas na lonjura da periferia têm mais chances de serem erguidas em terrenos razoáveis - nesse caso a condição negativa é a própria lonjura).  Se não fossem, estariam certos os reacionários que acham que favelados são "folgados" inescrupulosos que simplesmente querem morar bem sem pagar pelos terrenos. Então é, mais que verdade, quase axioma que muitas favelas são complicadas de resolver urbanisticamente, e uma proporção nada insignificante tem que ser removida mesmo. O problema é quando se mistura essa proposição com o preconceito, a truculência, e os interesses velados, que fazem com que a remoção de gente que atrapalha os negócios ser mais comum do que a de gente que está em risco. Num exemplo paulistano em que se mistura a razoabilidade da remoção com o interesse escuso, a favela do Moinho, que pegou fogo duas vezes este ano, é realmente um lugar inabitável. Foi construída sobre terreno contaminado; não se guarda água no lugar por causa disso. Mas o motivo que move a sua remoção (e, quem sabe, os incêndios) é, antes, o interesse na área pela CPTM, bem como a desvalorização que a favela causa no entorno. Qualquer alegação ambiental fica ridícula, quando o bosquinho da favela, que escapou ao fogo, foi desmatado por uma empresa de estacionamento.

E assim se vão os lobos a devorarem aldeias.

PS Este post, de 19 dezembro de 2012, foi anterior em exatamente 3 meses às chuvas torrenciais que atingiram Petrópolis com mais água do que o Katrina em Nova Órleans. Quando fui pegar o outro post para apensá-lo a este, além de fazer este pós-escrito, sobre como "área de risco" em algum grau é toda a Serra do Mar, descobri que Kassab em 2011 fez exatamente a mesma coisa que Dilma em 2013. A única diferença é que não se sabe o que foi fazer depois da declaração - Dilma continuou seu passeio turístico em Roma.

4.5.12

Um armário cheio de esqueletos

O ex-torturador do DOPS Cláudio Guerra lança um livro que ajuda a explicar por que os militares não querem que se abra o que restou dos arquivos da ditadura. Não, não estou falando do trecho em que Guerra explica como militantes foram barbaramente torturados e depois icinerados numa usina de cana, apesar desse ter sido o que chamou mais a atenção, mas de quando ele fala de como a ditadura matou um de seus próprios expoentes, o delegado Fleury. Também não creio que o planejado assassinato do Brizola impressione alguém (curioso seria se não houvesse o planejamento), mas a intenção de culpar a Igreja Católica, sim.

  É que a opinião pública comum é pródiga em avalizar quaisquer ações tomadas contra "oponentes." Assim, nem os próprios milicos nem a maioria dos brasileiros considera particularmente errado que se tenha cometido atrocidades contra militantes de esquerda, e esse é o discurso-padrão de apoio à ditadura, o de que as pessoas por ela atacadas apenas tiveram o que mereceram. Por isso mesmo, qualquer reinvindicação pela verdade e justiça que parta do pressuposto de que funcionará como propaganda apenas anunciando os malfeitos cometidos tocará mais ou menos tantos corações quanto uma vilã de novela se ferrando. Não existe a necessidade de justiça que seja sentida pelo país, como no Chile, na Argentina ou na África do Sul, porque ao contrário desses países aqui a noção geral é de que as vítimas da ditadura não foram o povo, mas um "outro," jovens de classe média radicais.

Ora, se essa operação de desqualificação teve tanto sucesso, não é a comprovação de quaisquer malfeitos contra esses grupos que preocupa os militares, sequer os preocuparia sua multiplicação até a náusea e o holocausto. Não deixa, afinal, de ser uma multiplicação da tortura e assassinato oficiais até quase o genocídio a que acontece nos bairros pobres e pretos do Brasil de hoje, com milhares de vítimas todo ano, e não falta emprego para Datenas dedicados a implorar por mais. O que preocupa os milicos com a abertura dos arquivos é, muito pelo contrário, o que vai além disso.

São as querelas internas mortíferas, que (como soi acontecer nas ditaduras) se multiplicavam. São os atentados contra grupos respeitados, como a Igreja Católica (não custa lembrar que o período também é aquele em que a Igreja foi relativamente progressista, e portanto alvo). São as falcatruas que desmantelariam a noção de que "sob a ditadura houve pouca corrupção" (como se Maluf e ACM fossem pouco). São, enfim, não os esqueletos no armário literais, mas os figurados que preocupam os militares.

21.3.12

Realpolitik e a pata manca

Talvez seja exagero chamar Dilma de pata manca precoce, mas isso só o tempo dirá. Que, hoje, tem cara, tem. Seu governo se restringe a tocar o barco e a defenestrações ministeriais. A alegação é, sempre, satisfazer as bases, fazer o possível - apesar das "bases," em ambos os significados de aliados políticos e massa militante, não estarem nem um pouco satisfeitos. É um leitmotif dos argumentos em defesa de ações governamentais, no mundo inteiro, a necessidade, o pragmatismo. Não se faz o ideal, mas o possível. Ora, essa alegação é, inegavelmente, sempre verdadeira, sendo virtuosos ou escusos os objetivos do governo; ninguém, nem mesmo o mais férreo autocrata, jamais vê suas vontades integralmente efetivadas no mundo real. Nem Quéops, nem Gengis Cã, nem Qianlong, Alexandre Magno ou o autocrata de sua preferência. A questão é que o pragmatismo é usado como desculpa para encobrir dois grandes vícios de governo, a mediocridade e o que vou chamar de teriomania, e que com uma assustadora frequência leva o nome de Realpolitik.

A mediocridade é simples, se danosa: a lógica do poder - como qualquer coisa que é vista como amealhável, como capital - é a acumulação. Não se gasta capital político, mas se consolida. Não se deve gastá-lo nesta ocasião, porque deve ser reservado para assuntos importantes. Nem nesta. Nem nesta. E assim se vai perpetuando uma situação de imobilismo, ou melhor, de inércia (movimentos anteriores são perpetuados). Assim, Dilma tem a maior base parlamentar de qualquer presidente da história do Brasil - mas nunca impõe à sua base que vote desta ou daquela maneira, porque isso significaria perder seu apoio. Nem tampouco abre mão dessa base em momento algum. Não há o julgamento pragmático de quando isso vale a pena, mas a necessidade quase atávica de acumular deputados, como um esquilo se preparando para um inverno que nunca virá.

A teriomania é um pouco mais curiosa. Ela se desenvolve a partir do momento em que alguém identifica coisas moralmente condenáveis que por outro lado são vistas como necessárias. Ora, como aquele que vai em frente e comete o malfeito necessário não tem, em geral, vocação para aquele Judas do conto de Borges, que redimia os pecados do mundo sendo condenado ao inferno, convertem em uma ação particularmente moral a transgressão moral. São virtuosos porque se dispuseram a tomar para si os pecados, para que a sociedade sobrevivesse. São melhores do que aqueles que não se dispõem a tomar esses golpes morais em nome do bem maior. A progressão tem uma conclusão lógica: aquele que empreende ações imorais por fins morais é superior àquele que para os mesmos fins apenas usa meios morais.

Assim é que ninguém fala que em nome da Realpolitik, talvez devamos limpar o meio ambiente. Talvez seja uma ação de Realpolitik tirar as bases americanas do Oriente Médio. A Realpolitik não faria com que um grupo numeroso e politicamente amorfo como os homossexuais valesse mais em termos de cortejamento eleitoral do que um grupo igualmente numeroso, mas politicamente definido e influenciável por líderes definidos como os evangélicos. A Realpolitik não faria com que se aumentasse o IRPF no começo do mandato, para melhorar as finanças do governo. Etc. etc. etc... Essa noção de pragmatismo sempre irá, preferencialmente, seguir pelo caminho considerado moralmente questionável. É por isso, em parte, que partidos de esquerda, quando estão no poder em posições não tão seguras, são muitas vezes mais realistas do que o rei mercado.

Não é a única coisa que faz Dilma se acochambrar tanto com os interesses obscuros da política, claro. Existem casos de pragmatismo real. Existem avaliações erradas. Existem problemas de incapacidade pessoal. Dilma, afinal, não é política. Estreou em cargos eleitos como presidente. Está acostumada a mandar, o que podia fazer como ministra, mas não sabe o que fazer quando o esporro é devolvido e não pode mandar - ou seja, na relação com os outros poderes da República.

O novo Código Florestal, ou a adulteração dos royalties de hidrocarbonetos, são questões reais da relação de forças no Congresso. A bancada ruralista é mais coesa do que a imensa maioria dos partidos brasileiros (sim, coesa de parlamentares votarem contra seus próprios interesses e opiniões, se for fechada questão), representa um terço do Congresso, e tem interesse direto no desmatamento. Os royalties do petróleo são cobiçados pelas três quartas partes dos deputados e oito em cada nove senadores. Dilma não se opõe diretamente porque sabe que seria derrotada, e tegiversa.

Por outro lado, a constante reação assustada à bancada evangélica é uma combinação de leitura errada, covardia, e teriomania. Leitura errada porque a bancada evangélica é superestimada e mal avaliada - não é coesa em absoluto, nem é tão forte assim. Nem é, em sua maioria, particularmente avessa aos mesmos incentivos materiais que seduzem o resto da "base aliada." Não foi eleita, em muitos casos, como evangélica. Os 71 parlamentares listado como "da bancada evangélica" (menos de metade do número dos ruralistas) são todos aqueles que participam da Frente Parlamentar Evangélica, o que não significa mais do que uma carteirinha de clube; cada parlamentar participa de várias "frentes." (Tem Frente Parlamentar até de apoio a hidrovias.) Mesmo se você tirar da conta do neopentecostalismo deles o preconceito que é a única coisa que defendem, e que é defendido por outros, não há indicação - para além do barulho - de que seria eleitoralmente problemático. Mas a covardia confunde barulho com força; a teriomania torna prazeroso o ato de tapar o nariz para sentar-se à mesa com Edir Macedo, dono da Record e de Crivella. E assim temos os afagos e mimos aos evangélicos.

PS diga-se, sobre Crivella, que o ministério da Pesca não significa p. nenhuma. Além de não dever existir. O que dói nos afagos aos evangélicos é o abandono de programas de direitos humanos.

PPS que o preconceito não se restringe aos evangélicos, e que o tom de histeria anti-LGBT não é de agora deve ser admitido vide esta cena de 2005.

29.2.12

O Príncipe

Lula, dizem-nos, é um operador político de rara inteligência e raro maquiavelismo. Pois a desastrada aproximação entre o PT e Gilberto Kassab, em São Paulo, faz-nos supor que ou bem ele cometeu uma imbecilidade, ou bem não estava presente. Ou quer que o PT perca uma chance de atingir o terceiro ou quarto cargo eletivo mais poderoso do Brasil. (O município de São Paulo administra um orçamento próximo do do governo estadual do Rio de Janeiro.) Afinal, alguém acha que Kassab realmente se aliaria ao PT contra o PSDB? Achando isso, acha que os eleitores do Kassab votariam no PT, quando esses eleitores (que votariam nele apesar da rejeição) se definem justamente como antipetistas? Que é uma boa idéia pressionar os tribunais eleitorais a aumentar o poder do Kassab (via fundo partidário e horário na TV) para ter ele como aliado político? Que mesmo com Kassab aliado a Serra, a simples aproximação balão de ensaio já serve para acusar o PT de oportunista e antiético (acusação que será feita por quem vota no Serra-Kassab)?

Ou tem algum maquiavelismo muito profundo mesmo aí, ou não entendi nada. Ou muita fé na Realpolitik, aquela em que o oportunismo se torna algo bom em si mesmo, em que se algo que você faz é questionável deve ser o certo.



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Como fazer uma reportagem de denúncia em tom de elogio: na Folha, Eike Batista terá que enfrentar ambientalistas e proprietários das terras em que fará sua cidade. Com milícias e desapropriações ilegais, e suspeitas de suborno, o jovem (ok, o grisalho-e-careca-mas-usa-peruca-acaju) empreendedor vencerá!


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O que mais me impressiona da lei da copa não é o "AI-5 do futebol" que andam denunciando. Que as liberdades individuais não valem muito comparadas aos interesses endinheirados é sabido. O que me impressiona é a abdicação pelo Estado brasileiro de suas próprias prerogativas em prol da FIFA; a elite brasileira não parece prezar muito os próprios poder e influência, prática ou simbolicamente. Exemplo: a pena prevista para quem falsificar material da FIFA (e isso inclui fazer uma festa dizendo que é "da Copa") é de dois a seis anos de cadeia. Ora, isso é equivalente, na atual legislação, a falsificar documento público. A FIFA, uma empresa suíça (a FIFA há muito deixou de funcionar como uma associação sem fins lucrativos), ganhou papel de Estado no Brasil.

23.2.12

Sherlock Holmes e o mistério da Pirâmide Truncada

A opinião de que a desigualdade no Brasil é um escândalo de alta é algo bem próximo da unanimidade. Pergunte, e concordarão com ela, não só pessoas de esquerda, como até empresários, deputados do PSDEMB e jornalistas da Folha ou da Veja. (OK, talvez não os jornalistas da Veja.) Mas às vezes, ou sempre, alguém pode ter a impressão de que não se sabe bem o que significa essa desigualdade de renda. Ou melhor, as pessoas têm a noção (inteiramente natural) de que só quem está ganhando "demais" é quem ganha mais do que elas. Por isso é que podemos ter matérias como a da Folha de ontem, que alerta, escandalizada e escandalizando (inclusive militantes de esquerda):

Curso superior não tem elevado renda, diz estudo do IBGE

A matéria, solicitamente, além de mostrar um gráfico com as evoluções de renda ( mostrando uma correlação linear e inversa entre nível educacional e evolução da renda), também mostra quais são as rendas médias por grupo. Infelizmente, ela não fala do tamanho de cada categoria, mas isso podemos achar no IBGE guglando um pouco.

A matéria, portanto, pode ser lida como "entre os trabalhadores formais, diferença salarial entre os 20% com menos estudos e os demais diminui."

Ora, a diferença entre um país "rico," pouco desigual, e um país pobre, ou muito desigual, nunca foi a abastança das suas classes abastadas. Pelo contrário, em termos relativos a classe média de países menos desenvolvidos tem acesso a luxos, como empregadas full-time, indisponíveis a seus congêneres em países mais desenvolvidos. Em outros termos: Eike Batistas há em qualquer canto do capitalismo - mesmo na Suécia tem o Ingvar Kamprad.

OK, estou exagerando - o número de bilionários no Brasil ser comparável ao do Japão também é, sim, um sinal de desigualdade. Mas não aparece no índice de desigualdade. Aquele índice de Gini, que figura nas tabelas da ONU. Isso porque o índice de Gini mede a desigualdade de renda, principalmente do trabalho, e esse povo não tem renda, tem propriedade. A desigualdade do índice de Gini é exatamente a desigualdade de renda entre o pequeno-burguês ou o profissional liberal e o gari. É a desigualdade, entre outras coisas, da escolaridade.

Em outras palavras, o escândalo do aumento da renda dos menos "cultos" é só o Brasil chegando menos longe (mais perto não dá pra dizer, mesmo com as reformas liberais ocorridas lá nos anos 90) da Suécia.

12.1.12

Dama de ferro tropical

Dilma costuma ser chamada, na imprensa internacional, de "dama de ferro dos trópicos." Eu achava que era só pelo estilo, mas agora ela vem e fala, durante uma cerimônia de entrega de [plano de entregar] casas populares, junto com o Alckmin*:

Ninguém é de classe média se não tiver sua casa. Ninguém.

A idéia (que ignora todos aqueles apartamentos pra alugar a 20.000 por mês nos Jardins) parece um eco longínquo da frase e do espírito de Margareth Thatcher, ao promover a ownership society, de que "if a man at thirty is still riding a bus, he has failed at life."

Já tinha a impressão de que Dilma se deixava pautar pela imprensa. Agora vejo que pelo menos ela também lê a imprensa internacional. Só tenho medo da filha dela, como o da Maggie, virar traficante de armas.


*Deixo pra lá a afirmação de que as divergências com o Alckmin, passadas as eleições, inexistem, que acho que pode ser debitada na conta de salamaleques com relação ortogonal com a verdade.

11.1.12

Dilma, devolve meu voto?

OK, continuo achando que com o Serra seria muito pior, provavelmente vou votar na reeleição dela (mas não no primeiro turno), mas pqp. O último afago à Veja do governo Dilma desmente meu antepenúltimo post, sobre imigração, e toma medidas de corar um republicano dos EUA para barrar os haitianos.

Para não explanar que a idéia é atender aos gritos xenófobos da nossa mídia, haverá quem defenda que é uma questão "humanitária," haja vistos os problemas com coiotes e superlotação na fronteira. Ora, se assim fosse, não seriam restringidos os vistos concedidos já no Haiti. A maneira de se esgotar a imigração ilegal não é - fora do sonho alucinado de algum Le Pen - fechando as portas da imigração legal, mas sim as escancarando. Abra-se as portas do Brasil, e vai ter um monte de coiote na fila do desemprego.

Bem, OK, Dilma perdeu meu voto, ganhou o de uns 500.000 tiozinhos leitores da Veja que votaram no Serra contra a terrorista comuna. Acho que é lucro. Mas também é uma traição a si mesma. Pra fazer a mesma coisa que o Geisel, não precisava ter sofrido tortura, era só se filiar ao MDB.


EDIT - outra coisa que aproxima a Dilma do PSDB: na propaganda, e imagino que também na autoimagem, seu diferencial é a "gestão." Pois bem, como bem apontado pela colunista Rosângela Bittar, do Valor, assim como a do PSDB a gestão da Dilma é falha:

Apagões pequenos, médios e grandes, do Oiapoque ao Chuí; epidemia grave de dengue; mortes novamente por catástrofes da natureza esperadas mas não prevenidas por governos municipais, estaduais e sobretudo federal, a quem compete muito; caos aéreo persistente, resultado de incipientes medidas; erros repetidos na administração da Educação; baixa execução de PACs I ou II; reforma agrária sem resultados; invisível avanço em desempenho na área de segurança. Problemas, esses e muitos outros, do primeiro ano do governo Dilma, todos, de gestão.

A presidente da República gastou seis meses iniciais na montagem do governo e os seis meses finais na desmontagem. Perdeu, na tessitura, dois pilares, Antonio Palocci, chefe da Casa Civil, e Nelson Jobim, ministro da Defesa, dois mais importantes colaboradores. Titubeou, demorou, negaceou, até trocar ministros política e administrativamente inviabilizados nos cargos, levando o governo à paralisia. Quando tomou providências o fez de forma acanhada - pois ainda há áreas no vácuo -, e já era o fim da primeira etapa.



PS minha esperança de uma refomra tributária aumentando IRPF e ITR em troca de zerar IPI? Zero.

23.5.11

De velhice antes dos trinta

O editorial da Folha de São Paulo a favor da NORMA CULTA (assim, com maiúsculas) é um primor de senso comum com tentativas canhestras de arrotar conhecimento,* e um preconceito de classe esperado, mas meio ridículo na sua obviedade. Também tem um ar um pouco retrô - remete aos editoriais dos jornalões americanos denunciando o uso de "ebonics" em escolas situadas em guetos negros, na segunda metade dos anos noventa.

Mas o que choca mesmo são as afirmativas que ele comete, para se esquivar da acusação de preconceito de classe (já que não pegaria bem para um jornal dizer "alguns dos meus melhores amigos falam errado," como aqueles melhores amigos negros dos racistas), a de que a norma culta é "um lastro, que também evolui no tempo, cujo sentido é tornar a língua estável e previsível; sem tal garantia, as variações cresceriam de forma desordenada até inviabilizar a própria comunicação." A Folha acaba, pelo visto, de revolucionar a linguística, além de anular a história. Não existe nenhuma associação entre a existência de algum tipo de norma culta e homogeneidade linguística, ou taxa de evolução da heterogeneidade. Línguas e dialetos (a diferença é geralmente mais política que qualquer outra coisa) sem uma "norma culta" não caminham nem mais nem menos rápido para a Torre de Babel do que aqueles que a possuem.

A ameaça é ainda mais engraçada no Brasil, aonde mutatis mutandis a maior parte da população fala praticamente a mesma variedade de português; há mais heterogeneidade no falar entre as regiões do minúsculo Portugal do que entre as do enorme Brasil - não é privilégio nosso, dá-se o mesmo nas Américas hispânica e Anglo-Saxã, comparadas com suas antigas metróples, como qualquer um que já tenha assistido um filme do Ken Loach sabe. E dizer que a norma culta das escolas é o que preserva a unidade da língua mátria, num país em que só muito recentemente uma maioria da população chegou ao ensino básico é outra grande piada; se nos preocupamos com a Nação em línguas, mais vale reclamar com a Globo que com o MEC.

O jornal afirma ainda que o aprendizado da norma culta "faz parte da disciplina intelectual que deveria ser estimulada em qualquer estabelecimento de ensino. Aprender custa tempo e esforço." Ora, se é assim, se se trata apenas de levantar pesos com o cérebro, por que a norma culta do português e não, sei lá. Geologia aplicada. Astrologia indiana. Alquimia taoísta.

Mas a chave para o entendimento do edital,talvez a contragosto do próprio, está no penúltimo parágrafo, ipsis literis De algumas décadas para cá, a pretexto de promover uma educação “popular” ou “democrática”, muitos educadores dedicam-se a solapar toda forma de saber implicada no repertório de conteúdos que a humanidade vem acumulando ao longo das gerações. Ou seja, é reacionarismo puro e simples, contra o que é popular ou democrático. O que fica claro e explícito porque, ao contrário do alegado pela Folha, a distinção social é, sim, a função primária da "norma culta," que nasce a partir dos dialetos específicos falados pela elite letrada, à medida que cada "língua nacional" é criada junto com a noção de estado-nação, com direito à perseguição legal e física de quem se atreve a falar as línguas gerais, patois, e vernáculos. Tanto que a norma culta (de sotaque assim como de gramática) inglesa-britânica, antes de se chamar como hoje "received pronunciation," "sotaque recebido," chamava-se, e mais corretamente já que não envolve só sotaque, "the queen's English," o inglês da rainha (ou do rei, dependendo da genitália assente no trono).



*Falar en passant, como se fosse coisa que o autor acha tão de conhecimento comum que nem precisa ser explicada, das "ferozes controvérsias gramaticais da República Velha." E aí apor "1889-1930."


PS o mais divertido da grita, como com a prova de inglês do Itamaraty, é a quantidade de gente urrando pela NORMA CULTA e que comete erros primários.

20.5.11

Separatismo

Separem o São Paulo do Brasil!

Não o estado. :p A porcaria de porta-aviões velho, comprado pelo FHC à França na mesma época em que seu irmão gêmeo foi mandado para a china virar sucata, por um bilhão de dólares - quando o dólar ainda valia alguma coisa. (Vide a série "lugares estranhos do mundo.")

Pela undécima vez, quando deram de ligar o bicho pra ver no que dava, saiu uma nuvem de fumaça negra. Não custa lembrar que o Clemenceau, irmão gêmeo do São Paulo (né Foch) não pôde adentrar águas indianas para ser desmontado lá, porque as autoridades do país não queriam pagar pra ver o resultado de se desmontar um navio atulhado de amianto cancerígeno; acabou sendo um dos pioneiros na migração da indústria de desmonte de navios da Índia para o Sri Lanka.

Quanto amianto havia na fumaça negra que envolveu a Ilha das Cobras?

12.1.10

Um dia sem africanos

Na Itália, a cidadezinha de Rosarno realizou o sonho dourado de todo tiozinho reaça europeu e expulsou todos os imigrantes africanos. Junto com, não duvido nada, um ou outro negro que não tivesse nada a ver com o papo, ou alguma menina que tenha exagerado no bronzeador solar.

É particularmente irônico que isso tenha acontecido numa cidade do sul da Itália; afinal, o mais importante partido explicitamente preconceituoso da Europa, a Liga Norte, foi fundada para manter do lado de fora não apenas os pretos e eslávicos da Itália, mas também o pessoal do Mezzogiorno longe do Norte. É um pouco como se a primeira cidade brasileira a expulsar todos os bolivianos (e qualquer um com olhinhos puxados) fosse uma situada na Bahia ou na Paraíba.

Também é uma evidência de como a Itália tem cada vez mais assumido a liderança no campeonato europeu de intolerância, apesar da disputa acirrada (principalmente com a Suíça). Mais do que isso, mostra como a Itália tá virando um miasma da tirania da classe média, um cyberpunk lodoso que faz a gente revisar o lugar comum que vê apenas estados paupérrimos e violentos como "failed states." A Itália, cada vez mais, caminha pra ser um "failed state" com velhos rancorosos e armadilhas de turista. Pena, tão nova...

5.1.10

O que vale é a apresentação

Pra começar o ano falando mal:

A manchete da Folha explica que "em apenas três dias, chove 20% do previsto para o mês em SP." A média de dias chuvosos no mês é de quinze dias. Três dias são 20% de quinze. Ou, em outras palavras, "três dias de chuva normal em SP."

A do Globo fala que "ONG Contas Abertas mostra que apenas 10% do PAC funciona." Esquece de explicar que a ONG em questão é do ex-secretário do Arruda que inclusive anda flertando com o xilindró.

O repórter da Globo, na TV, escancara "o assustador é ver isso acontecendo com gente que tem uma condição material melhor." (Sobre a tragédia de Angra.)

Na Folha, "astrônomo acha estrela mais quente que o Sol." A notícia de verdade é que acharam uma estrela originadora de nebulosa, que é realmente mais quente que o Sol - como umas 60-70% de todas as estrelas.

No lead da Folha: "encontrado túmulo de general chinês do século 2." Na matéria "...o general Cao Cao, do século 3 DC..." Em defesa da Folha, Cao Cao nasceu num século e morreu noutro. Contra ela, o sujeito até era general, mas era também rei...

8.12.09

Os jornalistas e a matemática n

A Economist prova que não são só os jornalistas brasileiros que, às vezes, esquecem de fazer as contas apresentadas por suas fontes, além de deixar bem clara sua identificação com a elite branca. (Na África do Sul e no mundo.)

Fazendo as contas por eles: há 40.000 fazendeiros brancos na África do Sul. Houve 1.650 assassinatos no campo, a maioria de fazendeiros brancos, desde 1991. Vamos fingir que esse "a maioria" significa 1.100. Houve uns 60 assassinatos por ano. Não é exatamente a vendéia. A taxa, de 150/100.000p aa, é comparável às das grandes cidades sul-africanas; a média nacional é 60. Mas pera - e aí tá o segundo truque. 40.000 "fazendeiros," e 1.2000 assassinados "fazendeiros e familiares." O número 40.000 se refere ao número de paterfamiliae. O número real é 216.000 "fazendeiros e suas famílias."

Conclusão: o índice de assassinados entre os fazendeiros brancos e suas famílias é menor que a média do país. Alto ainda, sem dúvida. Mas longe do cataclisma que sites racistas querem apresentar - e que, tacitamente, a Economist engoliu.