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25.9.07

Palavras criminosas

O código penal brasileiro conserva uma excrescência chamada "apologia ao crime ou criminoso." O "crime" em questão, que acarreta prisão de 3 a 6 meses ou multa, é um absurdo, indigno de qualquer país que se considere civilizado. Faz com que o Brasil esteja muito pior do que os EUA de Bush no quesito liberdade de expressão, mesmo descontados os assassinatos políticos de repórteres. Recentemente, esse infame artigo 287 foi utilizado inclusive pra prender quem protestava contra a violência policial usando imagens do Cauã, símbolo dos Jogos Panamericanos, portando um fuzil de assalto.

Ora, o mesmo código penal tipifica, em seu artigo 243, a tortura como crime. Ou seja, a apologia da tortura é crime. Não seria de se perguntar, então, se toda a "bancada da bala" do congresso nacional, mais os produtores do "filme mais quente do ano," e o pessoal da série 24H se visitar de novo o Brasil, não precisariam passar de três a seis meses na cadeia? Aliás, tortura é crime, só pra avisar, com punição mais pesada do que a do consumo (porte) de drogas, ou seja, pela lógica a sua apologia também deveria ser considerada mais grave.

A propósito: os governos nacional e estadual prevêem a "pacificação" do Morro da Providência. PQP, "pacificação"? Não tinha palavra menos nazi pra usar não? Tipo, eu sei que é uma ação colonial, que vai morrer gente (desculpas, gente não, preto e pobre) a rodo, mas...precisava ser tão explícito?

18.9.07

Nottingham PD

Uma das coisas que sempre achei divertidas em relação à tal estabilidade jurídica, quando usada como eufemismo para o sacrossanto direito à propriedade privada, é que esse direito é, via de regra, considerado importante só quando se trata da defesa do caráter privado e não público da sociedade, ou da propriedade de quem tem muito. Os mesmos empresários e "formadores de opinião" que consideram a estatização de uma empresa um crime lá do lado do uxoricídio e da alta traição, acham que a desapropriação de moradias, especialmente a remoção de favelas, para melhor servir aos seus planos, é não apenas virtuosa, mas absolutamente essencial ao "progresso" do país.

Tá, o artigo do Benjamin Steinbruch (que ganhou de presente a CSN e a Vale) no Estadão de Hoje, reclamando das favelas que atrapalham as linhas férreas dele, não fala exatamente disso, já que as ditas favelas invadiram área que era do governo, antes de ser dada a ele Steinbruch. Mas em geral, nunca vi nenhum "liberal" falando contra grandes obras de infraestrutura, do tipo que fatalmente envolve grandes áreas desapropriadas, nem contra esquemas de "revitalização" que incluem a desapropriação de áreas para entregar a investidores privados.

Outro exemplo de novilíngua divertido é essa de plantações de eucalipto serem "reflorestamento." Arrã.



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Marco Aurélio de Mello afirmou que deixaria Cacciola fugir. De novo. Acho que ninguém mais tem uma visão tão clara, tão límpida sobre como a Justiça brasileira é só pra pobre quanto o ilustríssimo ministro.

13.9.07

Democracia de marfim

Na primeira edição brasileira do Le Monde Diplô, um texto do Chistopher Newfield explica como a direita americana deliberadamente atacou o sistema universitário que, naquele país, foi o principal ator da democratização e "esquerdização" do pós-guerra.

Impossível não lembrar do artigo em questão (e do livro ligado acima) ao ler esse outro artigo, sobre como o MIT está tentando (ainda que de maneira tímida) reverter a regra pela qual 90% da pesquisa beneficia 10% da humanidade.



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Shana tová de novo! E como também é o ano novo (aliás, o ano 2000) copta, um artigo sobre a inflação na Etiópia pra todas as (3?) pessoas que lêem este blógue.

12.9.07

Regra 34 avant la lettre


Assusta até o Hitler!

A regra 34 da Internet reza que existe uma versão pornô disso na Internet, pra qualquer valor de "isso." Aliás, se você inventar alguma coisa agora mesmo, existe uma versão pornô dela, com pelo menos 3 sites. Digamos, hentai hermafrodita dos ursinhos carinhosos ciborgues.

Bem, pelosvisto a regra 34 é anterior à internet e mais radical ainda do que se pensava. Digamos, "pornô israelense dos anos 60 ambientado em campos de prisioneiros nazistas."

It was one of Israel 's dirty little secrets. In the early 1960s, as Israelis were being exposed for the first time to the shocking testimonies of Holocaust survivors at the trial of Adolf Eichmann, a series of pornographic pocket books called Stalags, based on Nazi themes, became best sellers throughout the land.


Read under the table by a generation of pubescent Israelis, often the children of survivors, the Stalags were named for the World War II prisoner-of-war camps in which they were set. The books told perverse tales of captured American or British pilots being abused by sadistic female SS officers outfitted with whips and boots. The plot usually ended with the male protagonists taking revenge, by raping and killing their tormentors.

After decades in dusty back rooms and closets, the Stalags, a peculiar Hebrew concoction of Nazism, sex and violence, are re-emerging in the public eye. And with them comes a rekindled debate on the cultural representation here of Nazism and the Holocaust, and whether they have been unduly mixed in with a kind of sexual perversion and voyeurism that has permeated even the school curriculum.

"I realized that the first Holocaust pictures I saw, as one who grew up here, were of naked women," said Ari Libsker, whose documentary film "Stalags: Holocaust and Pornography in Israel" had its premiere at the Jerusalem Film Festival in July and is to be broadcast in October and shown in movie theaters. "We were in elementary school," he noted. "I remember how embarrassed we were."

Hanna Yablonka, a professor of history at Ben-Gurion University of the Negev, says the film highlights what she calls the "yellow aspects of nurturing the memory of the Holocaust."

"Are we taking it into the realm of semipornography?" she asked. "The answer is, we are."

The Stalags were practically the only pornography available in the Israeli society of the early 1960s, which was almost puritanical. They faded out almost as suddenly as they had appeared. Two years after the first edition was snatched up from kiosks around the central bus station in Tel Aviv, an Israeli court found the publishers guilty of disseminating pornography. The most famous Stalag, "I Was Colonel Schultz's Private Bitch," was deemed to have crossed all the lines of acceptability, prompting the police to try to hunt every copy down.

The Stalags went out of print and underground, circulating in specialty secondhand bookstores and among furtive groups of collectors.

Mr. Libsker's 60-minute documentary puts the Stalags under a spotlight for the first time and exposes some uncomfortable truths. One is that the Stalags were a distinctly Israeli genre, created by Israeli publishers and penned by Israeli authors, although they had masqueraded as translations from English and were written in the first person as if they were genuine memoirs.

Until the Eichmann trial began in 1961, the voices of the Holocaust had hardly been heard in Israel. The survivors sensed the ambivalence of the old-timers who blamed them for not having emigrated in time, and questioned what immoral deeds they might have done in order to stay alive.

In the movie, the publisher of the first Stalag, Ezra Narkis, acknowledges that it was the trial, in all its sensational and often gory detail, that gave momentum to the genre.

More provocatively, the movie contends that Stalag pornography was but a popular extension of the writings of K. Tzetnik, the first author to tell the story of Auschwitz in Hebrew and a hero of the mainstream Holocaust literary canon. K. Tzetnik "opened the door," and "the Stalag writers learned a lot from him," Mr. Narkis said.

K. Tzetnik was a pseudonym for Yehiel Feiner De-Nur. The alias, short for the German for concentration camper, was meant to represent all survivors, a kind of Holocaust everyman. One of K. Tzetnik's biggest literary successes, "Doll's House," published in 1953, told the story of a character purporting to be the author's sister, serving the SS as a sex slave in Block 24, the notorious Pleasure Block in Auschwitz.

Though a Holocaust classic, many scholars now describe it as pornographic and likely made up.

"It was fiction," said Na'ama Shik, a researcher at Yad Vashem, The Holocaust Martyrs' and Heroes' Remembrance Authority. "There were no Jewish whores in Auschwitz."

Yet "Doll's House" and other writings of K. Tzetnik, who died in 2001, are treated as historical fact by many in Israel, and are included in the high school curriculum. Mr. Libsker's movie shows the vice principal of an Israeli school guiding a group of teenagers through Auschwitz, pointing out Block 24 and quoting from K. Tzetnik.

This approach to Holocaust education is being eschewed by an increasing number of Israeli academics. "The Holocaust was bad enough, without making things up," Dr. Yablonka said.

Sidra Ezrahi, a professor of comparative Jewish literature at the Hebrew University of Jerusalem, said, "His books were so graphic and so barbaric." Maybe at first they had an important impact, she said. "But over time," she added, "if this is what they have chosen to leave in the Israeli curriculum, it's a scandal."

For many Israelis, the most dramatic part of the Eichmann trial was the testimony of K. Tzetnik. His true identity was revealed for the first time on the witness stand, where he passed out. Simultaneously, the Stalags were reaching the peak of their commercial success.

Yechiel Szeintuch, a professor of Yiddish literature at the Hebrew University, rejects any link between the smutty Stalags and the writings of K. Tzetnik as "an original sin." He insists K. Tzetnik's work was based on reality.

But Mr. Libsker, 35, himself the grandson of Holocaust survivors, contends that it is the same mixture of "horror, sadism and pornography" that serves to perpetuate the memory of the Holocaust in the Israeli consciousness to this day.

Correction: September 7, 2007

The Jerusalem Journal article yesterday, about the pornographic pocket books with Nazi themes that were circulated in Israel in the 1960s, misquoted Na'ama Shik, a researcher at Yad Vashem, The Holocaust Martyrs' and Heroes' Remembrance Authority, regarding the pocket book "Doll's House," about a Jewish woman serving in a notorious brothel called Block 24 in Auschwitz. She said the book — not Block 24 — was fictional.





PS - Feliz ano novo!

4.9.07

Perfect storm

Quando os budas de Bamiã foram detonados pela Talibã, eu, e creio que muitos outros, tive uma ligeira crise de consciência. Não pela destruição das estátuas, ou por não ter feito nada para salvá-las (como se algo pudesse ser feito), mas porque, naquele momento, a Talibã já tinha provavelmente chegado nos cinco dígitos de gente morta, muitas vezes de maneiras horríveis. E eu lamentando por um monte de pedras.

Não conheço (vou até perguntar) o estado do debate ético sobre essa questão, de se bens culturais únicos (os budas, as bibliotecas de Alexandria, o grito do Munch, o palácio de verão) valem mais do que seres humanos. Se me perguntarem no abstrato, é claro que vou dizer que não; no concreto não sei. (Bem, vai depender do ser humano - é claro que "indivíduo # 3.567.925.008" não vale o mesmo que "pessoa que amo.")

Nem sei se estamos falando propriamente de bens culturais. O lamento pela extinção, digamos, do boto do Jangzi, não é uma manifestação da mesma atitude? Será que não é em última análise simplesmente o mesmo processo que faz diamantes valerem mais do que água? Afinal, tanta gente morre todo dia...

Por isso que a morte de Nova Orléans, a única cidade com um carnaval decente na América do Norte, que é única de tantos jeitos diferentes, é legal. Porque você pode sentir raiva, indignação ou tristeza ao mesmo tempo pelas pessoas e pela perda cultural.

29.8.07

Balzaquiano

...mas não me sinto mais tão velho assim - acharam organismos ainda vivos com mais de meio milhão de anos de idade.

Por outro lado, aposto que elas estão bem mais conservadas.



A research team has for the first time ever discovered DNA from living bacteria that are more than half a million years old. Never before has traces of still living organisms that old been found. The exceptional discovery can lead to a better understanding of the ageing of cells and might even cast light on the question of life on Mars. The discovery is being published in the current issue of PNAS (Proceedings of The National Academy of Sciences of The United States of America). The discovery was made by Professor Eske Willerslev from the University of Copenhagen and his international rearch team.

All cells decompose with time. But some cells are better than others to postpone the decomposing and thus delay ageing and eventually death. And there are even organisms that are capable of regenerate and thereby repair damaged cells. These cells – their DNA – are very interesting to the understanding of the process of how cells break down and age.

The research team, which consists of experts in, among other things, DNA-traces in sediments and organisms, have found ancient bacteria that still contains active and living DNA. So far, it is the oldest finding of organisms containing active DNA and thus life on this earth. The discovery was made after excavations of layers of permafrost in the nort-western Canada, the north-eastern Sibiria and Antarctica.

28.8.07

Caindo do pódio



Um dos motivos de orgulho nacional, o coeficiente de Gini brasileiro tem estado entre os mais altos do mundo desde que se começou a medir essas coisas. Durante alguns anos, chegou a ser O mais alto do mundo. Esse coeficiente, que mede a desigualdade econômica numa sociedade, como qualquer estatística social ou econômica, é mais complicado e menos representativo do que parece, o que já diminuiria o brilho da desigualdade brasileira: isso porque pode ser aplicado a medidas diferentes (na Ásia, geralmente ao consumo, na América Latina e entre os países ricos, à renda - a medida pelo consumo gera um número até 25% menor), e depende de qualquer jeito em se ter estatísticas confiáveis de renda, consumo, riqueza mobiliária ou o que seja, o que nem nas economias mais mensuradas é tão simples assim. Estima-se que nos EUA a contribuição da economia cinza e negra passe de 10% do PIB, enquanto na América Latina o dado é muito maior, na África maior ainda, e nos chamados "estados fracassados" como o Congo, Colômbia ou Afeganistão, a economia alternativa é aquela controlada pelo governo.

Bem, isso tudo dito, a questão é a seguinte: com a redução contínua ao longo da década, e acelerada (e pela primeira vez combinada com crescimento econômico) nos últimos anos, os pobres brasileiros, com crescimento na renda de 10% ao ano nos últimos quatro, mostraram que o pessoal do Cansei tem razão e o problema desse país é seu povo, e tiraram do Brasil o troféu. A China é hoje mais desigual que nós, e os outros dois BRIC podem passar o Brasil na próxima década.

Mais uma vez o Brasil se curva diante do mundo.

Quem tá tentando manter a honrosa tradição brasileira, no entanto, é o Mato Grosso, e a fronteira agrícola (aka Arco do Desmatamento) em geral, onde a concentração fundiária tem crescido. Segundo o Valor,

Nos últimos três anos, os mega-produtores do Estado avançaram sobre 1,3 milhão de hectares de terras produtivas, segundo analistas do mercado financeiro e de agentes locais ouvidos pelo Valor. Nas próximas safras, outros 1 milhão de hectares em mãos de médios produtores podem mudar de donos.

A elevação nos custos de captação do dinheiro, o atraso na entrega de insumos e a redução do volume de crédito levaram cerca de 500 grandes e médios produtores de Mato Grosso a sair da atividade. O agravamento das dificuldades na gestão das propriedades transferiu pelo menos 600 mil hectares a outros produtores. Em Primavera do Leste, no sul do Estado, apenas seis produtores detêm metade dos 320 mil hectares de lavouras. "Em dez anos, Mato Grosso vai estar nas mãos de 15 ou 20 mega-produtores", prevê o produtor José Nardes, presidente do sindicato rural do município, que arrendou 6 mil de seus 7,5 mil hectares a outros colegas.



Uma das razões pra isso ser tão fácil: o ITR brasileiro é relativamente baixo, e não é progressivo.

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Falando nisso, a proposta brasileira pra copa do mundo inclui hotéis flutuantes em Santos. Sinceramente, é idéia de quem nunca viu aquele porto. As empresas que lá operam choram e rangem os dentes quando um navio, especialmente um transatlântico, que tem prioridade, fica mais do que algumas horas ocupando um berço (isso é, uma vaga) no cais, com direito a brigas na Justiça pra atracar ou desatracar navios. Imagina o que iam dizer à idéia de que o berço na frente deles ia ficar um mês com um navio alheio estacionado?

23.8.07

Energia alternativa

Dois estudantes do MIT inventaram um processo pelo qual energia é extraída do recurso mais abundante e acessível para a humanidade: ela mesma. O princípio é simples: os azulejos do chão numa sala são levemente deprimidos quando pressionados, acionando pequenos dínamos. Uma passada humana normal rende mais ou menos 0,9W/Kg, o que quer dizer que eu, por exemplo, poderia fazer uma luz de 90W piscar a cada passada. Não parece muito, mas se você usa uma multidão de 4000 pessoas, a uma média de 70Kg, se movendo por um corredor do metrô, já tem uns 28Kw de energia contínua - o bastante pra iluminar a estação.

O uso disso como fonte de energia genérica, no entanto, é problemático. Primeiro porque não é lá a energia mais confiável do mundo. Segundo porque os custos de instalação e manutenção ainda são (e continuarão, ausente alguma revolução científica tipo femtotecnologia) meio muito altos. Terceiro porque, mais ainda do que fontes de energia já consideradas "sujas," como a das freagens do dito metrô*, ou de usinas eólicas, seria bem difícil fazer com que essa energia se tornasse algo constante, em ciclo e voltagem, que pudesse ser aproveitado por diferentes equipamentos.

Agora, os usos diretos são incrivelmente fodas. Imaginem, por exemplo, instalar luzes (com LEDs, elas podem ser bem fortes) ao longo de caminhos e picadas por parques remotos? Ou câmeras de observação animal que poderiam ser basicamente eternas? Ou - pensem bem - um palco de show que amplificasse o som quanto mais o povo se mexesse? Luzes de guia ativadas pelas passadas em tudo quanto é corredor? Telas de informação defronte a esculturas ao ar livre? Esculturas cinéticas movidas pela energia elétrica dos passantes?

Finalmente uma cyberpunquice do mundo que não é deprimente, mas maneira.

*Metrôs e trens de subúrbio, hoje em dia, cada vez mais adotam o que se chama de "freagen regenerativa," isto é, ao invés de um freio de atrito direto, o que freia o trem é o próprio motor, só que no modo reverso, funcionando como gerador.


45W

21.8.07

Ainda os aviõezinhos

Hoje, quando chegava ao trabalho, o porteiro do prédio assistia ao noticiário matutino. Nele, um avião que deu uma freada, assustando os passageiros foi tratado como notícia e exemplo da "crise aérea."

Alguns dados que podem parecer estranhos pra quem tem seguido a mídia brasileira nos últimos 12 meses:


1 - Os aeroportos mais lotados do Brasil, Congonhas e Guarulhos, têm por volta de nove e oito milhões de passageiros por pista por ano. Tóquio e Los Angeles têm mais ou menos 30 milhões, e londres mais de quarenta. A média de grandes aeroportos internacionais é de uns dezesseis.

2 - A espera mediana em aeroportos brasileiros de grande porte ainda é inferior a meia hora. Nos EUA, ela já passa de duas horas, e na EU está em por volta de uma hora.

3 - A idade média da infraestrutura aérea brasileira é menor do que a da OCDE.

4 - No Brasil, como no resto do mundo, o aumento enorme do número de atrasos e confusões em aeroportos está diretamente relacionado a um dado simples: o aumento enorme do número de passageiros nos últimos sete anos, graças às companhias de baixo custo. Bem, nem tão baixo custo assim por aqui, agora que virou duopólio.

5 - O maior problema facilmente evitável da aviação nacional no momento, e que deveria ser punido pela ANAC, é simples: avião virou lotada. Cansei de ouvir estórias (comigo aconteceu uma vez) de gente cuja companhia aérea, principalmente a TAM, cancelou vôos até que se enchesse um avião. Vide duopólio, acima.

6 - Nesta década, dos grandes aeroportos brasileiros, só o Galeão (que ainda está subutilizado) não passou ou está programado para passar em breve por um grande programa de obras. O Santos Dumont foi duplicado, o sistema de trânsito de Congonhas foi refeito e o terminal de embarque ampliado, Brasília está sendo duplicado, Guarulhos está programado pra entrar na roda...

15.8.07

Solidariedade bolivariana

Uma das coisas que sempre achei curiosas no Chávez é a idéia de que ele seja um bufão ou alguém que tome riscos ideológicos. Pelo contrário, minha impressão sempre foi de que ele resolveu se auto-apelidar de socialista porque as Vejas e Estadões da Venezuela começaram antes, e ele descobriu que, longe de o xingamento ser ruim pra imagem dele, dava era ibope. E o "gasto de dinheiro diplomático" de que acusam ele só é mirabolante na promessa; na realidade prática, é relativamente modesto e sempre dá lucro, além de gerar nos outros dependência em relação à Venezuela - e, como a alternativa dentro da Venezuela é um povo que não só é de direita como tem praticamente ojeriza a tudo que ele faz, até à cor da roupa, interesse direto na manutenção dele, Chávez, no poder.

Um exemplo ótimo disso é a relação desenvolvida por ele e pelo Kirchner entre a Venezuela e a Argentina. Graças a ela, a Argentina paga 20% a mais do que o preço internacional do petróleo, comprando da PdVSA, e 120% a mais de juros do que pagaria ao FMI. Tá, pagando ao FMI teria uma contrapartida de adotar x, y e z políticas econômicas, mas mesmo o custo dessas, ainda mais agora que o FMI tá desesperado procurando alguém pra quem emprestar dinheiro, não seria maior do que a soma dos 6% a.a. de juros a mais com os 20% a mais no preço do petróleo.

Pergunta - se um acordo desses fosse assinado com o Tio Sam, seria considerado por alguém (Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho e cia não contam, tô falando de gente) uma coisa razoável?

Por outro lado, o socialismo do Chávez, ou pelo menos da sua "revolução bolivariana," é suspeito quando você contrasta ele com o "pelego" governo do seu compadre brasileiro. Nos dois os bancos tiveram lucros recordes, mas no Brasil não foram só os bancos, mas a maioria das companhias, de todos os portes, na Venezuela a pouca base industrial e agrícola que existia tá indo pras cucuias. Nos dois foram implantados programas sociais, mas no Brasil diminuiu a desigualdade de renda e na Venezuela aumentou. Nos dois há violações de direitos humanos pelas forças policiais, mas...não, pera, nesse quesito os dois tão iguais, as coisas só têm piorado ainda mais. Também tão iguais na oposição a acordos humanitários na ONU - o Brasil à erradicação das submunições, a Venezuela à responsabilização dos governos pela vida de seus súditos.